22
Nov 11
publicado por Nuno Gouveia, às 23:25link do post | comentar

 

A eleição presidencial de 1884 foi marcada pelo regresso à Casa Branca de um Democrata vinte cinco anos depois do último presidente do mesmo partido. O anterior Democrata eleito tinha sido James Buchanan em 1856, que ainda hoje é considerado pelos historiadores como o pior presidente da história americana. Mas não se pense que esta eleição foi fácil, pois o vencedor, Grover Cleveland, foi afectado por diversos escândalos durante a campanha.

 

Os republicanos reuniram-se em Chicago durante o Verão desse ano para escolher o seu candidato. O Presidente da época, Chester A. Arthur, que tinha assumido a Presidência depois do assassinato de James Garfield em 1881, apresentou-se como candidato à nomeação, mas os republicanos optaram pelo senador James Blaine do Maine, na época o republicano mais poderoso. Foi ainda nesta convenção que foi proferida uma frase mítica que ainda hoje faz eco na política norte-americana. O herói da guerra civil, o general William Sherman foi pressionado para se candidatar, mas ele afirmou: "If drafted, I will not run; if nominated, I will not accept; if elected, I will not serve". Ficou conhecida como a Sherman Pledge.  A nomeação Democrata não teve grande história. Animados com a perspectiva de regressarem à Casa Branca, o partido uniu-se em torno do governador de Nova Iorque, Grover Cleveland, que tinha feito nome ao enfrentar a máquina corrupta do Partido Democrata do estado, conhecida pela Tammany Hall. 

 

Esta campanha ficou marcada pelos ataques de carácter feitos a Grover Cleveland e pela divisão que afectava o Partido Republicano, depois de 25 anos de poder. O anterior Presidente Chester A. Arthur nem sequer fez campanha por Blaine, bem como uma boa parte do GOP, que considerava Blaine corrupto e que trabalhou para ajudar a eleger Cleveland. Estava tudo inclinado para uma vitória fácil de Cleveland quando em Julho de 1884 rebentou um grande escândalo para a época. Foi revelado pelo Buffalo Evening Telegraph que Cleveland, enquanto jovem, teve um caso fora do casamento com uma viúva de Buffalo, Nova Iorque, e que em resultado desse affair teve um filho ilegítimo com ela. Os republicanos aproveitaram o caso e rapidamente começaram a atacar Cleveland , inventando até uma rima para o adversário que ficou famosa: "Ma, Ma, where's my Pa?".  O caso assumiu maiores proporções porque o filho teria crescido num orfanato e a mãe internada num hospício. A campanha de Cleveland, respondendo de uma forma não natural para a época, assumiu que de facto era possível que o filho fosse dele (não tinha a certeza), mas que assumira o filho e ajudara-o a encontrar um lar para viver. 

 

A vitória de Cleveland estava em causa, mas o candidato republicano cometeu uma gaffe de proporções históricas que lhe terá custado a eleição. A uma semana das eleições, Blaine participou num encontro com pregadores evangélicos, onde um deles criticou duramente aqueles que tinham abandonado o GOP para apoiar um partido cujo passado era marcado pelo "Rum, Romanism and rebellion", ou seja, álcool, catolicismo e rebelião. Blaine esteve toda a reunião em silêncio, o que o prejudicou imenso perante o eleitorado católico e irlandês, pois a imprensa publicitou de forma agressiva esta reunião. Numa eleição em que Cleveland venceu com mais 0,53% dos votos em termos nacionais, acabou por ser decisivo o resultado do estado de Nova Iorque, onde Blaine perdeu por 1049 votos. Na época atribuiu-se a derrota de James Blaine precisamente aos votos católicos. A celebração de vitória dos democratas foi entoada aos cânticos "Ma, Ma, where's my Pa? Gone to White House, ha, ha, ha!". 

 

Grover Cleveland viria a ser derrotado em 1888 pelo republicano Benjamin Harrison, mas regressaria novamente à Casa Branca nas eleições de 1892, um facto inédito até aos dias de hoje, exercendo dois mandatos não consecutivos. 


24
Out 11
publicado por Nuno Gouveia, às 22:18link do post | comentar

 

As eleições presidenciais de 1876 foram das mais polémicas de toda a história americana. Envolveu votos no Congresso, comissões independentes e até negociações com congressistas de outro partido. O vencedor foi o republicano Rutherford B. Hayes. Esta eleição terá marcado o fim da Reconstrução, período pelo qual são conhecidos os anos seguintes à Guerra Civil. Mas regressemos ao inicio. 

 

Os republicanos reuniram-se, na sua sexta convenção, em Junho de 1876 em Cincinatti, Ohio, para escolherem o candidato a suceder ao Presidente Ulysses Grant. O Speaker James Blaine, do Maine, era o favorito para obter a nomeação, mas depois de não conseguir vencer nas primeiras votações, o Governador do Ohio, Rutherford B. Hayes, obteve a nomeação à sétima votação. Ciente das divisões no GOP, Hayes prometeu cumprir apenas um mandato. Os Democratas reuniram-se nove dias depois em St. Louis, Missouri para escolherem o seu candidato. Afastados da Casa Branca desde 1960, sentia-se o cheiro a vitória no ar, e mais de cinco mil pessoas reuniram-se para eleger o candidato que os levaria de novo ao poder. A escolha não foi polémica e nomearam Samuel Tilden, o então governador de Nova Iorque. 

 

A economia do país atravessava dificuldades, a Administração Grant tinha enfrentado diversos escândalos de corrupção e os soldados federais ainda estavam estacionados nos estados do Sul. A campanha foi bastante agressiva e cheia de ataques pessoas. O candidato democrata foi acusado de não ter participado na Guerra Civil, enquanto Hayes tinha sido um herói de guerra e ferido várias vezes. Mas 20 anos de poder tinham enfraquecido o Partido Republicano, e Samuel Tilden venceu no voto popular, com 4.288.546 contra os 4.034.311 de Hayes. Depois de contados os votos, chega-se à conclusão que Tilden apenas tinha 184 votos eleitorais, faltando-lhe um voto para ser eleito presidente, enquanto Hayes tinha 165. Nesse momento, quatro estados, que valiam vinte votos eleitorais, estavam com as contagens paradas (Oregon, Carolina do Sul, Louisiana e Florida). Enquanto o Oregon foi resolvido rapidamente a favor de Hayes, nos três estados do Sul o impasse manteve-se. Acusações de fraude de ambos os partidos nestes estados empurraram a decisão para o Congresso.

 

O Senado, controlado pelos republicanos, e Câmara dos Representantes, dominada pelos Democratas, criaram uma comissão bipartidária para resolver o assunto. Composta por sete republicanos e sete democratas e o juiz do Supremo Tribunal de Justiça David Davis, independente. Mas ainda houve um golpe de teatro. Os democratas do Illinois entretanto nomeiam David Davis para o Senado, na esperança de o convencer a votar de acordo com eles na comissão. Mas Davis após essa nomeação retira-se da comissão e é substituído por um juiz do Supremo republicano. A decisão acaba por ser favorável a Rutherford Hayes, que recebe todos os votos eleitorais em disputa. Mas as polémicas eleições ainda não estavam resolvidas. Essa decisão ainda precisava de passar no Congresso. Quase a chegar à data da inauguração, ainda não há desfecho final. É então que os republicanos celebram um compromisso com os Democratas do Sul para verem aprovada a eleição de Hayes. Em troca da retirada das tropas federais dos antigos Estados Confederados, os democratas do Sul votam a favor da decisão da comissão. 

 

Duas notas: Rutherford Hayes só serviu durante um mandato, e foi várias vezes acusado de ter roubado a eleição. "Rutherfraud" B. Hayes e "His Fraudulency" eram alguns dos epítetos que normalmente lhe eram dirigidos. No entanto, o seu mandato foi marcado pela luta anti-corrupção e considerado como um bom presidente. Depois da presidência dedicou-se sobretudo à educação de crianças afro-americanas no Sul. O seu opositor, Samuel Tilden, aceitou o resultado das eleições e também se dedicou a causas humanitárias. Deixou parte da sua fortuna para financiar a Biblioteca Pública de Nova Iorque. 


19
Set 11
publicado por Nuno Gouveia, às 23:39link do post | comentar

Poster for Taft's re-election, 1912.


O republicano William Howard Taft era o presidente em exercício em 1912, mas acabou por ficar em terceiro lugar nessa eleição. Nesse ano, um antigo presidente, e também republicano, é que dominou a campanha presidencial: Teddy Roosevelt. O vencedor acabou por ser um antigo presidente da Universidade de Princeton, Woodrow Wilson. E como é que isto aconteceu? Uma revolta interna no Partido Republicano, liderada por Teddy Roosevelt, que saiu do GOP e candidatou-se pelo Partido Progressista, fundado entretanto por ele e pelos seus aliados. 

 

William Howard Taft, que tinha sido Secretário da Guerra de Roosevelt, assumiu a presidência em 1909, com o apoio do antigo presidente. Mas durante o consulado de Taft, Roosevelt começou lentamente a assumir-se como oposição interna,  acusando a Administração Taft de ter-se deslocado para a direita e abandonado os princípios da sua presidência. Nas primárias de 1912, Roosevelt avançou e venceu nove das doze eleições. Mas nessa época as primárias tinham pouco valor na corrida à nomeação, e Taft, que através da poderosa máquina republicana do Ohio controlava o partido, foi facilmente nomeado na Convenção de Chicago. Teddy Roosevelt, motivado pelas vitórias populares e por um círculo de apoiantes fervorosos, abandona o Partido Republicano, cria o Partido Progressista e avança para a presidência. O "Moose Bull Party", como ficou conhecido este novo partido, tinha uma plataforma populista a anti-sistema, com medidas progressistas para a época, como a criação de um sistema nacional de saúde, voto das mulheres, dia de trabalho de oito horas, eleição directa de senadores, a institucionalização do sistema de primárias ou a criação de referendos. 

 

Com a divisão do Partido Republicano, os Democratas viram aqui uma oportunidade para recuperar a Casa Branca, que lhes escapava já desde 1896, quando Grover Cleveland saiu para dar lugar a William McKinley. Na histórica Convenção de Baltimore, William Jennings Bryan, candidato três vezes derrotado pelos republicanos em 1896, 1900 e 1908, decidiu não se candidatar e apoiar o então Speaker da Câmara dos Representantes, Champ Clark, do Missouri. Mas após várias votações, este não conseguia chegar aos 2/3 necessários para obter a nomeação. A Tammany Hall, a poderosa máquina democrata de Nova Iorque decide então apoiar Clark, e deu-se a reviravolta, com Jennings Bryan a retirar-lhe o apoio e colocar-se ao lado do então governador de New Jersey, o académico Woodrow Wilson, que tinha ficado sempre em segundo, atrás de Clark. Após 46 votações, finalmente Woodrow Wilson obteve a nomeação do partido. Mais tarde, viria a recompensar William Jennings Bryan com o cargo de Secretário de Estado. 

 

William Howard Taft cedo percebeu que não teria grandes hipóteses de vitória, e praticamente não fez campanha. Roosevelt, no seu estilo lutador, pretendeu fazer uma campanha vigorosa, mas viria a sofrer uma tentativa de assassinato a 14 de Outubro durante um discurso. Apesar de baleado, a ferida não foi grave e Roosevelt terminou o seu discurso antes de ser encaminhado para um hospital. Essa bala permaneceu no peito de Roosevelt até ao fim da sua vida, pois os médicos consideraram perigoso retirá-la. Os adversários suspenderam a campanha durante uma semana, mas viriam a retomá-la nas últimas semanas antes das eleições. Woodrow Willson viria a vencer as eleições facilmente, com 41 por cento dos votos, com Teddy Roosevelt a ficar em segundo lugar, com 27 por cento e Taft, o pior resultado de sempre de um presidente em exercício, com apenas 23 por cento. 

 

Taft e Roosevelt viriam a reconciliar-se um pouco antes da morte deste último em 1919. Taft, que apenas faleceu em 1930, viria a ser nomeado Presidente do Supremo Tribunal de Justiça em 1921, pelo Presidente Warren Harding. Foi o único americano a ocupar os dois cargos. Teddy Roosevelt, que provocou o maior terramoto político da história do Partido Republicano, viria a regressar ao partido e tornar-se num dos grandes opositores de Woodrow Wilson. Em 1916 apoiou entusiasticamente o candidato republicano Charles Evan Hughes, e era mesmo um dos nomes mais falados para a nomeação em 1920.

 


04
Ago 11
publicado por Nuno Gouveia, às 23:21link do post | comentar

 

No ciclo presidencial de 2008 muitas vezes ouvimos falar na possibilidade de uma "brokered convention" no Partido Democrata, depois de muitos meses sem que candidato que tivesse ganho definitivamente as primárias. Esse tipo de convenção sucede quando os partidos chegam às suas convenções nacionais sem que um candidato tenha a maioria dos delegados do seu lado. A história da política americana é fértil neste tipo de convenções, onde os "Party Bosses" decidiam quem seria o nomeado. Mas com o institucionalização do sistema de primárias desapareceram do mapa, o que se compreende pelo profissionalismo que os partidos adoptaram, bem como os processos de nomeação serem bem diferentes. Mas em 1952 a situação era bem diferente, e foi a última vez que um dos partidos, o Democrata, escolheu o seu nomeado nesse formato.

 

Harry Truman, no cargo desde 1945, estava no final do sétimo ano como Presidente, mas ainda podia candidatar-se a novo mandato, pois a recentemente aprovada 22ª emenda, que limitou a dois mandatos ou a 10 anos o período em que pode exercer-se o cargo de Presidente, não se lhe aplicava. Mas a sua popularidade andava pelas ruas da amargura, sobretudo à impopular guerra da Coreia. Além do mais, o Partido Democrata estava no poder desde 1933, e a corrupção alastrava pelas estruturas do partido. O seu principal adversário declarado era o senador do Tennessee, Estes Kefauver, um político que tinha denunciado a corrupção do sistema e de muitos membros do Partido Democrata. Depois das primárias do New Hampshire, onde foi derrotado pelo senador, Harry Truman anunciou que não se recandidataria a um novo mandato, lançando a confusão no Partido Democrata. Nesse ano apenas decorreram primárias em 13 estados, tendo Kefauver vencido 12 delas. Mas nesses tempos as primárias tinham pouco significado, pois a maior parte dos estados escolhia os delegados através de convenções estaduais, sendo que estas eram controladas pelos líderes partidários, muitos deles controlados pelo próprio Harry Truman. E logo começaram a procurar alternativas a Kefauver, que era detestado pela máquina partidária. Nomes como Humbert Humprhey, futuro Vice-presidente, o senador do Arkansas, William Fulbright ou o Vice-presidente de Truman, Alben W. Barkley, foram testados pela máquina, mas nenhum parecia reunir as condições ideais.

 

A convenção realizou-se em Chicago, que tinha como Governador Adlai Stevenson II, neto de Adlai Stevenson, Vice-Presidente de Grover Cleveland entre 1883 e 1887. Antigo membro da Administração Roosevelt e apoiante do New Deal, Stevenson era o escolhido de Truman. Mas o governador de Chicago continuava a insistir que não queria ser candidato, e Truman chateou-se e tentou novamente o o seu Vice-presidente Alben Barkley no primeiro dia da convenção, mas a resistência dos sindicatos fizeram-no regressar a Stevenson. Convidado para discursar na abertura da convenção, que ainda não tinha um candidato preferido, Stevenson proferiu uma intervenção que entusiamou a sala. Imediatamente aumentaram as pressões do grupo de Truman para que Stevenson colocasse o seu nome no boletim de voto para a nomeação.

 

Os líderes partidários do Norte e do Midwest, que tinham bastante força dentro do partido, conseguiram que Stevenson acedesse em avançar. Na primeira votação acabou por ficar em segundo lugar, atrás de Kefauver e à frente do Richard Russel, o senador da Georgia que representava o partido segregacionista do Sul. Na segunda votação, Kefauver ainda teve mais votos, mas o crescimento eleitoral de Stevenson era evidente, e começaram as deserções no campo do senador do Tennessee para Stevenson, que arrebatou finalmente a nomeação à terceira votação, com mais de 50 por cento dos votos. O sulista Richard Russel manteve o terceiro lugar, com 22 por cento. Após proferir o discurso de aceitação, Stevenson retirou-se para uma sala para reunir com os "Party Bosses" que o escolheram para seleccionar um candidato a Vice-presidente. A opção recaiu sobre o senador do Alabama John Spark, para satisfazer a ala sulista do partido. Esta convenção decorreu também sob o espectro da divisão com o Sul, temendo-se novamente a saída dos Dixiecrats, os sulistas segregacionistas que em 1948 avançaram com a candidatura do presidencial do senador Strom Thurmond, que acabou por vencer em quatro estados do Sul. Esta foi a primeira convenção a ser transmitida em directo pela televisão.

 

Nota de rodapé: Adlai Stevenson foi derrotado por Dwight Einsenhower, que obteve 55 por cento dos votos contra 44. Quatro anos mais tarde, Stevenson voltaria a ser o nomeado democrata, com o desfecho a ser idêntico. Foi embaixador nas Nações Unidas nas Administrações Kennedy e Johnson.


28
Jul 11
publicado por Nuno Gouveia, às 17:13link do post | comentar | ver comentários (2)

 

As eleições presidenciais de 1972 foram das mais díficeis da história do Partido Democrata. Richard Nixon venceu em 49 estados, perdendo apenas no Massachusetts e DC, conquistando 60 por cento do voto popular, com uma vantagem de 18 milhões de votos, a maior da história americana. A economia viva tempos desafogados, a guerra no Vietname encaminhava-se para o fim e o estabelecimento de relações diplomáticas com a China colocaram a popularidade de Nixon no auge. Mas esta não foi uma campanha isenta de erros de George McGovern, o nomeado do Partido Democrata.

 

Senador do Dakota do Sul desde 1963, McGovern candidatou-se pela ala anti-guerra do Partido Democrata, que tinha sido derrotada em 1968 pelo então Vice-presidente Hubert Humphrey. Mas em quatro anos o panorama político tinha-se alterado, e com a introdução da reforma McGovern-Fraser, liderada pelo próprio senador, o processo de nomeação deixou de ser controlado pelos líderes partidários e passou a ser decidida quase exclusivamente pelo voto popular, através da introdução de primárias e caucuses na maior parte dos estados. Pode-se dizer que a vitória de McGovern nas primárias de 1972 foi a primeira conquista de um movimento popular contra o establishment partidário. Como em 1980 com Ronald Reagan e em 2008 com Barack Obama.

 

McGovern era um dos senadores mais à esquerda, que se tinha distinguido no final da década de 60 pela sua oposição à guerra do Vietname. Nestas eleições, McGovern enfrentava figuras bem mais relevantes do Partido Democrata, o favorito senador do Maine Edmund Muskie (mais tarde Secretário de Estado de Carter) e Hubert Humphrey, o nomeado de 1968. Apoiado pelos movimentos anti-guerra e pelos sectores mais à esquerda do partido, McGovern foi nomeado como candidato Democrata. A sua campanha era descrita pelos adversários, mesmo internamente, como "amnesty, abortion and acid*", pela defesa da amnistia aos que tinham fugido do recrutamento para o Vietname e da legalização do aborto e das drogas. Dentro das fileiras da sua campanha incluíam-se jovens figuras que viriam ter um papel decisivo na vida do Partido Democrata nas próximas décadas. Gary Hart era o director de campanha e no Texas, as operações foram lideradas por um casal que viria a dar que falar: Hillary e Bill Clinton.

 

Os problemas na sua campanha começaram duas semanas depois da Convenção em que foi nomeado. O seu candidato a Vice-presidente, Thomas Eagleton, senador do Missouri desde 1968, tinha sido uma quinta escolha, depois de várias recusas que McGovern tinha recebido. Como Nixon parecia imbatível, nomes relevantes como Ted Kennedy, Humbert Humphrey, Walter Mondale ou Edmund Muskie recusaram o lugar. Depois de tantas recusas, McGovern acabou por seleccionar Eagleton sem mandar fazer uma investigação cuidada ao seu passado. Surgiram notícias que Thomas Eagleton tinha problemas médicos que o poderiam impedir de ocupar a presidência. Apareceram relatórios médicos que incluíam palavras como "depressão", "tendências suicidas" e "maníaco-depressivo" e que revelavam que tinha recebido tratamentos de choque eléctricos. Inicialmente McGovern, que tinha uma filha com problemas idênticos, apoiou publicamente o seu candidato, mas depois de semanas a ser pressionado pelos conselheiros, pediu a Eagleton para demitir-se. Depois de mais algumas recusas, acabou por convidar Sargent Shriver, cunhado de John F. Kennedy, que na época era embaixador em França. Mas a campanha nunca mais de recompôs.

 

Este episódio acabaria por marcar negativamente uma campanha já em sérias dificuldades. Depois de várias semanas a jurar fidelidade a Eagleton, a sua mudança de opinião acabou por enfraquecer a sua credibilidade. Além do mais, sofreu bastante por afrontar o poder da máquina do Partido Democrata, naquilo que foi uma verdadeira revolução na forma como os partidos escolhem os nomeados, o que viria ser imitado pelo Partido Republicano. Além das várias recusas que recebeu para VP, acabou por ver muitos proeminentes democratas, como o antigo governador do Texas e membro da Administração Kennedy, John Connaly, apoiar Richard Nixon, na organização que ficou conhecida como "Democrats for Nixon". E nem o escândalo Watergate, que rebentou de maneira frágil no Verão de 1972, o ajudou a impedir uma das maiores derrotas da história do Partido Democrata.

 

*Amnesty, Abortion and Acid" apareceu pela primeira vez pela pena de Robert Novak, um colunista conservador que garantia estar a citar um senador democrata. Mais tarde viria a revelar que quem lhe disse essa frase foi Thomas Eagleton, antes de ser escolhido por McGovern para seu candidato a VP.


20
Jul 11
publicado por Nuno Gouveia, às 23:42link do post | comentar

 

Nas eleições primárias de 1980, Ronald Reagan, então com 68 anos, perseguia a sua derradeira oportunidade chegar à Casa Branca. Depois de 1968, onde tinha sido derrotado por Richard Nixon, e de 1976, onde com uma candidatura insurgente contra o Presidente republicano em exercício, Gerald Ford causou forte impressão, em 1980 apresentava-se como o principal candidato da ala conservadora para a nomeação. Pela frente teve importantes referências do Partido Republicano, como o Líder Republicano no Senado, Howard Baker, o senador do Kansas, Bob Dole, o antigo governador do Texas, John Connally, o antigo director da CIA, George H Bush e ainda o congressista do Illinois, John Anderson, que pertencia à moribunda ala "liberal" do partido e que viria a ser candidato independente nessas eleições. Pelo meio, a sombra de Gerald Ford, que várias vezes esteve para avançar para uma candidatura à nomeação. Numa longa corrida, acabou por vencer a nomeação numas primárias cheias de emoção e combatividade, com George H. Bush a ficar em segundo lugar. 

 

A Convenção Nacional Republicana de 1980 realizou-se em Detroit, no estado natal de Gerald Ford. E foi o nome do antigo Presidente que esteve envolvido nesta verdadeira história dramática que envolveu a escolha do candidato a Vice-presidente de Ronald Reagan. Apesar de hoje considerar-se que a vitória de Reagan foi muito fácil, na verdade estas eleições foram muito disputadas e apenas na recta final é que Reagan disparou perante Jimmy Carter. No Verão desse ano, Ronald Reagan era ainda desconsiderado por grande parte das elites políticas e económicas do país, tal como uma boa parte do Partido Republicano. A equipa de Jimmy Carter considerava mesmo que lhes tinha saído a sorte grande com a nomeação do antigo governador da Califórnia. Reagan chega à convenção sem um nome escolhido para seu parceiro, e com uma enorme sombra de dúvidas dentro do próprio partido, que não acreditava nas capacidades do antigo actor de Hollywood. Apesar de Reagan ter liderado o maior estado da União  durante oito anos e ter passado a década de 70 activo na política, o seu nome suscitava ainda desconfiança e descrença. Era nesta nuvem de dúvidas que a equipa de Reagan se deparava.

 

Neste panorama, começou a ser cozinhado nos bastidores um ticket com Reagan-Ford. Os sectores mais centristas do partido, que desgostavam de Reagan, viam no antigo Presidente uma possibilidade de moderar a candidatura e fortalecer a hipótese de vitória. Os conservadores, agastados com esta divisão interna, começaram a ver com bons olhos este ticket para pacificação interna e apresentação de uma candidatura forte perante o país. Ford era hoje muito mais popular do que quatro anos antes, e dava "respeitabilidade" a Reagan. Além disso, estava quase intacto o seu poder no partido, depois de ter sido Presidente. E Ford, apesar de hesitante, começou a mexer os cordelinhos para ser mesmo o candidato a Vice-presidente. Na sua equipa de negociações com o gabinete de Reagan incluíam Henry Kissinger, que desejava ser Secretário de Estado, Dick Cheney e ainda Alan Greenspan, um conselheiro muito próximo de Ford. Apesar das relações tensas entre Reagan e Ford não estarem completamente normalizadas, afinal de contas, quatro anos antes tinham disputado umas primárias muito duras, havia uma cordialidade no trato entre os dois, e reuniram-se no segundo dia da convenção. Reagan perguntou a Ford se estaria disponível a juntar-se a ele, naquele que a imprensa já apelidava de Dream Ticket. Ford pediu tempo para pensar. Reuniu-se com um pequeno grupo de apoiantes, e desde logo, Kissinger aconselhou-o a aceitar. E formou-se uma equipa para negociar com o staff de Reagan. A partir daqui começou a desenhar-se na imprensa a fatalidade do Dream Ticket, com esta equipa negocial a lançar para a comunicação social fugas que davam a entender que o acordo estava feito.

 

O terceiro dia da convenção começava sob o signo da escolha do Vice-presidente. As negociações prosseguiam e parecia inevitável o Dream Ticket. Gerald Ford, como antigo Presidente, começou a fazer exigências consideradas exageradas pela equipa de Reagan. Aquilo que propunham não era o normal para um Vice-Presidente. Pediam a escolha directa de alguns cargos (Henry Kissinger como Secretário de Estado, por exemplo), poder de veto para Ford em relação às nomeações de Reagan, ou seja, uma verdadeira partilha do poder. E começaram a surgir as dúvidas nos homens de Reagan, que viam neste acordo uma verdadeira ameaça à liberdade de uma hipotética presidência Reagan. A  co-presidência começou também a ser falada pela imprensa, e o próprio Ford parecia menos interessado no cargo do que os seus conselheiros e continuava mostrar-se hesitante no seu circulo de apoiantes. O dia aproximava-se do fim e Ronald Reagan tinha de fazer uma opção. Às 19h15 desse dia, Gerald Ford, em entrevista a Walter Cronkite, referia que se fosse mesmo candidato a VP, iria ter um papel muito importante na governação. Ronald Reagan ficou pálido ao ver a entrevista, com Ford a admitir mesmo uma presidência partilhada. Acredita-se que depois de ver esta entrevista, Reagan decidiu que Ford não seria o escolhido. No entanto, durante a noite as negociações continuaram, e várias televisões deram como certa a escolha de Gerald Ford. No hall da convenção, o entusiasmo crescia com o Dream Ticket. Mas os homens de Reagan iam recusando as exigências da equipa de Ford, sinalizando que esta não seria a opção do nomeado republicano. Por volta das 23h30, Ford dirigiu-se à suite onde estava Ronald Reagan e anunciou formalmente a sua recusa em ser o candidato a Vice-presidente. Foi uma conversa que durou cinco minutos, mas Reagan já sabia quem iria escolher. 

 

Nesta mesma noite um desiludido George H. Bush discursou perante a convenção e preparava-se para abandonar Detroit. Apesar de momentos muito tensos com Ronald Reagan durante as primárias, o graduado de Yale e típico republicano da Costa Leste aspirava secretamente ser escolhido para VP. À mesma hora que Reagan e Ford falavam, George H. Bush estava no hall do seu hotel a beber uma cerveja com os seus filhos Jeb e George W. Às 23h37 recebia uma chamada de Ronald Reagan na sua suite. "I'd be honored, Governor" foi a resposta de George H. Bush ao convite de Reagan. Um jornalista ainda antes da meia noite anunciava ao mundo: "Not Ford. It's Bush!". Uma convenção que tinha até então decorrido sob o signo da incerteza e do caos ganhava finalmente um candidato a Vice-presidente. E o resto foi história. 

 

*Esta magnífica história é contada em pormenor no livro "Rendevouz with Destiny, Ronald Reagan and the Campaign that changed America", de Craig Shirley. 


14
Jul 11
publicado por Nuno Gouveia, às 00:02link do post | comentar

As eleições presidenciais de 1824 foram umas das mais controversas de sempre da história americana. Apesar de perder na contagem de votos populares e no colégio eleitoral, Jonh Quincy Adams, filho do segundo Presidente, John Adams, acabaria por ser eleito Presidente. 

 

Nestas eleições, que se destinavam a substituir o Presidente James Monroe, candidataram-se quatro políticos, todos do Partido Republicano-Democrático, já em profunda desagregação: John Quincy Adams, com um longo currículo de embaixador em países como a Holanda, Inglaterra, Prússia, Reino Unido e Rússia, Senador do Massachusetts e ainda Secretário de Estado durante os oito anos da Presidência Monroe; Andrew Jackson, herói da batalha de Nova Orleães contra os Ingleses em 1815, governador da Florida e ainda senador e congressista do Tennessee; Henry Clay, congressista do Kentucky e Speaker da Câmara dos Representantes; e por fim, William Crawford, Secretário da Guerra e do Tesouro durante os mandatos de James Monroe, embaixador na França e Senador pela Georgia. Quatro fortes candidatos que dividiram o apoio entre si, fazendo com que nenhum deles conseguisse ultrapassar os 50 por cento no colégio eleitoral. 

 

Como sempre na época, os candidatos representavam diferentes zona do país, e a campanha era feita sobretudo nos jornais, que eram amplamente partidários. Histórias deste período relatam graves acusações que os jornais lançaram contra os candidatos que não apoiavam, que certamente fariam corar as campanhas mais negativas da actualidade. Adams foi vilipendiado por ter uma esposa inglesa e por vestir-se mal, Clay foi chamado de bêbado e de viciado no jogo, Crawford apelidado de corrupto e Jackson foi acusado de ser um assassino.

 

No final das eleições, Andrew Jackson ficou à frente com 151.363 votos e 37,9 por cento do colégio eleitoral e John Quincy Adams com 113.142 votos e 32,2 no colégio eleitoral. Os outros dois candidatos ficaram com perto de 15 por cento em ambas as votações. Segundo a 12ª Emenda, e repetindo a situação de 1800, a decisão passou para a Câmara dos Representantes, onde cada estado tinha um voto. E foi aí que terá acontecido aquilo que ficou conhecido como o "acordo corrupto". Na primeira votação, Clay foi afastado e decidiu apoiar John Quincy Adams, seu colega na Administração Monroe. Nunca foi provado que Clay realizou algum acordo, e até era conhecida a profunda antipatia que nutria por Jackson, quem ele considerava populista e perigoso para os interesses da União. Mas a verdade é que foi depois Secretário de Estado na Administração Quincy Adams. Os jornais da época da oposição fizeram grande escândalo sobre o eventual acordo, e estas eleições marcariam também o inicio do actual Partido Democrata, fundado depois destas eleições por Andrew Jackson, que viria a derrotar Jonh Q. Adams em 1828. As suas palavras sobre Clay ficaram registadas para a eternidade: "The Judas of the West [Clay] has closed the contract and will receive the thirty pieces of silver."

 

Estas eleições foram também um importante marco na história eleitoral americana. Pela primeira vez, um número bastante considerável de estados recorreram ao voto popular (ainda que com as restrições da época) para eleger o Presidente (18 em 24 estados). Até aí, a maioria escolhia o colégio eleitoral através das assembleias estaduais. Aliás, dizem os historiadores que se não fosse esta votação popular, provavelmente o eleito teria sido William Crawford, o preferido do establishment da altura.


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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