21
Abr 13
publicado por Nuno Gouveia, às 11:32link do post | comentar | ver comentários (1)

No último post referi que o Presidente Obama tinha sérias hipóteses de sucesso num dos compromissos da última campanha: a reforma da imigração. Mais de 12 milhões de pessoas vivem ilegalmente nos Estados Unidos, e depois de falhada a reforma no segundo mandato do Presidente George W. Bush, esta é uma oportunidade ouro para agir. Mas como em Washington nada se faz sem apoio bipartidário (a reforma da saúde terá sido mesmo a excepção), Obama tem agido de forma cautelosa nesta questão, deixando a liderança desta batalha para um adversário: Marco Rubio. Quem tem estado atento à imprensa americana, saberá do que estou a falar. O Senador republicano tem-se desdobrado em entrevistas e intervenções nos media a defender aquilo que é conhecido como o plano do “Gang of Eight” (4 republicanos: Marco Rubio da Florida, Jeff Flake e John McCain do Arizona e Lindsay Graham da Carolina do Sul e 4 democratas: Dick Durbin do Illinois, Robert Menendez de New Jersey, Chuck Schummer de Nove Iorque e Michael Bennet do Colorado). Porque a oposição de certos sectores mais conservadores permanece elevada, há o receio de alguns líderes do Partido Republicano que certos congressistas de distritos profundamente conservadores impeçam a aprovação da lei.

 

Rubio e a liderança republicana sabem bem o que está em jogo: além de serem maioritariamente a favor desta lei, um falhanço nesta reforma aprofundaria ainda mais os problemas do Partido nas próximas eleições presidenciais entre as minorias. Mais, esta reforma não será a salvação do GOP entre os hispânicos, mas uma não aprovação iria tornar quase uma miragem ao candidato em 2016 receber maior apoio do que recebeu Mitt Romney em 2012. Apesar de terem surgido algumas vozes que anteriormente se opunham a uma lei da imigração que abra caminho para a legalização dos ilegais, a oposição continua forte, sobretudo nos sectores mais à direita. 

 

Diria que Rubio está a jogar aqui o seu imenso capital político e não sairá desta batalha sem algumas cicatrizes. Ontem estive a ler os comentários de um post que colocou no Facebook sobre a reforma da imigração. A esmagadora maioria dos comentários eram negativos para Rubio, com acusações de traição, desilusão, “RINO – Republican In Name Only”, entre coisas bem piores. Rubio foi eleito em 2010 com o apoio do Tea Party na Florida, mas cedo se percebeu que não era propriamente um dos deles. Tem criado importantes relações no establishment republicano e surge agora como uma voz da moderação no meio de tanto ruído. Nas primárias de 2016 (poucos acreditam que não será candidato à nomeação), Rubio poderá sofrer ataques à direita e ter sérias dificuldades em eleições dominadas, muitas delas, por sectores mais conservadores. Mas esse é um risco que vale a pena correr. Rubio, que até lançou um micro-site para defender a lei da imigração, pretende chegar à Presidência e não apenas ser o porta bandeira da direita mais radical. E o melhor caminho será através de princípios conservadores de acordo com o passado do Partido Republicano, assente numa estratégia que consiga também atrair o voto dos dos moderados e das minorias. E esta reforma da imigração é boa por todos os motivos. Poderá perder alguns pontos nas primárias de 2016, mas ficará certamente melhor colocado para vencer as eleições gerais, caso seja nomeado. E, acima de tudo, alguém que quer ser Presidente precisa de ter rasgo político, apresentar-se como líder e ter coragem. E Rubio está a mostrar essas facetas neste debate da imigração. Barack Obama bem poderá agradecer-lhe caso a lei seja aprovada, como penso que será. 


02
Fev 13
publicado por Nuno Gouveia, às 12:47link do post | comentar

O Bernardo Pires de Lima certeiro no DN sobre o debate da imigração

 

Costuma-se dizer que qualquer norte-americano descende de imigrantes, herança cultural que torna a reforma da lei de imigração politicamente incontornável. Mas a razão porque ela voltou ao topo da agenda é outra. Dia 6 de novembro de 2012 o partido republicano bateu no fundo na captação do voto latino: Obama bateu Romney por 71%-27%, fator determinante para a derrota. O GOP tinha radicalizado o discurso sobre imigração (até contra George W. Bush) e nem conseguiu apontar o dedo à promessa não cumprida de Obama sobre flexibilização legislativa. A queda sustentada do eleitorado latino - Bush em 2004 (40%) e McCain em 2008 (31%) - provou ser impossível continuar a confiar cegamente no eleitorado branco (72% do total).


Revelou ainda que um candidato republicano com intenções de ganhar as presidenciais tem de construir soluções para a imigração que sejam próximas do consenso bipartidário e das múltiplas sensibilidades do Congresso. Foi isto que na noite eleitoral ficou claro na cabeça do senador republicano, Marco Rubio, um dos filhos da imigração cubana na Florida e estrela em ascensão para 2016. Rubio percebeu que não podia esperar pela iniciativa de Obama e que tinha de ser ele a liderar o debate no partido. Rubio sabe que a reforma legislativa será longa e debatida sem tréguas, que assentará no reforço do controlo da fronteira com o México e no cardápio de regras que um imigrante ilegal tem de alcançar para ter visto de residência e cidadania (desde a aprendizagem do inglês ao sucesso universitário).


Os 11 milhões de imigrantes ilegais são um problema social, político e cultural para os EUA. Mas são também um dos maiores desafios para democratas e republicanos: os dois vão poder mostrar quem percebeu as eleições, a demografia nacional, a segurança interna, o rigor da contratualização laboral, a própria herança cultural do país. Marco Rubio é o camisola amarela.


27
Jan 13
publicado por Nuno Gouveia, às 22:26link do post | comentar | ver comentários (2)

George W. Bush colocou na agenda do segundo mandato a reforma da imigração, cujo objectivo passava por abrir um caminho para a legalização de cerca de 12 milhões de imigrantes ilegais a viver nos Estados Unidos. Após ter recebido mais de 40% do voto hispânico nas eleições de 2004, a concretização dessa reforma teria colocado o Partido Republicano no bom caminho para alcançar bons resultados eleitorais entre este segmento do eleitorado. A história é conhecida. A legislação introduzida por John McCain e o falecido Ted Kenney foi barrada no senado devido à oposição republicana, e desde então, até à última campanha eleitoral, o debate esteve contaminado por uma retórica agressiva contra os imigrantes ilegais. Barack Obama nem tentou passar a legislação nos primeiros dois anos do seu mandato, quando tinha maioria nas duas câmaras. Mas chegou a hora de resolver este problema. Os resultados eleitorais do Partido Republicano no eleitorado hispânico foram catastróficos, e poucos nesta altura acreditarão que haverá força das vozes oposicionistas para barrar legislação. 

 

Barack Obama já prometeu envidar esforços no sentido de criar um caminho para a legalização dos imigrantes ilegais neste mandato, e é bem possível que seja já no primeiro ano que o consiga fazer. Marco Rubio será um dos principais advogados do lado republicano, e já ganhou aliados importantes, como Paul Ryan, John McCain ou Lindsay Graham. Certamente haverá oposição de alguns republicanos, mas desta vez, ao contrário de 2007, não é de esperar um movimento tão forte de contestação à reforma. Do lado democrata, pouca ou nenhuma oposição deverá surgir. Um comité bipartidário do Senado está já a preparar legislação, onde estão presentes, além de Rubio, McCain do lado republicano, Dick Durbin e Robert Menendez do lado democrata. Será uma boa notícia para a América. 


17
Jun 12
publicado por Nuno Gouveia, às 22:42link do post | comentar | ver comentários (10)

Barack Obama emitiu na sexta-feira uma ordem executiva para impedir que as autoridades deportem jovens ilegais que estejam a viver em território americano. Segundo as estimativas, serão perto de 800 mil que poderão ser abrangidos por esta espécie de amnistia. Apesar de haver quem considere que o Presidente não tem autoridade para decretar esta ordem executiva (Obama há um ano disse qualquer coisa semelhante), esta é uma medida que terá impactos na campanha. O Presidente continua a apostar em reforçar a sua base eleitoral, o que tem sido muito inteligente da sua parte. Depois do apoio ao casamento gay, para motivar o eleitorado jovem, agora esta medida executiva dedicada aos hispânicos, que também coloca problemas a Romney. Este tem um grande défice de apoio nesta comunidade, pois a última sondagem que li dava apenas 23% a Romney contra os 61% de Obama. Esta decisão atira para a agenda mediática a discussão sobre a imigração ilegal, uma área em que Obama não investiu nestes quatro anos e que tinha sido uma promessa de campanha. Apesar desta acção não atacar o problema de fundo (são cerca de 12 milhões de ilegais no país), dá-lhe algum fôlego eleitoral. 

 

Romney reagiu contra o método e não propriamente contra a medida, dizendo praticamente o mesmo que Marco Rubio, que poderá ser um dos beneficiados desta situação. Romney necessita de recuperar no eleitorado hispânico, e a sua grande cartada pode ser a escolha de Rubio para candidato a Vice Presidente. Por enquanto, as sondagens indicam que essa escolha lhe dará uma vantagem na Florida, mas é incerto que impacto terá no eleitorado hispânico de outros estados. Rubio é descendente de cubanos e há quem defenda que o resto dos hispânicos, que são maioritariamente oriundos do México e de outras comunidades do continente, não serão levados a votar em Romney por causa do senador da Flórida. Eu penso que não, e que Rubio pode ser uma boa ajuda para Romney em estados como o Nevada e Colorado, com grandes comunidades hispânicas e que as sondagens indicam estarem situação de empate técnico. De resto, nos restantes swing states, a Florida com Rubio estará quase assegurada e em estados como o Ohio, Iowa, Michigan, Wisconsin, Virgínia, Pensilvânia ou New Hampshire o voto hispânico é reduzido. Cada vez mais vejo Marco Rubio, senador de 41 anos, como candidato a Vice Presidente de Mitt Romney. E esta acção de Obama, que coloca os republicanos em dificuldades, poderá contribuir para que tal suceda. 


17
Mai 10
publicado por José Gomes André, às 00:57link do post | comentar | ver comentários (2)

A polémica lei do Arizona sobre imigração (de que o Nuno falou) tem suscitado um debate acerca dos efeitos futuros da imigração em massa na sociedade americana em geral. Uma das teses frequentes nestas discussões sublinha como a crescente onda de imigrantes oriundos da América Latina cria um "problema" para os Estados Unidos, no sentido em que ameaça a "identidade" do país, constituindo por isso um natural motivo de preocupação para os “americanos não-hispânicos”.

Discordo desta tese. O fenómeno migratório é evidentemente uma questão complexa, mas esta argumentação está longe de se adequar ao caso americano. A "identidade americana" não está em risco, muito simplesmente porque não existe uma "identidade americana" propriamente dita. Americanos, em rigor, são os poucos milhares de índios que sobrevivem em reservas, ou que se procuram adaptar ao “american way of life”, esse género de subsistência que os europeus transportaram nos seus barcos e implementaram no Novo Mundo nos últimos quatro séculos. Os outros, que o povoaram desde então, são um caldo étnico, cultural e religioso heterogéneo na sua essência. Um levantamento não exaustivo sobre a origem da população americana permite identificar ingleses, alemães, irlandeses, italianos, holandeses, portugueses, chineses, indianos e outros grupos asiáticos, já para não falar dos afro-americanos, grupos com crenças, costumes, tradições e prioridades obviamente plurifacetadas.

 

Não é portanto a identidade americana que está em causa, pelo menos na sua vertente étnica e cultural, mas sim a sua "identidade" social e económica. O "problema" de fundo na imigração compulsiva não é a existência de uns largos milhões de hispânicos num mundo americano putativamente homogéneo; é o aparecimento de uma massa demográfica significativa que pretende obter emprego com urgência, fixar-se socialmente, criar família e adquirir a cidadania americana. As vacas gordas da economia americana já lá vão. A enorme dependência do petróleo, a teimosa recessão mundial e o extraordinário peso do défice nos EUA abalaram a consciência americana. O surgimento contínuo de um fluxo impressionante de jovens hispânicos, dispostos a trabalhar por salários baixos e em condições menos favoráveis, coloca naturalmente um problema ao "sonho americano".

O verdadeiro desafio não é como pôr estes milhões de pessoas a cantar o hino e jurar fidelidade à bandeira, mas como integrar este grupo migratório numa estrutura económica e social solidamente implementada, estranha à maioria das pessoas que o compõe.

 


01
Mai 10
publicado por Nuno Gouveia, às 16:12link do post | comentar | ver comentários (8)

O Estado do Arizona publicou na semana passada uma lei contra a imigração ilegal que está a causar polémica na sociedade americana, com criticas de ambos os lados partidários. A lei abre caminho para que as autoridades possam inquirir pessoas consideradas suspeitas de serem imigrantes ilegais. Os críticos dizem que é um inaceitável  abuso de poder, com a possibilidade de questionarem os cidadãos por uma mera suspeita racial. Esta lei já foi criticada por importantes figuras do partido republicano, como Jeb Bush, Connie Mack ou Marco Rúbio. E até mesmo Tom Tancredo, antigo congressista do Colorado e uma das vozes mais criticas nesta questão da imigração ilegal, já veio a público dizer que esta é uma lei excessiva e não respeitadora dos direitos das pessoas.


A imigração ilegal é um problema. Barack Obama fez campanha defendendo uma solução de legalização dos imigrantes ilegais, depois de uma tentativa falhada patrocinada por antigo Presidente George W. Bush e protagonizada por John Mccain e Ted Kennedy no Senado. Essa legislação abria um caminho para a legalização dos mais 12 milhões de imigrantes ilegais. Mas a grande oposição que se gerou no Senado e na sociedade americana “matou” a lei. O próprio Mccain mudou de opinião durante a campanha eleitoral de 2008, e até já declarou o seu apoio a esta lei do Arizona.


Neste momento o ambiente é hostil a este tipo de legislação, mas Obama sabe que os milhões de latino-americanos que nele votaram esperam que ele cumpra a sua promessa. Apesar da oposição dos democratas e de muitos republicanos, uma maioria do povo americano parece aprovar esta lei do Arizona, segundo uma sondagem publicada esta semana. E isso diz muito do estado de espírito dos americanos perante os milhões que vivem no país sem autorização. Por um lado há quem defenda um maior combate à imigração ilegal, prevendo maiores punições a quem for apanhado: os próprios ilegais e também quem lhes dá trabalho. Por outro, há quem defenda que se trilhe um caminho de legalização destes imigrantes ilegais, mediante o cumprimento de passos rigorosos. Este era o caminho defendido por W. Bush, por alguns republicanos e grande parte dos democratas.


Apesar das intenções já anunciadas em público, parece certo que Obama não tem hipóteses de aprovar uma lei este ano. Mas a sua discussão pública pode ser favorável ao Partido Democrata, que nos últimos anos tem ganho o apoio da maioria dos hispânicos, que neste momento representam cerca de 12% do eleitorado. A maior parte dos imigrantes ilegais são hispânicos, nomeadamente mexicanos. Talvez por isso, surgem republicanos do lado dos democratas, prevendo o perigo que isso representa em termos eleitorais. Os hispânicos são comunidade que mais cresce em termos demográficos, e no futuro terão cada vez mais peso na vida politica americana. Hostilizá-los poderá ser um perigo a médio prazo. Neste momento, a vantagem está do lado dos democratas, e se a radicalização que a lei do Arizona prevê prosseguir, os democratas poderão ser os grandes vencedores no futuro. Mesmo que não consigam aprovar uma lei da imigração. Esta é uma questão que envolve o problema dos milhões de imigrantes ilegais, mas também é uma batalha pela conquista dos votos dos hispânicos. Os republicanos que se cuidem...


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