17
Mai 10
publicado por José Gomes André, às 00:57link do post | comentar

A polémica lei do Arizona sobre imigração (de que o Nuno falou) tem suscitado um debate acerca dos efeitos futuros da imigração em massa na sociedade americana em geral. Uma das teses frequentes nestas discussões sublinha como a crescente onda de imigrantes oriundos da América Latina cria um "problema" para os Estados Unidos, no sentido em que ameaça a "identidade" do país, constituindo por isso um natural motivo de preocupação para os “americanos não-hispânicos”.

Discordo desta tese. O fenómeno migratório é evidentemente uma questão complexa, mas esta argumentação está longe de se adequar ao caso americano. A "identidade americana" não está em risco, muito simplesmente porque não existe uma "identidade americana" propriamente dita. Americanos, em rigor, são os poucos milhares de índios que sobrevivem em reservas, ou que se procuram adaptar ao “american way of life”, esse género de subsistência que os europeus transportaram nos seus barcos e implementaram no Novo Mundo nos últimos quatro séculos. Os outros, que o povoaram desde então, são um caldo étnico, cultural e religioso heterogéneo na sua essência. Um levantamento não exaustivo sobre a origem da população americana permite identificar ingleses, alemães, irlandeses, italianos, holandeses, portugueses, chineses, indianos e outros grupos asiáticos, já para não falar dos afro-americanos, grupos com crenças, costumes, tradições e prioridades obviamente plurifacetadas.

 

Não é portanto a identidade americana que está em causa, pelo menos na sua vertente étnica e cultural, mas sim a sua "identidade" social e económica. O "problema" de fundo na imigração compulsiva não é a existência de uns largos milhões de hispânicos num mundo americano putativamente homogéneo; é o aparecimento de uma massa demográfica significativa que pretende obter emprego com urgência, fixar-se socialmente, criar família e adquirir a cidadania americana. As vacas gordas da economia americana já lá vão. A enorme dependência do petróleo, a teimosa recessão mundial e o extraordinário peso do défice nos EUA abalaram a consciência americana. O surgimento contínuo de um fluxo impressionante de jovens hispânicos, dispostos a trabalhar por salários baixos e em condições menos favoráveis, coloca naturalmente um problema ao "sonho americano".

O verdadeiro desafio não é como pôr estes milhões de pessoas a cantar o hino e jurar fidelidade à bandeira, mas como integrar este grupo migratório numa estrutura económica e social solidamente implementada, estranha à maioria das pessoas que o compõe.

 


Se dizes que não existe "identidade americana" (independentemente disto ser ou não verdade) como podes dizer que a "consciência americana" foi abalada por A, B e C?

Pode-se ter consciência sem se ter identidade? ;)
Filipe Abrantes a 18 de Maio de 2010 às 22:51

Percebo o teu comentário, mas a resposta é simples:o termo "consciência" surge ali para definir uma reacção global da sociedade, que não pressupõe uma "homogeneidade" artificial, mas tão-só um sentimento comum que tem muito mais a ver com as prioridades da humanidade em geral (uma crise económica é temida por qualquer pessoa, qualquer que seja a sua "identidade"), do que com as particularidades ou possíveis "identidades" do tecido social americano.

Obrigado pela observação, meu caro, e um abraço!

arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


pesquisar neste blog