O "Era uma vez na América" convidou-me para escrever um post, o que agradeço. Escolhi como tema a questão do "anti-americanismo" vs. "anti-bushismo".
Como se lembrarão, nos distantes tempos da presidência de G.W. Bush, uma discussão corrente na Europa (ou pelo menos, em Portugal) era uns (grosso modo, "a esquerda") a dizerem "nós não somos anti-americanos, somos é contra o Bush" e outros (essencialmente, "a direita") a responderam "É anti-americanismo; quando vier um novo presidente, ao fim de 6 meses estão também a dizer mal dele".
Eu, à época, até escrevi um post dizendo que não era anti-americano e que até admirava muitas coisas nos EUA ( a abertura aos imigrantes, a contracultura dos anos 60, os referendos frequentes, John Brown, Henry David Thoreau, Ralph Nader, Noam Chomsky, Wright Mills, Abbie Hoffman, Edward Abbey, os mártires de Chicago, os IWW, etc.).
De qualquer forma, a atitude face a Obama parece indicar que afinal era mesmo só "anti-bushismo" - nomeadamente no aspecto que mais se criticava a Bush (a política externa e de "segurança nacional"), Obama tem seguido essencialmente o mesmo curso e continua intocável pela opinião pública/publicada europeia; e, embora se fale menos disso, também parece haver um endeusamento da sua política interna - já ouvi referirem-se a ele como tendo tido "a coragem de enfrentar as companhias de seguros de saúde" (obrigando os norte-americanos a serem clientes dessas seguradoras...).
Mas será que era mesmo só "anti-bushismo"? Penso que não - havia mesmo muito anti-americanismo (mesmo nos tempos do Clinton a poítica internacional dos EUA era muito mal vista em certos meios); eu tenho é uma teoria - paradoxalmente, Bush pode ter contribuido para reduzir o anti-americanismo no mundo (e sobretudo na Europa)!
Creio que havia um ritual entre os antigos hebreus de escolherem um bode (o bode expiatório), fazerem umas magias que transferiam os seus pecados para ele, e depois expulsavam o bicharoco (ou jogavam-no para um penhasco, ou coisa parecida), livrando-se assim dos seus pecados . Penso que aconteceu algo parecido com Bush: a sua imagem (real ou fabricada) correspondia tanto ao estereótipo que os europeus (sobretudo a “intectualidade”) têm dos americanos (segundo a qual eles serão "ignorantes", "brigões" e "texanos com chapéu de cowboy") que todo o sentimento anti-americano mantido durante décadas se concentrou nele em particular.
E, quando Bush se foi embora, o anti-americanismo foi com ele.
Miguel Madeira (blogger do Vento Sueste e Vias de Facto)