13
Out 12
publicado por José Gomes André, às 00:19link do post | comentar

Na arquitectura política norte-americana, um dos cargos mais peculiares é o de Vice-Presidente, a quem cabem duas tarefas: substituir o Presidente em caso de morte ou incapacidade do mesmo; e presidir às sessões do Senado (sem direito de voto a menos que exista um empate). Embora em anos recentes, os Vice-Presidentes tenham assumido alguma preponderância na Casa Branca (servindo como conselheiros do Presidente), a verdade é que se trata de um cargo com pouca ou nenhuma relevância concreta.

 

Ao longo dos tempos, os protagonistas e os estudiosos da história americana não deixaram de sublinhar esta singular inutilidade. John Adams, o primeiro Vice-Presidente, chamou-lhe “o cargo mais insignificante alguma vez engendrado pela imaginação humana”. O historiador Arthur Schlesinger considerou que o Vice-Presidente tinha apenas "um encargo verdadeiramente sério": "esperar que o Presidente morra”. Mas talvez a declaração mais sintomática e divertida seja a de Thomas Marshall (Vice-Presidente de Woodrow Wilson): “Era uma vez dois irmãos. Um fez-se ao mar. O outro foi eleito Vice-Presidente. A partir daí, nunca mais ninguém ouviu falar deles.”


30
Mai 10
publicado por José Gomes André, às 01:54link do post | comentar | ver comentários (1)

Nada como ouvir uma história contada em primeira mão. Neste caso, através do diário do jornalista e político português (brasileiro) Hipólito da Costa (1774-1823), que relata as suas experiências como enviado pela Coroa portuguesa aos Estados Unidos (em serviço diplomático), entre 1798 e 1799. Tecendo comentários sobre vastos elementos culturais, religiosos, políticos e até científicos da nação americana, Hipólito da Costa apresenta-nos um das primeiras análises continuadas dos EUA realizada por um estrangeiro, e num período importantíssimo da ainda jovem república.

 

"Diário da Minha Viagem a Filadélfia, 1798-1799" encontra-se editado pela Imprensa de Ciências Sociais (2007), mas pode ser consultado online em http://viagem-filadelfia.blogspot.com, um paciente e meritório trabalho de compilação de Gabriel Silva, que transcreveu as observações de Hipólito da Costa em forma de posts diários (como se fosse um blog pessoal do próprio), juntando-lhe links que ajudam a compreender o vasto número de personagens, locais e eventos citados, contextualizando uma leitura deveras curiosa.

 


01
Mai 10
publicado por José Gomes André, às 02:44link do post | comentar

Em 1832, Henry Clay, uma das grandes figuras da história americana, antigo presidente da Câmara dos Representantes e ex-Senador da Virgínia, concorreu à Presidência americana, contra Andrew Jackson, o herói de guerra que a ocupava há quatro anos. A rivalidade entre estas duas figuras era lendária e marcaria a cena política americana na primeira metade do século XIX. Desta luta fica para a história um célebre brinde, proposto por Jackson numa acção de campanha na Carolina do Sul:

“Brindemos à saúde de Henry Clay! Queira Deus que ele, como Jonas, estivesse na barriga de uma baleia; que a baleia fosse para o Diabo; que o Diabo fosse para o Inferno; que a porta fosse fechada, a chave perdida, e que não houvesse nenhum aprendiz de Vulcano num raio de um milhão de milhas para fazer outra chave”.

 


19
Abr 10
publicado por Nuno Gouveia, às 16:55link do post | comentar | ver comentários (3)

 

Abraham Lincoln foi uma personagem notável, que nasceu no seio de uma família pobre do Kentucky, foi um auto-didacta que subiu a pulso na elite do Illinois, chegando a Presidente dos Estados Unidos depois de uma carreira de sucesso como advogado.


As condições para a vitória do então recente Partido Republicano foram criadas depois da grande conflitualidade política da década 1850 e especialmente do mandato catastrófico de James Buchanan, considerado um dos piores presidentes das história. As divisões suscitadas pelo Acto Kansas-Nebraska, que repeliu o Compromisso do Missouri foi apenas o rastilho para o que viria a acontecer na década seguinte. Neste período assistimos também ao fim dos Wighs e à emergência do Partido Republicano. Buchanan é considerado o responsável pela agudização do conflito entre os sectores esclavagistas do Sul e os abolicionistas do Norte, sendo que os moderados, que defendiam a contenção da escravatura aos Estados do Sul, emergiram como vencedores das eleições presidenciais de 1860. Foi nesse contexto que Abraham Lincoln obteve a nomeação republicana, ele que não defendia o fim da escravatura nos estados do Sul, mas apenas o respeito pelo Compromisso do Missouri de 1820, que confinava a escravatura aos estados Sul. Sob a promessa de manter a União a todo o custo, Lincoln venceu as eleições presidenciais de 1860 com quase 60% do colégio eleitoral, mas apenas com 40% do voto popular.


Lincoln tinha estado no Congresso entre 1846 e 1848, mas afastou-se da política depois de sair de Washington. Foi nesses anos que ganhou fama como advogado de sucesso no estado do Illinois. Mas com o acto de Kansas-Nebraska de 1854, que dava aos territórios do oeste liberdade de escolha na opção esclavagista, fez com que Lincoln regressasse à politica activa, agora no  Partido Republicano. Este estava dividido entre os sectores mais radicais, que defendiam a abolição da escravatura na União, e os moderados, que defendiam uma posição mais de acordo em relação ao Compromisso do Missouri, com o fim progressivo da escravatura nos estados do sul, mas sem causar uma ruptura na União.


Em 1855, Lincoln escreveu uma carta ao seu velho amigo do Kentucky, Joshua Speed, dono de escravos e apoiante do Kansas-Nebraska, onde reafirmava a sua oposição total ao alargamento da escravatura aos territórios do Oeste. Nesta longa carta, Lincoln afirma: “estava a perder interesse pela política quando a revogação do Compromisso de Missouri despertou-me novamente”. Lincoln defende também a sua oposição à escravatura, dando exemplos dessa sua posição moral. E chega mesmo a invocar razões constitucionais: "all men are created equal, except negroes”. No entanto, e naquilo que viria a ser a sua plataforma política para as eleições de 1860, Lincoln afirmava que nesse momento a sua oposição política era apenas à extensão da escravatura e não à sua existência nos estados do Sul. Mas, e apesar dessa sua garantia, quando foi declarado vencedor das presidenciais, os estados do Sul avançaram para a secessão. Com os resultados conhecidos.


08
Abr 10
publicado por José Gomes André, às 00:22link do post | comentar | ver comentários (1)

"É maravilhoso como as figuras políticas crescem na sombra", ouvimos a dado ponto dizer-se na (excelente) série sobre os anos formativos dos EUA, "John Adams". Trata-se de um comentário de Alexander Hamilton sobre a retirada de Thomas Jefferson em 1793, quando este deixa a posição de Secretário de Estado (em discordância com as políticas da Administração Washington) e regressa à sua propriedade rural na Virgínia. Tal observação faz hoje parte da cultura linguística e política norte-americana, sendo usualmente recordada sempre que um governante transmite o desejo de se afastar da política, tendo na verdade pretensões de regressar rapidamente ao poder (já sob a égide de uma imagem renovada, marcada pelo seu suposto desprendimento da mesma).

 

Curiosamente, a série evoca esta frase famosa num contexto dramático verosímil (mostrando os conflitos entre a ala britânica da Administração e a ala francesa, personificada por um Jefferson que em breve ascenderá ao poder), mas, todavia, falso. Com efeito, não só esta frase não foi proferida por Hamilton, como nem sequer se aplicava a Jefferson. O seu verdadeiro autor foi o próprio John Adams (sublinhe-se a ironia do argumentista), que fez aquela observação em 1797, numa carta à sua mulher Abigail, e a propósito de James Madison (o grande colaborador de Jefferson - ironia, parte dois).

 

Madison, então o grande líder da oposição Republicana, anunciara o seu afastamento da política americana e o regresso à Virgínia natal, depois de sofrer várias derrotas políticas na Câmara dos Representantes. O perspicaz Adams teceu na altura o seguinte comentário profético: "Mr. Madison is to retire. It seems the mode of becoming great is to retire. Madison I suppose after a Retirement of a few years is to be President or V.P. It is marvellous how political Plants grow in the Shade.” (J. Adams a Abigail Adams, 14/01/1797). Tratava-se sem dúvida de uma observação premonitória, pois apenas três anos mais tarde, Madison tornar-se-ia Secretário de Estado (de Jefferson), chegando mesmo à Presidência em 1809, doze anos depois da curiosa observação de Adams.

 


04
Mar 10
publicado por José Gomes André, às 02:11link do post | comentar | ver comentários (1)

 

Como todos os grandes conflitos bélicos, a Guerra Civil Americana está repleta de episódios memoráveis. Um dos meus preferidos refere-se ao encontro dos Generais Grant e Lee, em Appomattox (em Abril de 1865), para discutirem os termos da rendição sulista. Ulysses Grant, o líder do exército nortista, era conhecido pela sua brutalidade e pelo modo temerário com que enfrentara os rebeldes. Robert Lee, o grande General sulista, era igualmente uma lenda. Brilhante estratega, obtivera triunfos impensáveis com um número inferior de forças. Sóbrio no trato, recordava o aristocrata virginiano, frugal, mas simultaneamente conspícuo e educado.


A cena é inesquecível. Grant chega atrasado ao mais importante encontro da sua vida. Apresenta-se com uma camisa de cor esbatida e desabotoada, calças corroídas pela guerra e um par de botas vulgar, escondendo-lhe a lama a cor natural. Não trazia esporas, nem espada, nem revólver. O uniforme confundia-se com o de um soldado raso.


Lee esperava-o a um canto da sala. Vestira o seu melhor fato, um uniforme cinzento irrepreensível, perfeitamente engomado, onde se distinguiam as estrelas reluzentes que lhe designavam a alta patente. Trouxera consigo uma espada notável, que se alongava junto ao corpo. O punho, adornado com belas jóias, aguardava o toque aveludado das experientes mãos do general, cobertas com novíssimas luvas esverdeadas. As botas, impecavelmente limpas, possuíam esporas com grandes rosetas.


Apesar de triunfante – e perante o mais célebre inimigo – Grant manifesta uma excepcional deferência para com Lee, que obtém generosas concessões na negociação dos termos de capitulação. Os soldados sulistas não serão acusados de traição e poderão regressar a casa montando os seus cavalos. Seriam imediatamente fornecidos mantimentos àqueles que ainda se encontravam nas linhas de combate. E três dias mais tarde, ao deporem as armas, os soldados revoltosos receberiam ainda honras militares.


Juro que consigo ouvir o general Grant, sussurrando na direcção de Lee: “peço desculpa por tudo isto”. Afinal, a dignidade não é exclusiva dos vencedores.

 


02
Fev 10
publicado por José Gomes André, às 02:47link do post | comentar | ver comentários (6)

A expansão para o Oeste selvagem suscitou reacções ambivalentes no imaginário americano. Havia, por um lado, um entusiasmo associado a essa notável aventura, que prometia glória e fama para quem nela se atrevia a mergulhar. Porém, o confronto com os rigores do clima, a aridez do solo e a desolação da paisagem conferia um travo amargo a essas esperanças.

  

São, assim, muitos os relatos de pioneiros desiludidos com a colonização do Oeste, que também nem sempre impressionou os principais responsáveis políticos americanos. Tendo viajado certa vez até perto de Cheyenne, no que é o hoje o Wyoming, o senador Benjamin Wade comentou com um rancheiro local: “Este é um território ruim – um território abandonado por Deus”. “Está enganado, senador”, disse o rancheiro. “É um território muito bom. Apenas lhe falta água e uma sociedade decente”. Ao que Benjamin Wade respondeu: “Pois, é tudo o que falta ao inferno”.

 


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