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Jan 16
publicado por Nuno Gouveia, às 01:25link do post | comentar | ver comentários (1)

Barack Obama proferiu esta terça-feira o seu último discurso do Estado da União. Foi uma intervenção a olhar para o futuro, com várias referências ao passado, defendendo o seu legado e tudo aquilo que alcançou. Obama desde o início da sua carreira política nacional se apresentou como uma figura transfiguradora e ambiciosa, com o óbvio intuito de colocar-se na galeria histórica dos grandes presidentes dos Estados Unidos. Foi muitas vezes acusado de governar para a história e não para os americanos. O discurso de ontem foi precisamente para se colocar ao lado de outros grandes presidentes e, não por acaso, teve direito a referências a Lincoln e Roosevelt. Obama quis demonstrar assim que os seus mandatos mudaram a América. Mas pouca gente acredita que os historiadores terão essa visão tão benigna. Obama teve sucessos e fracassos, mas não mudou decisivamente a América e o mundo. Os oceanos não recuaram, como tinha prometido em 2008.  Mas Obama pode ser uma importante figura no Partido Democrata nas próximas décadas e figurar no imaginário democrata como um presidente que defendeu as suas causas e que obteve importantes sucessos progressistas. Um pouco à semelhança do que Ronald Reagan representa hoje em dia para os republicanos.

 

Este discurso não trouxe grandes novidades e ninguém terá ficado particularmente impressionado com ele. Obama preocupou-se em mostrar que no seu mandato alcançou imensos sucessos, como a recuperação económica, a legislação da saúde, a aposta nas energias renováveis, o alargamento do casamento gay aos 50 estados ou os acordos com o Irão e Cuba. Foi um Presidente optimista que se apresentou perante os americanos, disposto a mostrar que os seus dois mandatos valeram a pena e que é importante não destruir aquilo que alcançou. Por um lado, Obama deixou um aviso aos republicanos que ainda pretende actuar em diversas áreas, como na imigração, na restrição ao uso de armas, no acordo de comércio livre com os países do pacífico, no encerramento de Guantánamo e no levantamento do embargo a Cuba. Dificilmente o Congresso lhe dará alguma vitória nestes pontos, com excepção da autorização formal da guerra contra o ISIS e o acordo de comércio livre. Obama poderá ainda tentar fechar Guantánamo por ordem executiva, mas não terá vida fácil no Congresso dominado pelos republicanos. Por outro lado, a sua principal preocupação foi enfatizar o que considera que foram os sucessos da sua administração e que os americanos não devem colocar em causa esses sucessos, elegendo um republicano em Novembro. Obama sabe bem que é importante que seja um democrata a suceder-lhe na Casa Branca, pois caso seja um republicano, muito do que fez poderá cair, como é o caso da lei da saúde, os acordos internacionais com o Irão e em relação às alterações climáticas ou a sua legislação sobre regulações económicas e comerciais. 

 

Houve, no entanto, uma novidade no seu discurso: Obama assumiu que fracassou na promessa de unir os americanos. Se os Estados Unidos eram um país dividido após os oito anos de George W. Bush, mais ficaram após a era Obama. Um sintoma disso é a popularidade de Donald Trump, que pode ser considerado como uma reposta furiosa da direita mais radical ao divisionismo dos anos Obama. Além disso, também no lado democrata se nota isto, com a ascensão de Bernie Sanders apoiado pelos sectores mais radicais à esquerda. Hoje a América é um país mais dividido e radicalizado, e Obama, apesar de não ser o único, tem também muitas responsabilidades nisso. A tarefa do próximo presidente, seja ele republicano ou democrata, não será fácil de lidar com esta América cada vez mais vermelha e azul.


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Jan 11
publicado por José Gomes André, às 16:20link do post | comentar

1. Em termos formais, o discurso foi irrepreensível, como é costume. Obama é um excelente orador, cativante e eloquente. Houve além disso maior cuidado em não tornar o texto excessivamente gongórico, ouvindo-se mais "soundbites", frases curtas e expressões coloquiais do que é costume. (Discurso completo aqui).

 

2. Como seria de esperar, Obama vira ao centroPiscou os olhos à Direita (controlar o défice, diminuir o peso do Estado, optar por uma reforma fiscal que torne o processo mais transparente e eficiente), sem abandonar por completo a retórica "Democrata" (defendendo um papel do governo federal na promoção da educação e inovação; aludindo à revogação do "don't ask, don't tell"; insistindo na necessidade de construir infra-estruturas com fundos estatais). O tom conciliatório do seu discurso seguiu uma estratégia há muito traçada (nem sempre posta em prática...), embora tenha sido especialmente feliz a crítica à radicalização do debate político.

 

3. O discurso teve uma forte componente emocional, quase dramática. Numa era turbulenta, Obama insistiu na necessidade de os americanos se unirem e trabalharem em conjunto para superarem os grandes desafios do presente. Entre apelos patrióticos e uma retórica profundamente nacionalista, houve mesmo referências à "luta espacial" dos anos 60 com os russos. O "soundbite" da noite terá sido "This is our Sputnik moment".

 

4. Poucas foram as propostas concretas. Obama sabe que deixou de controlar o Congresso, estando por isso numa posição frágil para impor as suas opções legislativas. Em todo o caso, revelou algumas prioridades louváveis: congelar os gastos nos próximos cinco anos, sem diminuir a aposta na segurança e na Defesa (um desafio hercúleo), apostar nas energias renováveis (para que, em 2035, 80% da electricidade provenha de energias "limpas"), estabelecer mais acordos comerciais bilaterais (aqui terá forte apoio Republicano), prosseguir e ampliar o "Race to the Top" (um programa de incentivo à competitividade entre escolas, para melhoria dos processos educativos).

 

5. Na política externa, confirma-se o desejo de começar a retirada do Afeganistão em Julho de 2011, objectivo utópico que as chefias militares têm criticado. Registei uma aproximação à teoria do "globalismo democrático", reafirmado porém num contexto "exemplarista" e não "intervencionista": a América deseja promover e apoiar a democratização em África e na Ásia, mas por meios diplomáticos e não por via das armas. Também se anunciou uma continuidade na promoção do unilateralismo e na expansão de ligações com potências emergentes e novos mercados, particularmente na América do Sul.

 

6. Em suma, pouco de novo, embora transmitido com o habitual entusiasmo e elegância. O grande desafio só agora começa: uma Administração Democrata (pensando em 2012), um Senado instável, uma Câmara dos Representantes controlada pelos Republicanos. E um desafio impossível (reduzir o défice sem cortar em nenhum programa federal indispensável, numa era de crise económica), para o qual neste momento nem Democratas nem Republicanos têm resposta. Nuvens negras pairam sobre Washington.

 


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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