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Ago 10
publicado por Nuno Gouveia, às 23:13link do post | comentar

 

O dia de ontem foi marcado pelo "Restoring Honor" de Glenn Beck no Lincoln Memorial em Washington. Entre 500 mil e um milhão de pessoas, os números variaram conforme o meio de comunicação, mas pelas imagens que vi não há dúvida que foi um grande momento do Tea Party e do apresentador da Fox News. Isto voltou a colocar o movimento conservador nos escaparates dos jornais americanos e mundiais. E também Glenn Beck, o mórmon e popular apresentador da Fox News. Sendo uma máquina de fazer dinheiro, Beck tem caminhado nos últimos tempos numa outra direcção, colocando-se na linha da frente do movimento conservador. Várias vezes ele tem dito que não tem interesse na política partidária e que descarta qualquer candidatura, até porque, como ele diz, há gente bem melhor e mais capaz para ocupar os cargos públicos. Eu acho que tem toda a razão. Mas, e como provou o encontro de ontem em Washington, a sua capacidade de mobilização é fantástica, e será uma voz importante no futuro, se o desejar.  Até ao momento não se meteu em nenhuma corrida eleitoral deste ano, mas, vejo-o, por exemplo, a imiscuir-se na corrida presidencial de 2012, com consequências imprevistas. E não me parece que essa influência possa ser muito positiva para o GOP, ao ter em Beck um possível king maker. Mas é uma personalidade cujo percurso se deve acompanhar de muito perto.

 

E em ano eleitoral, o Tea Party vai ser fundamental para muitos desfechos, como já tem sucedido em várias primárias do Partido Republicano. Uma força que vai levar muitos congressistas e senadores até Washington. Mas, e como já fui dizendo por aqui, também tem/terá efeitos perversos para o GOP. A primeira consequência deste entusiasmo é encostar, em certos estados, o partido à direita. E se em alguns estados isso não acarretará grandes consequências, como no Utah ou Alaska, noutros poderá significar derrotas. A poucos meses de entrar nas primárias presidenciais, isso poderá transformar o processo de escolha republicano num concurso de quem é o mais conservador. Tudo poderá depender dos resultados de estados como no Kentucky, Nevada ou Colorado. Numa eleição em que o Presidente recandidato poderá estar vulnerável, isso pode prejudicar as suas hipóteses de vitória. A menos que surja um novo Ronald Reagan, que em 1980 derrotou Jimmy Carter pela direita, se o candidato republicano tomar posições demasiado à direita durante as primárias, dificilmente Obama será derrotado. Ou tornará tudo mais complicado. Há alguns potenciais candidatos que praticamente são inelegíveis, mas o que acontecerá se um destes for o nomeado?

 

Mas há uma coisa que muita gente não percebe sobre o Tea Party: algumas das posições que movimento defende são perfeitamente mainstream nos Estados Unidos. Há hoje um grande consenso na sociedade americana que o big government não serve os interesses do país e que é preciso regressar ao small government e ao fiscal conservatism. Muitos candidatos democratas de distritos conservadores estão a concorrer numa plataforma política assente nessa ideia, e alguns deles, estão mesmo a fazer campanha contra Obama/Pelosi/Reid. A América é maioritariamente um país de centro-direita, e Obama parece não perceber isso. Não é um socialista (um dos radicalismos do Tea Party é precisamente demonizar o adversário, e isso em política nunca é sensato nem sequer positivo) e talvez nem sequer um social-democrata à europeia. Mas tem governado demasiado à esquerda para a realidade social americana. Se Obama não tivesse avançado com a sua agenda reformista "liberal" e tivesse procurado governar ao centro, como prometeu durante a campanha, talvez este tea party nunca tivesse existido. O plano de estímulos, o défice federal e a reforma da saúde tornaram inevitável um movimento deste género. Glenn Beck não nasceu com Obama. Mas sem ele nunca se teria transformado nesta figura simbólica da América actual. Para o bem ou para o mal, Beck é uma criação de Barack Obama. Tal como o Tea Party.


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