04
Jan 14
publicado por Nuno Gouveia, às 17:44link do post | comentar | ver comentários (5)

 

 

Fallujah foi um dos mais importantes campos de batalha da guerra do Iraque, e um dos locais mais emblemáticos dos combates contra a Al-Qaeda. Foi palco de várias ofensivas e só no inicio de 2007 as tropas americanas e iraquianas recuperaram o controlo da cidade. Esta semana foi anunciado que a cidade voltou a estar sob controlo da Al-Qaeda. 

 

Quando Obama assumiu a presidência dos Estados Unidos, o Iraque já tinha desaparecido das primeiras páginas dos jornais. A "surge" do general David Petraeus tinha sido um sucesso e a guerra parecia ganha. George W. Bush já tinha negociado com o Primeiro-ministro Maliki um calendário para a retirada militar do Iraque, e apenas tinha sido deixado por negociar o número das forças residuais americanas que iriam ficar no país. Independentemente da má condução da guerra e do caos pós-invasão, que apenas foi quebrado após a "surge", a situação no Iraque parecia bem encaminhada. Mas Obama, que começou a sua carreira política na arena nacional por ser contra a guerra do Iraque (e que fez valer isso na sua corrida contra Hillary, que tinha apoiado a intervenção), acabou por cometer um erro de cálculo ao sair do Iraque da forma como o fez. 

 

Em 2011 Obama não conseguiu concluir um acordo com a liderança iraquiana para manter uma força residual no Iraque. O que estava previsto, e que era desejado pela liderança iraquiana, era manter um pequeno contingente militar que os auxiliasse na luta contra o terrorismo e que funcionasse como força dissuasora perante a violência sectária entre sunitas e xiitas. Além disso, manteriam o apoio ao treino das forças iraquianas. Esse era também o desejo de importantes sectores da administração Obama, que pretendiam manter o país calmo e longe do terrorismo, e afastar ao mesmo tempo a crescente influência iraniana no país. Mas algo correu mal, e Obama acabou por se precipitar e retirar totalmente. Nessa altura a Al-Qaeda estava completamente destruída no país e a violência sectária era reduzida. Independentemente do juízo que se possa fazer da intervenção no Iraque, essa era a postura correta a tomar, até para proteger os interesses americanos e dos aliados na região. 

 

Hoje a Al-Qaeda está a operar novamente em força no país, como se prova pelo controlo de Fallujah, e serve como base também à sua intervenção na vizinha Síria. O erro de Obama foi pensar que os interesses americanos estariam protegidos se deixasse os Iraquianos entregues a si mesmo. No Afeganistão Obama está empenhado em não cometer o mesmo erro, não retirando totalmente do país. Aí está a agir correctamente. 

 

PS: este post marca o meu regresso aqui ao Era Uma Vez na América, onde tentarei postar de forma regular. 


09
Mar 13
publicado por Nuno Gouveia, às 13:06link do post | comentar | ver comentários (2)

 

Esta semana foi noticia um pouco por todo o mundo, e Portugal não foi excepção, o filibuster de Rand Paul no Senado à nomeação de John Brennan para liderar a CIA. Confesso que nem concordo com a posição de Paul, mas esta colocou em evidência toda a hipocrisia que reina em Washington, onde salvaram-se, além do próprio Paul, alguns republicanos como John McCain e Lindsay Graham, democratas como Ron Wyden e algumas vozes da esquerda americana. Recorde-se: Paul insurgiu-se contra Brennan por este ter sido o responsável pelo sistema de eliminação de terroristas através de Drones, e pelo facto da Administração ter dado a entender que Obama tinha a autoridade para mandar assassinar cidadãos americanos em solo nacional. Não tenhamos dúvidas: a esmagadora maioria dos democratas, incluindo o próprio Presidente Obama, estaria ao lado de Rand Paul se o presidente ainda se chamasse George W. Bush. Isto para não falar do barulho estridente que se ouviria por parte dos media, das organizações americanas “liberais” e da comunidade internacional, incluindo em Portugal. Por outro lado, os republicanos que agora apoiaram, timidamente ou não, Rand Paul, estariam a defender o programa de Drones se o presidente fosse um dos deles. Por isso, o meu aplauso para Rand Paul, que quase de certeza faria o mesmo em qualquer circunstância, e também para John McCain e Lindsay Graham, que não tiveram problemas em defender o Presidente no Senado, mantendo uma coerência que é rara nos dias de hoje. 

 

Em relação ao programa de Drones e à possível eliminação de cidadãos americanos em solo nacional, parece-me que Rand Paul exagerou nos termos em que colocou a situação. Mas este é um debate que a sociedade americana deveria ter, pois é uma questão fundamental sobre o futuro dos Estados Unidos: deverá o Presidente ter a autoridade para eliminar cidadãos sem julgamento? Em que circunstâncias isso pode acontecer? Hoje falamos de terrorismo, mas no futuro poderá ser outro motivo qualquer. E, não esqueçamos, outros países irão ter a mesma capacidade para eliminar alvos deste modo.

 

O filibuster é uma das maravilhas da democracia americana e já não se via um deste género há imenso tempo. Mr Rand Paul went to Washington e agora cuidado com ele em 2016. Não penso que terá força política para vencer a nomeação, mas três anos é muito tempo, e não se sabe para que direcção vai evoluir o Partido Republicano e a sociedade americana, e estas posições são extremamente populares entre os mais jovens. Uma coisa é certa: ninguém pense que Rand Paul irá ter o papel menor que o pai teve nas duas últimas primárias. 


28
Dez 12
publicado por Nuno Gouveia, às 00:47link do post | comentar

Norman Schwarzkopf, Comandante das Forças Aliadas na Guerra do Golfo de 1991, morreu hoje com 78 anos. Com uma carreira militar brilhante, esteve estacionado em Berlim no inicio da década de 60, quando as forças soviéticas pressionavam mais do que nunca a cidade livre da Alemanha Ocidental e mais tarde combateu no Vietname. Depois de várias passagens na Alemanha Ocidental e na América Latina, culminou a sua carreira à frente das forças aliadas que expulsaram os iraquianos no Koweit. Retirou-se após esse conflito e o seu nome foi várias vezes associado a uma candidatura política. Republicano, apoiou o Presidente George W. Bush e John McCain em 2008, mas antes tinha-se tornado um crítico da condução da guerra do Iraque, e, sobretudo, de Donald Rumsfeld. Foi sobretudo um militar da guerra fria, à moda antiga. Hoje a América presta-lhe homenagem pelo serviço que prestou ao país. 


26
Nov 12
publicado por Nuno Gouveia, às 23:15link do post | comentar | ver comentários (1)

Ao mesmo tempo que mediava o frágil acordo de paz entre Israel e o Hamas, e recebia, por isso, elogios de Hillary Clinton, o Presidente Morsi do Egipto decretava o aumento de poderes para ele próprio, dando mais uma machadada na sua credibilidade de democrata. Mas até quando poderá Obama ficar em silêncio, isto se o Egipto continuar a afastar-se da democracia e a ameaça da teocracia continuar a aumentarl? A ajuda financeira permanece idêntica à era de Mubarak (o Egipto é um dos países que recebe mais ajuda dos Estados Unidos), mas começa a existir contestação em Washington a esses apoios. Creio que a Administração Obama percebe que tudo deve fazer para manter o Egipto próximo, e por isso, tem evitado criticar veemente o país dos Faraós. Mas também tenho muitas dúvidas se este género de declarações será suficiente. Com a situação síria, a ameaça nuclear iraniana, o Afeganistão ainda em chamas, o Iraque a dar sinais do regresso da violência sectária, esta região do globo será certamente uma dor de cabeça para o segundo mandato do Presidente. 


13
Nov 12
publicado por Nuno Gouveia, às 15:12link do post | comentar | ver comentários (11)

Historicamente os segundos mandatos costumam ser mais complicados do que os primeiros. Nixon teve o Watergate e demitiu-se, Reagan teve o escândalo dos Irão-Contra, Bill Clinton teve o affair Mónica Lewinski e George W. Bush teve o Katrina e o descalabro financeiro. Isto para recordar alguns episódios que atingiram os últimos presidentes reeleitos. Não quer dizer obviamente que Barack Obama vai enfrentar algum escândalo, mas os desafios para o seu segundo mandato são enormes. A crise fiscal está à espreita, o Irão ameaça tornar-se ainda mais explosivo nestes próximos anos e a situação no Afeganistão está longe de estar resolvida. Mas Obama terá tempo para impor a sua agenda, agora livre de uma campanha de reeleição que marcou a sua actuação nos últimos dois anos. Ao mesmo tempo, enfrenta um Partido Republicano, ainda com maioria na Câmara dos Representantes, enfraquecido após a severa derrota nas eleições da semana passada. 

 

A agenda deste segundo mandato tenderá a focar-se sobretudo nos temas internos, e Obama tem aqui uma oportunidade para reforçar o seu legado enquanto Presidente dos Estados Unidos. A sua maior vitória legislativa, a reforma da saúde, entrará agora em vigor no próximo ano, e Obama poderá vingar o seu papel na história se esta for bem sucedida. Na energia, Obama tenderá a apostar nas energias renováveis, algo que timidamente fez no primeiro mandato, sem grandes resultados, mas será principalmente na imigração que tentará promover um novo pacote legislativo de grande impacto no futuro. Nestes primeiros dias após a sua reeleição, tem havido do lado dos republicanos vontade para trabalhar com o Presidente nesta matéria, até porque a sua derrota eleitoral terá muito a ver com o modo como estes têm lidado com esta questão. Na educação, Obama poderá também criar pontes com os republicanos para actuar no sector, pois existe matéria para possíveis consensos. A dívida explosiva, que ameaça transformar os Estados Unidos numa nova Europa do Sul, deverá também ser atacada de frente pela Administração Obama. Um corte nas despesas sociais, conjuntamente com o aumento de impostos para os mais ricos estará em cima da mesa, e é bem provável que existam cortes nas despesas militares. 

 

Na frente externa Obama sentirá a necessidade de resolver até 2014 o problema do Afeganistão, o Irão nuclear, que Obama já garantiu não ser uma possibilidade, deverá ocupar bastante tempo para o novo Secretário de Estado, e a situação na Síria será também alvo de preocupação nos próximos meses. Ao mesmo tempo, a política externa tenderá a focar-se ainda mais na Ásia, com a China no topo da agenda. A situação da Europa e do Euro, que esteve totalmente ausente nesta campanha, será também uma das suas preocupações, aqui sem grande poder de influência. Nas relações com a Rússia, veremos finalmente com o que Obama quis dizer com ter maior margem de manobra após as eleições. Além disto, nunca se sabe onde poderá rebentar a próxima crise no panorama internacional. 

 

Desafios são muitos, e certamente irão aparecer outros pelo caminho. Não se pense que Obama tem o caminho aberto para um mandato de sucesso. Até pelo que disse inicialmente. Mas com a vitória na semana passada, Obama ganhou tempo, conquistou legitimidade e reforçou o seu poder em Washington. Até ao final do ano ficaremos a saber com quem contará na sua equipa. John Kerry na Defesa e Susan Rice no Departamento de Estado têm sido alguns dos nomes ventilados. Certa parece a saída de Hillary Clinton e Timothy Geithner do Tesouro. 


15
Set 12
publicado por Nuno Gouveia, às 09:00link do post | comentar | ver comentários (4)

Barack Obama não prometeu só fazer baixar o nível dos oceanos, curar o planeta ou cortar o défice para metade no final do seu primeiro mandato. Conforme se pode observar nesta entrevista, o candidato Obama prometeu então que quando assumisse a Presidência a hostilidade muçulmana iria retroceder drasticamente em relação aos Estados Unidos. Tal como Sarah Palin, que por ver a Rússia do Alaska podia discutir política externa, também Barack Obama se considerava apto para acalmar os muçulmanos por ter vivido na Indonésia dos seis aos dez anos. Conforme pudemos observar nos últimos dias, Obama também não cumpriu esta promessa. A sua gestão do caso tem deixado a desejar, e o facto de ter ido para Las Vegas para uma sessão de angariação de fundos após ter tomado conhecimento do assassinato do embaixador na Líbia não abona muito em seu favor. Ainda por cima, sabe-se hoje que não costuma revelar muito interesse sobre os briefings de segurança nacional. Se estas manifestações no mundo árabe prosseguirem nos próximos dias, a política externa poderá tornar-se uma dor de cabeça para Obama, num tema que até ao momento lhe tem sido favorável. 


15
Dez 11
publicado por Nuno Gouveia, às 22:54link do post | comentar | ver comentários (16)

 

A poucos meses de completar nove anos do inicio do guerra do Iraque, os Estados Unidos dão finalmente por terminada a intervenção militar mais polémica desde o Vietnam. Foi um conflito com altos e baixos para os interesses americanos, e nesta hora de retirada é ainda difícil afirmar a forma como esta será avaliada pela história. Esta foi uma guerra extremamente difícil e com um elevado custo para os americanos. Mais quatro mil e quinhentos mortos, cerca de 30 mil feridos e 800 mil milhões de dólares depois, as tropas regressam finalmente a casa. Não entrando na discussão sobre os méritos ou deméritos desta operação, é hoje possível identificar vários erros cometidos nos primeiros anos da guerra, nomeadamente durante o consulado de Paul Bremer (nestes livros encontramos uma descrição fidedigna desses anos conturbados), e verificar que tudo poderia ter sido diferente. Os americanos abandonam Bagdad ainda sem uma democracia consolidada, a paz interna continua presa por arames e nem tudo está bem no país. No entanto, Barack Obama honrou o plano de retirada delineado ainda pela Administração Bush e conta aqui com uma promessa cumprida para apresentar ao povo americano. Ele, que se opôs à surge liderada por David Petraeus, acaba por ser o maior beneficiado, politicamente falando, desse volte face que permitiu aos americanos sair com dignidade do Iraque. Resta saber se Obama terá cometido um erro ao não forçar perante o governo iraquiano a presença militar durante mais algum tempo. Mas isso só o tempo o dirá. 


22
Out 11
publicado por Nuno Gouveia, às 12:17link do post | comentar | ver comentários (2)

 

Uma das guerras mais difíceis da história norte-americana está a ter o seu último capítulo. Barack Obama anunciou ontem que até ao final do ano todas as tropas de combate irão retirar do Iraque, ficando para trás apenas uma guarnição de 200 Marines na Embaixada. Além disso, manterão no Iraque um número não divulgado de consultores militares. No entanto, isto não significa um abandono do país, pois permanecerão no local mais de 16 mil americanos, entre diplomatas e civis. George W. Bush tinha assinado um acordo que previa esta retirada total até ao fim de 2011, mas era esperado que um número significativo de soldados ficasse no país a pedido dos iraquianos. Obama que, ao contrário de Bush, nunca se deu bem com o Primeiro-ministro Maliki, negociou durante meses o número de soldados que ficariam no Iraque, mas no fim nao chegou a acordo. 

 

Apesar das evoluções positivas dos últimos anos, o Iraque ainda não é uma democracia estável nem consolidada. A violência sectária ainda afecta algumas regiões do país e o terrorismo continua a ser um problema. Todos os dirigentes iraquianos, à excepção dos Curdos, defenderam abertamente esta retirada total das forças americanas, mas sabemos, pela história destes últimos oito anos, que nem sempre o que se defende em público representa os verdadeiros desejos deles. O antigo Primeiro-ministro Ayad Allawi, líder do maior bloco da oposição e pró-americano, considerou que era tempo dos americanos retirar, pois terão de ser as forças de segurança iraquianas a garantir a paz. Perante a oposição dos partidos iraquianos, e sabia-se que dificilmente passaria no Parlamento um extensão da presença militar americana no Iraque, Obama tomou a decisão de retirar, cumprindo os desejos dos iraquianos. 

 

Obama apresentou esta retirada como uma vitória dos Estados Unidos e e também o resultado de uma promessa efectuada durante a campanha de 2008. Mas nem tudo corre bem para Obama. Os comandantes militares no Iraque aconselhavam uma presença de 10/15 mil soldados americanos para ajudar os iraquianos nos próximos meses. Republicanos como Mitt Romney e John McCain já acusaram Obama de colocar em risco os avanços alcançados nos últimos anos. Se nos próximos 12 meses o Iraque permanecer relativamente estável e no caminho da recuperação política e económica, Obama poderá contar isto como mais um trunfo na frente externa. Se o Iraque regressar a um clima de 2004/2006 e as forças iraquianas forem incapaz de controlar a violência, será um problema para a Administração Obama. 


16
Set 11
publicado por Nuno Gouveia, às 18:35link do post | comentar

Esta semana foi noticia nos Estados Unidos a entrega de uma Medal of Honor, a mais alta condecoração das forças armadas americanas. Este reconhecimento de heroísmo por parte do estado americano apenas é concedido a actos de extrema bravura. Dakota Meyer, que quando cometeu o acto que o levou a receber a condecoração, tinha apenas 21 anos, ajudou a salvar a vida de 36 soldados americanos e afegãos. A história está relatada aqui

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01
Jul 11
publicado por Nuno Gouveia, às 09:40link do post | comentar | ver comentários (2)

Foto AP

Quando Robert Gates iniciou funções no Departamento de Defesa no final de 2006, o Pentágono estava de rastos. Com a situação no Iraque completamente caótica e um secretário da Defesa completamente descredibilizado, ninguém acreditaria que este veterano da Administração Reagan, onde tinha sido vice-director da CIA, se manteria em funções até 2011. Na verdade, foi sempre considerado a prazo no cargo durante estes anos todos. Mas o seu legado é indiscutivelmente positivo, numa das épocas mais difíceis de sempre para a Defesa americana, envolvida em várias frentes de batalha. George W. Bush, depois do excêntrico e controverso Donald Rumsfeld, precisava de um líder discreto para colocar em ordem o Pentágono. E foi precisamente isso que encontrou em Robert Gates. A sua maior conquista foi a implementação com sucesso da "surge" no Iraque, quando muito poucos acreditavam que era possível dar a volta à situação. O seu sucesso não passou despercebido a Barack Obama, que não hesitou em convidá-lo a manter-se em funções. Era para ficar apenas um ano, para uma transição suave, mas a força das circunstâncias acabaram por levá-lo a manter-se por mais dois anos. 

 

Agora o velho espião da CIA, recrutado durante a década de 60, irá finalmente descansar. Pelo meio ficaram os vários serviços prestados às Administrações Reagan, George H. Bush, George W. Bush e Barack Obama. Um longo currículo que terminou ontem, com Obama a prestar-lhe uma sincera homenagem pela sua dedicação à causa pública, atribuindo-lhe a Medalha Presidencial da Liberdade.


25
Jun 11
publicado por Nuno Gouveia, às 00:12link do post | comentar

O inicio da retirada anunciada esta semana por Barack Obama não satisfez ninguém, como tinha defendido aqui anteriormente. Por um lado, os sectores anti-guerra desconfiam desta retirada parcial, pois na data final prevista, em Setembro de 2012, ainda continuarão no terreno cerca de 70 mil soldados americanos. Mas aqueles que acreditam na missão, e são cada vez menos, acusam o Presidente de ceder perante timings eleitorais. Não terá sido por acaso que Obama escolheu aquela data, dois meses antes das eleições.

 

Relegando para segundo plano a questão política, se esta é uma guerra de necessidade, como Obama sempre defendeu durante a campanha eleitoral de 2008, não tem demonstrado empenhamento e convicção na condução da mesma. Não sendo ele um estratega militar, devia ter ouvido mais os conselhos dos militares. Em 2009, quando aumentou as forças em 30 mil soldados, não seguiu os pedidos que recebeu dos generais no terreno, que requisitaram mais 15 mil do que tiveram. Mais, apesar de lhe terem pedido para nunca impor um calendário para o inicio da retirada, por cálculos políticos, Obama sempre disse que o inicio seria neste Verão. A defesa da intervenção por parte do Presidente nunca foi convicta, parecendo ter receio de enfrentar a esquerda anti-guerra que ajudou a sua eleição. Se Obama acreditava realmente na missão no Afeganistão, e por vezes parece que não acredita, basta ouvir o discurso desta semana, então devia ter empregue o poder da sua retórica para explicar aos americanos o que está em causa e defender esta intervenção. Agora, que anuncia a retirada gradual dos soldados da "surge", vai mais uma vez contra a opinião dos generais. David Petraeus, provavelmente a figura mais venerada do exército americano das últimas décadas, criticou, com discrição, o plano de Obama, afirmando que pode colocar em causa os ténues sucessos alcançados no último ano. 

 

Para vencer uma guerra é preciso crença na missão, disposição para vencer as adversidades e ter coragem para ir contra a opinião pública em certos momentos. Se depois de 10 anos no Afeganistão, o Presidente dos Estados Unidos não acredita que o país pode ter sucesso, mais elaborar um plano de retirada. Continuar a lutar para ser derrotado é doloroso, caro para o país e injusto para os milhares de americanos que estão a combater. George W. Bush deu o exemplo quando contra grande parte da opinião pública e do seu próprio partido, avançou para a "surge" no Iraque em 2006 com David Petraeus. Pode-se acusar o anterior Presidente de muitos erros que cometeu, e foram vários, mas não o de nunca acreditar na missão. 


22
Jun 11
publicado por Nuno Gouveia, às 15:29link do post | comentar

 

Barack Obama anuncia esta noite uma substancial redução de tropas no Afeganistão até ao final de 2012. A previsão é que nos próximos 18 meses cerca de 30 mil militares abandonem o terreno, regressando aos números anteriores à "surge" decretada em 2009. Obama irá defender que a "surge" está a dar resultados na contenção dos Taliban e estabilização do país, pelo que é possível uma retirada gradual. Mas as notícias que chegam é os comandantes militares no terreno defendem que a retirada deve ser mais faseada, pois as conquistas são frágeis e reversíveis. Suspeito que esta decisão não agradará ninguém: os críticos irão dizer que é preciso retirar mais tropas, enquanto os apoiantes do esforço de guerra irão criticar Obama por não seguir a opinião dos militares. 

 

Esta decisão surge num momento complicado para a guerra no Afeganistão, a mais longa na história americana, com os índices de oposição mais elevados de sempre. Há quase dez anos com presença no Afeganistão, os americanos estão cansados desta guerra. Aproveitando o momento político, vários republicanos começam também a demonstrar sinais impaciência. Como sempre em política, a situação inverteu-se, e agora são mais as vozes republicanas que se insurgem contra a estratégia no Afeganistão do que democratas. Os que estavam contra agora ou estão a favor ou se calam, e os que sempre apoiaram os esforços, agora são os mais críticos da estratégia do Presidente. Um assunto quente para 2012. 


15
Jun 11
publicado por Nuno Gouveia, às 18:47link do post | comentar

 

Barack Obama não pediu autorização ao Congresso para intervir na Líbia. Nem precisava, pois os poderes executivos do Presidente permitem-lhe que dê ordens para intervenções estrangeiras. Mas o problema é que essa autorização é necessária se a operação militar ultrapassar os 90 dias. O que irá acontecer em breve. Congressistas de ambos os partidos preparam-se processar a Administração e John Boehner escreveu esta semana uma carta a Obama a alertar para a necessidade de uma autorização formal do Congresso. 

 

Confesso que não percebo a razão para Obama não ter pedido a devida a autorização. A verdade é que desde o inicio que existia apoio suficiente nos dois partidos para aprovar a resolução e agora está perante este impasse. Além disso, estamos a chegar aos 90 dias da intervenção militar da NATO na Líbia e ninguém percebe bem qual a missão da operação. Sem nunca ter clarificado que o objectivo era eliminar a liderança de Khadafi, a situação está muito confusa. E se o objectivo era apenas "proteger" os civis, qual a razão para continuarem a bombardear os fiéis do líder líbio, tendo vários mísseis atingido instalações de Khadafi? Não sei como vai terminar isto, mas parece-me que todo este processo não está a correr nada bem. Obama sairá sempre beliscado desta missão, mesmo que Khadafi acabe por cair. 


27
Abr 11
publicado por Nuno Gouveia, às 12:23link do post | comentar

O director da CIA, Leon Panetta, vai ser nomeado por Barack Obama o novo Secretário da Defesa, substituindo Robert Gates, que já estava no cargo desde 2006. O seu substituto será David Petraeus, herói da "surge" no Iraque e actual comandante das forças americanas no Afeganistão. Estas notícias não constituem grande novidade, pois nas últimas semanas já circulavam rumores destas duas nomeações. 

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04
Abr 11
publicado por Nuno Gouveia, às 10:30link do post | comentar

Há uns meses, um lunático chamado Terry Jones anunciou que ia queimar o livro do Corão, como forma de protesto contra o terrorismo islâmico. Agora, sem aviso, o Pastor da Florida queimou mesmo o livro sagrado do Islão. Num mundo globalizado onde a informação circula rapidamente, esta situação foi explorada pelos Talibans para lançar o caos no Afeganistão. Nestes últimos dias, acções de manifestantes, infiltradas por membros do antigo regime afegão, provocaram a morte de várias pessoas, entre eles, vinte funcionários das Nações Unidas em Mazar-i- Sharif. Os responsáveis militares no Afeganistão temem, e com razão, que este tipo de acções complique ainda mais a situação no terreno. E ninguém ficará surpreendido se mais violência irromper noutros países árabes. 

 

Isto demonstra duas situações complementares. Por um lado, o poder que um "maluco" pode ter no mundo. Mas também a intolerância que existe em certas partes do mundo islâmico. Já tínhamos tido uma evidência disso aquando do episódio dos cartoons dinamarqueses, com a violência que explodiu no mundo muçulmano. Vivendo nós (o mundo ocidental) em regime de liberdade de expressão, é inconcebível que exista poder na lei para impedir este tipo de situações. Se no caso dos cartoons, não vi mesmo nada de mal (afinal de contas, todos dias vemos caricaturas do género sobre outras religiões, nomeadamente sobre a cristã), neste caso, a acção é irresponsável e errada. No entanto, o lunático terá o direito de o fazer. É triste, perigoso e até mesmo demente, mas temos de nos preparar para este tipo de situações no futuro. 


29
Mar 11
publicado por Nuno Gouveia, às 16:08link do post | comentar | ver comentários (1)

Barack Obama discursou ontem ao país sobre a intervenção na Líbia, e como não poderia deixar de ser, recolheu opiniões divergentes. Num bom discurso (a minha opinião), Obama tentou responder às críticas que tem recebido, clarificando a posição dos Estados Unidos. No entanto, este já não o Obama da campanha eleitoral, quando em 2007 criticava os ataques militares ordenados pelo Presidente sem a autorização do Congresso. Nessa altura, Obama disse mesmo que a opção militar deveria ser apenas um recurso quando o país estivesse sob iminente perigo. O que não é o caso da Líbia. Mas este é o novo Obama. 

 

O que está em causa nesta missão? Obama defendeu que os Estados Unidos viram-se obrigados a intervir para impedir um desastre humanitário, salvando milhares de pessoas da morte certa. Mais, apesar de Obama não dizer que era esse o objectivo, o ditador Kadhafi deve sair do poder. Num discurso que, por vezes, lembrou os discursos da agenda da liberdade do Presidente George W. Bush, invocou, ainda que directamente, o excepcionalismo americano e o seu papel no mundo. Finalmente assumindo a liderança americana na Líbia, Obama reafirmou que não haverá soldados no terreno e que, a partir de agora, a situação será conduzida pela NATO. Mas também novas dúvidas surgiram deste discurso: o aviso a outros ditadores da região, que os Estados Unidos não tolerarão massacres a civis, foi bastante ambíguo. Será que se o ditador sírio ou o regime de Teerão continuarem a reprimir o seu povo, haverá novas intervenções? Não me parece, mas quem levar as suas palavras à letra, poderá ter ficado com essa impressão.

 

Obama é um excelente orador, e ontem, mais uma vez, foi eficaz. Mas não é isso que está em causa. Esta intervenção será avaliada pelo que suceder no futuro. As dúvidas permanecem muitas, e caso Khadafi se mantenha no poder, como sucedeu no Iraque em 1991, Obama será atacado por isso durante a campanha eleitoral. E se Khadafi realmente sair, mas houver uma situação caótica no terreno no dia seguinte, Obama também será responsabilizado por isso. A principal dificuldade de Obama será mesmo essa: o que vai acontecer no futuro da região? Obama foi apanhado de surpresa por esta onda de revoluções no Médio Oriente e Magrebe, e ao intervir directamente na Líbia, país que tinha um longo passado conflituoso com os Estados Unidos, aumentou as expectativas sobre o papel desempenhado pela Administração nesta região. Em 2012, a campanha eleitoral também passará pelo mundo árabe.


11
Mar 11
publicado por Nuno Gouveia, às 11:06link do post | comentar

Não é normal assistirmos a estas discordâncias em público. Depois de na Quarta-feira Hillary Clinton ter afirmado que uma zona de exclusão aérea não seria liderada pelos Estados Unidos, Bill Clinton defendeu ontem uma posição contrária. O 42º Presidente afirmou que se os líderes rebeldes pedirem ajuda, os Estados Unidos devem intervir. Clinton sabe do que fala. Durante o seu mandato ocorreram massacres no Ruanda e na antiga Jugoslávia, sem que a comunidade internacional tenha feito nada para os impedir. Finalmente, quando se preparava para suceder nova tragédia no Kosovo, uma coligação da NATO, liderada por Clinton e Blair, actuou contra o ditador Milosevic. Depois de vários republicanos terem exigido o mesmo, esta posição de Bill Clinton coloca ainda mais pressão sobre a Administração Obama.



28
Fev 11
publicado por Nuno Gouveia, às 22:20link do post | comentar | ver comentários (2)

Na década de 80, o regime líbio era considerado dos maiores apoiantes do terrorismo internacional, tendo estado envolvido em diversos atentados. Em 1986, Ronald Reagan chegou mesmo a mandar bombardear Tripoli e Benghazi. A Administração Bush, em virtude do anúncio formal do regime de Khadafi de renúncia ao terrorismo e ao desenvolvimento de armas de destruição em massa, acabou com o embargo e normalizou as relações entre os dois países. Mas as recentes manifestações voltaram a degradar as relações, e nova intervenção pode suceder. Pelo menos foi isso que a Secretária de Estado, Hillary Clinton, afirmou hoje. Não sei se será apenas para manter a pressão sobre Khadafi, mas é a primeira vez que a Administração Obama ameaça usar a força desde que está no poder. Estas revoluções no Magrebe e Médio Oriente representam a mais grave crise de política externa do actual mandato, e se alguma coisa correr mal, este assunto não deixará de fazer mossa nas presidenciais de 2012.


17
Nov 10
publicado por Nuno Gouveia, às 14:17link do post | comentar

A Cimeira da NATO, que se realiza em Lisboa no próximo fim de semana, tem muitos assuntos na agenda. Um deles e talvez o mais relevante é o Afeganistão, onde a NATO tem milhares de militares no terreno. Sem solução à vista, e com a estratégia do general David Petraeus a demonstrar ténues avanços, Obama irá propor um plano que prevê a entrega da responsabilidade da segurança ao governo local em 2014. Isto é um sinal que os EUA já pensam na retirada, tentando imitar o plano de sucesso que foi implementado no Iraque. A grande dúvida é se essa retirada será acompanhada por um aumento da segurança e o fortalecimento do governo afegão.

 

As informações que existem indicam que a transição do controlo das diferentes províncias será progressiva e baseada nas condições no terreno, mais uma vez, a exemplo do que aconteceu no Iraque. No entanto ao estabelecer já uma data final de retirada, isso significa que haverá transferência de poderes, independentemente da melhoria ou não da situação militar. Obviamente que o plano de Obama irá ser aprovado em Lisboa, pois os seus aliados desejam, mais do que os americanos, um plano que termine com a intervenção no Afeganistão, a mais longa da história militar da Aliança.

 

O Afeganistão foi a guerra escolhida por Obama ainda durante a sua campanha eleitoral. Ao criticar a intervenção no Iraque, Obama sempre disse que o seu alvo primordial na luta contra o terrorismo seria neste cenário. Mas nesta estratégia, Obama contava com mais apoio dos aliados da NATO, algo que não aconteceu. O comprometimento dos europeus neste conflito sempre foi tímido, e com a situação no terreno a degradar-se nos últimos anos, Obama sentiu a necessidade de apresentar um plano de saída. Na próxima campanha presidencial, Obama não poderá apresentar aos americanos um sucesso no Afeganistão, e com este plano, pretenderá demonstrar que a sua Administração sabe como terminar esta guerra. O futuro dirá se esta retirada será uma cópia do que sucedeu no Iraque, ou, se pelo contrário, será uma repetição do Vietname em 1975, quando após a saída dos americanos, o país ficou entregue aos seus anteriores inimigos. Não há soluções fáceis para este conflito.



01
Set 10
publicado por Nuno Gouveia, às 13:12link do post | comentar

Barack Obama fez um discurso competente. Faltou-lhe a chama e o brilho dos tempos da campanha, mas este não era um tema fácil para ele. O Presidente foi um opositor da guerra do Iraque, e apesar de ter prosseguido a politica de George W. Bush, prometeu acabar com a guerra nos primeiros dois anos do seu mandato. E Obama cumpriu, também porque seguiu o plano Bush. Num discurso onde elogiou as forças militares americanas que “cumpriram a missão que lhes foi destinada”, não deixou de recordar as diferentes opiniões sobre a decisão de invadir o Iraque em 2003. Ao referir que tinha telefonado a George W. Bush, e logo depois, ter dito que patriotas tinham concordado e discordado sobre a sua decisão, Obama quis dar um passo em frente e terminar com as divisões do passado. Nesse momento fez-me recordar o Obama da campanha, que falava para o povo americano acima dos interesses partidários. Foi, talvez, o melhor momento da noite.


Mas houve alguns sinais para o futuro: em primeiro lugar, que as missões de combate no Iraque podem estar terminadas, mas o compromisso com o povo iraquiano não acabou. Isso quer dizer que os EUA poderão continuar no Iraque depois de 2011, caso o governo iraquiano o peça, conforme o acordo assinado entre os EUA e Iraque. A parte surpreendente do discurso, para mim, foi o elogio do excepcionalismo americano, consubstanciado  na defesa dos Estados Unidos como líderes do mundo livre e na defesa da “spreading democracy”, conceitos até ao momento sempre estiveram ausentes em Obama. O Afeganistão não foi esquecido, e a comparação com o que foi feito no Iraque. Obama chegou mesmo a falar numa retirada baseada nas condições do terreno, apesar de reafirmar a sua intenção acabar com com essa guerra, pois a "paciência dos Estados Unidos não é ilimitada".


Na parte final do discurso, abordou a economia americana, o assunto que mais preocupa os cidadãos. Obama foi inteligente, pois tentou transmitir a seguinte mensagem: a guerra do Iraque faz parte do passado, é tempo de olharmos para o futuro e centrarmos os nossos esforços na economia. E também não deixou, implicitamente, de relacionar a crise com as guerras de Bush.


Obama discursou ao centro: por um lado terá desagradado à esquerda anti-guerra por não ter elaborado uma crítica à intervenção americana. Mas também recebeu criticas à direita, por não ter atribuído crédito a George W. Bush pela “surge” de 2007. Como já referi, este não era um discurso fácil. Mas parece-me, até pelas reacções que já li, que cumpriu o seu objectivo: a guerra acabou, vamos em frente.


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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