Num excelente post, o Nuno Gouveia considera negativo o facto de os Democratas estarem a dar demasiada importância às questões sociais, nomeadamente o aborto, numa altura em que os americanos estão sobretudo preocupados com a economia. Dou-lhe toda a razão neste último ponto, mas não estou certo quanto à premissa geral de que o tema do aborto seja pouco relevante nesta eleição. Por três razões fundamentais.
1) Não é absolutamente rigoroso dizer que "a maioria dos americanos considera-se pro-life". Os estudos da Gallup, realizados desde 1995, mostram que houve na verdade uma maioria de eleitores "pro-choice" durante os anos 1998-2008, tendo-se a situação invertido ligeiramente apenas em anos recentes (2012: pro-life 50%, pro-choice 41). Todavia, ainda em 2011 a sondagem Gallup dava vantagem aos "pro-choice" (49-45%)...
2) Por outro lado, a questão do "aborto" não se joga apenas na dicotomia "pro-life" vs. "pro-choice". Embora ausente do "programa oficial" do Partido, a ideia de que o aborto deve ser proibido em qualquer caso (incluindo violação e incesto) vem sendo defendida publicamente por várias figuras relevantes (Michelle Bachmann, Sarah Palin, Todd Akin, etc.). Ora, esta é uma posição fortemente rejeitada pelo povo americano, sendo apenas defendida por 20% dos eleitores. É pois natural que os Democratas explorem o tema, procurando associar o Partido Republicano a tal visão radical e impopular do aborto.
3) Por fim, uma vez que os resultados no "tópico forte" das eleições (economia e emprego) não são propriamente favoráveis aos Democratas, é lógico que estes irão procurar levantar outros temas como o aborto ou a política externa, descentrando assim o debate. Curiosamente, durante muitos anos foram os Republicanos a usar esta técnica e a apelar justamente a estas questões (vide Bush vs. Gore/Kerry). Ironias da política...