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Set 10
publicado por Nuno Gouveia, às 10:33link do post | comentar

Karl Rove esteve ontem à noite novamente na Fox News a "arrasar" a candidata Christine O´Donnell. Isso quer dizer que a sua análise na noite de terça não surgiu por acaso, como nunca acontece com ele. Rove entende os perigos para o futuro do GOP caso o tea party venha a comandar o processo de nomeação presidencial de 2012. Ao mesmo tempo que reforçava o seu papel na ajuda a candidatos como Ken Buck ou Sharron Angle, fornecia argumentos que não deixarão de ser usados pelos democratas na eleição do Delaware. Rove sabe o que faz.


http://online.wsj.com/article/SB10001424052748703743504575493651785072296.html?mod=WSJEUROPE_newsreel_opinion

e

http://online.wsj.com/article/SB10001424052748703743504575493953591176476.html?mod=WSJ_Opinion_LEADTop

Se não assinas o WSJ posso mandar-te os dois artigos por mail, um do daniel henninger outro um editorial
Helder Ferreira a 16 de Setembro de 2010 às 11:57

Excelentes análises. O editorial refere o que está em causa mesmo em causa nestas eleições.

O tea party apoiou bons candidatos (Joe Miller do Alaska, o Rand Paul e mesmo o Ken Buck) que deverão vencer, pois têm qualidades políticas e substância. Mas ao apoiar duas "maluquinhas", colocaram em causa a maioria do GOP no Senado. Isto do purismo ideológico é muito bonito, mas se querem por exemplo reverter a ObamaCare, irão precisar mesmo de muitos votos em Washinton. Fica o Partido Democrata a ganhar, que já conquistou um lugar devido a este purismo.

Quem é a segunda maluquinha?
H. a 16 de Setembro de 2010 às 16:31

Sharron Angle.

Okay.

A Angle é culpada de algumas excentricidades. Quem não é? E tem algumas posições políticas sobre o governo federal que são hoje algo incomuns, apesar de estimáveis. Mas é uma candidate íntegra e respeitável.

A outra, noutros tempos, estava a viver num hospício do Salvation Army.
H. a 16 de Setembro de 2010 às 17:05

Má gramática. Queria-se dizer: se os tempos fossem outros, estaria a viver num hospício..
H. a 16 de Setembro de 2010 às 17:12

Talvez tenha razão na comparação que faço entre as duas e talvez esteja a ser injusto com Angle. Mas já vi algumas entrevistas dela, aliadas a algumas declarações e posições no passado, nomeadamente as suas ligações à Cientologia, e não me parece uma boa candidata. Mas admito que estarei a exagerar :)

Meh. Eu achei que a questão da cientologia foi overplayed.

Tem razão nas entrevistas, mas... como o dizer? É mais uma questão de forma. A verdade é que a esmagadora maioria dos políticos não dão boas entrevistas. Nenhum deles é o George Steiner ou o Norman Mailer. E nem esses dariam tão boas entrevistas se tivessem de falar tantas vezes. A diferença é que estão treinados. Adquirem aquela sofisticação, aqueles maneirismos, as muletas de postura e retórica e, principalmente, a reputação que permite disfarçar os momentos de vacuidade e superficialidade (alguns têm esse dom inato, outros adquirem-no fora da política), intimidar e adormecer os entrevistadores (que, inconscientemente, deixam passar os momentos gotcha que não perdoam às Angles e Palins), tornar o que dizem mais "palatable" e evitar os faux pas. E quando os cometem, eles são desvalorizados e relativizados. Verá que o problema da Angle com as entrevistas passará com o tempo.

Mesmo a O'Donnell... não sei se já abordou este tópico aqui, a propósito destes candidatos Tea Party, mas todos nós sofremos, em maior ou menor grau, de um certo bias classista, ou normativo, quando avaliamos políticos. É suposto os políticos não se desviarem assim tanto de uma convenção, de um determinado tipo social - serem ricos e geralmente pouco estridentes. A O'Donnell é pobre, mas há tanta gente pobre. Há outros políticos que na idade dela viviam à beira da insolvência. Não tem uma profissão desde há uns anos para cá - concorre a eleições e vai falar à televisão. Mas não é exactamente isso, e nada mais, que tantos outros fazem? Têm é mais e melhores contactos. Se ela tivesse fortuna herdada, e gastasse 1% da renda numa fundação filantrópica da treta, ninguém se preocuparia com isso. Tem alguns pecadilhos financeiros? Só nas últimas 24 horas soube-se que o Rep. Rick Boucher comprou um carro com o dinheiro das contribuições da campanha e que o Nathan Deal está a um passo da falência pessoal e que mentiu sobre a dívida que tinha - duas situações que me parecem mais graves. Mentiu repetidamente sobre alguns aspectos da vida pessoal? Não se aproximou dos graus de mitomania do Kirk ou do Blumenthal, só para mencionar candidatos ao Senado neste ciclo. E isto para não mencionar casos bem mais sérios como, sei lá, o Gingrich ou o Rangel e tantos outros. Exceptuando a riqueza pessoal, as fraquezas da O'Donnell são as de muitos outros políticos (e de quase todos nós).

Creio que há aqui um claro double-standard. Li, acho que no Politico, uma peça em que se revelava que ela defendeu uma investigação à morte do Vince Foster e isso era apresentado como um delírio de lunática. Mas tanta fazia exactamente o mesmo há 15 anos. O WSJ fez o mesmo. A NR também. Eu também. Tantos políticos de carreira abordaram o assunto da mesma forma. Ou sobre as mulheres em West Point - era a opinião da maioria dos chefes militares na altura. Aposto que era a de muitos oficiais que hoje estão em lugares de chefia em teatros de guerra. E de muitos políticos. E agora é algo que desqualifica quem a apoia de ser eleito Presidente? Ou a posição sobre a masturbação. É a do catecismo. A maioria das pessoas inibe-se de tomar públicas essas crenças privadas, principalmente se estiverem envolvidas na política, devido ao poder da pressão social, nada mais.

A questão é mesmo de... padronização. Mas eu não sei se para os eleitores isso seria assim tão importante se não fosse a filtragem que a media e os pundits fazem. Suspeito que não. Acho que se não houvesse alguém a dizer-lhes, a maioria dos votantes, que tem mais que fazer que pensar em políticos, nem repararia nisso. Ela é fluente, tem a inteligência e cultura típica da maioria dos políticos, tem os pontos de vista de muitos outros. Falta-lhe aquela amenidade e pseudo-sofisticação conferida pelo berço, boas universidades ou pelos corredores do poder e dos negócios. Sendo por isso que nós a vemos como mais maluquinha que outros. É isso que a torna uma candidata "pouco credível". Mas a esmagadora maioria dos políticos nem repararia nessa suposta falta de credibilidade se não fosse bombardeado, por quem filtra os políticos, com esse dado adquirido. No futuro, com esse poder de filtragem a diminuir, se verá.
H. a 17 de Setembro de 2010 às 16:01

Ai ai, o Tea Party vem aí. o Tea Party vem aí.

Mainstream republicano e extrema esquerda estão de acordo.

Cuidado com O´Donnel quer uma emenda contra défices.
Carlos Novais a 16 de Setembro de 2010 às 12:04

O problema não são as ideias. No caso de O´Donnell, é mesmo ela.

Pois, sempre é mais iluminado ser tolerante com o aborto do que fazer uma campanha contra a masturbação (um comportamento totalmente voluntário). [estou a ser mauzinho...]

Conheço gente perfeitamente que é favor do aborto. Só conheço maluquinhos que pensam que a masturbação é adultério...
Nuno Gouveia a 17 de Setembro de 2010 às 15:41

No final, é o mainstream a reagir a candidatos que não dominam. Essa é a razão porque rejeitam qualquer espécie de populismo, mesmo quando tem boas características. Normalmente são os mesmos que quando o que parecia ser irrelevante acaba depois com sucesso, se apressam a juntar à nova ordem. Com Reagan passou-se mais ou menos isso, quando apareceu era "radical", ideológico", estava nas franjas do aceitável pela norma. depois foi o que se viu.

Já agora:

Pat Buckanan

Rockefeller Republicans
http://t.co/jAQZ60V

...Conservatives and tea party activists, however, had other ideas. They began to pick their own candidates. And, again and again, the Senate’s chosen were rejected in favor of tea party challengers who had the endorsement of Sarah Palin or South Carolina’s Jim DeMint.

Arlen Specter was rejected by the Pennsylvania GOP and left the party. Rand Paul routed Sen. Mitch McConnell’s man in Kentucky. Charlie Crist was challenged by Marco Rubio in Florida. Crist, too, departed. Sen. Bob Bennett was denied renomination in Utah. Sen. Lisa Murkowski lost her primary in Alaska to a little-known fellow named Joe Miller.

But Delaware was the stunner. Rep. Mike Castle, a former two-term governor who had been winning elections for 40 years, was a certain victor in November.

Challenger O’Donnell, however, ended all that.

Yet, though her conservative credentials are far superior to those of Castle, O’Donnell was made the object of a wilding attack by National Review and The Weekly Standard, Charles Krauthammer, who lashed out at Palin and DeMint for “irresponsbility,” and Rove, who on Sean Hannity’s show went postal as soon as the returns came in.
(...)

To the Republican establishment, tea party people are field hands. Their labors are to be recognized and rewarded, but they are to stay off the porch and not presume to sit at the master’s table.

And what O’Donnell did, with her amazing victory, is to imperil that establishment’s return to power. That is why these Republicans went ballistic.
Carlos Novais a 17 de Setembro de 2010 às 08:55

Comparar Reagan a O´Donnell, ou já agora, a Sarah Palin, é um insulto. A história é mesmo essa: Reagan foi governador de sucesso durante dois mandatos no maior estado da União antes de se candidatar à presidência. E outra diferença para alguns dos porta-vozes do tea party: Reagan era tolerante com os que pensavam diferente no partido, e a sua big tent incluía republicanos de toda a espécie, e não apenas os conservadores sociais. Gente que vinha da esquerda, os reagan democrats, republicanos pró-choice, etc. Este movimento parece não tolerar diferenças. Apesar de as vezes descerem à terra, como quando ajudaram a eleger o pró-choice Scott Brown no MA.

Este Pat Buchanan que está a criticar aqueles que saíram do GOP é o mesmo que se candidatou como independente em 1992 depois de perder as primárias republicanas? Não deve ser...

Uma coisa não deixa de ser curioso: a maioria do tea party defende as políticas neocons na política externa, e por exemplo, defende o patriot act. O que andam os libertários a fazer ao lado eles?

Ei, o grande apoiante de Reagan fui eu durante toda a sua presidência.

O que está em causa aqui não é a pessoa mas uma tendência, que é rejeitada pela ameaça que representa ao círculo estabelecido.

Denota-se sim pouca tolerância de facto, com esses principle conservatives ", mesmo com os que ganham.

A política externa é motivo de diferenças, umas grandes outras pequenas, mas existem uma brechas. Pelo menos existem poucos condições para ainda mais países a serem ocupados e democratizados à Napoleão. È mais uma questão de datas de retirada.

PS: Pat Buchanan teve na Administração de Nixon e de Reagan , e não precisa de credenciais como comentador, que é na verdade o seu melhor.
Carlos Novais a 17 de Setembro de 2010 às 16:22

Isto é tanga.

Não só o Buchanan tem pouca autoridade moral para criticar o Specter, mas enquadrar isto num combate establishment/anti-establishment é factualmente errado.

Bastará notar que o Rove é quem está a financiar e a organizar grande parte das campanhas da Angle, do Buck e do Rand Paul. Candidatos que também vieram da franja e do anti-establishment (up to a point...).

Eu nem creio que exista uma preocupação com os equilíbrios do poder interno como o Nuno Gouveia refere no post. No caso do Rove estou em crer que se a O'Donnell fosse candidata pelo Alabama e tivesse ganho a campanha a um tipo qualquer a reacção dele seria completamente diferente.
H. a 17 de Setembro de 2010 às 16:10

O Rove ao atacar a O´Donnell fê-lo, sobretudo devido a critérios eleitorais, porque sabia que com o Castle o lugar estava garantido. Além de estar a financiar essas eleições que refere, Rove também apoiou Marco Rubio logo no inicio dessa campanha eleitoral. Mas parece-me que o Rove, e muitos outros dentro do GOP, estará preocupado é com o que poderá acontecer nas primárias de 2012 caso nomeiem alguém que seja inelegível, como Sarah Palin, por exemplo. Isto é tudo muito bonito numa altura em que o descontentamento é enorme, mas numa altura de maior acalmia, este tipo de candidatos não tem a mínima hipótese em swing e blue states.

Nessa perspectiva as declarações seriam uma manobra maquiavélica? Uma forma de contribuir para a derrota da O'Donnell, de jogar pelo seguro. Para poder jogar o "I told you so" quando ela perder e utilizar o evento como uma espécie de vacina anti-radicalismo?

O problema dessa tese (que não digo que seja a sua), para lá da utilidade que se atribua à importância de argumentos tacticistas nas primárias, é que a O'Donnell será uma péssima escolha para servir de exemplo. Se eu fosse um apoiante da Palin nas primárias e fosse confrontado com esse argumento, responderia "Mas que candidato republicano pode ganhar o Delaware? Olhem é para a Angle no Nevada, o Rubio na Florida, o Toomey na Pennsylvania, o Buck no Colorado... candidatos do Tea Party que ganharam eleições em swing states! Também dizia que esses eram inelegíveis e depois viu-se. Não é com o Delaware que temos de nos preocupar, um republicano moderado também perderá lá".

Isso seria over-thinking. Ele está chateado por estar a investir tanto nas corridas senatoriais e ver um vencedor antecipado como o Castle, que para mais é amigo dele, ir assim pelo cano abaixo. E se calhar preocupado que a O'Donnell possa ser utilizada como proxy para atacar candidatos dele.

Mas concordo com o sentimento - este tipo de candidatos não tem a mínima hipótese em swing e blue states num contexto normal.
H. a 17 de Setembro de 2010 às 17:09

O problema de uma candidata como a O'Donnell, do ponto de vista dos conservadores, mesmo dos Tea Partiers, e numa perspectiva ideológica, é outro. É a falta de consistência, é não ser confiável. É ser propensa a sofrer da síndrome DeLay-Hastert, que também eram excelentes conservadores no papel. Para mim é isso que a diferencia de alguém como a Angle ou o Joe Miller, que têm um percurso consistente, um track record. Mas a O'Donnell foi sempre uma conservadora social de linha dura que nunca se preocupou com outras questões. Que apoiou o NCLBA. Foi uma "Bushie", uma fã do "compassionate conservatism", que recentemente se transformou numa ferverosa "constitutional conservative" depois da emergência do Tea Party.

Não é papaguear meia dúzia de bullet points que torna alguém num conservador. Se fosse eleita, quando as buzzwords mudassem ela também mudaria. Os outros também mudarão, farão concessões, mas resistirão mais tempo e não mudarão tão radicalmente.
H. a 17 de Setembro de 2010 às 16:23

Pode ser, pode não ser. Essa é uma perspectiva quase cínica e desencantada, pode ser realista a maior parte das vezes, mas em época de mudança nos seus estágios iniciais costuma falhar porque nunca as reconhece a tempo.
Carlos Novais a 17 de Setembro de 2010 às 16:28

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Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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