Um ano após terem uma conquistado uma maioria como há muito não se via nos Estados Unidos (Senado, Câmara dos Representantes e Casa Branca), a liderança democrata surge em grande dificuldades para suster o avanço dos republicanos. Enquanto os prognósticos para Novembro vão sendo cada vez mais catastróficos, com um repetição de 1994 a pairar sob o espectro politico, começam a surgir vozes incómodas dentro do Partido Democrata. Evan Bayh, Senador do Indiana, e que ontem recebeu sondagens negativas para a sua reeleição, apelou aos democratas para mudarem de politicas e aproximarem-se do centro. Uma congressista do Arkansas, que anunciou a sua retirada da reeleição, desferiu ontem um forte ataque a Barack Obama. Mas também surgem vozes de democratas, como Paul Begalla ou James Carville a apelar ao Presidente para continuar com a sua agenda e optar por uma estratégia mais agressiva para com os republicanos. Se o Partido Republicano se divide entre moderados e conservadores, mas por agora unidos contra o Presidente, no lado democrata há dois rumos antagónicos que disputam a liderança da agenda democrata.
Com vários democratas a anunciar a sua retirada (ainda ontem surgiram rumores que a senadora do Arkansas, Blanche Lincoln poderá desistir) e várias recusas para concorrer, no GOP o cenário é inverso. E as apostas viram-se para estados que ainda há pouco tempo seriam impensáveis. Em Nova Iorque, o antigo governador George Pataki pode mesmo avançar para tentar derrotar a substituta de Hillary Clinton, Kirsten Gillbrand, no Illinois o lugar que pertenceu a Barack Obama pode mesmo ser conquistado pelo republicano Mark Kirk e no Indiana, que ainda há duas semanas era considerado “safe” para Evan Bayh, pode haver reviravolta se o congressista Mike Pence* anunciar a sua candidatura. Com esta sequência de noticias, a própria maioria no Senado pode estar em perigo, o que apenas poderá acontecer se os republicanos recuperarem 10 lugares aos democratas. Algo muito difícil, mas que começa a ser discutido abertamente pelos analistas políticos. E na Câmara dos Representantes, seguindo a análise da vitória de Scott Brown no Massachusetts, tudo é possível, com os republicanos a necessitarem de conquistar 40 lugares.
Este cenário negro para os democratas deverá estar a ser analisado pela equipa de Barack Obama, que deverá anunciar o rumo que pretende seguir no discurso do estado da união. A minha previsão, e que poderá ser desmentida amanhã, é que Obama fará aquilo que tem marcado a sua carreira politica. Transmitirá vários sinais, tentando indo do encontro às criticas que tem recebido. Por um lado, irá sublinhar que não muda de rumo, nomeadamente na reforma da saúde. Mas também irá evidenciar alguns sinais que poderão agradar aos críticos. Tentará demonstrar que vai procurar consensos com os republicanos, e atacar algumas das razões da sua impopularidade: desemprego, estado da economia e intervenção federal na economia. A minha grande dúvida é se, com esta estratégia ambígua, poderá alcançar os seus objectivos.
*Adenda: Li agora que o congressista Mike Pence não se vai candidatar ao Senado. Isto pode não mudar muito, pois nas sondagens conhecidas ontem, o republicano John Hosteller também se mostrava muito competitivo em relação a Evan Bayh.