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Ago 10
publicado por José Gomes André, às 22:08link do post | comentar

Os primeiros dezoito meses de Obama na Casa Branca, as perspectivas futuras do Presidente, o futuro eleitoral nos EUA e a política norte-americana em geral foram o tema de uma entrevista publicada há dias n"A Bola" (secção Outros Mundos), onde tive o prazer de responder a algumas questões de Germano Almeida (a quem gostaria de agradecer). Podem ler a entrevista completa aqui, mas deixo no blog alguns excertos:

 

"De um modo geral, Obama tem sido um Presidente reformista e corajoso, cumprindo a esmagadora maioria das suas propostas. No plano interno, obteve uma vitória histórica com a reforma da saúde, orquestrou uma importante reforma do sistema financeiro e fomentou alterações relevantes em áreas como o ambiente ou a educação. Também na política internacional julgo que tem seguido a abordagem correcta, promovendo uma aproximação política e económica com as denominadas potências emergentes (Rússia, China, Índia), isolando o Irão e procurando gerar diálogos com o “Islão moderado”. Em todo o caso, a sua Presidência fica também marcada pela sua incapacidade para superar a grave crise económica (e social) dos Estados Unidos, tema que, pela sua importância e carácter mediático, impede que se trace, até agora, um balanço claramente positivo do seu mandato.

"Se eleições fossem hoje, Obama corria mesmo o risco de não ser reeleito? Aparentemente, sim. A fragilidade da economia e os números do desemprego produziriam certamente muitos votos de protesto. E a base democrata não tem obviamente a mesma motivação de há dois anos atrás, pelo que Obama teria certamente dificuldades. Todavia, o Partido Republicano não tem neste momento um candidato forte capaz de discutir a eleição presidencial, estando demasiado dependente de nomes promissores, mas demasiado inexperientes (Sarah Palin, Bobby Jindal), ou consolidados, mas pouco entusiasmantes (Mitt Romney, Newt Gingrich). Nestes termos, Obama seria favorito – como julgo que acontecerá daqui a dois anos."


"[sobre a impopularidade de Obama] Em primeiro lugar, é importante contextualizar a vitória de 2008, que vem na sequência de uma Presidência falhada (de George W. Bush) e de um cansaço generalizado do eleitorado relativamente ao Partido Republicano. Por outro lado, dadas as colossais expectativas que envolviam a candidatura de Obama, é natural que o eleitorado sinta alguma desilusão ao fazer um balanço da sua Presidência. O problema não é tanto os erros ou incapacidades de Obama, mas o facto de se ter previamente difundido a ideia de que a sua chegada ao poder seria suficiente para corrigir radicalmente as injustiças e os problemas sociais e económicos."

"[ideologia de Obama] Contrariamente a mistificações que se difundiram sobretudo na internet e nos famosos programas de rádio americanos, Obama é acima de tudo um moderado. Nalgumas questões podemos encontrar no seu programa político maiores concessões à esquerda (temas de ambiente, política de saúde), mas existem desde logo “nuances” que tornam essa definição difícil (é o caso das questões ditas “sociais”, onde Obama não é de todo um “liberal” à americana – defende a pena de morte, por exemplo). Tal é particularmente visível em relação à política externa, onde Obama combina um internacionalismo de matriz claramente de Esquerda (na linha de JFK), com uma retórica nacionalista (habitualmente associada a outros quadrantes)."

"Se a economia demonstrar uma recuperação sólida (atenção aos números do desemprego, uma questão fulcral para a opinião pública americana), julgo que Obama não necessitará de jogar nenhum trunfo, bastando-lhe apresentar-se como um dos responsáveis dessa recuperação (ainda que a mesma não dependa totalmente dele, como é evidente). Se, ao invés, a economia não descolar, a alternativa é insistir numa agenda reformista em vários domínios (ambiente, imigração, energia) – como de certa forma tem sido feito – para atenuar a percepção negativa do “estado da nação” no campo económico e mostrar uma imagem de político resiliente em tempos difíceis. O que poderá ser suficiente para lhe garantir a reeleição."

Barack Obama é um presidente «reformista e corajoso» e com uma «abordagem correcta» na política internacional?! Sarah Palin e Bobby Jindal são «demasiado inexperientes»?! George W. Bush teve uma «presidência falhada»?! Eu diria, caro José, que a prioridade dada a estudos - meritórios, sem dúvida - sobre a formação dos EUA há mais de 200 anos fez com que você não esteja bem por dentro da realidade contemporânea do país. Deve ser também por isso que o Nuno Gouveia tem aguentado praticamente sozinho este blog nos últimos tempos. ;-)
Octávio dos Santos a 13 de Agosto de 2010 às 16:17

Meu caro, nem todos podemos ser anti-obamistas militantes como o Octávio! Tenho uma leitura diferente e justifico porquê. Concordaremos em discordar, suponho...

E fez bem em sublinhar o bom trabalho do Nuno, dado a minha vergonhosa ausência. Prometo tentar escrever mais vezes no futuro! :) Abraço!

Pode não ser para si, mas para mim chamar-me «anti-obamista militante» é uma desconsideração (para não utilizar uma palavra mais forte). Reitero-o: no Obamatório divulgo as informações e as opiniões que não são dadas, ou que são distorcidas, em órgãos de comunicação social portugueses (e até em blogs...); transmito factos incontestáveis e deles retiro ilacções inevitáveis. Dizer a verdade é ser «anti qualquer coisa militante»?

As «reformas corajosas» de Barack Obama, como a do sistema de saúde, são reprovadas pela maioria dos americanos; a sua «abordagem correcta» na política internacional tem-se traduzido também no desrespeito para com aliados tradicionais como o Reino Unido e Israel, e na «macieza» para com ditaduras como a cubana e a iraniana. O José tem, de facto, uma leitura diferente mas não justifica: porque Palin e Jindal são «inexperientes» - o que não é verdade, pois ambos eram (e são) muito mais experientes do que Obama quando este tomou posse como presidente; porque a presidência de George W. Bush foi «falhada» - eu demonstro precisamente o contrário, em artigo publicado no Diário Digital em 20 de Janeiro de 2009, e que constitui igualmente o tema da primeira entrada no Obamatório.

Concordar em discordar, sem dúvida... mas com exemplos comprováveis.

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