12
Fev 13
publicado por José Gomes André, às 17:54link do post | comentar

Esta noite, às 21h (2h em Portugal), Barack Obama realizará perante uma sessão conjunta do Congresso o seu "Discurso sobre o Estado da União". Mais do que um mero requisito constitucional, esta é uma tradição fundamental da vida política americana, utilizada pelo Presidente para descrever o ambiente político actual e influenciar decisões futuras do Congresso, traçando as grandes metas legislativas dos meses seguintes.

 

Derivado do precedente britânico (o monarca discursava na sessão de abertura do Parlamento), este procedimento foi seguido à risca desde a entrada em vigor da Constituição, cuja secção 3ª do Artigo 2º determina: "O Presidente deverá, de tempos a tempos ["from time to time"], prestar ao Congresso informações sobre o Estado da União e submeter à sua consideração as medidas que julgue necessárias e convenientes". O objectivo desta disposição era atribuir ao chefe do Executivo a possibilidade de condicionar a agenda legislativa do Congresso, entendendo os Pais Fundadores americanos que o Presidente tinha um papel muito limitado neste domínio (a história alteraria essa situação).

 

Curiosamente, como vemos, o articulado constitucional não se refere a uma comunicação "anual", mas meramente periódica. Como em tantas outras questões formais, a prática seguida pelo Presidente George Washington (um discurso anual) criou um sólido precedente, ainda hoje respeitado. Todavia, ao contrário do primeiro Presidente americano, muitos foram os chefes do executivo que optaram por transmitir ao Congresso uma declaração escrita e não um discurso oral (desde Jefferson a William H. Taft). Já no século XX, Woodrow Wilson reinstaurou esta última tradição, seguida (com raras excepções) por todos os Presidentes até aos nossos dias.

 

Um dos acontecimentos políticos mais vistos e comentados nos EUA, este momento solene está também repleto de curiosidades. Uma das mais interessantes refere-se à necessidade de designar um membro da Administração para não estar presente na sessão (ficando em local desconhecido). Devido à (rara) aparição conjunta de várias figuras de topo da hierarquia federal, garante-se assim que, em caso de um atentado ou acidente, um dos membros do governo federal sobrevive a essa tragédia, impedindo que o país ficasse sem uma chefia legalmente reconhecida.


[republicado]


22
Jan 13
publicado por José Gomes André, às 15:44link do post | comentar | ver comentários (2)

São hercúleos os desafios que esperam Obama: crise económica, reforma da saúde, problemas ambientais, controlo de armas, imigração, nova política energética – a nível interno. Instabilidade no Médio Oriente, relações difíceis com a Rússia e a China, a contenção do Irão – a nível internacional. Nada de muito diferente em relação a 2009, quando tomou posse pela primeira vez.

Hoje Obama tem todavia uma grande vantagem: por esta altura, ninguém espera, como no passado, que ele possa resolver todos aqueles problemas de uma só assentada. Obama tem diante de si uma agenda monumental, mas livre do messianismo que o perseguiu há quatro anos, pode agir recorrendo à “arte da política”, sem que a avaliação do seu desempenho esteja sistematicamente sujeita a uma comparação com o Rei Midas.

 

A nível interno, o maior desafio de Obama será lidar com a enorme bipolarização da política americana. O sistema político dos EUA assenta num sistema de “freios e contrapesos”, concebido para exigir permanentes lógicas de diálogo e construções de consensos entre os diversos agentes políticos. Todavia, os Pais Fundadores não contaram com as particularidades da modernidade, nomeadamente a radicalização ideológica e partidária, que têm minado o sistema e servido como autênticos mecanismos de bloqueio, impedindo os referidos consensos e a tomada de decisões políticas céleres e resolutas. Desde 2004 que Obama defende uma agenda bipartidária e a “reconciliação da América”, mas raramente tem promovido ambas. Com os Republicanos a controlarem a Câmara dos Representantes, as suas capacidades de negociação serão severamente postas à prova neste segundo mandato.

 

O maior desafio de Obama é contudo um outro, que assola aliás em geral o Ocidente: preservar a estrutura fundamental do “Estado Social”, num quadro económico e demográfico mundial que não permite aos países desenvolvidos manter os mesmos níveis de despesa pública até aqui praticados. Se a nível interno a resposta para esta autêntica quadratura do círculo não foi ainda encontrada, no que toca à política externa e à Defesa, as orientações estão definidas: reduzir os gastos nuns impressionantes 400 mil milhões de dólares, cortando na ajuda a países em desenvolvimento, reduzindo os efectivos militares em vários continentes, diminuindo as operações de vigilância, etc.

Estas orientações têm implicações severas em toda a organização externa norte-americana e por consequência nos alinhamentos estratégicos do poder mundial. Se em alguns casos elas são sobretudo simbólicas (redução de bases militares na Europa, por exemplo), noutros significam uma efectiva retracção da influência norte-americana, que pode comprometer interesses futuros em áreas estratégicas vitais (designadamente o Médio Oriente e a Ásia).

 

Obama tem insistido que o recurso ao “soft power” (diplomacia, fortalecimento das relações comerciais, cooperação com as instâncias internacionais), aliado a um posicionamento militar mais diminuto, mas cirúrgico, será suficiente para manter a influência americana intacta, mas só o tempo dirá se os EUA continuarão a ser “a nação indispensável”. Mais um desafio para o mais desafiado Presidente americano.

 

[inicialmente publicado no site da TVI24; obrigado ao Filipe Caetano pelo convite]

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18
Dez 12
publicado por José Gomes André, às 00:18link do post | comentar | ver comentários (9)

Os trágicos eventos em Newtown vieram relançar um debate polémico, em torno do direito à posse de armas, protegido pelo célebre 2º Aditamento à Constituição dos EUA: “Sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não deverá ser infringido”.

 

Trata-se de um privilégio com larga tradição nas colónias americanas, onde a utilização de armas era fundamental para o modo de vida das populações, rodeadas de permanentes ameaças (índios, animais selvagens, etc.) e sem uma organização policial capaz de garantir a ordem pública. No Novo Mundo, a posse de uma arma era indispensável para garantir a segurança dos colonos e das suas famílias. A ninguém surpreendeu pois a sua inclusão nas Declarações de Direitos estaduais e na Carta de Direitos federal (aditada à Constituição dos EUA em 1791).

 

Apesar da sua aparente simplicidade, esta determinação constitucional presta-se porém a duas interpretações distintas. Uma leitura (“extensiva”) considera que ela consagra o direito de um cidadão possuir armas e fazer uso delas, não só para protecção colectiva (contra agressões externas), mas também para protecção individual (defesa contra criminosos, etc.). Esta interpretação sustenta que o Segundo Aditamento consigna um direito pessoal conceptualmente idêntico aos demais consagrados na Carta de Direitos, pelo que não lhe são aplicáveis restrições.

 

Uma outra leitura (“limitativa”) considera, ao invés, que o 2º Aditamento foi formulado originariamente com um propósito defensivo, cujo objectivo não era permitir um uso indiscriminado das armas, mas sim procurar salvaguardar os direitos dos Estados em formarem milícias organizadas – e portanto armadas – para assegurar um controlo da ordem pública. A posse individual estaria assim implicitamente limitada a situações excepcionais (caso o país fosse atacado por outra nação, por exemplo).

 

Se atentarmos aos desígnios dos Founding Fathers, concluímos que a segunda leitura parece ser a mais fidedigna. Com efeito, a elaboração deste Aditamento procurava municiar as milícias com instrumentos adequados para defender os Estados face a ameaças estrangeiras (recordemos que os EUA não tinham um exército permanente), ou contra abusos do próprio governo central – a quem a recente Constituição conferia poderes consideráveis. A manutenção de uma milícia armada – honrando o princípio do cidadão-soldado – dependia da existência deste Aditamento, tendo por isso mesmo os Estados insistido na sua relevância.

 

Historicamente, contudo, a “interpretação extensiva” foi privilegiada, sendo o 2º Aditamento evocado como um direito pessoal indiscriminado ao porte e uso de armas. Os actos violentos cometidos com armas – facilmente adquiridas em qualquer espaço comercial – tornaram-se comuns nos EUA, e as autoridades têm grande dificuldade em controlá-los, sobretudo porque a criação de medidas que visem limitar a posse dessas mesmas armas tem sofrido uma impressionante resistência. Isso deve-se, em parte, porque vários grupos organizados (a NRA, por exemplo) e lobbies económicos escudam-se no 2º Aditamento para cimentar os seus protestos contra as possíveis alterações ao mesmo.

 

Todavia, mais do que nunca, talvez seja necessário reinvocar o objectivo original da Carta de Direitos – privilegiando a interpretação “limitativa” – para evitar novas tragédias; já não para prevenir que o governo abuse dos direitos dos cidadãos, mas para impedir que os cidadãos destruam a sua própria liberdade.


12
Dez 12
publicado por José Gomes André, às 01:03link do post | comentar | ver comentários (4)

10
Nov 12
publicado por José Gomes André, às 00:23link do post | comentar | ver comentários (8)

1. Obama venceu com margem confortável no Colégio Eleitoral (332-206) e com ligeira vantagem no voto popular (cerca de 3%). Dois factores contribuíram decisivamente para a vitória. Primeiro, uma extraordinária mobilização do eleitorado Democrata que, mesmo desiludido, acorreu às urnas em proporção praticamente idêntica a 2008: jovens, mulheres e minorias étnicas foram autenticamente "empurrados" pela máquina Democrata. Uma boa organização no terreno é hoje cada vez mais indispensável e os estrategas Democratas só podem estar de parabéns. Em segundo lugar, a campanha acertou em cheio na mensagem: ao mesmo tempo que justificava as insuficiências do primeiro mandato (ligando-o à excepcionalidade da crise económica e financeira mundial), Obama conseguiu projectar uma imagem de futuro, centrando-se mais nos "próximos 4 anos" do que numa defesa do seu mandato. Excelente decisão.

 

2. A América está a mudar. Se 2008 tinha sido uma eleição histórica, pela eleição de um negro para a Presidência, 2012 não lhe fica atrás, trazendo a primeira lésbica assumida para o Senado (Tammy Baldwin), votações favoráveis ao casamento homossexual em quatro Estados e a legalização da marijuana para efeitos recreativos (!) no Colorado e em Washington. O eleitorado urbano e liberal está em crescimento, a diversidade étnica é cada vez maior e os "valores tradicionais" parecem estar a diminuir em importância e em influência geográfica. Que não se assustem os mais conservadores: os EUA sempre tiveram uma enorme capacidade para se reinventarem, preservando ao mesmo tempo os seus princípios fundamentais.

 

3. Por falar em reinvenção, o Partido Republicano necessita de se reorganizar, tornando-se apelativo para novos segmentos essenciais do eleitorado (o caso mais óbvio são os hispânicos). A ala radical do Partido, mesmo sendo minoritária, tem contaminado o núcleo do GOP com uma ideologia sectária e ultra-conservadora, que entusiasma a base, mas não ganha eleições. O discurso anti-ciência, a confusão sistemática de religião e política, o radicalismo no tema do aborto e a xenofobia latente têm ganho protagonismo entre os Republicanos, mas são amplamente rejeitados pelo eleitorado. O "establishment" necessita de se distanciar destes sectores radicais, sob pena da "marca Republicana" se tornar tóxica num futuro próximo.

 

4. São variados os desafios que esperam Obama. Crise económica, reforma da saúde, ambiente, nova política energética - a nível interno. Instabilidade no Médio Oriente, relações difíceis com a Rússia e a China, a contenção do Irão - a nível internacional. São temas complexos, que, na maioria dos casos, o Presidente terá de negociar com uma Câmara dos Representantes dominada pelos Republicanos. A tarefa mais dura? Lidar com o maior desafio que assola o Ocidente: preservar a estrutura fundamental do "Estado Social", num quadro económico e demográfico mundial que não permite aos países desenvolvidos manter os mesmos níveis de despesa pública até aqui praticados.

 

5. Um dos maiores vencedores deste processo eleitoral foi a abordagem científica ao fenómeno político. Os estudos econométricos e as sondagens (e os agregadores de sondagens) retrataram com grande fidelidade a evolução e o desfecho da corrida, pese embora terem sido continuamente desvalorizados pelos "opinion-makers". Estes (como Dick Morris ou George Will) preferiram basear-se em "feelings" e bitaites infundados (o termo português é "lançar postas de pescada"), mas saíram completamente derrotados face ao rigor e à objectividade do esforço de Nate Silver e Sam Wang, entre outros. Tenho a secreta esperança de que, mais tarde ou mais cedo, os "tudólogos" serão dispensados pela opinião pública e pela própria comunicação social, e substituídos por gente menos mediática, mas seguramente muito mais séria e informada.


07
Nov 12
publicado por José Gomes André, às 00:50link do post | comentar | ver comentários (4)

Obama melhor nas exit polls e nas contagens iniciais na Florida e no Ohio. Confirma-se as previsões anteriores. Obama é ligeiramente favorito. Mas ainda é MUITO cedo.


publicado por José Gomes André, às 00:42link do post | comentar

Sigam-nos no Twitter, estamos a comentar a noite eleitoral em "tempo real": @JGAndre @Gouveia


06
Nov 12
publicado por José Gomes André, às 16:33link do post | comentar | ver comentários (13)


Embora seja expectável uma corrida muito renhida, sobretudo no voto popular, estou em crer que Obama acabará por ganhar no Colégio Eleitoral, por uma margem curta. As últimas sondagens penderam para o seu lado e os "mercados electrónicos" também apostam no actual Presidente. Resta saber se não estará a ser subestimada a afluência Republicana em alguns Estados-chave...

As minhas maiores dúvidas prendem-se com a Virgínia e o Colorado, que nesta fase estão em "empate" absoluto. Podem cair para qualquer lado, mas aposto que os subúrbios de Washington acabem por dar a vitória a Obama. Em sentido inverso, os "social conservatives" deverão garantir um triunfo marginal de Romney no Colorado. Não ficaria todavia surpreendido se o resultado final for Obama 303 (Virgínia + Colorado), Obama 281 (nem um nem outro) ou Obama 290 (só Colorado e não Virgínia). Em qualquer caso, o actual Presidente seria sempre reeleito.

No Senado é muito mais difícil fazer previsões, mas espero que os Democratas mantenham a maioria, ficando porventura com 51 a 53 senadores (contando os independentes). A Câmara dos Representantes vai seguramente continuar sob domínio Republicano.

publicado por José Gomes André, às 00:46link do post | comentar | ver comentários (1)

Estarei na emissão especial da TVI24, a partir da meia-noite (hora portuguesa), que contará com a presença de vários comentadores e especialistas, entre os quais o nosso Nuno Gouveia (via skype). Prometemos - eu, o Nuno e o Alexandre - ir actualizando o blog com diversos textos em "tempo real", e assim acompanhar a eleição a par e passo. Deixem-nos os vossos comentários e opiniões naquela que é, para muitos de nós, a "noite mais longa" - de 4 em 4 anos, pelo menos...


05
Nov 12
publicado por José Gomes André, às 15:30link do post | comentar | ver comentários (2)

Apesar da importância do Ohio, há outros Estados que poderão vir a desempenhar um papel muito relevante, com destaque para a Florida, Virgínia e ColoradoTodos eles foram ganhos por Bush em 2000 e 2004, e por Obama em 2008 - o que desde logo atesta a sua importância como "Estados-barómetro".


Florida (29 Votos Eleitorais) é o Estado sulista mais ecléctico, onde os Democratas têm uma base de apoio forte, sobretudo na região de Palm Beach (no Sudeste do Estado). Os eleitores mais idosos e os hispânicos de origem cubana são usualmente fiéis aos Republicanos. A Florida foi ganha pelos Republicanos em 6 das últimas 8 eleições presidenciais; uma derrota de Romney neste importante Estado (o terceiro mais valioso no Colégio Eleitoral, a par de Nova Iorque) torna absolutamente inviável uma vitória geral na eleição. Média das sondagens recentes (RCP): Romney lidera por 1,8%.

Virgínia (13 Votos Eleitorais) foi durantes décadas um bastião Republicano. Porém, o crescimento exponencial dos subúrbios de Washington (D.C.) trouxe novos residentes para o norte da Virgínia, com preferências eleitorais fortemente Democratas. Este facto, aliado à existência de uma grande comunidade afro-americana, permitiu a Obama ganhar a Virgínia em 2008. Se o Ohio cair para Romney, a Virgínia torna-se fundamental para o "Plano B" de Obama. Há também neste Estado uma renhida disputa entre o Republicano George Allen e o Democrata Tim Kaine, para o Senado. No que diz respeito à questão presidencial, média das sondagens recentesObama lidera por 0,3%.


Colorado (9 VE) está praticamente na mesma categoria que a Virgínia. Tendencialmente Republicano (desde 1964 só votou Democrata em 1992 e 2008), tem a favor dos Democratas o crescimento de Denver, cuja área metropolitana – socialmente progressista – agrega metade da população total do Estado. Além do mais, os habitantes do Colorado valorizam especialmente a protecção ambiental (um trunfo de Obama). Todavia, o Estado é caracterizado pela força da tradição libertária (típica no Oeste), que desconfia do governo federal (estando por isso mais próxima da ideologia Republicana), tendo além disso uma grande porção de "social conservatives", especialmente na região de Colorado Springs. Se o Oeste e o Midwest não decidirem a eleição, as atenções virar-se-ão necessariamente para o Colorado. Média das sondagens recentesObama lidera por 0,6%.


04
Nov 12
publicado por José Gomes André, às 15:39link do post | comentar | ver comentários (1)

É bastante improvável que o resultado eleitoral norte-americano tenha um impacto directo significativo na política europeia. Desde o fim da Guerra Fria que a Europa perdeu importância na agenda americana, em detrimento de regiões mais problemáticas (como o Médio Oriente) ou estrategicamente mais promissoras (o eixo Ásia Oriental-Pacífico). Este realinhamento político decorre de dois factores fundamentais. Por um lado, a pacificação do teatro europeu e a consolidação da União Europeia estabilizaram o Velho Continente, tornando “dispensável” a supervisão e o envolvimento americano (salvo raras excepções). Por outro lado, a emergência de novas potências (China, Índia, etc.) mereceu especial atenção do gigante americano, interessado em conquistar novos mercados, mas também em interagir politicamente com potenciais ameaças num quadro internacional que os EUA têm dominado nas últimas duas décadas.

 

A crise económica que abalou os alicerces da própria UE poderia alterar este quadro. Devido à importância das transacções comerciais e financeiras transatlânticas, os EUA foram obrigados a acompanhar atentamente os eventos europeus. Porém, estando também a contas com graves problemas económicos (crescimento tépido, desemprego e défice elevados, dívida descontrolada), os EUA não têm demonstrado nem disponibilidade política, nem tampouco possuir boas ideias para solucionar esta prolongada crise. Sem surpresa, as questões europeias têm portanto sido um tema ausente na campanha, não merecendo um único minuto no terceiro debate (sobre política externa) ou uma só linha nos programas de Obama e Romney.

 

A existirem consequências relevantes para a política europeia na sequência destas eleições, elas advirão por via indirecta – nomeadamente caso se verifique uma recuperação económica e financeira dos EUA (“arrastando” as principais economias europeias), ou surjam eventos internacionais com dimensões globais (por exemplo, uma nova intervenção americana no Médio Oriente, que fizesse escalar os preços do petróleo e questionasse mais uma vez as “posições europeias” em matéria de Defesa e política externa). Todavia, face às interrogações que abalam a própria estrutura económica e política norte-americana, permanece uma incógnita perceber com que futuro Presidente esses ou outros acontecimentos seriam mais prováveis.

 

(artigo publicado no "Região de Leiria", 02.11.2012)


publicado por José Gomes André, às 01:50link do post | comentar | ver comentários (1)

Este é sem dúvida um dos elementos mais peculiares do sistema eleitoral norte-americano. Com efeito, uma lei de 1845 estabelece que a eleição presidencial deve ocorrer na terça-feira seguinte à primeira segunda-feira do mês de Novembro. Esta regra evitava que a eleição pudesse coincidir com o primeiro dia do mês, reservado a procedimentos judiciais nos tribunais dos condados.

A escolha de uma terça-feira devia-se às características rurais dos EUA no século XIX, que obrigava os eleitores a percorrerem demoradas distâncias para exercerem o seu voto. Como o Domingo estava reservado para os serviços religiosos, determinou-se que a terça-feira era a hipótese mais adequada (sendo a segunda-feira ocupada com a viagem).

A opção pelo mês de Novembro obedecia a essa mesma lógica agrária: por essa altura as colheitas já estariam concluídas – libertando os camponeses e agricultores para exercerem o seu voto – e não se faria ainda sentir o rigor do Inverno. Apesar das enormes diferenças do estilo de vida moderno, a tradição e a lei que a sustenta mantiveram-se intactas.


03
Nov 12
publicado por José Gomes André, às 00:35link do post | comentar | ver comentários (2)

Os comentadores nacionais e internacionais insistem que sim, que o Ohio - tal como em 2004 - decidirá o vencedor da eleição. Não duvido das suas propriedades de "Estado-barómetro", pois o Ohio é um verdadeiro espelho da nação (em termos demográficos, económicos, sociais, etc.), mas é demasiado simplista reduzir a complexidade da corrida a um único "swing-state". A verdade é que, em termos simplesmente numéricos, a combinação de outros Estados determinantes, como a Virgínia, Colorado e Wisconsin soma por exemplo 32 Votos Eleitorais (contra 18 do Ohio).

 

A minha convicção - e apoio-a nas simulações que tenho feito no excelente www.270towin.com - é que o Ohio é decisivo sobretudo para Romney. Para os Republicanos, não vejo nenhum caminho razoável no Colégio Eleitoral que permita alcançar os 270 Votos necessários sem o Ohio. Já Obama pode consegui-lo, se porventura ganhar a Virgínia com a combinação Iowa+Wisconsin+Nevada, Estados onde leva aparentemente alguma vantagem. Outro caminho possível seria perder a Virgínia, mas triunfar no Colorado e New Hampshire. São soluções curtas, mas constituem pelo menos um Plano B para Obama, Plano esse que nesta fase Romney não parece dispor.

 

Os dois mapas possíveis para Obama ganhar sem o Ohio: hipótese 1 e hipótese 2.


publicado por José Gomes André, às 00:33link do post | comentar

Deixo aqui o vídeo da minha participação no programa "Especial Eleições EUA", com Martim Cabral, que passou na quarta-feira à noite - e onde o nosso blog mereceu destaque. Amanhã (noite de sábado), à 1h00, o convidado será o nosso Nuno Gouveia.

 


02
Nov 12
publicado por José Gomes André, às 00:14link do post | comentar | ver comentários (6)

São pouco conhecidos em Portugal, mas muito usados nos EUA. Os mercados electrónicos - verdadeiras bolsas de apostas - reagem em tempo real aos eventos diários e são, por isso mesmo, um excelente instrumento para avaliar a percepção pública acerca do estado da corrida. Embora não estando livres de falhas, são cada vez mais tidos em conta pelos media e operacionais políticos, pois o envolvimento de milhares de apostadores permite corrigir as opiniões improváveis e "reajustar" as probabilidades de forma quase automática. Reagindo às alterações das campanhas, sondagens e outros acontecimentos, estes mercados são um verdadeiro "jogo de expectativas" e a sua fiabilidade em eleições anteriores (de tal forma que chegam na maioria dos casos a "prever" mais exactamente um resultado do que as próprias sondagens) tem sido elogiada por vários estudos académicos.

 

E o que dizem os mercados electrónicos sobre o duelo Obama-Romney? Enquanto escrevo, o mais famoso desses mercados, o Intrade, atribui a Obama 66% de possibilidades de vitória, uma subida interessante face ao que tem sido a tendência geral dos últimos meses (algures entre 58 e 63%, com uma subida de Romney após o primeiro debate). Motivos? Vejo duas hipóteses fortes, possivelmente complementares: 1) os apostadores continuam a achar que Obama tem mais soluções no Colégio Eleitoral, permanecendo favorito em Estados decisivos como o Ohio, Iowa, Wisconsin, New Hampshire e Nevada; 2) os apostadores consideram que pode ser relevante para a eleição o modo como a opinião pública tem reagido positivamente à postura de Obama face à "crise do furacão Sandy" (78% dos americanos elogiam Obama nesta matéria, contra apenas 44% de Romney).


31
Out 12
publicado por José Gomes André, às 15:16link do post | comentar | ver comentários (3)

Desde há alguns dias, e até às eleições, a SIC Notícias tem apresentado um "Especial Eleições EUA", em jeito de diário, com comentários, sondagens e análise do estado da corrida. Sempre à uma da manhã, em emissões de 15 minutos. Esta noite vou ter o prazer de estar no programa, a convite de Martim Cabral.


20
Out 12
publicado por José Gomes André, às 23:12link do post | comentar | ver comentários (6)

1. Com a aproximação das eleições, multiplicam-se os artigos de opinião, as sondagens, os "memorandos" das campanhas e as notícias eleitorais. Não é difícil ficar à toa perante tanta informação. Recomenda-se prudência na leitura dos artigos opinativos (especialmente nos EUA, onde são francamente imparciais) e na interpretação das sondagens - evitando leituras particulares desta ou daquela sondagem (cuidado com o "cherrypicking"). Os dados mais importantes parecem-me ser as "tendências gerais" das sondagens e as decisões estratégicas (públicas) das próprias campanhas.

 

2. E como estamos nesses dados? Vimos uma corrida estável até ao primeiro debate (com vantagem clara de Obama), momento em que Romney conseguiu projectar a imagem de candidato credível e em que Obama surgiu fragilizado. Desde então, as sondagens mostram uma recuperação de Romney, que conduziu a um empate técnico nos números "nacionais". Romney alargou a sua "área de influência" (Pensilvânia e Wisconsin, por ex.) e a campanha de Obama foi obrigada a concentrar os seus esforços no Midwest (deixando para segundo plano o Sudoeste e Estados como a Flórida e a Carolina do Norte).

 

3. O equilíbrio e a incerteza são a nota dominante, mas neste momento continuo a achar Obama ligeiramente favorito, por diversas razões. Falta um debate que à partida lhe é favorável (foca-se na política externa, um dos pontos fortes da sua Presidência). Obama tem mais soluções no Colégio Eleitoral, nomeadamente porque no Midwest as sondagens resistem à incursão de Romney (vide Ohio, Wisconsin, Michigan e Iowa). Obama beneficia ainda da estupenda organização no terreno que montou em 2008. E os mercados electrónicos (mormente o Intrade), que permitem avaliar a reacção imediata da percepção geral do público aos eventos diários, continua a ver Obama como favorito (61,3%). 

 

4. Dito isto, não se deixem enganar pela cobertura jornalística portuguesa. Esta será uma das eleições mais renhidas da história americana. É que as referidas vantagens de Obama são compensadas por outros dados claramente favoráveis a Romney: a desilusão do eleitorado com as promessas da Administração; o desalento da base Democrata; o entusiasmo da base Republicana; o profissionalismo da "máquina" organizativa do GOP; e uma campanha de Romney "em crescendo". Cuidado com as apostas...!


14
Out 12
publicado por José Gomes André, às 13:31link do post | comentar | ver comentários (7)

13
Out 12
publicado por José Gomes André, às 00:19link do post | comentar

Na arquitectura política norte-americana, um dos cargos mais peculiares é o de Vice-Presidente, a quem cabem duas tarefas: substituir o Presidente em caso de morte ou incapacidade do mesmo; e presidir às sessões do Senado (sem direito de voto a menos que exista um empate). Embora em anos recentes, os Vice-Presidentes tenham assumido alguma preponderância na Casa Branca (servindo como conselheiros do Presidente), a verdade é que se trata de um cargo com pouca ou nenhuma relevância concreta.

 

Ao longo dos tempos, os protagonistas e os estudiosos da história americana não deixaram de sublinhar esta singular inutilidade. John Adams, o primeiro Vice-Presidente, chamou-lhe “o cargo mais insignificante alguma vez engendrado pela imaginação humana”. O historiador Arthur Schlesinger considerou que o Vice-Presidente tinha apenas "um encargo verdadeiramente sério": "esperar que o Presidente morra”. Mas talvez a declaração mais sintomática e divertida seja a de Thomas Marshall (Vice-Presidente de Woodrow Wilson): “Era uma vez dois irmãos. Um fez-se ao mar. O outro foi eleito Vice-Presidente. A partir daí, nunca mais ninguém ouviu falar deles.”


12
Out 12
publicado por José Gomes André, às 18:28link do post | comentar

Já um bocadinho atrasado, eis o programa "Olhar o Mundo" da semana passada, em que estive - juntamente com Vítor Gonçalves - a discutir o primeiro debate presidencial e o estado da corrida Obama/Romney: http://www.rtp.pt/programa/tv/p19920/c94859


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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