18
Fev 10
publicado por José Gomes André, às 18:31link do post | comentar

O Nuno Gouveia tem escrito que o ciclo eleitoral deste ano é especialmente difícil para o Partido Democrata, devido ao clima político que se vive na América, aos (relativos) insucessos da Administração Obama e ao bom recrutamento de candidatos do lado Republicano. Neste e noutros posts futuros, junto-me à discussão, sublinhando que este cenário negro para os Democratas o é também por razões estruturais.

 

Refiro-me em particular à natureza das eleições intercalares, que implicam tradicionalmente uma derrota do partido ao qual pertence o Presidente, apesar de este não ser directamente escrutinado. Na verdade, com afluências mais baixas do que em ano de presidenciais, as eleições intercalares mobilizam sobretudo os grupos de oposição e os cidadãos descontentes, convidando ao voto de protesto contra a Administração federal. Esta situação ocorre de forma praticamente indiscriminada, i.e., independentemente do ciclo económico ou político, das maiorias existentes no Congresso ou da própria popularidade do Presidente.

 

Vejamos, por exemplo, os resultados para a Câmara dos Representantes em eleições intercalares nos últimos cinquenta anos: 

 

 
 Ano
 
Partido do Presidente
Resultado do partido do Presidente face a eleição anterior
1962
Democrata (D)
-4 lugares
1966
D
-48
1970
Republicano (R)
-12
1974
R
-48
1978
D
-15
1982
R
-26
1986
R
-5
1990
R
-8
1994
D
-54
1998
D
+5
2002
R
+8
2006
R
-30

 

Como podemos verificar, excepto em 1998 (quando os EUA viviam um período de invulgar prosperidade económica) e 2002 (no contexto extraordinário do pós-11 de Setembro), em todas as eleições intercalares o partido do Presidente sofreu perdas significativas para a câmara baixa federal. Tal sucedeu quer quando o Congresso era dominado pelo partido oposto ao Presidente (1970, 74, 82, 86, 90), quer quando este beneficiava de um apoio claro na Câmara dos Representantes (62, 66, 78, 94, 2006). Da mesma forma, este padrão eleitoral parece ser indiferente ao tipo de vitória obtida pelo Presidente dois anos antes, ocorrendo ora depois de triunfos esmagadores (66, 74, 82, 86), de êxitos claros (78, 90, 94) ou de vitórias pirrónicas (62, 70, 2006).

 


É certo que o partido que ocupa a Casa Branca normalmente perde as "mid-terms" para a Câmara dos Representantes, e esse factor histórico-estatístico também desta vez possivelmente se fará sentir. Mas como o próprio quadro que nos apresenta elucida, há derrotas e derrotas nessas eleições. Uma coisa é perderem-se 5 lugares, como sucedeu aos Republicanos em 1986, outra, bem diferente, e cujas principais explicações vão para lá do voto de protesto, é perderem-se 48 (os Democratas em 1966, no auge da Guerra do Vietname e os Republicanos em 1974 nas primeiras eleições nacionais pós-Watergate), ou ainda os avassaladores 54 lugares de 1994, os quais, além da expressiva marca, permitiram aos Republicanos conquistarem a Câmara (além do Senado). Eu encontro muitas semelhanças entre 1994 e o ano em curso, com alguns sectores do eleitorado desiludidos com um presidente Democrático que acham que está a governar demasiado à esquerda para seu gosto. Além disso, a crise económica não deixará de ter uma forte influência. Até pode ter eclodido antes de Obama, mas como Richard Nixon disse a propósito da Guerra do Vietname, que herdou, "ao fim de seis meses tornou-se a minha guerra".
Alexandre Burmester a 18 de Fevereiro de 2010 às 20:57

Quando disse "perde as mid-terms para a Câmara dos Representantes" obviamente pretendia dizer que perde lugares nas mid-terms para essa Câmara.
Alexandre Burmester a 18 de Fevereiro de 2010 às 21:25

Caro Alexandre, obrigado pelo comentário. Concordo consigo, é claro que importa atender à dimensão da derrota para traçar uma análise política mais certeira. Em todo o caso, o que procurei sublinhar é que as eleições intercalares constituem, per si, um acto de protesto, que nem sempre tem depois repercussões nos resultados presidenciais futuros, por exemplo. Mas claro que perder 40 lugares não é o mesmo que perder 5.

Quanto à (real dimensão da) derrota Democrata de 2010, vamos ter de esperar um pouco mais. Concordo que podem haver semelhanças com 94. Como procurarei mostrar em posts futuros, a própria situação de predomínio Democrata no Congresso "convida" a uma descida abrupta (que não deixará de ser "catastrófica", embora "expectável").

Abraço!

Caro José,

Estou de acordo que as maiorias invulgares, sejam de que partido forem, tendem a reduzir-se em actos eleitorais posteriores. E no caso presente temos ainda um factor importante a considerar: entre 30 e 40 congressistas Democráticos representam círculos eleitorais onde John McCain bateu Barack Obama em 2008, pelo que o eleitorado desses círculos estará à direita dos Democratas, embora não necessariamente à direita do seus representantes. Estes congressistas estarão particularmente vulneráveis em Novembro, e os Republicanos precisam apenas de um ganho líquido de 40 lugares para recuperarem a Câmara.

A América é há anos essencialmente um país de centro-direita, pelo que, nos dias de hoje, as grandes maiorias Democráticas dos tempos do New Deal e da Great Society são cada vez menos prováveis e menos sustentáveis.

Um abraço para si também!
Alexandre Burmester a 19 de Fevereiro de 2010 às 16:44

Mais um comentário muito produtivo, ao assinalar justamente a supremacia do centro-direita nos EUA e a dificuldade dos Dems em manterem vantagens tão confortáveis no Congresso como a que presentemente usufruem. Acho que vamos ter discussões proveitosas neste ano eleitoral, caro Alexandre! Abraço!
José Gomes André a 20 de Fevereiro de 2010 às 00:43

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