01
Mai 12
publicado por Nuno Gouveia, às 23:32link do post | comentar

 

Barack Obama viajou hoje em segredo ao Afeganistão para assinar um acordo com o governo local sobre a presença americana no terreno após o fim da missão da NATO em 2014. Esta viagem surge no dia em que se assinala o primeiro aniversário da morte de Osama Bin Laden, uma das vitórias mais significativas da sua Administração. Obama lançou na semana passada um anúncio para retirar dividendos políticos do assassinato de Bin Laden, mas terá cometido o erro, ou talvez não, de atacar Mitt Romney, pois sugere que se candidato republicano estivesse na Casa Branca não teria tomado a decisão de mandar matar Bin Laden. Apesar de não haver nenhuma evidência que tal teria acontecido numa administração Romney, a equipa de Obama decidiu criticar o seu adversário neste tema. Não consigo decidir se essa foi uma boa opção, mas a verdade é que esta semana, quando se deveria estar a discutir sobretudo o mérito de Obama ter mandado eliminar o inimigo número um dos Estados Unidos, os media americanos passaram os dias a analisar se o ataque a Romney é justo ou não. 

 

Mas um sucesso Obama já parece ter garantido. Ao contrário de anteriores ciclos eleitorais, onde a política externa tem sido sempre uma área de vantagem para os republicanos, este ano poderá não acontecer o mesmo. Apesar de não ter sucessos visíveis em temas sensíveis como o Afeganistão, o Irão ou a Coreia do Norte, a morte de Bin Laden e o sucesso na perseguição movida à Al-Qaeda nestes últimos três anos, garantem a Obama alguma margem de manobra neste tema. E esta visita hoje ao Afeganistão, onde Obama elogiou o papel dos soldados na defesa da segurança dos americanos, é mais um passo nesse sentido.


06
Set 11
publicado por Nuno Gouveia, às 22:54link do post | comentar

George Friedman, CEO da Stratfor, analiza os últimos 10 anos e o esforço de guerra americano

 

9/11 and the Successful War

Yet there have been no further attacks. This is not, I think, because they did not intend to carry out such attacks. It is because the United States forced the al Qaeda leadership to flee Afghanistan during the early days of the U.S. war, disrupting command and control. It is also because U.S. covert operations on a global scale attacked and disrupted al Qaeda's strength on the ground and penetrated its communications. A significant number of attacks on the United States were planned and prosecuted. They were all disrupted before they could be launched, save for the attempted and failed bombing in Times Square, the famed shoe bomber and, my favorite, the crotch bomber. Al Qaeda has not been capable of mounting effective attacks against the United States (though it has conducted successful attacks in Spain and Britain) because the United States surged its substantial covert capabilities against it.

O historiador Niall Fergusson oferece uma visão da história alternativa, se o 11 de Setembro não tivesse sucedido. 

 

What If 9/11 Had Never Happened?

Let’s start in January 2001 and thwart the 9/11 attacks by having Condi Rice and Paul Wolfowitz heed Richard Clarke’s warnings about Al Qaeda. The game starts off well. Al -Qaeda is preemptively decapitated, its leaders rounded up in a series of covert operations and left to the tender mercies of their home governments. President Bush gets to focus on tax cuts, his first love.

But then, three years later, the murky details of this operation surface on the front page of The New York Times. John Kerry, the Democratic candidate for the presidency, denounces the “criminal conduct” of the Bush administration. Liberal pundits foam at the mouth. Ordinary Americans, unseared by 9/11, are shocked. Osama bin Laden issues a fierce denunciation of the U.S. from his Saudi prison cell. It triggers a wave of popular anger in the Middle East that topples any regime seen as too close to Washington.


01
Ago 11
publicado por Nuno Gouveia, às 18:00link do post | comentar

Uma bela reportagem na New Yorker, de Nicholas Schmidle, sobre a operação que culminou com a morte de Osama Bin Laden.


25
Jun 11
publicado por Nuno Gouveia, às 00:12link do post | comentar

O inicio da retirada anunciada esta semana por Barack Obama não satisfez ninguém, como tinha defendido aqui anteriormente. Por um lado, os sectores anti-guerra desconfiam desta retirada parcial, pois na data final prevista, em Setembro de 2012, ainda continuarão no terreno cerca de 70 mil soldados americanos. Mas aqueles que acreditam na missão, e são cada vez menos, acusam o Presidente de ceder perante timings eleitorais. Não terá sido por acaso que Obama escolheu aquela data, dois meses antes das eleições.

 

Relegando para segundo plano a questão política, se esta é uma guerra de necessidade, como Obama sempre defendeu durante a campanha eleitoral de 2008, não tem demonstrado empenhamento e convicção na condução da mesma. Não sendo ele um estratega militar, devia ter ouvido mais os conselhos dos militares. Em 2009, quando aumentou as forças em 30 mil soldados, não seguiu os pedidos que recebeu dos generais no terreno, que requisitaram mais 15 mil do que tiveram. Mais, apesar de lhe terem pedido para nunca impor um calendário para o inicio da retirada, por cálculos políticos, Obama sempre disse que o inicio seria neste Verão. A defesa da intervenção por parte do Presidente nunca foi convicta, parecendo ter receio de enfrentar a esquerda anti-guerra que ajudou a sua eleição. Se Obama acreditava realmente na missão no Afeganistão, e por vezes parece que não acredita, basta ouvir o discurso desta semana, então devia ter empregue o poder da sua retórica para explicar aos americanos o que está em causa e defender esta intervenção. Agora, que anuncia a retirada gradual dos soldados da "surge", vai mais uma vez contra a opinião dos generais. David Petraeus, provavelmente a figura mais venerada do exército americano das últimas décadas, criticou, com discrição, o plano de Obama, afirmando que pode colocar em causa os ténues sucessos alcançados no último ano. 

 

Para vencer uma guerra é preciso crença na missão, disposição para vencer as adversidades e ter coragem para ir contra a opinião pública em certos momentos. Se depois de 10 anos no Afeganistão, o Presidente dos Estados Unidos não acredita que o país pode ter sucesso, mais elaborar um plano de retirada. Continuar a lutar para ser derrotado é doloroso, caro para o país e injusto para os milhares de americanos que estão a combater. George W. Bush deu o exemplo quando contra grande parte da opinião pública e do seu próprio partido, avançou para a "surge" no Iraque em 2006 com David Petraeus. Pode-se acusar o anterior Presidente de muitos erros que cometeu, e foram vários, mas não o de nunca acreditar na missão. 


22
Jun 11
publicado por Nuno Gouveia, às 15:29link do post | comentar

 

Barack Obama anuncia esta noite uma substancial redução de tropas no Afeganistão até ao final de 2012. A previsão é que nos próximos 18 meses cerca de 30 mil militares abandonem o terreno, regressando aos números anteriores à "surge" decretada em 2009. Obama irá defender que a "surge" está a dar resultados na contenção dos Taliban e estabilização do país, pelo que é possível uma retirada gradual. Mas as notícias que chegam é os comandantes militares no terreno defendem que a retirada deve ser mais faseada, pois as conquistas são frágeis e reversíveis. Suspeito que esta decisão não agradará ninguém: os críticos irão dizer que é preciso retirar mais tropas, enquanto os apoiantes do esforço de guerra irão criticar Obama por não seguir a opinião dos militares. 

 

Esta decisão surge num momento complicado para a guerra no Afeganistão, a mais longa na história americana, com os índices de oposição mais elevados de sempre. Há quase dez anos com presença no Afeganistão, os americanos estão cansados desta guerra. Aproveitando o momento político, vários republicanos começam também a demonstrar sinais impaciência. Como sempre em política, a situação inverteu-se, e agora são mais as vozes republicanas que se insurgem contra a estratégia no Afeganistão do que democratas. Os que estavam contra agora ou estão a favor ou se calam, e os que sempre apoiaram os esforços, agora são os mais críticos da estratégia do Presidente. Um assunto quente para 2012. 


publicado por Nuno Gouveia, às 10:23link do post | comentar

O Senado confirmou ontem Leon Panetta como Secretário da Defesa, assumindo o cargo a partir de 30 de Junho. A votação unânime não deixa margem para dúvidas do apoio que recebeu dos dois partidos. O ainda director da CIA não vai ter vida fácil. Com as intervenções na Líbia, Iraque e Afeganistão, e a situação militar complicada no Paquistão e Yemen, este é provavelmente o cargo mais complicado da Administração Obama. Daí a importância deste apoio que recebeu no Senado. 

 

Panetta vai substituir Robert Gates, no cargo nos últimos quatro anos e meio. Apesar de tudo, penso que a história será favorável ao antigo colaborador das Administrações Reagan, H. Bush, W. Bush e Obama. Quando assumiu o cargo em 2006, a guerra no Iraque estava perdida e o Pentágono sofria uma grave crise de credibilidade. Durante os anos seguintes contribuiu para recuperar a credibilidade perdida, ajudou a implementar uma "surge" com sucesso no Iraque, salvando a face da Administração Bush, e ainda terminou o mandato com o sucesso da morte de Osama Bin Laden. No Afeganistão, a situação é mais complexa, mas conseguiu gerir bem a relação entre os militares e o poder civil, juntamente com a liderança de David Petraeus no terreno. O inicio da retirada anunciado ontem por Obama pode ser bom sinal para os próximos anos. Nos últimos meses foi lançando sérios avisos sobre a capacidade limitada dos Estados Unidos em se envolverem em novos conflitos, como aconteceu recentemente na Líbia. Particularmente, gostei do aviso que deixou aos parceiros da NATO este mês, quando alertou que esta organização poderá tornar-se relevante se não for levada mais a sério pelos países europeus. 


02
Mai 11
publicado por Nuno Gouveia, às 17:23link do post | comentar | ver comentários (3)

 

Como referi anteriormente, a relação com o Paquistão está cada vez mais perigosa. O anterior presidente Pervez Musharraf, aliado dos americanos, já veio dizer que este ataque é uma violação à integridade territorial do país. E não deixa de ser verdade, pois as autoridades do país não foram informadas do raide militar. Mas Obama não tinha outra solução, e até já o tinha avisado ainda durante a campanha presidencial de 2008. Num debate, penso que com Hillary Clinton, Obama tinha dito que se recebesse informações que Osama Bin Laden estava escondido no Paquistão, daria ordens às forças militares para o capturar ou matar. Foi precisamente isso que aconteceu. Pedir a colaboração aos paquistaneses significaria provavelmente que a operação não seria bem sucedida. 

 

Mas esta questão é problemática, pois há muitos anos que se conhece as relações próximas entre oficiais paquistaneses a a Al-Qaeda e os Talibans. O facto de Bin Laden estar instalado numa cidade com uma base militar, conhecida por ser a "West Point" paquistanesa, deixa pouca margem para dúvidas que estava a ser protegido por altos quadros do exército. As tensões, que nos últimos tempos tinham vindo a subir devido aos ataques dos Drones, entre os Estados Unidos e o Paquistão vão subir ainda mais. Mas ninguém espere uma quebra entre estes dois países. Um Paquistão nuclear e vizinho do Afeganistão é demasiado importante para ser deixado sem apertada vigilância. Esta relação é um dos grandes desafios da Administração Obama. 

 

Sobre esta captura, aconselho a leitura deste artigo da The New Yorker. (de onde retirei essa fotografia)


publicado por Nuno Gouveia, às 11:48link do post | comentar | ver comentários (6)

 

Foi neste tom que Obama comunicou a morte de Osama Bin Laden. Há poucas alturas em que o povo americano se une em relação a um tema. Raramente é por boas razões, mas a morte do líder da Al-Qaeda recolheu o apoio quase unanime da sociedade americana. Da esquerda à direita, todos se uniram para felicitar o Presidente e o exército americano por esta operação militar*. Barack Obama obteve uma grande vitória para a sua Administração e para os Estados Unidos. Não tenhamos dúvidas: ontem assistimos a um pedaço muito importante da história do século XXI. 

 

Osama Bin Laden era procurado pelos Estados Unidos desde a década de 90, mas depois dos atentados do 11 de Setembro transformou-se no inimigo número um do país. George W. Bush avisou que era procurado "morto ou vivo", mas nem sempre os serviços secretos americanos foram competentes. Apesar dos rumores que vivia em grutas no Afeganistão, Bin Laden foi morto numa vivenda no Paquistão. Pelas informações já disponibilizadas, sabe-se que a casa onde habitava foi construída em 2005 e que estava rodeada de fortes medidas de segurança. Os americanos chegaram a Bin Laden através da ajuda de informações recolhidas em Guantanamo há alguns anos. Depois de meses de planeamento, Obama deu ordens às forças especiais atacarem o complexo onde o líder da Al-Qaeda se escondia. Sabe-se ainda que Obama recusou o bombardeamento do complexo por Drones, pois preferiu uma operação terrestre para se obterem provas da sua morte. Na operação foram ainda mortas mais quatro pessoas, incluindo um dos filhos de Bin Laden. Nenhum soldado americano foi ferido ou morto. 

 

Esta morte terá sérias implicações na condução da política externa. A zona Paquistão/Afeganistão permanece como uma das grandes dores de cabeça para a Administração Obama. Durante anos, responsáveis paquistaneses garantiram que Bin Laden não vivia no seu território. Mas alguém acredita que vivia calmamente num complexo bem guardado numa cidade paquistanesa sem cobertura das forças de segurança ou militares? Não por acaso, os Estados Unidos conduziram esta operação em solo paquistanês sem informar as autoridades locais. A relação com este país está cada vez mais perigosa. 

 

Por outro lado, o desaparecimento de Bin Laden servirá como balão de oxigénio para prosseguir a guerra no Afeganistão. Além disso, com Bin Laden morto, poderá ser mais fácil trazer forças afegãs para o campo americano, a exemplo do que sucedeu no Iraque depois da morte de Musab Al Zarqawi. Na luta contra o terrorismo, isto significa uma poderosa vitória simbólica, mas na prática  cenário não se altera radicalmente. As operações da Al-Qaeda já não dependiam directamente de Bin Laden e está muito enfraquecida depois dos reveses que sofreu nos últimos dez anos. Mas é de esperar actos terroristas nos próximos tempos para "vingar" a sua morte. Por fim, será importante estar atento às reacções no mundo muçulmano. Bin Laden ainda é uma figura popular na rua árabe, e será interessante verificar como a sua morte será interpretada pelos líderes e populares.

 

Nota final para Obama: esteve perfeito na sua actuação como Comandante em Chefe. Além do plano por ele aprovado ter corrido na perfeição, teve a cortesia de informar previamente os Presidentes Bill Clinton e George W. Bush da morte de Bin Laden e a sua comunicação ao país foi efectuada no tom que se exigia. Não foi excessivamente triunfalista e alertou para os perigos que o país continua a enfrentar. Nota 20 para o Presidente dos Estados Unidos. Mas é extemporâneo, como tenho lido, afirmar que esta morte garante a sua reeleição. Se tivesse sido morto perto das eleições, a história seria outra. Mas a 18 meses das eleições gerais, poderá não terá grande impacto na opção de voto. Não tenhamos ilusões: a sua popularidade vai subir nas próximas semanas, mas daqui a uns meses, se os problemas na economia, no desemprego ou nos preços dos combustíveis persistirem, voltará a descer. Não foi por ter capturado Sadam Hussein, outra "besta negra" para o povo americano, que George W. Bush venceu as eleições e na altura das pessoas votarem, esse factor nunca esteve em cima da mesa. Agora provavelmente irá suceder o mesmo. 

 


 

 

*Li agora que a operação foi liderada pela CIA, com recurso a forças especiais.

 


04
Abr 11
publicado por Nuno Gouveia, às 10:30link do post | comentar

Há uns meses, um lunático chamado Terry Jones anunciou que ia queimar o livro do Corão, como forma de protesto contra o terrorismo islâmico. Agora, sem aviso, o Pastor da Florida queimou mesmo o livro sagrado do Islão. Num mundo globalizado onde a informação circula rapidamente, esta situação foi explorada pelos Talibans para lançar o caos no Afeganistão. Nestes últimos dias, acções de manifestantes, infiltradas por membros do antigo regime afegão, provocaram a morte de várias pessoas, entre eles, vinte funcionários das Nações Unidas em Mazar-i- Sharif. Os responsáveis militares no Afeganistão temem, e com razão, que este tipo de acções complique ainda mais a situação no terreno. E ninguém ficará surpreendido se mais violência irromper noutros países árabes. 

 

Isto demonstra duas situações complementares. Por um lado, o poder que um "maluco" pode ter no mundo. Mas também a intolerância que existe em certas partes do mundo islâmico. Já tínhamos tido uma evidência disso aquando do episódio dos cartoons dinamarqueses, com a violência que explodiu no mundo muçulmano. Vivendo nós (o mundo ocidental) em regime de liberdade de expressão, é inconcebível que exista poder na lei para impedir este tipo de situações. Se no caso dos cartoons, não vi mesmo nada de mal (afinal de contas, todos dias vemos caricaturas do género sobre outras religiões, nomeadamente sobre a cristã), neste caso, a acção é irresponsável e errada. No entanto, o lunático terá o direito de o fazer. É triste, perigoso e até mesmo demente, mas temos de nos preparar para este tipo de situações no futuro. 


16
Dez 10
publicado por Nuno Gouveia, às 22:26link do post | comentar

No dia em que foi conhecido o relatório sobre o Afeganistão, Obama mostrou-se satisfeito pelos resultados alcançados. O processo de retirada poderá começar mesmo em Junho do próximo ano, apesar dos progressos obtidos serem considerados frágeis e reversíveis pelos comandantes no terreno. Com mais de 100 mil soldados no Afeganistão, Obama bem precisa de apresentar um sucesso na política externa para enfrentar o duro ciclo presidencial de 2012. Os republicanos, que neste assunto têm sido os seus maiores apoiantes, não deixaram de recorrer a esta guerra, que já dura há nove anos, para demonstrar que Obama é frágil e incompetente na política externa. Por enquanto, as poucas críticas republicanas resumem-se ao estabelecimento de uma data de retirada.



17
Nov 10
publicado por Nuno Gouveia, às 14:17link do post | comentar

A Cimeira da NATO, que se realiza em Lisboa no próximo fim de semana, tem muitos assuntos na agenda. Um deles e talvez o mais relevante é o Afeganistão, onde a NATO tem milhares de militares no terreno. Sem solução à vista, e com a estratégia do general David Petraeus a demonstrar ténues avanços, Obama irá propor um plano que prevê a entrega da responsabilidade da segurança ao governo local em 2014. Isto é um sinal que os EUA já pensam na retirada, tentando imitar o plano de sucesso que foi implementado no Iraque. A grande dúvida é se essa retirada será acompanhada por um aumento da segurança e o fortalecimento do governo afegão.

 

As informações que existem indicam que a transição do controlo das diferentes províncias será progressiva e baseada nas condições no terreno, mais uma vez, a exemplo do que aconteceu no Iraque. No entanto ao estabelecer já uma data final de retirada, isso significa que haverá transferência de poderes, independentemente da melhoria ou não da situação militar. Obviamente que o plano de Obama irá ser aprovado em Lisboa, pois os seus aliados desejam, mais do que os americanos, um plano que termine com a intervenção no Afeganistão, a mais longa da história militar da Aliança.

 

O Afeganistão foi a guerra escolhida por Obama ainda durante a sua campanha eleitoral. Ao criticar a intervenção no Iraque, Obama sempre disse que o seu alvo primordial na luta contra o terrorismo seria neste cenário. Mas nesta estratégia, Obama contava com mais apoio dos aliados da NATO, algo que não aconteceu. O comprometimento dos europeus neste conflito sempre foi tímido, e com a situação no terreno a degradar-se nos últimos anos, Obama sentiu a necessidade de apresentar um plano de saída. Na próxima campanha presidencial, Obama não poderá apresentar aos americanos um sucesso no Afeganistão, e com este plano, pretenderá demonstrar que a sua Administração sabe como terminar esta guerra. O futuro dirá se esta retirada será uma cópia do que sucedeu no Iraque, ou, se pelo contrário, será uma repetição do Vietname em 1975, quando após a saída dos americanos, o país ficou entregue aos seus anteriores inimigos. Não há soluções fáceis para este conflito.



22
Set 10
publicado por Nuno Gouveia, às 16:18link do post | comentar

É publicado na próxima semana mais um livro de Bob Woodward, desta vez dedicado à Administração Obama. Já é um cliché afirmar que sempre que Woodward escreve um livro as Administrações tremem. Foi assim com os seus quatro livros dedicados aos anos Bush e não está a ser diferente com Obama. A credibilidade de Woodward já vem dos tempos em que, juntamente com Carl Bernstein, contribuiu decisivamente para revelar o escândalo Watergate. Mas Woodward já não é um jornalista solitário, fora do mainstream e que trabalha longe dos círculos de poder. Tal como nos livros sobre a Administração Bush, Woodward teve acesso aos corredores da Casa Branca, entrevistou os líderes do governo, incluindo Obama, e consultou documentos confidenciais. Daí que este livro seja considerado um relato fidedigno do que realmente aconteceu nos bastidores nos últimos 18 meses. E o que já saiu cá para fora não é muito abonatório para a condução da guerra.

 

Não é novidade nenhuma dizer que existem grandes divergências sobre a guerra do Afeganistão no núcleo restrito de Obama. O Vice-presidente Joe Biden, por exemplo sempre foi um opositor da escalada da guerra. Mas o mais preocupante é saber da falta de convicção que existe em relação a este conflito, quando Obama fez campanha em 2008 em favor desta guerra. Além do VP, o seu enviado ao Afeganistão, Richard Holbrooke, e o seu conselheiro especial para o Afeganistão, general Douglas Lute, mostraram-se bastante cépticos em relação à nova estratégia implementada no ano passado. Não acreditam que resulte. Pelo que se percebe, Obama apostou neste plano, não por ter acreditar que iria resultar, mas por dois motivos: não quis contrariar o que os militares aconselharam e devido às promessas que fez durante a campanha eleitoral. Apesar disso, como se sabe, demorou longos meses a decidir e acabou por aprovar um plano que não foi bem o que os militares no terreno elaboraram. Sabemos que um país não pode ter sucesso militar se não existir cobertura política. Se peças fundamentais da condução da guerra discordam do rumo seguido, como Hoolbroke e Lute, não deveriam ter sido afastados?

 

Neste livro é ainda afirmado que Obama teve de estabelecer uma data de retirada de dois anos porque não podia arriscar “perder todo o Partido Democrata”. Sabe-se que esse limite não é absoluto, e pelo menos enquanto Robert Gates for Secretário da Defesa, dificilmente o general Petreaus deixará de ter uma palavra a dizer sobre a retirada. Mas as coisas não vão bem no terreno, e se a Administração não está convicta do que está a fazer é correcto, dificilmente irão melhorar. Obama, que já enfrenta grandes problemas devido às suas políticas internas, arrisca-se a ter um ano de 2011 explosivo no Afeganistão, onde quer a manutenção das tropas ou a retirada gradual lhe causará sempre grandes problemas. Se não actuar com firmeza e convicção, seja a decisão qual for, dificilmente conseguirá convencer alguém. E apesar de não ser novidade nenhuma na política externa americana, critérios partidários não deveriam influenciar decisivamente opções militares.

 

Estas revelações explicam bem as divergências que existiram entre o anterior comandante no Afeganistão, General Mcchrystal, e Richard Holbrooke. Como é que é possível que estivessem dentro do mesmo barco, se um estava a implementar uma estratégia e outro discordava dela?

 


29
Jul 10
publicado por Nuno Gouveia, às 20:47link do post | comentar | ver comentários (1)

Depois das fugas de informação secretas publicadas no Wikileaks, a TIME tem esta semana na capa esta imagem polémica. A explicação está aqui. O título da reportagem também não deixa margem para dúvidas: "What Happens if We Leave Afghanistan". Numa altura em que a guerra tem vindo a perder popularidade, esta capa é importante para o governo americano.

 

Uma coisa boa já sucedeu com esta capa: a jovem que foi desfigurada pelos Talibãs está protegida em local incerto e irá deslocar-se aos Estados Unidos para realizar uma cirurgia plástica.


26
Jul 10
publicado por Nuno Gouveia, às 15:55link do post | comentar | ver comentários (6)

Hoje vários jornais publicaram informações retiradas de documentos secretos sobre a guerra do Afeganistão, que têm origem no site Wikileaks (que está offline). Este site é mantido por voluntários e destina-se a publicar provas que são fornecidas por fontes anónimas de actividades do governo. Tornou-se mundialmente famoso depois de colocar online um vídeo onde era mostrado um ataque de forças americanas no Iraque, no qual morreram dois jornalistas da Reuters. Tenho algumas dúvidas da legitimidade da publicação de algumas das informações, pois, além de poderem colocar em risco os militares no terreno, podem causar problemas à condução da(s) guerra(s). Mas elas aí estão, e o governo americano não tem legitimidade (e ainda bem) para impedir a sua publicação. São uma nova realidade que têm de enfrentar. A solução passa por "perseguir " e prender quem comete os crimes de divulgar as informações secretas.

 

Adenda:  o comentário de Mark Halperin


23
Jun 10
publicado por Nuno Gouveia, às 20:18link do post | comentar

Depois do que relatei ontem, Barack Obama destituiu Stanley McChrystal do comando das forças americanas no Afeganistão. O sucessor já está escolhido: David Petraeus, responsável pela "surge" no Iraque. Obama resolve bem este problema causado por McChrystal, e ao escolher Petraeus, dá um sinal claro que não está pronto para capitular no Afeganistão.


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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