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Jan 10
publicado por Nuno Gouveia, às 15:52link do post | comentar

O terreno político é fértil em situações destas, e rapidamente alguém que representa a esperança para milhões dos seus cidadãos se transforma num ser desprezado e ignorado. Nos Estados Unidos, talvez pelos seus cidadãos terem o hábito de ver nos políticos algo mais do que um ser humano, tendem a enfrentar casos destes mais regularmente que outros países. A relação de amor que criam com os seus apoiantes favorece estes ódios que se criam contra os políticos. Ainda recentemente, o popular governador de Nova Iorque, Eliot Spitzer, caiu na praça pública em directo, depois de conhecidos os seus affairs com prostitutas. Gary Hart, um dos favoritos à nomeação presidencial democrata de 1984, abandonou a corrida depois de lhe ser conhecida uma relação extra-matrimonial. Nada de novo, portanto.


John Edwards apenas entrou na politica em 1998, quando foi eleito senador pelo conservador estado da Carolina do Norte. Antes tinha feito fortuna como advogado de consumidores contra grandes empresas. Desde 2000 que começou a visitar regularmente o Iowa, e a sua ascensão fulgurante no Partido Democrata rapidamente o transformou num potencial candidato presidencial. Em 2004 candidatou-se à nomeação democrata, e apesar de apenas ter vencido uma primária, na Carolina do Sul, causou boa impressão e foi escolhido por John Kerry para seu parceiro no ticket.

 

Retirado do Senado em 2004, John Edwards começou imediatamente após a vitória de Bush-Cheney a preparar nova candidatura para 2008. Nesta campanha, John Edwards surgiu como o candidato da esquerda do Partido Democrata, assentando a sua campanha na reforma da saúde, na erradicação da pobreza e contra a guerra do Iraque (que ele tinha votado a favor). Ao mesmo tempo, o cancro que afectava a sua esposa, Elisabeth Edwards, foi sendo habilmente relatado na imprensa. A sua campanha apostou numa vitória no caucus do Iowa para obter a nomeação, mas este não era o seu ano. Os ventos da história sopravam para os lados de Barack Obama. Depois de um segundo lugar no Iowa, à frente de Hillary Clinton, Edwards ficou em terceiro lugar nas restantes primárias do mês de Janeiro, e retirou-se no ainda antes da superterça-feira.  Apesar de nova derrota, o politico da Carolina do Norte ainda fazia parte do imaginário dos democratas, fazendo lembrar os tempos em que fora considerado um novo JFK. O visual, o carisma e discurso cativante faziam parte do seu esplendor.  Nesses longos meses em que Barack Obama e Hillary Clinton se digladiaram pela nomeação, o nome de Edwards pairou sempre sob o espectro de ser novamente escolhido para candidato a Vice-presidente.

 

Mas no Verão a bomba rebentava: durante a campanha das primárias, Edwards manteve uma relação com uma assessora da sua campanha. Para um politico que tinha feito dos valores familiares um elemento central da sua vida, esta situação era inaceitável aos olhos dos americanos. E soube-se na altura que esse facto já tinha sido descoberto por alguns jornalistas, mas que perante ameaças da sua equipa de campanha, tinham recuado na notícia. Nunca mais Edwards foi o mesmo: esquecido pelos colegas democratas, nem sequer foi convidado para ir a Denver à Convenção Democrata. Mas o pior para Edwards estava para vir.

 

Quando foi relatada a relação com a assessora, Edwards confirmou o caso, mas desmentiu que o filho fosse dele, dizendo até que era impossível que tal fosse verdade. Mais, Andrew Young, um conselheiro de Edwards, assumiu a paternidade, desligando os holofotes dos media nessa altura. Com um pedido de desculpas em prime-time, o antigo candidato presidencial pensava que o caso estava morto e enterrado. Mas não estava.


Vai ser lançado em breve um livro de Andrew Young onde se prometem revelações escandalosas sobre a carreira politica de John Edwards e o seu caso com Rielle Hunter. Nesse livro, segundo relatos da imprensa americana, Edwards é descrito como um politico falso, obcecado com doações de campanha, uma fixação inaudita pelo seu cabelo e sendo autor de comentários abusivos sobre a campanha, nomeadamente contra os “fat rednecks” e as festas populares. E relata ainda que encontrou um vídeo de sexo entre Edwards e Hunter. Elisabeth Edwards não escapa com boa imagem, pois é descrita como tendo conhecimento de tudo, e que preferiu ignorar devido à sua ambição de ser Primeira-dama. É evidente que este é um caso de vingança do antigo conselheiro, e que coloca questões como o que deve ser público e privado. Mas nos Estados Unidos, esta divisão raramente tem lugar na vida politica, como se observou no caso de Mónica Lewinski.


Uma lição de vida para futuros pretendentes presidenciais. A vida privada tem consequências politicas, e os políticos americanos sabem disso. Ao passar dos limites, podem transformar-se rapidamente em patinhos feios. Se descobertas as contradições, as mentiras e a hipocrisia, estão finitos. Que este caso sirva de exemplo para o futuro. Não se pode apregoar uma postura em público, e fazer na vida privada exactamente o contrário. Foi esse o pecado original de Edwards.


A denúncia pública do carácter falso, dissimulado e mentiroso de certos políticos é essencial numa democracia aberta, onde os políticos são servos e não mestres (Jefferson, já agora). Quem não tem carácter em privado raramente o pode ter nas suas funções públicas. Não estamos a ver um Edwards ou um Clinton nos gabinetes a dizer para um colaborador cientes das suas tropelias pessoais algo do género: "Mike, tu conheces-me, sabes bem que tenho princípios e que jamais enganaria o povo americano sobre o estado da nossa economia ou sobre a tortura no Iraque" [exemplo sem pretensão representativa].

Os políticos não têm direitos acrescidos, têm sim responsabilidades acrescidas. A primeira delas e a honestidade face aos seus cidadãos.
Filipe Abrantes a 31 de Janeiro de 2010 às 04:23

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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