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Mai 10
publicado por Era uma vez na América, às 20:12link do post | comentar

O "Era uma vez na América" convidou-me para escrever um post, o que agradeço. Escolhi como tema a questão do "anti-americanismo" vs. "anti-bushismo".

Como se lembrarão, nos distantes tempos da presidência de G.W. Bush, uma discussão corrente na Europa (ou pelo menos, em Portugal) era uns (grosso modo, "a esquerda") a dizerem "nós não somos anti-americanos, somos é contra o Bush" e outros (essencialmente, "a direita") a responderam "É anti-americanismo; quando vier um novo presidente, ao fim de 6 meses estão também a dizer mal dele".

Eu, à época, até escrevi um post dizendo que não era anti-americano e que até admirava muitas coisas nos EUA ( a abertura aos imigrantes, a contracultura dos anos 60, os referendos frequentes, John Brown, Henry David Thoreau, Ralph Nader, Noam Chomsky, Wright Mills, Abbie HoffmanEdward Abbey, os mártires de Chicago, os IWW, etc.).

De qualquer forma, a atitude face a Obama parece indicar que afinal era mesmo só "anti-bushismo" - nomeadamente no aspecto que mais se criticava a Bush (a política externa e de "segurança nacional"), Obama tem seguido essencialmente o mesmo curso e continua intocável pela opinião pública/publicada europeia; e, embora se fale menos disso, também parece haver um endeusamento da sua política interna - já ouvi referirem-se a ele como tendo tido "a coragem de enfrentar as companhias de seguros de saúde" (obrigando os norte-americanos a serem clientes dessas seguradoras...).

Mas será que era mesmo só "anti-bushismo"? Penso que não - havia mesmo muito anti-americanismo (mesmo nos tempos do Clinton a poítica internacional dos EUA era muito mal vista em certos meios); eu tenho é uma teoria - paradoxalmente, Bush pode ter contribuido para reduzir o anti-americanismo no mundo (e sobretudo na Europa)!

Creio que havia um ritual entre os antigos hebreus de escolherem um bode (o bode expiatório), fazerem umas magias que transferiam os seus pecados para ele, e depois expulsavam o bicharoco (ou jogavam-no para um penhasco, ou coisa parecida), livrando-se assim dos seus pecados . Penso que aconteceu algo parecido com Bush: a sua imagem (real ou fabricada) correspondia tanto ao estereótipo que os europeus (sobretudo a “intectualidade”) têm dos americanos (segundo a qual eles serão "ignorantes", "brigões" e "texanos com chapéu de cowboy") que todo o sentimento anti-americano mantido durante décadas se concentrou nele em particular.

E, quando Bush se foi embora, o anti-americanismo foi com ele.


Miguel Madeira (blogger do Vento Sueste e Vias de Facto)


O anti-americanismo voltará logo no dia a seguir à eleição de um republicano anti-aborto, pró-pena de morte, unilateralista, que se proponha diminuir a fiscalidade dos mais ricos.
Filipe Abrantes a 4 de Maio de 2010 às 23:40

Mas se o "anti-americanismo" estiver dependente dum Republicano na Casa Brance, então não será "anti-americanismo" mas apenas anti-Republicanismo

Será? Não vejo ninguém (posso estar a ver mal...) a acusar os europeus anti-obama de antiamericanismo. Porquê então? Serão menos sectários? Não creio. Obama representa políticas e valores mais europeus (mal ou bem), Bush e o republicano médio representam mais a cultura americana (em geral, não em todos os aspectos - na imigração mais aberta não representam por exemplo).

Parece-me que a ideia de que Bush estaria ideologicamente mais alinhado com o "americano médio" do que Obama é um equívoco.

Na verdade, diferentes sondagens e estudos têm mostrado que AMBOS os partidos estão à direita da maioria do eleitorado.

Isto parece difícil de acreditar tendo em conta a forma como imaginamos que a democracia funciona. Se isto fosse verdade parece razoável imaginar que haveria enormes incentivos políticos para que ambos os partidos se posicionassem mais à esquerda. Isto esquece o funcionamento do sistema de financiamento partidário, que não por acaso é a grande prioridade dos movimentos (movimentos, não partidos) de esquerda.

O que acontece é que defendendo algumas medidas em prol de interesses económicos (chamemos-lhes "corporativistas"), mesmo que impopulares, é mais fácil encontrar financiamento essencial para vencer eleições (principalmente para o senado, mas também para a câmara dos representantes, e outras).

As medidas corporativistas não são necessariamente de direita, mas é mais fácil a um partido de direita mobilizar o eleitorado para as apoiar. Mesmo que alguns indivíduos da "direita honesta" como Ron Paul não alinhem, é muito fácil defender o interesse particular desta ou daquele empresa petrolífera ou de equipamento militar agitando as bandeiras da direita.

Assim, a estratégia republicana é a de defender ideias que, mesmo que impopulares por si, são mais facilmente coerentes com as medidas que depois se irão tomar para obter financiamento. Foi por isto que Bush não desiludiu: cumpriu quase tudo aquilo que se propôs fazer.

A estratégia democrata é mais subtil. Eles defendem ideias mais à esquerda, mais populares. Mas na hora de governar têm de tomar as mesmas medidas corporativistas que lhes fizeram obter financiamento em primeiro lugar. Como tal, apresentam-se como fracos e incapazes de contrariar o poderio republicano.
No fim, acabam por não fazer aquilo que haviam prometido, alegando incapacidade política, mesmo que as condições políticas sejam, por si, muito favoráveis.

Isto cria, entre aqueles que não conhecem em detalhe quais as políticas que cada partido defende, a ideia de que os republicanos são fortes e honestos, e fazem o que prometem; enquanto os democratas são fracos e desonestos. Ou seja, durante a administração Bush, muitos americanos preferiam o partido republicano ao democrata, mesmo que as ideias destes cidadãos estivessem muitas vezes à esquerda do partido democrata.

Claro que muita coisa se alterou com o desastre em que acabou a administração Bush. Não é por acaso que surge o Tea Party para capitalizar o sentimento de revolta dos que são politicamente mais desinformados (ironicamente fincancado pelo capital dos interesses corporativos protegidos contra os quais este movimento se diz revoltar...).
João Vasco a 31 de Maio de 2010 às 16:57

O que é ser anti-americano? Essa noção não é uma noção implicitamente totalitária. Essa noção não será uma noção cuja única função é envenenar o discurso e discussão política?

A sério que não percebo esta e semelhantes categorizações. Então criticar medidas tomadas por um governo, seja ele qual for, é ser contra todo um país.

Se assim for isso é mesmo muito estranho...
ateixeira a 7 de Maio de 2010 às 13:49

Aquilo que eu diria é que a própria tolerância para com os fracassos da administração Obama (como o de fazer uma reforma de saúde que é uma verdadeira "prenda de Natal" para as seguradoras, lutando contra a "public option" que era uma solução popular e politicamente exequível que defendia melhor o interesse público) acaba por reflectir um anti-americanismo que se mantém «tens de ver que os americanos são tão [insulto condescendente] que o Obama não podia fazer melhor».

Nesse sentido, não creio que o anti-americanismo tenha desaparecido com a vitória de Obama. A animosidade contra a actuação do GOVERNO norte-americano diminuiu bastante com a vitória de Obama, talvez por comparação com os excessos de Bush, mas em parte é sempre menor em governos democratas (que também fazem mais por isso). Mas no que diz respeito à visão europeia, algo arrogante e condescendente, em relação ao povo americano, ela mantém-se.

Devo, no entanto, alertar para o seguinte. Embora me pareça que a visão europeia do "típico americano" seja uma caricatura altamente distorcida do "Red neck", que nem sequer usa os mesmos critérios para julgar o "europeu típico" que ouve música pimba ou consome os produtos culturais norte-americanos, vistos como tão inferiores, não vou dizer que ela é completamente desprovida de fundamento. Afinal de contas, quando avaliamos o impacto que o criacionismo ou um canal noticioso como a Fox News têm nos EUA, é difícil não deixar de ficar um pouco satisfeito com algumas diferenças culturais que separam os EUA da Europa.
João Vasco a 31 de Maio de 2010 às 16:36

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