04
Dez 12
publicado por Nuno Gouveia, às 23:08link do post | comentar

Disputa-se neste momento o último combate político do ano em Washington. Se democratas e republicanos não chegaram a acordo, no dia 1 de Janeiro de 2013 os impostos irão aumentar para todos os americanos, entre os quais o imposto sobre rendimentos, o imposto sobre o trabalho e ainda o fim dos benefícios fiscais para as pequenas e médias empresas. Por outro lado, haverá cortes automáticos em diversos programas federais, incluindo no sector social e na defesa. Os analistas independentes indicam que estas medidas contribuirão para o aumento do desemprego e uma previsível recessão, apesar de reduzirem o decide em 500 mil milhões de dólares anuais. Portanto, temos os ingredientes para mais uma grande trapalhada em Washington. Por um lado, os democratas e Barack Obama pretendem que os cortes na despesa não sejam tão severos e que haja um aumento de impostos para os mais ricos. Os republicanos estão contra qualquer aumento de impostos, e pretendem mudar a essência dos cortes na despesa. Estas são as premissas iniciais do debate. Em baixo deixo uma breve análise sobre este período negocial, o até onde poderão ceder os lados e qual o papel que Paul Ryan poderá ter, agora que o GOP está sem líder aparente. 

 

No verão de 2011 passamos por uma situação semelhante, aquando do aumento do limite do endividamento federal, mas agora estamos num período da vida política americana muito diferente. Já não há possibilidade de derrotar Barack Obama e os republicanos estão em crise existencial. É verdade que Obama é o primeiro presidente da era moderna a ser reeleito com menos votos do que no primeiro mandato, mas a sua vitória foi bem mais confortável do que se chegou a pensar, e, acrescentando a isso, o Partido Democrata viu a sua maioria no Senado aumentar nas últimas eleições, além de terem conquistado alguns lugares na Câmara dos Representantes. Os Democratas viram assim “reforçada” nas urnas a sua legitimidade para governar os Estados Unidos. Além disso, o Partido Republicano está neste momento numa posição muito débil, sendo vistos pela maioria do eleitorado como mais inflexíveis do que os democratas. Obama conquistou no dia 6 de novembro um mandato para liderar, e os republicanos, se não querem ser mais penalizados pela opinião pública, terão de ceder mais do que no passado recente. Estou certo que Obama terá agora mais hipóteses para negociar o “grande acordo” que enfrente os problemas estruturais dos Estados Unidos: a dívida pública, os défices elevados e o fraco crescimento económico. Se ele vai existir, não sabemos. 

 

A  primeira reacção de John Boehner após as eleições foi estender a mão a Obama, afirmando que o seu partido está pronto a negociar com o Presidente. A manutenção da maioria na Câmara dos Representantes foi a pequena vitória que os republicanos obtiveram, e isso mantém o partido como peça fundamental na governação. Até aqui os republicanos têm negado a possibilidade de um acordo com o Presidente que inclua o aumento de impostos. Mas essa plataforma saiu enfraquecida nas eleições, e já assistimos a influentes republicanos, como Bill Kristol da Weekly Standard, a dizer que aumentar impostos para os mais ricos não seria nada de extraordinário. O mesmo, por outras palavras, disse Bobby Jindal, governador da Louisiana e potencial candidato em 2016, que defendeu que os republicanos tinham de deixar de ser vistos pelos americanos como o partido das grandes empresas e dos ricos. Sente-se entre a maioria dos conservadores mais influentes que é necessário mudar de discurso para voltar a vencer eleições. Um dos grandes derrotados destas eleições foi precisamente Grover Norquist, que tinha conseguido que quase todos candidatos republicanos acedessem à sua plataforma de “não aumento de impostos “ sob todas as condições. Nesta matéria dos impostos, mas também noutras questões, como na reforma da imigração ou até na saúde, os republicanos deverão mudar de discurso no próximo ciclo da vida política americana. Mas isto não quer dizer que Boehner tenha carta branca para aceder à vontade do Presidente de aumentar os impostos para os mais ricos no imediato, até porque continuará a haver pressões dos sectores mais conservadores para não negociar nessa questão. A minha perspectiva é que algo será feito e a tal "fiscal cliff", não se concretizará. Isso pode passar por uma solução de curto termo, ou seja, negociar uma extensão, nem que seja de apenas seis meses, como sugeriu o senador republicano do Ohio, Rob Portman, de todos os cortes de impostos (Bush Tax Cuts, Payrool Tax Cuts e impostos sobre os pequenos empresários) e impedir ao mesmo tempo que os cortes na despesa programados para 2013 entrem já em vigor, ou uma solução mais duradoira, e aí sim, aumentar já os impostos para os que ganham mais de 250 mil dólares por ano, como tem defendido Obama, e negociar cortes na despesa que incluam despesas sociais e até militares. Os republicanos têm tentado que o aumento da receita do Estado Federal passe por cortes nas deduções fiscais (as tais loopholes de que se falava). O problema para eles é que mesmo isso é muito vago e de difícil execução, pois nunca foram específicos em apontar quais deduções queriam cortar. Além disso, vários democratas mais “liberais” estão contra essa solução. Se os republicanos cederem já no aumento de impostos, prevejo que irão querer que alguns dos seus planos para o corte da despesa federal entre em vigor já. Obama também poderá enfrentar alguma oposição na base mais à esquerda do seu partido se decidir cortar algumas das despesas sociais que os republicanos pretendem, mas acredito que acabará por impor o que quiser. Neste momento é o líder incontestado da vontade democrata no Congresso.

 

O Partido Republicano está neste momento sem líder. Paul Ryan, que viu crescer a sua aura de líder nesta última campanha eleitoral, poderá ter a tentação de envolver-se directamente nas negociações, até porque é presidente da Comissão do Orçamento da Câmara dos Representantes. Mas a partir de agora, tudo o que Ryan fará estará condicionado pelo facto que provavelmente será candidato a Presidente em 2016. Ele precisa de assumir-se como parte da solução e não do problema. A grande dúvida é se irá desejar ficar ligado a um possível aumento de impostos, que pode enfraquecer a sua posição nas primárias de 2016. Por outro lado, se mantiver a uma postura de inflexível nestas negociações ou se não se envolver profundamente, poderá cimentar a imagem de não conseguir trabalhar com o Partido Democrata numa questão central como esta. A minha percepção é que Ryan irá tentar liderar este processo pelo lado dos republicanos, tentando obter o máximo de concessões do Presidente no que diz respeito aos cortes da despesa, e ceder o menos possível na questão do aumento de impostos, que poucos acreditam em Washington que não irá acontecer: já ou no próximo ano. Nesta questão, Obama mais tarde ou mais cedo irá alcançar uma vitória.


07
Set 10
publicado por Nuno Gouveia, às 14:59link do post | comentar | ver comentários (2)

Hoje foram publicadas duas sondagens elucidativas do momento que se vive nos Estados Unidos. Numa sondagem do Wall Street Journal/NBC News, os republicanos têm uma vantagem de 49% contra 40% das intenções de voto, enquanto num estudo do Washington Post/ABC News a vantagem é ainda maior, com 53% contra 40%. Nestes estudos também foram contabilizadas as intenções de voto dos eleitores em geral, sendo que os números são bem mais próximos. Isto indica claramente que o eleitorado republicano está bem mais mobilizado e motivado para ir às urnas a 3 de Novembro, mas também representa um sinal de esperança para os democratas.

 

Nas eleições intercalares a mobilização é fundamental, pois a abstenção é bastante mais elevada do que em anos de presidenciais. Uma base motivada significa uma enorme vantagem eleitoral. Se as eleições fossem hoje, os republicanos iriam em massa às urnas, enquanto muitos democratas ficariam em casa. Se avaliarmos as várias sondagens que têm sido publicadas, parece certo que os independentes que fugiram para os republicanos já não vão regressar neste ciclo eleitoral. Por isso, a esperança dos democratas para impedir um terramoto eleitoral estará, principalmente, em levar os eleitores democratas a votar. Neste momento não consigo visualizar outra hipótese para não sofrerem uma derrota de proporções históricas.


28
Abr 10
publicado por Nuno Gouveia, às 22:56link do post | comentar | ver comentários (2)

Charlie Crist vai anunciar amanhã que se retira das primárias republicanas e que vai concorrer como Independente ao Senado nas próximas eleições de Novembro. Deste modo, esta corrida fica completamente em aberto, com Marco Rúbio e Kendrick Meek a terem a oposição do actual governador. Nas sondagens conhecidas a três, Rúbio surgiu sempre à frente, mas com curta vantagem. Mas com a confirmação desse facto, será prudente esperar pela reacção da população da Flórida perante esta traição de Crist ao seu partido de sempre. É que, independentemente da argumentação que Crist utilizará, esta situação apenas sucede porque estava a ser humilhado por Marco Rúbio nas sondagens. A sua carreira política no GOP termina desta forma. Resta saber se conseguirá sobreviver à eleição de Novembro.


22
Mar 10
publicado por Nuno Gouveia, às 15:49link do post | comentar | ver comentários (10)

Barack Obama e a esmagadora maioria democrata no Congresso aprovaram a reforma da saúde. Apesar da maioria dos americanos estarem contra este aumento brutal do papel do Estado Federal, os democratas apenas cumpriram o que prometeram nas campanhas eleitorais recentes. Mas com a reforma a entrar apenas em vigor em 2014, a batalha apenas terá começado agora.

 

Em Novembro próximo haverá eleições intercalares, e serão, talvez mais do que nunca, um verdadeiro ensaio para as próximas presidenciais. O influente colunista conservador Bill Kristol já deu o mote para os republicanos, defendendo que a revogação desta lei deverá ser o cavalo de batalha do Partido Republicano para os próximos ciclos eleitorais. John McCain disse que os republicanos vão conseguir revogar esta lei. Na história da política americana não é comum que uma reforma desta envergadura seja revertida. E mesmo que os republicanos alcancem a maioria nas duas câmaras em Novembro, contarão sempre com o veto de Barack Obama. Por isso, as presidenciais de 2012 serão fundamentais nesta batalha. Apenas com uma maioria no Congresso e uma Casa Branca republicana poderão impedir que esta lei entre em vigor em 2014. Para terem sucesso, precisarão de um candidato vencedor para 2012, algo que neste momento parece muito difícil de alcançar, apesar das fragilidades de Barack Obama.

 

Os democratas começam também agora a batalha pela conquista da opinião pública, até ao momento adversa. Se conseguirem convencer os americanos que esta lei é positiva, e transformarem esse apoio em votos em Novembro de 2010 e 2012, poderão mesmo fazer história. A grande batalha será, mais uma vez na história americana, no campo da economia. Precisam rapidamente de minorar os efeitos da crise e iniciar um período de crescimento económico que minimize a reforma da saúde. Se os americanos tiverem os bolsos cheios, coisa que actualmente não sucede, esta reforma da saúde poderá ser considerada até pelos críticos como um mal menor, e com isso, darem o aval a mais este avanço do Estado Federal. Mas neste momento, e apesar do enorme sucesso obtido pelos Democratas ontem à noite, o cenário continua negro.


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