16
Dez 12
publicado por Nuno Gouveia, às 18:33link do post | comentar

 

Como antecipava no meu post anterior, várias fontes noticiosas confirmaram ontem que John Kerry será mesmo o novo Secretário de Estado, sucedendo a Hillary Clinton à frente da diplomacia americana. O nomeado presidencial democrata de 2004 não terá dificuldades em ser aprovado pelo Congresso, dado que tem vários amigos em ambos os partidos, e pouca gente considerará que Kerry não tem qualificações para o cargo. É o regresso à ribalta do milionário senador do Massachussetts, que há oito anos foi derrotado por George W. Bush. Apesar de ser olhado como segunda escolha, depois do affair de Susan Rice, a verdade é que há muito tempo que Kerry era apontado para o Departamento de Estado. Sempre se comentou em Washington que Hillary Clinton faria apenas um mandato, e sempre foi o nome de Kerry o mais referido para seu sucessor. Apenas após as eleições de Novembro o nome de Rice apareceu nas páginas dos jornais. 

 

John Kerry é senador desde 1985, e é um condecorado herói de guerra do Vietname. É desde 2009 líder da Comissão das Relações Exteriores do Senado, e tem uma ampla experiência na política internacional. Ainda na década de 80 esteve envolvido na investigação do caso Irão-Contra. Mais recentemente, Kerry foi um dos democratas que inicialmente apoiou a intervenção americana no Iraque, tendo depois, por motivos políticos, retirado esse apoio. Na campanha presidencial de 2004 foi precisamente essa inversão de posição que prejudicou a sua candidatura. Além disso, a campanha negativa movida pelos aliados de Bush lançando dúvidas sobre o seu heroísmo no Vietname (Swift Boats for Truth), foram os principais motivos apontados para o seu insucesso. Recentemente foi uma das vozes mais estridentes no apoio à intervenção na Líbia e tem viajado pelo Médio Oriente na defesa da política de Barack Obama. Não se esperam grandes alterações em relação ao mandato de Hillary Clinton. 

 

 No entanto, Kerry tem pela frente um mundo perigoso. Tem pela frente a questão Síria, a bomba relógio no Irão e ainda os desenvolvimentos perigosos no Egipto. Além disso, terá a seu cargo a retirada do Afeganistão e as relações com o vizinho Paquistão, a problemática situação entre Israel e a Palestina e as sempre difíceis relações com a China e Rússia. Não terá certamente um mandato fácil, tal como Hillary não teve. Apesar de poucos sucessos diplomáticos de Clinton, a verdade é que acaba o seu mandato com a sua popularidade no auge. Veremos se Kerry consegue o mesmo daqui a quatro anos. Não vai ter vida fácil. 

 

A nomeação de Kerry torna-se também apelativa para os republicanos, pois o seu lugar no Senado pelo Massachussetts irá a votos na Primavera. O ainda senador Scott Brown, que perdeu a reeleição em novembro para Elisabeth Warren, poderá ter aqui uma janela de oportunidade para regressar a Washington, pois as suas hipóteses de vitória aumentam substancialmente numas eleições em que Barack Obama não esteja no boletim de voto. Será mais um motivo de interesse para acompanhar no próximo ano. 


28
Out 12
publicado por Nuno Gouveia, às 16:56link do post | comentar | ver comentários (3)

Num post anterior comentei aqui que a Europa estaria numa fase de declínio, partindo da sua total ausência no debate de política externa entre Obama e Romney, e por arrasto, nesta campanha presidencial. O Bernardo argumentou que não será bem assim. O meu post era sobre a perda da centralidade da Europa na política externa americana, que vigorou nas últimas décadas e agora parece já não ser assim. Mesmo não sendo especialista nesta matéria, este debate intelectual suscita-me interesse, e apesar de confessar que tenho mais "simpatia" por um dos lados, também digo que tenho mais questões do que certezas.

 

O fim da União Soviética foi um factor preponderante, certo. A emergência de novas potências extra-atlântico também o será. As trocas comerciais entre a Europa e os Estados Unidos estagnaram nos últimos anos e os americanos têm aumentado trocas comerciais com outros mercados, como o México e Canadá, mas também com outras regiões do mundo como a Ásia. Nas instâncias internacionais a tendência é para os europeus perderem poder, enquanto os Estados Unidos vão aguentando a sua preponderância, ainda como potência dominante. O que a Europa representou para os Estados Unidos agora está dividido por outras regiões do globo. Era inevitável esta perda de influência? Talvez sim. Dava jeito à Europa arranjar uma voz que fosse respeitada em Washington, e não um Van Rompuy qualquer? Sem dúvida. David Cameron é considerado um anão político na Casa Branca? Provavelmente o líder britânico mais despeitado nas últimas décadas em Washington. Não temos hoje parcerias do estilo Reagn/Tatcher ou Clinton/Blair ou Bush/Blair? Penso que sim. A verdade é que nenhum líder europeu hoje tem grande influência no que os americanos dizem ou fazem. O inverso, se calhar, também será verdade. Ora, talvez a perda de influência seja de parte a parte. 

 

Outro ponto diferente, e aqui concordo com os argumentos do Bernardo, são as verdadeiras razões para a ausência da Europa na campanha presidencial. As preocupações dos americanos nos swing-states estão bem distantes da Europa. A China, devido ao comércio e crescente influência mundial, o Médio Oriente e o Norte de África, por questões de Segurança Nacional, e Israel, o velho aliado na região e pelo grande apoio que tem entre os americanos, são temas bem mais interessantes para Obama e Romney abordarem. Também concordo que a possibilidade de colapso da zona euro deveria preocupar mais os americanos. Mas a sensibilidade comum nos Estados Unidos é que esse um problema nosso e uma previsível derrocada não os afectará em grande medida. Nada mais errado, é certo, mas as campanhas movem-se pelos preocupações do eleitorado e nem sempre pelas razões correctas. Até penso que em termos puramente eleitorais, Romney teria algo a ganhar com a utilização da Europa como "exemplo a não seguir". Presumo que não o tenha feito muito veemente porque os seus conselheiros lhe disseram: "esqueça a Europa, aqui ninguém quer saber disso". Para o bem ou para o mal, ninguém está interessado em discutir a crise europeia e as suas consequências. Por fim, é lastimável é ir aos sites dos dois candidatos e não encontrar nada sobre a Europa. Romney fala sobre Israel, AF-PAQ, Médio Oriente, África, América Latina, Irão, Rússia e China, mas nada sobre a Europa. Obama é ainda mais vago. Foi assim no passado? Penso que não. 


10
Set 12
publicado por José Gomes André, às 17:06link do post | comentar | ver comentários (18)

Infelizmente, os cronistas de maior audiência em Portugal são profundamente ignorantes acerca da política americana. O que não os coíbe de se manifestarem sobre o tema, como qualquer bom "tudólogo" deve fazer. Os disparates tornam-se portanto frequentes. Que o diga Miguel Sousa Tavares, que afirma, entre várias tolices, ser desejo da dupla Romney/Ryan "fazer a guerra aos árabes, russos, chineses e aos pretos", proibir o aborto até mesmo em caso de violação, extinguir o IRS para os mais ricos e defender "o direito inalienável de todos os cidadãos andarem armados e dispararem livremente". Até dava para rir, se não fosse sério.


Ontem à noite, Marcelo Rebelo de Sousa resolveu juntar-se à festa e alinhar na lógica do comentário desinformado. Dizia o Professor que a Convenção Democrata tinha sido um insucesso e que correra francamente mal a Obama em particular ("que está uma sombra" do que foi), prevendo que a Convenção tenha um impacto nulo nas eleições. Curioso. A maioria dos comentadores elogiou a Convenção Democrata. O público americano gostou da Convenção, que teve maiores audiências do que a Republicana. Todas as sondagens mostram uma subida de Obama durante e após a Convenção. Nate Silver, um dos maiores especialistas eleitorais americanos, escreveu, ainda no Sábado, que a Convenção Democrata pode mesmo ter marcado um momento decisivo na campanha, catapultando Obama para a condição de "claro favorito" (front-runner).


Mas o que interessa tudo isto? Todas estas sondagens, comentários e dados estatísticos? Marcelo acha que não correu bem. E se Marcelo acha que não correu bem, quem se atreve a dizer o contrário? Como bem dizia o saudoso Gore Vidal, "the biggest problem of our time, is that everyone has an opinion, but nobody has a thought".


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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