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Mai 10
publicado por Nuno Gouveia, às 19:51link do post | comentar

Depois de uma terça-feira animada na política norte-americana, os dias seguintes não lhe ficaram atrás. E os protagonistas continuam a ser os mesmos. Presumo que não vamos ter muitos períodos mortos até 2012. Se até Novembro teremos as intercalares, logo depois começará a febre dos candidatos republicanos e a longa campanha para as presidenciais. Mas até Novembro temos dezenas de campanhas interessantes para seguir.


As sondagens da Pennsylvania e Kentucky não podiam ser mais favoráveis para os grandes vencedores de terça-feira. Joe Sestak, depois de meses a aparecer atrás de Pat Toomey, surge com uma vantagem de 4 por cento. É a esperada subida depois da vitória contra Arlen Specter. Mais surpreendente é a vantagem de 25 pontos que Rand Paul tem sobre Jack Conway, quando no último estudo apenas tinha mais um por cento que Conway.


Mas Rand Paul tem poucos motivos para sorrir. Quem acompanha a vida política norte-americana sabe que os libertários têm posições consideradas muito afastadas do mainstream político em algumas matérias. Paul não igual ao seu pai e até terá posições mais moderadas em determinados assuntos. Sem isso não teria obtido o apoio de algumas figuras de peso do GOP como Sarah Palin ou até Jim DeMint. Mas os últimos dois dias têm sido dominados pela sua posição ambígua sobre a lei dos direitos civis na década de 60. Paul manifestou algumas dúvidas sobre um aspecto da lei, que obrigava os estabelecimentos privados a não segregarem pessoas em função da sua cor. A lógica da sua defesa é que o Estado Federal não deve legislar sobre espaços privados (quem tiver interesse em observar a posição de Paul pode ver esta entrevista que deu a Rachel Maddow ontem à noite). Apesar das suas declarações que estaria ao lado de Martin Luther King nessa luta pelos direitos civis e contra o racismo institucional, Rand Paul não foi claro se votaria favoravelmente a lei se estivesse no Congresso na década de 60. Hoje Paul já clarificou que votaria a favor da lei, mas não sei se irá conseguir apagar a polémica. O próprio Jim DeMint já reprovou estas ideias de Rand Paul, e este assunto promete dar que falar nesta campanha do Kentucky.


Entretanto, Richard Blumenthal, candidato democrata ao senado pelo Conecticut, continua sob fogo devido às mentiras sobre o seu passado de veterano. A primeira sondagem publicada depois do escândalo indica muitos sinais de preocupação. Depois de vantagens de 30 pontos sobre os seus adversários, agora surge apenas com três pontos a mais do que Linda McMahon, a favorita republicana neste momento. E os media já descobriram pelo menos cinco vezes diferentes onde Blumenthal afirmou que tinha combatido no Vietname, quando na verdade nunca lá esteve devido aos seus pedidos de adiamento de incorporação. Não sei se irá conseguir sobreviver a este escândalo, mas este assunto não irá desaparecer da campanha tão cedo.


Rand Paul não manifestou dúvidas, disse claramente que o proprietário de um restaurante, apesar de achar que não terá interesse em fazê-lo, não devia ser obrigado a não discriminar os seus clientes pela raça (servir só brancos, por exemplo). Essa é uma posição clara. Liberal. Mas acredito que se venha a desdizer com o habitual politiquês. Não é tão honesto como o pai, é sabido.

Jim de Mint pode reprovar, está no seu direito. Não lhe dá é razão.
Filipe Abrantes a 20 de Maio de 2010 às 20:09

É uma posição bastante radical e desligada do que pensa a maioria do povo americano. E isso já levou o próprio Rand Paul a retratar-se.

"I think the south had failed and that the federal government did have a role in ending discrimination in all of these practices."

Sem a intervenção do Estado Federal, hoje ainda haveria universidades, cafés ou autocarros que segregavam as pessoas pela sua cor. Não conheço ninguém do Partido Republicano que pense desta forma. Só se forem os Paulites :)

"Não conheço ninguém do Partido Republicano que pense desta forma. Só se forem os Paulites"

Já não é ninguém então. E são cada vez mais, ao que tudo indica.

"Sem a intervenção do Estado Federal, hoje ainda haveria universidades, cafés ou autocarros que segregavam as pessoas pela sua cor."

Se forem privados não há nada a dizer. Como não há nada a dizer face a um dono de café que permita o fumo no seu estabelecimento. Ou bem que há prop privada ou então os bens são de propriedade colectiva...

""I think the south had failed and that the federal government did have a role in ending discrimination in all of these practices.""

Claro, formatando os jovens por exemplo através do ensino público ou através de leis contra a liberdade de expressão também tem um papel na mudança de mentalidades... O ponto é se há justiça nos meios usados nessa mudança. Não há, aqui. Rand Paul reconhece, com essa frase, o óbvio (leis têm consequências A e B). Agora isso não é retractar-se. Ele já reafirmou que o civil rights act tinha de bom acabar com a discriminação em instituições públicas, mas reafirmou também que discordava da extensão ao domínio privado.

Sobre a opinião ser radical. Para os liberais, radical é violar direitos de propriedade (só através de ameaça de extorsão e encerramento pela força de estabelecimentos). Em todo o caso, mesmo que a opinião de Rand Paul seja radical, acho que só o dignifica se ele continuar a mantê-la. Ou queres que se desdiga e viole a sua consciência? Não é isso que criticamos nos políticos (serem hipócritas tendo em conta cálculos políticos?). Se perder por isso, será uma derrota digna.

Não sei se são os todos os Paulites. Este Paul, pelo menos, não é favorável à revogação dessa medida e disse que aceita a intromissão do estado federal nesta matéria. Mau seria se um candidato que pretende representar o povo americano no Congresso quisesse regressar aos tempos da segregação racial.

E aliás, o Supremo Tribunal já declarou que é inconstitucional a segregação. Não são os libertários a favor da Constituição? Não percebo essa constante defesa da Constituição, e depois querem violá-la nesta matéria. O próprio Stossel disse naquela entrevista que era contra essa decisão do SCOTUS. São a favor da Constituição, mas apenas da sua interpretação. Isso faz-me lembrar um pouco os cristãos fundamentalistas e da sua visão utópica da Biblia

O ónus está em quem o colocou face a esta questão. Ele não cavalgou esta causa durante a campanha e bem sabes que são os democratas que andam a empolar a matéria.

Ele dizer que defende a liberdade dos proprietários é uma posição de princípio sobre a lei. Se diz que não a quer revogar, está a ser racional visto que ele não terá poderes para tal. (em todo o caso, acho que devia de ter mais coragem e assumir que é contra e que caso eleito se baterá contra ela)

A constituição defende o direito de propriedade. Resta aos defensores da lei demonstrar que a lei não viola esse direito. Os tribunais têm um valor prático, não teórico, e são ocupados com gente de diversos ideais políticos e visões da constituição.

Só não percebo isto. Dizes a Constituição defende o direito de propriedade. E quem é que tem legitimidade para interpretar a Constituição? Será o próprio SCOTUS ou uma certa corrente da sociedade americana? Eu dou mais credibilidade ao SCOTUS, apesar de saber bem de que forma é constituído.

Então a razão depende do tempo?

A mesma situação foi constitucional durante décadas e passou a ser inconstitucional porque o supremo o decidiu? Ou é ou não é, a meu ver.

Se X defende que a constituição defende Y, não é por Z desmentir X que este passa a ter mais ou menos razão.

De qualquer forma, a minha argumentação (e a de Rand Paul) é filosófica, ao nível dos princípios. Por o SCOTUS dizer uma coisa, não pode (nem deve) implicar que um político se cale ou mude hipocritamente as suas posições.

Parece que Rand Paul não concorda contigo :) Senão certamente defenderia a revogação dessa lei.

E mais: é o SCOTUS que faz a vigilância das leis.Mas claro, há sempre interpretações radicais da Constituição.

É verdade que se fosse coerente (com a sua posição sobre a liberdade dos proprietários) defenderia a sua revogação.

Mas penso que ele não o fazer é uma prova de moderação, algo muito apreciado por parte do mainstream republicano e democrata. Portanto não percebo porque é atacado (ou melhor, percebo bem demais).

Não necessariamente - ele pode achar que a parte boa é maior que a parte má.

Não. Isso é igual a dizer que os benefícios de uma invasão militar de uma ditadura podem ser superiores à manutenção do status quo. Se a invasão não se justifica, não se justifica esse tipo de ponderações subjectivas sobre consequências. Se Rand Paul defende que um proprietário deve poder fazer do seu estabelecimento o que quiser, NADA pode justificar que assine um papel contra esse direito. Votava Não, exigindo uma lei só para a não-discriminação nos sítios públicos ou subsidiados.

"A constituição defende o direito de propriedade. Resta aos defensores da lei demonstrar que a lei não viola esse direito."

Creio que há alguns liberais (no sentido de "libertarians") que defendem essa lei com o argumento de que muita segregação "voluntária" em empresas privadas era na verdade forçada pelas ameaças do Ku Klux Klan e dos serviços de higiene municipais (um restaurante que começasse a aceitar negros arriscaria-se a ser incendiado durante a noite ou a ser alvo de inspecções e multas por tudo e por nada) e, portanto, a proibição total da discriminação privada terá sido necessária para proteger, exactamente, os direitos de propriedade dos empresários que não queriam discriminar.

Ah, então quer dizer que obrigar 100% dos proprietários dos EUA é uma situação mais liberal do que essa situação que descreve (o KKK actua/va essencialmente no bible belt)? Curiosos liberais, esses.

De qualquer forma, criminalidade comum como ameaça ao uso de uma propriedade é o pão nosso de cada dia. Não tem nada a ver com uma lei que legitime autoridades judiciais e polícia (autoridades essas obviamente com muito maior poder efectivo do que meia dúzia de radicais do KKK) a perseguir e censurar proprietários.

"Sem a intervenção do Estado Federal, hoje ainda haveria universidades, cafés ou autocarros que segregavam as pessoas pela sua cor. "

Não sei se é assim tão certo - afinal, ainda antes do CRA já havia muitas instituições segregadas que se "de-segregaram"; penso que em grande parte do Sul a segregação em restaurantes, piscinas, bibliotecas, etc. acabou pela desobediência civil - os negros entravam em serviços só para brancos, eram expulsos, levavam porrada da policia, voltavam a entrar, etc. até que ao fim de algumas semanas ou meses o serviço em causo era aberto a todos

Todos este apoio republicano a candidatos Tea Baggers só vai beneficiar os Democratas, o eleitorado moderado e centrista não se revê nestes Tea Baggers e é esse mesmo eleitorado que decide as eleições.
Os Tea Baggers, tal como os Birthers, são apenas racistas que querem voltar para os anos 50, querem voltar para uma época que foi boa para os homens brancos mas que foi péssima para as mulheres, negros, judeus, etc. e isso é o grande problema do GOP, ao aliarem-se aos Tea Baggers e Birthers eles estão a alienar todas as minorias nos EUA, o que eles se esquecem é que dentro de poucos anos os brancos serão a minoria nos EUA, ainda há dias um dos principais líderes dos Tea Baggers veio a público dizer que os muçulmanos rezam a um deus macaco, está visto que inteligência e Tea Bagger não combinam, basta ver que duas das suas principais vozes são a Michelle Bachman e a Sarah Palin, esses dois supra-sumos da inteligência política.
HCarvalho a 21 de Maio de 2010 às 10:12

Bom, bom, é os republicanos defenderem as mesmas balelas económicas e imoralidades que os democratas, não é?

Bom é uma oposição construtiva e que ofereça alternativas e neste momento os Republicanos e os Tea Baggers não são isso, eles são o partido do Não, estão apenas interessados em impedir os Democratas de governarem, a única coisa que só sabem falar é Tax Cuts, isto apesar dos impostos estarem no seu valor mais baixo nos últimos 60 anos.
Todo e qualquer republicano moderado que apresente propostas credíveis é morto à nascença pelos Tea Baggers. Eu só espero que este movimento Tea Bagger leve a que a Pallin a vencer a nomeação republicana, isso significaria uma vitória esmagadora do Obama em 2012, semelhante à vitória do Roosevelt em 36 e Reagan em 84.

O objectivo dos liberais é acabar com a imoralidade, que muita gente apoia por motivos de agenda moral (gay, anti-família, teófoba, etc) ou por interesse financeiro próprio (parasítico).

Chamar teabagger a um liberal mostra bem a decência de quem o faz.

O problema aqui é que os liberais nos EUA são os democratas, os republicanos e Tea Baggers são conservadores. O movimento Tea Bagger é um movimento hipócrita, gritam contra os impostos enquanto os impostos estão no seu ponto mais baixo dos últimos 60 anos. Gritam contra o tamanho do governo mas não dizem nada do orçamento do Departamento de Defesa, este vídeo mostra bem a hipocrasia deste movimento republicano http://www.youtube.com/watch?v=if88PgI-vfU
HCarvalho a 21 de Maio de 2010 às 23:11

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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