06
Abr 10
publicado por Nuno Gouveia, às 17:34link do post | comentar

Volto a este tema, depois de ter lido muitos erros e clichés sobre este movimento, nomeadamente no nosso país. Às vezes porque as análises se ficam pelo superficial, outras vezes porque se limitam a descarregar os estereótipos tradicionais que existem sobre a vida política norte-americana. Os Estados Unidos são normalmente divididos na Europa entre os bons (democratas e liberais) e os maus (republicanos e conservadores). O Tea Party, sendo um movimento eminentemente conservador, já foi colocado no lado mau, e por isso, será sempre encarado como extremista e radical. Várias vezes já o vi colado à extrema-direita racista. Nada de novo, pois esta caracterização até tem vindo a ser explorada pelos Democratas nos Estados Unidos, sendo que a sua visão partidária e parcial faz sempre escola na Europa. O que é dito pelos meios liberais americanos é sempre uma verdade incontestada para alguns.

 

Mas interessa primeiro saber quem são estas pessoas e o que defendem. A Gallup publica esta semana uma sondagem sobre o Tea Party esclarecedora sobre quem se considera parte deste movimento. Não surpreendentemente, 49 por cento são republicanos, 43 independentes e apenas 8 por cento democratas, sendo que 28 por cento dos americanos considera-se representado pelo movimento. Quase um terço da população, o que não deixa de ser significativo. Mas esta sondagem também indica que os dados demográficos não estão longe de acompanhar a realidade social americana. E o que defendem estas pessoas?


O Tea Party nasceu em oposição ao expansionismo do governo federal, nomeadamente com o plano de estímulo de Barack Obama, que se alargou à contestação da reforma da saúde. Menos impostos, menos governo e maior liberdade individual. Um movimento genuinamente americano, que surge em consonância com a tradição conservadora que faz parte do património político do país. Mas como sempre sucede em movimentos populares do mainstream americano, e este movimento já pode ser  considerado como tal, surgem vozes radicais que, apesar de ultra-minoritárias, assumem um protagonismo excessivo no discurso público. E é o que tem acontecido em muitas manifestações do Tea Party, com radicais a dominarem as atenções dos media. Cartazes exagerados, gritos de ordem extremistas e alguns dos seus oradores, como vimos recentemente no discurso de Tom Tancredo na Convenção Tea Party, a transporem para a opinião pública um carácter radical e caricatural do movimento. Mas a esmagadora maioria dos seus membros são simples cidadãos americanos preocupados com o rumo do país. As tendências social-democratas da políticas da Administração Obama suscitariam sempre uma reacção categórica da sociedade americana. Ninguém esperava que o governo americano expandisse o seu papel sem que recebesse uma oposição deste género. Num país maioritariamente de centro-direita, e que faz das suas raízes individualistas uma das suas forças culturais, o Tea Party é uma correspondência objectiva dessa tradição. Muitos americanos estão preocupados com o rumo do país, e o crescimento da despesa federal, que começou nos anos Bush, e os défices exagerados que o governo terá nos próximos 10 anos, são o mote para esta contestação.


Se os republicanos conseguirem aproveitar a força deste movimento em seu favor, sem com isso desviarem-se demasiado para a direita, poderão obter excelentes ganhos em todo o território americano. Não por acaso alguns dos estados mais liberais da União, como o Delaware, Illinois ou até a Califórnia, poderão eleger senadores republicanos. Esta relação com os tea partys, se for bem gerida, poderá ser a chave do sucesso republicano de 2010.


A ligação dos republicanos ao Tea party não é só a chave do sucesso para as eleições de Novembro, parece mesmo a condição para não perderem uma boa fatia de lugares no congresso. Não há dúvida que se o Tea party se constituir como partido, quem perde são os Republicanos, não os democratas (o Dan Quayle avisou o partido há poucos dias).
Quanto à sua tentativa de "limpar" a imagem extremista do TP , acho-a comovente porque nem os próprios estão interessados nessa maquilhagem. A sua força advém exclusivamente do discurso radical, ultra-liberal (?) e, sim, racista. Essa é a essência do movimento e o que, infelizmente, o poderá fazer crescer.
Alda Telles a 6 de Abril de 2010 às 19:40

Obrigado pelo seu comentário.

Eu certamente não tentei "limpar" a imagem extremista do TP. Já estou habituado a quem olha para os Estados Unidos sob a perspectiva do NY Times ou do Huffington Post, isto para não falar dos media portugueses, defenda que o Partido Republicano é um partido extremista. Está bem patente naquilo que eu disse sobre a boa América e a má América. Nada de novo, portanto.

Mas gostava de saber em que se baseia para dizer que este movimento é racista? Gostava que me mostrasse alguns factos que suportem essa caracterização de um grupo que representa quase 1/3 da população americana, e que segundo a própria sondagem da Gallup que referi, inclui cerca de 20% de não-wasps?

Cumprimentos

Aqui vai, directamente da fonte, sem interpretações de jornais de esquerda:
http://www.youtube.com/watch?v=QC8aZJ2VoIA

Claro, dirá que o Tancredo não representa todos os Tea partiers. Mas um movimento que acolhe gente desta, aceita a intolerância e a xenofobia.
Da fama não se livram. Não vale a pena tentar circunscrevê-los a um movimento puramente filosófico-político contra o peso do Estado na economia.
aliás, basta ver pela franja etária destes festivaleiros do chá que na sua maioria já são bem-colocados beneficiários do Medicare, cujos custos tanto os preocupam ... por serem alargados a gente que não fala bem inglês.
Felizmente, a América tornou-se, desde o dia 23 de Março, um país mais desenvolvido.
Cumprimentos democráticos
Alda Telles a 6 de Abril de 2010 às 20:46

Deu precisamente o exemplo que referi no meu texto, por isso pode imaginar que para mim não é nenhuma surpresa. Se é por isso que considera que 28% dos americanos considera-se parte de um movimento racista...Mas cada um acredita no que quer, como é óbvio.

Isso seria o mesmo dizer, por exemplo, que o Partido Democrata é anti-patriótico ou pacifista, como alguns dos seus apoiantes. A MoveOn, destacada organização liberal, chamou traidor ao general Petreaus, e outra organização que apoiou Obama, a ACORN, foi apanhada ano passado a promover a fraude fiscal e a prostituição infantil. Esses actos não legitimam que alguém diga que esses representam o Partido Democrata, como faz com o Tea Party.

E também vejo que não viu a sondagem da Gallup sobre os tea parties, senão veria que as faixas etárias das pessoas, bem como os rendimentos e o nível de estudos está de acordo com a realidade sócio-demográfica dos Estados Unidos. Por exemplo, 20% dos tea parties são seniores com mais de 65 anos, os beneficiários do Medicare. A população americana com mais de 65 anos representa 21% dos EUA. Mas sei que é difícil combater estereótipos criados.

Cumprimentos.

Só falta de facto dizer-se que o Tea Party Movement é o Ku Klux Klan sem os seus ridículos e bizarros chapéus cónicos e vestes brancas.

Barry Goldwater , o verdadeiro pai político do renascimento conservador nos EUA na segunda metade do século XX, em oposição ao New Deal e seus sucedâneos, foi também frequentemente pintado com as cores do extremismo e do racismo. Richard Nixon também era apodado de racista, quando tinha de facto defeitos óbvios mas esse não era um deles.

A aplicação do rótulo de "racista" a quem provém da direita nos EUA faz-me lembrar a do rótulo de "fascista" a quem por cá, nos tempos do PREC , não alinhava nas posições mais ortodoxas da revolucionarite em curso. E muitos dos utilizadores desses rótulos são os mesmos, o que não é certamente uma coincidência.
Alexandre Burmester a 6 de Abril de 2010 às 23:39

Excelente post, companheiro. Muito bem...
José Gomes André a 7 de Abril de 2010 às 01:38

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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