04
Mai 16
publicado por Alexandre Burmester, às 15:25link do post | comentar | ver comentários (3)

 

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E, finalmente, o adjectivo "inevitável" aplica-se sem discussão a Donald Trump. Ao vencer a primária do Indiana, um estado, do ponto de vista teórico,  geográfica e demograficamente adverso às suas pretensões, e por uma clara margem de 53%-37% sobre Ted Cruz, Trump terminou efectivamente com a discussão, e Cruz, inclusivamente, retirou-se da corrida.

 

No último mês, mas particularmente nas duas últimas semanas, houve uma clara deslocação de intenções de voto entre os republicanos para o magnata dos casinos. Até à primária de Nova Iorque, a 17 de Abril, Trump nunca conseguira atingir os 50% dos votos, pelo que se argumentava que ele tinha um limite entre os 35% e os 40%, e que era beneficiado pelo facto de não enfrentar uma oposição unida, o que era verdade e tinha especial incidência nos estados que atribuem a totalidade dos seus delegados ao vencedor da respectiva primária . Pode argumentar-se que Nova Iorque e os cinco estados que votaram na semana passada faziam parte do hinterland de Trump, em particular Nova Iorque, seu estado natal e de residência. Mas o Indiana é um caso completamente diferente.

 

A que ficou, então, a dever-se esta súbita mudança de uma parte substancial do eleitorado republicano? A primeira, e mais óbvia, explicação, é esse eleitorado ter-se finalmente rendido à mensagem e discurso de Trump. Será uma explicação óbvia, mas não me parece a mais provável ou a mais importante. É difícil tanta gente mudar de opinião em tal matéria em tão pouco tempo. Provavelmente, outros factores tiveram mais peso. Desde logo, a famosa dinâmica da campanha, o momentum. Não só Trump venceu os seis estados atrás referidos, como o seu principal opositor ficou em terceiro em cinco deles. Nesta fase das primárias, ficar em terceiro não é propriamente a maneira mais fácil de mobilizar o respectivo eleitorado. E a percepção da dinâmica de uma competição é muito importante. Ted Cruz terá errado ao empenhar-se pouco nas campanhas nesses estados, pensando que os eleitorados de primárias posteriores seriam imunes aos respectivos resultados. Porque não há muitas dúvidas de que, se a primária do Indiana tivesse tido lugar há três semanas, por exemplo, Trump dificilmente a teria ganho e, muito provavelmente, tê-la-ia perdido, tal como perdera, e com clareza,  no Wisconsin. A juntar a isto, temos o cansaço do eleitorado com o arrastar da decisão sobre quem seria o candidato republicano e, talvez mais importante, a aversão de muitos a uma convenção disputada, especialmente a uma na qual o candidato com mais votos e delegados poderia vir a ver-lhe negada a nomeação. E as notícias sobre a luta surda na angariação de delegados, na qual o campo de Ted Cruz estava a ser muito bem sucedido, podem ter criado no eleitorado a sensação de que a importância dos seus votos estava a ser secundarizada, em favor dos jogos de bastidores.

 

Seja como for, e embora Trump esteja ainda aquém da maioria dos delegados vinculados, isso trata-se agora de uma questão académica. John Kasich, curiosamente, ainda nada disse sobre o resultado de ontem, mas mesmo que se mantenha na corrida, não se afigura que consiga travar a marcha imparável de Trump para a nomeação automática.

 

A questão agora será essencialmente até que ponto os republicanos, muitos dos quais detestam Trump visceralmente, serão capazes de se unirem em torno da sua candidatura. O único factor capaz de conseguir tal feito será o nome da candidata democrática, a qual atinge níveis de repulsa entre o eleitorado republicano que, em comparação, fazem de Trump popularíssimo. Diga-se que não há memória de dois candidatos com índices negativos tão grandes entre o eleitorado geral.

 

Finalmente, a habitual palavra para Bernie Sanders, cuja campanha insurreccional não tem tido o devido destaque, principalmente por causa do inusitado fenómeno-Trump. Mais uma vez desafiando as sondagens, Sanders venceu o Indiana (53%-47%). E há dias garantiu que a convenção democrática será uma convenção contestada, pois não está disposto a abandonar a corrida, e o grande número de super-delegados na convenção democrática está a impedir a antiga Secretária de Estado de garantir a maioria antes da convenção, devido também, claro, ao forte desempenho de Sanders.


28
Abr 16
publicado por Alexandre Burmester, às 16:33link do post | comentar

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No domingo passado, as campanhas de Ted Cruz e John Kasich anunciaram uma espécie de acordo com especial incidência na primária do Indiana no próximo dia 3 (o acordo também se estende ao Novo México e ao Oregon, mas a atribuição proporcional de delegados nesses dois estados torna-o menos importante aí). Essa súbita aliança foi por muitos interpretada como sinal de desespero das duas campanhas nos seus esforços em barrarem o caminho a Donald Trump.

 

Entretanto, tiveram lugar cinco primárias em estados do Nordeste, todas ganhas por Trump com larga vantagem. Nada de imprevisível sucedeu nessas eleições, mas a "narrativa" é sempre influenciada pelos resultados eleitorais, com a tendência e tentação dos media em utilizarem adjectivos como "inevitável", "imparável", etc., para descreverem a campanha do vencedor.

 

E ontem, num comício em Indianapolis, Cruz sacou, digamos assim, um coelho da cartola: numa acção sem precedentes a esta distância da convenção, especialmente para um candidato que não lidera a corrida, anunciou Carly Fiorina como sua escolha para candidata a Vice-Presidente, no caso de ser ele o nomeado republicano.

 

É fácil classificar esta iniciativa como "desesperada" (o que não quer dizer que o não seja, claro), mas será mais interessante tentar analizar-se o que Fiorina poderá trazer ou não à campanha de Cruz. Foi CEO da Hewlett-Packard (com um desempenho sobre o sofrível, segundo muitas opiniões), candidata derrotada ao Senado pela Califórnia em 2010 (estamos, contudo, a falar de um estado cada vez mais dominado pelos democratas) e foi um dos inúmeros candidatos republicanos no início das primárias deste ano. Nos debates, deixou boa impressão e foi um dos primeiros republicanos a atacarem Trump seriamente (também tinha sido uma das primeiras vítimas da língua viperina do bilionário novaiorquino, diga-se). Debate bem, tem uma visão positiva das coisas e é conservadora. Mas, tirando uns breves instantes depois dos primeiros debates em que participou, a sua popularidade nunca foi grande, e acabou por desistir depois de um desempenho fraco no New Hampshire. Em Março declarou o seu apoio a Ted Cruz, e desde então tem feito campanha pelo senador do Texas. E, claro, é mulher e é da Califórnia, e isso decerto terá pesado na decisão de Cruz, embora o peso de Fiorina no eleitorado californiana seja duvidoso.

 

Não creio que esta escolha possa ter algum peso importante na primária do Indiana, mas é possível que, apesar de tudo, algum venha a ter na da Califórnia, a 7 de Junho. Além disso, se Cruz for o nomeado republicano, Fiorina poderá ser útil na campanha contra Hillary Clinton, que poderá atacar sem correr o risco de imediatamente receber como resposta o epíteto de "sexista".

 

Richard Nixon, um homem que sabia muito destas coisas, disse um dia que um candidato vice-presidencial pouco pode favorecer uma candidatura presidencial, mas em contrapartida, pode prejudicá-la grandemente. Não me parece que Fiorina possa vir a cair na segunda categoria, mas quanto à primeira, estou com Nixon. Mas, essencialmente, a oportunidade da sua escolha tem em vista o que resta das primárias e a luta pela nomeação.


27
Jan 16
publicado por Alexandre Burmester, às 15:48link do post | comentar | ver comentários (1)

 

Comey-FBI-Portrait.jpg

 

 

 

A campanha republicana tem, por motivos óbvios, quase monopolizado as atenções, pelo menos até há pouco, já que, do lado democrático, até à subida do auto-proclamado socialista Bernie Sanders nas sondagens de Iowa e New Hampshire (poderá até vencer os dois estados, especialmente o segundo), a corrida parecia ir ser bastante monótona.

 

Mas Hillary Clinton tem um problema mais sério que Sanders nesta campanha, embora muita gente pareça não lhe dar o devido relevo. Trata-se da investigação de larga escala (cerca de 100 agentes estão nela envolvidos) que o FBI está a fazer ao caso da conta de email e servidor privados usados pela candidata enquanto Secretária de Estado. Recentemente, fugas de informação revelaram que o inspector-geral dos serviços de informações terá dito que há vários emails com a classificação mais secreta no alfobre das comunicações da candidata. Clinton tem vindo de explicação em explicação, alterando a sua versão à medida que novas revelações têm surgido. E há dias, perante a informação constante das referidas fugas, carregou claramente no botão de "pânico": culpou os republicanos. Esta é uma velha táctica "clintonesca", que remonta ao famoso caso-Monica Lewinsky, que ela inicialmente atribuíu a uma "vasta conspiração de Direita", expressão que entrou no léxico político.

 

Sucede, contudo, que o inspector-geral dos serviços de informações é um democrata nomeado pelo Presidente Obama e aprovado por um Congresso na altura dominado pelos democratas, e que James Comey, sendo embora republicano, foi nomeado por Obama para Director do FBI, e tem uma sólida reputação de integridade. Sucede, igualmente, que a investigação parece ter passado também a incluir as relações entre donativos feitos à Fundação Chelsea, Bill e Hillary Clinton e determinadas decisões do Departamento de Estado, quando Hillary era a Secretária. Claramente, a defesa da candidata cheira a desespero.

 

A investigação poderá perfeitamente terminar com uma recomendação do FBI no sentido de ser formulada uma acusação contra Hillary Clinton (há antecedentes nesse campo). Nesse caso, será o Departamento de Justiça (equivalente, grosso modo, à portuguesa Procuradoria-Geral da República) a decidir se avança ou não com uma acusação. Em última análise, seria uma decisão que caberia a Obama, pois ninguém está a ver a Secretária da Justiça Loretta Lynch a assumi-la sozinha. Isso seria, obviamente, um enorme dilema para o Presidente, que caso pressionasse, ou simplesmente aconselhasse, a sua Secretária da Justiça a não proferir uma acusação formal contra Clinton, seria decerto alvo de acusações de obstrução de justiça e favorecimento político. A defesa do Departamento de Justiça - Obama manter-se-ia decerto na sombra - seria, provavelmente, a de que não quereria interferir no processo político, neste caso, nada mais, nada menos, que uma eleição presidencial.

 

Seja como for, se o FBI recomendar que Clinton seja processada, independentemente da posterior decisão do Departamento de Justiça, isso será provavelmente um golpe fatal na candidatura. E mesmo que o FBI não faça tal recomendação, haverá sempre no ar a suspeita de pressões políticas, embora o perfil do Director-Geral seja uma boa garantia contra isso.

 

A tudo isto não serão estranhos os rumores de uma possível entrada na campanha do antigo Mayor de Nova Iorque Michael Bloomberg, antigo democrata, antigo republicano e actualmente independente. Esse assunto abordarei num futuro artigo.

 

 

Foto: James Comey, Director do FBI

14
Out 15
publicado por Alexandre Burmester, às 15:30link do post | comentar

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A "narrativa" das "classes palradoras" (tradução livre de "chattering classes") diz-nos que Hillary Clinton venceu o debate. Por acaso, a única amostra de opinião pública que até agora vi, diz que quem ganhou foi Bernie Sanders. Realmente, os debates eleitorais, seja onde forem, passaram a ser mais importantes pelo que os media depois deles dizem, que pelo que de substantivo neles possa ter ocorrido. Mas adiante.

 

Clinton teve, de facto, um desempenho firme, seguro e competente, embora por vezes ambíguo e evasivo. Convém, contudo, lembrar que a sua posição nas sondagens do campo democrático é bastante boa e que, na realidade, ela não precisava de deslumbrar. Jogava em casa. Acresce que um dos seus principais problemas, o caso dos e-mails, até lhe correu bem, quando Sanders, admitindo tratar-se de política fraca de sua parte, resolveu declarar que "o povo americano está farto do assunto do raio dos seus e-mails". O mesmo, claramente, não pensa Lincoln Chafee, que se referiu indirectamente ao caso, declarando, logo a abrir, "Eu não tenho escândalos. Eu sou honesto... Tenho padrões éticos elevados."

 

E-mails à parte, Clinton defendeu-se razoavelmente bem quando o moderador lhe perguntou, numa alusão à sua mudança de posição, no caso, entre outros, do acordo comercial Trans-Pacific Partnership, se ela diria tudo o que fosse necessário para ser eleita. Mas, como já referi, estava em casa, perante uma audiência de democratas que acham que só com ela terão possibilidades de manter a Casa Branca.

 

O estilo composto e disciplinado de Clinton é muito melhor em debates que o género mais comicieiro de Sanders, e isso notou-se bem ontem. Em questões caras aos corações liberais (em sentido anglo-saxónico), Clinton teve algumas afirmações que terão defendido o seu flanco esquerdo face a Sanders, mas que, numa eleição geral, a forçarão a mudar de posição (não que isso pareça constituir um problema para ela).

 

Uma palavra final para o apagado (em termos de sondagens) trio Martin O'Malley, Jim Webb e Lincoln Chafee: se estavam a contar com o debate de ontem para inverter as suas fortunas eleitorais, devem estar bem desiludidos a esta hora.

 

 


04
Fev 15
publicado por Alexandre Burmester, às 23:02link do post | comentar

 

Scott_Walker_primary_victory_2010.jpg

 

Como já aqui referi, e como parece evidente para a esmagadora maioria dos observadores, a corrida a seguir em 2016 será a republicana e não a democrática. Nesta última, Hillary Clinton deverá conseguir, com maior ou menor dificuldade, a nomeação, não se vislumbrando uma surpresa como a que, em 2008, a privou da candidatura democrática, contra todos os vaticínios dos "entendidos", note-se (entre eles os "tudólogos" portugueses, que já quase a aclamavam como presidente - não confundir com "presidenta", vocábulo mais comum no Atlântico Sul - ainda nem as primárias tinham tido início).

 

Do lado republicano, porém, a corrida promete ser muito competitiva. Ao contrário da "sabedoria convencional", a actual divisão e crispação entre os sectores mais "irredutíveis" do partido - a ala Tea Party/Direita Religiosa (duas coisas que por vezes se sobrepõem, mas que não são sinónimos, note-se) - e o "Establishment" do partido não constituem novidade alguma. Já em 1952, por exemplo, Dwight Eisenhower teve de enfrentar nas primárias o Senador Robert Taft, "Mr Republican", a voz do "partido profundo", sendo o general o candidato do "Establishment", e em 1964 o "partido profundo", na pessoa do Senador Barry Goldwater, prevaleceu sobre o "Establishment", personificado pelo Governador do Estado de Nova Iorque, Nelson Rockefeller. Digamos que, da II Guerra Mundial para cá, talvez o único candidato republicano que conseguia falar simultaneamente pelos, e para, os dois sectores do partido tenha sido Richard Nixon (e nessa sua capacidade uns viam a sua duplicidade inata, outros a sua argúcia política).

 

Mas voltemos à campanha que se avizinha. Claramente, há já um candidato preferido do "Establishment", o ex-Governador da Florida Jeb Bush, cujo apelido o atrapalha mais do que o ajuda, diga-se. Com o recente anúncio de Mitt Romney de que, definitivamente, não tentará uma terceira campanha presidencial, Bush tornou-se o favorito do "Establishment", embora, nesse sector, não possa descurar a personagem do Governador de New Jersey, Chris Christie. No campo oposto, perfilam-se, entre outros, o "invulgar" Senador Rand Paul - mais libertário que conservador - e o seu colega no Capitólio Ted Cruz. 

 

O "Establishment" prefere uma figura previsível, de preferência com experiência executiva - e daí a sua simpatia por Bush e Christie - e, acima de tudo, elegível; a ala Tea Party/Direita Religiosa prefere alguém com perfil "anti-Establishment", "anti-Washington" e que defenda os valores sociais e económicos conservadores.

 

Mas, no meio desta polaridade, surge um homem que pode, sem grande esforço, fazer a ponte entre as duas facções. Falo do Governador do Wisconsin, Scott Walker. Trata-se de um homem duas vezes eleito governador de um estado tendencialmente democrático - a úlima vez que o candidato presidencial republicano aí venceu foi em 1984 - e que, pelo meio, ainda teve de enfrentar uma "recall election", uma espécie de referendo a meio do mandato, que também venceu. Tornou-se popular à direita pela sua oposição bem sucedida aos sindicatos do sector público, pela sua rejeição do "Affordable Care Act", mais conhecido por "Obamacare", e pela sua posição contra o aborto, e,  para o mais pragmático Establishment, é um competente executivo que sabe equilibrar orçamentos, criar empregos e vencer eleições em terreno adverso.

 

A verdade é que, neste momento, Scott Walker lidera as sondagens no Iowa - onde tem lugar o primeiro escrutínio das primárias - a que não será estranho o facto de esse estado ser vizinho do Wisconsin. Mas, mais surpreendentemente, a mais recente sondagem no New Hampshire - palco da primeira primária propriamente dita - dá-lhe vantagem sobre Bush. 

 

Como todos os restantes presumíveis candidatos de ambos os partidos, Scott Walker ainda não é oficialmente candidato, mas o ímpeto parece irresistível. E, a esta distância, arriscar-me-ia a dizer que a grande luta entre os republicanos será entre ele e Jeb Bush.

 

 


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