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Jan 11
publicado por Nuno Gouveia, às 15:03link do post | comentar

A última década tem sido de uma agressividade inacreditável na política americana. Primeiro nos anos Bush, agora com Obama, o discurso das oposições tem sido de uma violência exagerada em alguns sectores radicais. Basta olhar para os cartazes das manifestações da última década, primeiro contra Bush e recentemente contra Obama, para verificar isto. Outra das características da política americana, esta bem mais antiga, é a utilização de linguagem de guerra. "War Room" era como o circulo restrito de Bill Clinton se identificava. "Targeting" é uma denominação que muitos consultores utilizam há décadas. Obama ainda recentemente utilizou este tipo de linguagem "If they bring a knife to the fight, we bring a a gun". Que isso leva a actos criminosos como o de Tucson? Não. Se na parte sobre a violência verbal, parece-me aconselhável e até desejável que se modere a linguagem, não vejo problemas na utilização de metafóras de guerra, que fazem parte da retórica política. Já agora, de onde virá a palavra "campanha"?

 

Um dos aspectos que mais me impressionou nesta tragédia, obviamente além da mortandade e do atentado contra a democracia americana, foi a reacção de alguns sectores mais à esquerda. Estava no Twitter quando se soube do ataque à congressista Giffords. E logo após o crime, enquanto a maioria dos americanos que sigo pedia orações* pelas vitimas, começaram a surgir ataques raivosos contra o tea party e as vozes mais populistas do movimento. Apesar de não saberem nada sobre o assassino e se este tinha alguma relação com o tea party (como hoje é quase certo que não tem), iniciaram o jogo da culpa sobre os adversários políticos sem se questionarem um minuto a pensar no que realmente tinha sucedido. O popular blogue de esquerda, o Daily Kos, que dois dias antes tinha publicado um post com um título do género, (For me Congresswoman Gabrielle Giffords is DEAD), por esta ter votado contra Nancy Pelosi como Speaker este mês, liderou a ofensiva contra a violência verbal do tea party e Sarah Palin. Chegou-se mesmo a dizer que Palin tinha as mãos manchadas de sangue, uma expressão injusta e desadequada ao momento. Todas as informações já conhecidas apontam para que Jared Lee tenha actuado sobretudo devido às suas condições mentais instáveis. Um ateu, registado como eleitor independente que nem sequer votou em 2010, fã de Karl Marx e Adolf Hitler e que glorifica a queima da bandeira americana, não se enquadra em nenhum perfil político definido, muito menos na direita conservadora do tea party.

 

Que esta tragédia sirva para ataques políticos é lamentável. Que se discuta o nível de civilidade no debate político, essa é outra questão e que deve e pode ser discutida. Como não gostava de ver nas ruas americanas a comparação entre Bush e Hitler ou a pedirem o assassinato do Presidente, também não gosto de ver agora Obama a ser comparado com Hitler ou a agenda democrata a ser considerada equivalente ao nazismo ou ao comunismo. Simplesmente não este tipo de argumentação não tem lógica. E os líderes de ambos os partidos têm o dever de desligarem-se deste tipo de provocações. O que nem sempre tem sucedido.

 

* Deu para ver que os americanos são de facto uma nação de fé. Desde a esquerda à direita, quase todos os americanos que sigo (jornalistas, políticos, consultores de comunicação, académicos e bloggers) diziam que era necessário "rezar" pelas vítimas.


caro Nuno,
Em minha opinião a Sarah Palin devia pensar, se é que ela pensa, que não deve meter no seu site alvos, pois há muitos malucos, que levam isso á letra.
Palin provavelmente com estas atitudes não deverá ser a escolhida para enfrentar Obama, provavelmente iremos ter um confronto OBama vs Mitt Romney, apesar queo meu confronto preferido seria OBama Mccain.
André a 11 de Janeiro de 2011 às 20:08

André,

Não tenho problema nenhum em defender Sarah Palin, como no passado já critiquei aqui várias vezes.

O uso deste género de gráficos não é nada de novo na política americana.

Exemplos.

Gráfico do DLC em 2004:

http://www.verumserum.com/media/2010/03/DLC-Targeting-map.gif

Gráfico do Comité Democrata em 2010:
http://www.verumserum.com/media/2010/03/DCCC-target-map.jpg

E não faltarão mais exemplos deste género. Ainda em 2010 um candidato democrata andou aos tiros num anuncio de campanha.
Nuno Gouveia a 11 de Janeiro de 2011 às 20:31

E fã de Ayn Rand também (e do George Orwell e do Aldous Huxley)...

Se realmente ele for contra o governo federal e a favor do padrão-ouro (com ALGUMAS noticias indicam), até fica parecido com uma certa direita americana (embora não com o conservadorismo mais tradicional).


Mas atendendo às leituras, parece mais típico de alguém com a mania que é um "pensador fora do manstream" (o perfil tipico de quem se diz fã de Marx, Hitler, Rand, Orwell e Huxley - autores totalmente diferentes, mas todos com um certo elã de não-conformismo; até há quem diga que o que é estranho é não ser também fã de "Uma agulha no palheiro" - o livro favorito do assassino de Lennon e do quase-assassino de Reagan - que também costuma ser popular nessas águas).
Miguel Madeira a 12 de Janeiro de 2011 às 02:09

O tipo é um lunático. E antes de "flipar" e enveredar por este radicalismo que bem descreves, aparentemente era de esquerda. O meu ponto é este: alguém, honestamente, o pode colocar num lado da barreira política, nomeadamente no lado conservador do tea party? Não me parece.
Nuno Gouveia a 12 de Janeiro de 2011 às 14:15

Que grande texto, Nuno... Subscrevo totalmente.
José Gomes André a 12 de Janeiro de 2011 às 03:34

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