Os primeiros dezoito meses de Obama na Casa Branca, as perspectivas futuras do Presidente, o futuro eleitoral nos EUA e a política norte-americana em geral foram o tema de uma entrevista publicada há dias n"A Bola" (secção Outros Mundos), onde tive o prazer de responder a algumas questões de Germano Almeida (a quem gostaria de agradecer). Podem ler a entrevista completa aqui, mas deixo no blog alguns excertos:
"De um modo geral, Obama tem sido um Presidente reformista e corajoso, cumprindo a esmagadora maioria das suas propostas. No plano interno, obteve uma vitória histórica com a reforma da saúde, orquestrou uma importante reforma do sistema financeiro e fomentou alterações relevantes em áreas como o ambiente ou a educação. Também na política internacional julgo que tem seguido a abordagem correcta, promovendo uma aproximação política e económica com as denominadas potências emergentes (Rússia, China, Índia), isolando o Irão e procurando gerar diálogos com o “Islão moderado”. Em todo o caso, a sua Presidência fica também marcada pela sua incapacidade para superar a grave crise económica (e social) dos Estados Unidos, tema que, pela sua importância e carácter mediático, impede que se trace, até agora, um balanço claramente positivo do seu mandato.
"Se eleições fossem hoje, Obama corria mesmo o risco de não ser reeleito? Aparentemente, sim. A fragilidade da economia e os números do desemprego produziriam certamente muitos votos de protesto. E a base democrata não tem obviamente a mesma motivação de há dois anos atrás, pelo que Obama teria certamente dificuldades. Todavia, o Partido Republicano não tem neste momento um candidato forte capaz de discutir a eleição presidencial, estando demasiado dependente de nomes promissores, mas demasiado inexperientes (Sarah Palin, Bobby Jindal), ou consolidados, mas pouco entusiasmantes (Mitt Romney, Newt Gingrich). Nestes termos, Obama seria favorito – como julgo que acontecerá daqui a dois anos."
"[sobre a impopularidade de Obama] Em primeiro lugar, é importante contextualizar a vitória de 2008, que vem na sequência de uma Presidência falhada (de George W. Bush) e de um cansaço generalizado do eleitorado relativamente ao Partido Republicano. Por outro lado, dadas as colossais expectativas que envolviam a candidatura de Obama, é natural que o eleitorado sinta alguma desilusão ao fazer um balanço da sua Presidência. O problema não é tanto os erros ou incapacidades de Obama, mas o facto de se ter previamente difundido a ideia de que a sua chegada ao poder seria suficiente para corrigir radicalmente as injustiças e os problemas sociais e económicos."
"Se a economia demonstrar uma recuperação sólida (atenção aos números do desemprego, uma questão fulcral para a opinião pública americana), julgo que Obama não necessitará de jogar nenhum trunfo, bastando-lhe apresentar-se como um dos responsáveis dessa recuperação (ainda que a mesma não dependa totalmente dele, como é evidente). Se, ao invés, a economia não descolar, a alternativa é insistir numa agenda reformista em vários domínios (ambiente, imigração, energia) – como de certa forma tem sido feito – para atenuar a percepção negativa do “estado da nação” no campo económico e mostrar uma imagem de político resiliente em tempos difíceis. O que poderá ser suficiente para lhe garantir a reeleição."