O Nuno Gouveia tem escrito que o ciclo eleitoral deste ano é especialmente difícil para o Partido Democrata, devido ao clima político que se vive na América, aos (relativos) insucessos da Administração Obama e ao bom recrutamento de candidatos do lado Republicano. Neste e noutros posts futuros, junto-me à discussão, sublinhando que este cenário negro para os Democratas o é também por razões estruturais.
Refiro-me em particular à natureza das eleições intercalares, que implicam tradicionalmente uma derrota do partido ao qual pertence o Presidente, apesar de este não ser directamente escrutinado. Na verdade, com afluências mais baixas do que em ano de presidenciais, as eleições intercalares mobilizam sobretudo os grupos de oposição e os cidadãos descontentes, convidando ao voto de protesto contra a Administração federal. Esta situação ocorre de forma praticamente indiscriminada, i.e., independentemente do ciclo económico ou político, das maiorias existentes no Congresso ou da própria popularidade do Presidente.
Vejamos, por exemplo, os resultados para a Câmara dos Representantes em eleições intercalares nos últimos cinquenta anos:
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Ano
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Partido do Presidente
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Resultado do partido do Presidente face a eleição anterior
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1962
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Democrata (D)
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-4 lugares
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1966
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D
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-48
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1970
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Republicano (R)
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-12
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1974
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R
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-48
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1978
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D
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-15
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1982
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R
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-26
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1986
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R
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-5
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1990
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R
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-8
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1994
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D
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-54
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1998
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D
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+5
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2002
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R
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+8
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2006
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R
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-30
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Como podemos verificar, excepto em 1998 (quando os EUA viviam um período de invulgar prosperidade económica) e 2002 (no contexto extraordinário do pós-11 de Setembro), em todas as eleições intercalares o partido do Presidente sofreu perdas significativas para a câmara baixa federal. Tal sucedeu quer quando o Congresso era dominado pelo partido oposto ao Presidente (1970, 74, 82, 86, 90), quer quando este beneficiava de um apoio claro na Câmara dos Representantes (62, 66, 78, 94, 2006). Da mesma forma, este padrão eleitoral parece ser indiferente ao tipo de vitória obtida pelo Presidente dois anos antes, ocorrendo ora depois de triunfos esmagadores (66, 74, 82, 86), de êxitos claros (78, 90, 94) ou de vitórias pirrónicas (62, 70, 2006).