04
Mai 16
publicado por Alexandre Burmester, às 15:25link do post | comentar | ver comentários (3)

 

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E, finalmente, o adjectivo "inevitável" aplica-se sem discussão a Donald Trump. Ao vencer a primária do Indiana, um estado, do ponto de vista teórico,  geográfica e demograficamente adverso às suas pretensões, e por uma clara margem de 53%-37% sobre Ted Cruz, Trump terminou efectivamente com a discussão, e Cruz, inclusivamente, retirou-se da corrida.

 

No último mês, mas particularmente nas duas últimas semanas, houve uma clara deslocação de intenções de voto entre os republicanos para o magnata dos casinos. Até à primária de Nova Iorque, a 17 de Abril, Trump nunca conseguira atingir os 50% dos votos, pelo que se argumentava que ele tinha um limite entre os 35% e os 40%, e que era beneficiado pelo facto de não enfrentar uma oposição unida, o que era verdade e tinha especial incidência nos estados que atribuem a totalidade dos seus delegados ao vencedor da respectiva primária . Pode argumentar-se que Nova Iorque e os cinco estados que votaram na semana passada faziam parte do hinterland de Trump, em particular Nova Iorque, seu estado natal e de residência. Mas o Indiana é um caso completamente diferente.

 

A que ficou, então, a dever-se esta súbita mudança de uma parte substancial do eleitorado republicano? A primeira, e mais óbvia, explicação, é esse eleitorado ter-se finalmente rendido à mensagem e discurso de Trump. Será uma explicação óbvia, mas não me parece a mais provável ou a mais importante. É difícil tanta gente mudar de opinião em tal matéria em tão pouco tempo. Provavelmente, outros factores tiveram mais peso. Desde logo, a famosa dinâmica da campanha, o momentum. Não só Trump venceu os seis estados atrás referidos, como o seu principal opositor ficou em terceiro em cinco deles. Nesta fase das primárias, ficar em terceiro não é propriamente a maneira mais fácil de mobilizar o respectivo eleitorado. E a percepção da dinâmica de uma competição é muito importante. Ted Cruz terá errado ao empenhar-se pouco nas campanhas nesses estados, pensando que os eleitorados de primárias posteriores seriam imunes aos respectivos resultados. Porque não há muitas dúvidas de que, se a primária do Indiana tivesse tido lugar há três semanas, por exemplo, Trump dificilmente a teria ganho e, muito provavelmente, tê-la-ia perdido, tal como perdera, e com clareza,  no Wisconsin. A juntar a isto, temos o cansaço do eleitorado com o arrastar da decisão sobre quem seria o candidato republicano e, talvez mais importante, a aversão de muitos a uma convenção disputada, especialmente a uma na qual o candidato com mais votos e delegados poderia vir a ver-lhe negada a nomeação. E as notícias sobre a luta surda na angariação de delegados, na qual o campo de Ted Cruz estava a ser muito bem sucedido, podem ter criado no eleitorado a sensação de que a importância dos seus votos estava a ser secundarizada, em favor dos jogos de bastidores.

 

Seja como for, e embora Trump esteja ainda aquém da maioria dos delegados vinculados, isso trata-se agora de uma questão académica. John Kasich, curiosamente, ainda nada disse sobre o resultado de ontem, mas mesmo que se mantenha na corrida, não se afigura que consiga travar a marcha imparável de Trump para a nomeação automática.

 

A questão agora será essencialmente até que ponto os republicanos, muitos dos quais detestam Trump visceralmente, serão capazes de se unirem em torno da sua candidatura. O único factor capaz de conseguir tal feito será o nome da candidata democrática, a qual atinge níveis de repulsa entre o eleitorado republicano que, em comparação, fazem de Trump popularíssimo. Diga-se que não há memória de dois candidatos com índices negativos tão grandes entre o eleitorado geral.

 

Finalmente, a habitual palavra para Bernie Sanders, cuja campanha insurreccional não tem tido o devido destaque, principalmente por causa do inusitado fenómeno-Trump. Mais uma vez desafiando as sondagens, Sanders venceu o Indiana (53%-47%). E há dias garantiu que a convenção democrática será uma convenção contestada, pois não está disposto a abandonar a corrida, e o grande número de super-delegados na convenção democrática está a impedir a antiga Secretária de Estado de garantir a maioria antes da convenção, devido também, claro, ao forte desempenho de Sanders.


02
Mai 16
publicado por Alexandre Burmester, às 16:17link do post | comentar | ver comentários (1)

 

 

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Desde as mais recentes vitórias de Donald Trump - as obtidas em seis primárias no Nordeste - que se vem notando uma atmosfera de resignação, de alto a baixo, no Partido Republicano. O fervor anti-Trump de semanas anteriores parece estar a abater, e uma espécie de realismo, também em nome da unidade do partido, começa a fazer-se sentir.

 

Efectivamente, a até agora escassa lista de apoiantes de Donald Trump entre a elite republicana, embora continue magra, tem tido a adição de alguns membros da Câmara dos Representantes, a qual, ao que consta, poderá vir a aumentar no caso de uma vitória do magnata novaiorquino na primária de amanhã no Indiana. E na crucial luta pelos delegados em caso de convenção aberta - uma a que nenhum candidato chega com a maioria dos delegados - alguns dos que pareciam firmes no campo de Ted Cruz, parecem estar  agora a oscilar.

 

A invulgar indecisão da campanha das primárias - há 40 anos que não há uma convenção aberta - estará já a saturar muita gente no G.O.P., e muitos, mesmo sem particular entusiasmo pelo homem que lidera a corrida, parecem estar a coalescer em torno dele, basicamente porque desejam evitar uma convenção caótica que poderia afectar seriamente a unidade do partido para as eleições de Novembro. E isto, mesmo perante a possibilidade de uma nomeação de Trump poder não só significar uma derrota pesada, como colocar em risco a maioria republicana no Senado, cerca de um terço do qual será renovado em Novembro, sendo a maioria dos lugares em disputa actualmente detida por republicanos, muitos deles eleitos na onda anti-Obama de 2010 (os mandatos no Senado são de seis anos).

 

Recentemente, Trump tem adoptado uma postura mais moderada, do ponto de vista retórico e em comparação com os seus anteriores padrões, e até apresentou a sua visão sobre política externa a convite do Center for the National Interest (CFTNI), o antigo Nixon Center, um think-tank criado por Richard Nixon e Henry Kissinger em defesa do "realismo" em política externa, em contraste com os intuitos mais belicistas dos neoconservadores. Ou seja, parte do establishment, mesmo estando longe de estar convencido das qualidades de Trump e das suas possibilidades eleitorais em Novembro, parece estar a adoptar uma atitude apenas realista perante ele. Diga-se, contudo, que a diferença de Trump para Hillary Clinton, num hipotético confronto entre os dois em Novembro, tem vindo a cair, havendo até sondagens recentes que os colocam praticamente lado a lado, uma das quais apurou haver mais democratas dispostos a votarem em Trump, que republicanos em Clinton.

 

Por trás do "novo Trump" e dos seus ganhos entre o establishment está o dedo do seu mais recente guru, Paul Manafort , um homem que, positivamente, não brinca em serviço, e que será talvez a única pessoa capaz de fazer eleger o magnata. Entre os seus clientes contaram-se Mobutu Sese Seko, Ferdinand Marcos, Teodoro Obiang e Viktor Yanukovych, não propriamente uma galeria de democratas, mas um símbolo da atracção exercida pelas artes mágicas de Manafort. Mais prosaicamente, Gearld Ford, Ronald Reagan, ambos os Bush e John McCain também recorreram aos seus serviços.

 

Outro factor importante nesta aparente aquiescência do establishment republicano, ou de parte dele, em torno de Trump é a alternativa: Ted Cruz. É que, de facto, para muitos membros do tão decantado establishment, trata-se de um caso de "venha o diabo e escolha", pois o senador texano é uma figura que colhe a quase unanimidade em termos de (im)popularidade nesse meio, nomeadamente entre os seus colegas do Senado, altamente críticos das suas tácticas naquela assembleia. Além disso, Cruz é a personificação do político apoiado pelo Tea Party, uma entidade que conta nas suas características uma feroz oposição ao status quo de Washington. Isso, contudo, também lhe garante uma vasta rede de operacionais no terreno, para os quais o purismo ideológico conservador transcende a unidade do partido e Donald Trump é um verdadeiro anátema.

 

O próximo combate, no Indiana, será decisivo para Cruz. Os últimos números das sondagens são pouco propícios às suas aspirações, mesmo depois do seu acordo com John Kasich e da sua escolha de Carly Fiorina para "running mate". A partir de 4ª feira, Trump poderá tornar-se mesmo "inevitável". E daí...

 

 


28
Abr 16
publicado por Alexandre Burmester, às 16:33link do post | comentar

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No domingo passado, as campanhas de Ted Cruz e John Kasich anunciaram uma espécie de acordo com especial incidência na primária do Indiana no próximo dia 3 (o acordo também se estende ao Novo México e ao Oregon, mas a atribuição proporcional de delegados nesses dois estados torna-o menos importante aí). Essa súbita aliança foi por muitos interpretada como sinal de desespero das duas campanhas nos seus esforços em barrarem o caminho a Donald Trump.

 

Entretanto, tiveram lugar cinco primárias em estados do Nordeste, todas ganhas por Trump com larga vantagem. Nada de imprevisível sucedeu nessas eleições, mas a "narrativa" é sempre influenciada pelos resultados eleitorais, com a tendência e tentação dos media em utilizarem adjectivos como "inevitável", "imparável", etc., para descreverem a campanha do vencedor.

 

E ontem, num comício em Indianapolis, Cruz sacou, digamos assim, um coelho da cartola: numa acção sem precedentes a esta distância da convenção, especialmente para um candidato que não lidera a corrida, anunciou Carly Fiorina como sua escolha para candidata a Vice-Presidente, no caso de ser ele o nomeado republicano.

 

É fácil classificar esta iniciativa como "desesperada" (o que não quer dizer que o não seja, claro), mas será mais interessante tentar analizar-se o que Fiorina poderá trazer ou não à campanha de Cruz. Foi CEO da Hewlett-Packard (com um desempenho sobre o sofrível, segundo muitas opiniões), candidata derrotada ao Senado pela Califórnia em 2010 (estamos, contudo, a falar de um estado cada vez mais dominado pelos democratas) e foi um dos inúmeros candidatos republicanos no início das primárias deste ano. Nos debates, deixou boa impressão e foi um dos primeiros republicanos a atacarem Trump seriamente (também tinha sido uma das primeiras vítimas da língua viperina do bilionário novaiorquino, diga-se). Debate bem, tem uma visão positiva das coisas e é conservadora. Mas, tirando uns breves instantes depois dos primeiros debates em que participou, a sua popularidade nunca foi grande, e acabou por desistir depois de um desempenho fraco no New Hampshire. Em Março declarou o seu apoio a Ted Cruz, e desde então tem feito campanha pelo senador do Texas. E, claro, é mulher e é da Califórnia, e isso decerto terá pesado na decisão de Cruz, embora o peso de Fiorina no eleitorado californiana seja duvidoso.

 

Não creio que esta escolha possa ter algum peso importante na primária do Indiana, mas é possível que, apesar de tudo, algum venha a ter na da Califórnia, a 7 de Junho. Além disso, se Cruz for o nomeado republicano, Fiorina poderá ser útil na campanha contra Hillary Clinton, que poderá atacar sem correr o risco de imediatamente receber como resposta o epíteto de "sexista".

 

Richard Nixon, um homem que sabia muito destas coisas, disse um dia que um candidato vice-presidencial pouco pode favorecer uma candidatura presidencial, mas em contrapartida, pode prejudicá-la grandemente. Não me parece que Fiorina possa vir a cair na segunda categoria, mas quanto à primeira, estou com Nixon. Mas, essencialmente, a oportunidade da sua escolha tem em vista o que resta das primárias e a luta pela nomeação.


27
Abr 16
publicado por Alexandre Burmester, às 13:53link do post | comentar

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 Indiana Wants Me

 

E depois das primárias de ontem, em cinco estados do Nordeste, tudo parece ir depender do Indiana, mais para os opositores de Donald Trump que para ele próprio, diga-se

 

Os resultados no campo republicano no Connecticut, Delaware, Maryland, Pensilvânia e Rhode Island não fugiram ao previsto, embora, tal como na semana passada em Nova Iorque, Trump tenha excedido as percentagens previstas. E confirmou-se a maioria dos votos nos cinco estados, à semelhança de Nova Iorque, que tinha sido o primeiro estado onde tal ele conseguira. O bilionário novaiorquino conseguiu entre os 54% de votos (Maryland) e os 64% (Rhode Island). Nesta altura das primárias, estes números não são invulgares, sendo até por vezes excedidos, sendo sempre, contudo, de assinalar. Sucede que, este ano, as características sui generis, digamos assim, do candidato que lidera a corrida republicana tem feito com que o eleitorado demore a coalescer no apoio a ele.

 

Do ponto de vista estrito da aritmética, Trump não prejudicou, obviamente, as suas possibilidades de vir a alcançar a maioria dos delegados, mas também não as melhorou significativamente. As suas vitórias nos estados que ontem votaram tinham sido  basicamente tomadas em consideração nos cálculos de Nate Silver do site analítico FiveThirtyEight sobre o número de delegados que ele precisa de ir angariando para atingir essa maioria. Está agora ligeiramente à frente dos números que precisa de ir alcançando, e recuperou dos danos que sofrera em Wisconsin e Colorado.

 

E é aqui que entra o Indiana, que vota no próximo dia 3, e onde estão em disputa 57 delegados, atribuídos na totalidade ao vencedor(es) no estado (30) e nos seus nove círculos eleitorais (3 por círculo, num total de 27). Há duas semanas, tudo indicava que Ted Cruz venceria o estado. As poucas sondagens entretanto realizadas dão uma curta vantagem a Trump, e daí, muito provavelmente, o motivo do recente pacto entre Cruz e John Kasich, dando ao primeiro um caminho mais livre para a vitória. Esta tornou-se agora imperativa para o senador pelo Texas. Para Trump, uma derrota não será necessariamente definitiva, mas dificultará bastante o seu caminho para os 1.237 delegado, podendo inclusivamente indicar dificuldades em estados como o Nebrasca, que votará mais tarde no mês de Maio.

 

Uma incógnita saída das eleições de ontem é o que farão os 54 delegados não-vinculados eleitos na Pensilvânia, estado que tem um modelo de selecção de delegados que difere bastante dos restantes, pois apenas 17 dos seus 71 delegados ficam vinculados (e Trump ganhou-os todos). Estes 54 militantes republicanos poderão vir a ter uma decisiva palavra sobre se haverá ou não maioria de Trump na convenção. 

 

Finalmente, no que respeita aos republicanos, a velha questão da "dinâmica" da campanha (o famoso "momentum"). Trata-se de um naco de sabedoria convencional, basicamente, mas a verdade é que, este ano, tal dinâmica tem sido ilusória: já houve momentos em que Trump parecia imparável, para pouco tempo depois sofrer reveses, dos quais, como nestas duas semanas, viria a recuperar. Não me parece, portanto, que, pelo menos este ano, a dinâmica seja um factor muito importante, dadas as características muito especiais desta disputa republicana. Acresce que, tanto ontem como em Nova Iorque, a afluência republicana foi mais baixa do que tinha sido até aqui, o que poderá muito bem significar que parte do eleitorado anti-Trump, já ciente das inevitáveis vitórias deste, ainda por cima em estados que, na sua maioria, atribuíam os delegados todos ao vencedor, terá ficado em casa. Ora este factor não se aplicará no Indiana, onde a luta promete ser renhida e a afluência deverá retomar níveis anteriores.

 

Quanto aos democratas: Hillary Clinton venceu quatro dos cinco estados (a excepção foi Rhode Island) e prossegue o seu paulatino caminho para a nomeação. Não há qualquer dúvida plausível sobre quem será o candidato do partido simbolizado pelo burro. Isso não impedirá, contudo, o combativo Bernie Sanders de continuar na corrida.

 

 

* Com permissão de R. Dean Taylor

 

 


25
Abr 16
publicado por Alexandre Burmester, às 21:45link do post | comentar

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O Senador Ted Cruz e o Governador John Kasich anunciaram no domingo um acordo que tem o óbvio objectivo de impedir Donald Trump de alcançar a maioria dos delegados à convenção republicana: Kasich não fará mais campanha no Indiana (que vota a 3 de Maio) e Cruz retribuirá na mesma moeda no Novo México e no Oregon (17 de Maio e 7 de Junho, respectivamente).

 

Basicamente, a questão é esta: o Indiana atribui os seus delegados (57) ao vencedor a nível do estado e dos seus círculos eleitorais. Uma derrota aí, impossibilitará praticamente Trump de atingir o número mágico. Houve, até agora, poucas sondagens no "Hoosier State", mas a média das que houve dá uma ligeira vantagem a Trump, ultrapassável nem que apenas metade dos que dizem tencionar votar em Kasich vire o seu voto para Cruz.

 

Este acordo Cruz-Kasich não deixa, contudo, de ser ambíguo, pois o Governador do Ohio já declarou contar na mesma com os seus votos no Indiana, apenas suspendendo a sua campanha naquele estado. No Novo México e no Oregon a atribuição de delegados é proporcional, pelo que aí o impacto da "ausência" de um dos dois candidatos será menor.

 

Para alguns, nomeadamente o campo de Trump, trata-se de uma manobra desesperada; para outros, mormente gente chegada ao movimento #NeverTrump, só peca por tardia.


22
Abr 16
publicado por Alexandre Burmester, às 16:00link do post | comentar

 

 

 

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Por entre a refrega de primárias, "caucuses" e debates (estes já uma coisa distante, embora o Republican National Committee esteja a considerar a organização de mais algum ou alguns) uma outra campanha, a que poderia chamar-se "a campanha silenciosa", vem tendo lugar, discretamente e voando sob os radares. Trata-se da luta pela angariação de delegados, essencialmente perante a ainda forte possibilidade de nenhum candidato (ou seja, Donald Trump) chegar a Cleveland com a maioria deles (o já famoso número de 1.237).

 

No primeiro escrutínio na convenção quase todos os 2.472 delegados têm de votar no candidato a que estão vinculados pelo resultado da primária ou "caucus" do seu estado. Mas, a partir do segundo escrutínio, quase todos eles ficam livres de votarem em quem quiserem (as regras não são uniformes de estado para estado). E é esta a "campanha silenciosa": tentar conquistar delegados para o segundo escrutínio e escrutínios seguintes, se vierem a ter lugar. 

 

Nesta batalha surda pela conquista de delegados, a campanha de Ted Cruz tem sido considerada a mais eficaz, organizada e profissional. Inclusivamente, em estados que não organizam primárias nem "caucuses", mas escolhem os seus delegados através de convenções, Cruz tem tido assinalável sucesso, como no Colorado e no Wyoming (e estes são delegados já garantidos por Cruz para o primeiro escrutínio). Do mesmo modo, em estados ganhos por Trump, como Louisiana e Carolina do Norte, o senador pelo Texas terá já garantido um bom número de delegados para o segundo escrutínio. A verdade é que o delegado típico é um militante de base e activo no partido, o que está longe de corresponder ao perfil do apoiante médio de Trump, ou seja, muitos delegados vinculados a Trump poderão abandoná-lo alegremente a partir do segundo escrutínio.

 

O que atrás ficou dito reforça a necessidade de Trump vencer no primeiro escrutínio para conseguir ser o nomeado. Essa tarefa não é impossível, mesmo se partirmos do princípio de que o magnata novaiorquino não alcançará os 1.237 delegados. É que haverá entre 100 a 200 delegados não-vinculados, mesmo no primeiro escrutínio, e se Trump não ficar muito aquém dos 1.237 antes da convenção, decerto não lhe será impossível convencer um número suficiente desses delegados não-vinculados a votarem nele. É aqui que entra a questão da organização e profissionalismo da campanha, e nesse sentido, Trump contratou recentemente para seu director na convenção e responsável pela angariação de delegados o veterano consultor republicano Paul Manafort, que conta no seu currículo actividades semelhantes ao serviço de Gerald Ford, Ronald Reagan, George H. W. Bush, Bob Dole, George W. Bush e John McCain (já para não falar no ex-presidente da Ucrânia Viktor Yanukovych - Manafort é um sujeito eclético). O palmarés de Manafort é excelente, mas resta saber se não terá chegado tarde de mais à campanha de Trump (no seu peculiar estilo, já declarou que Trump conseguirá 1.400 delegados antes da convenção).

 

Mas nada do que atrás ficou dito garante que Ted Cruz, uma vez conseguido o objectivo de impedir Donald Trump de vencer ao primeiro escrutínio, vença ele ao segundo. É que, muitos dos delegados que com ele têm vindo a comprometer-se, considerarão tal compromisso apenas numa óptica de um frentismo anti-Trump, e se virem que Trump está definitivamente derrotado, poderão também largar Cruz e votar noutro candidato. É nisto que residirá a estratégia de John Kasich, o qual, mais de um mês depois da desistência de Marco Rubio, ainda tem menos delegados que este (ficou, contudo, em segundo lugar - embora distante - em Nova Iorque e poderá conseguir outros segundos lugares nas primárias do Nordeste da próxima semana, embora isso não seja certo). Isto, claro, se a regra que vigorou na convenção de 2012, segundo a qual só poderia ser nomeado um candidato que tivesse vencido oito primárias ou "caucuses", não for incluída nas regras da convenção deste ano. E quem fala em John Kasich, poderá também falar num outro hipotético candidato à nomeação, que surja na convenção perante um impasse na mesma.

 

As primárias republicanas de 2016 podem já estar a saturar uma boa parte do eleitorado, mas os "political junkies" estão a ter um ano em cheio.

 

 


20
Abr 16
publicado por Alexandre Burmester, às 18:37link do post | comentar

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A primária do Estado de Nova Iorque não trouxe propriamente surpresas. Mas a verdade é que, pela primeira vez, Donald Trump conseguiu a maioria dos votos num estado, com uns retumbantes 61% (não é de menosprezar o factor casa) e pelo menos 89 dos 95 delegados em disputa. Este número de delegados está em linha com o que o site analítico FiveThirtyEight calcula seja necessário Trump ir angariando para conseguir uma maioria, ou seja, esta sua vitória não melhorou nem piorou as suas perspectivas do ponto de vista estrito dos números.

 

Na próxima terça-feira, há mais uma série de primárias em estados do Nordeste, onde são previsíveis novos sucessos de Trump: Connecticut, Delaware, Maryland, Pensilvânia e Rhode Island. Estarão em disputa um total de 172 delegados, com o importante pormenor, contudo, de o prémio maior, a Pensilvânia, apenas vincular ao vencedor no estado 17 dos seus 71 delegados, sendo os restantes livres de votarem como entenderem na convenção. É verdade que um bom número dos potenciais delegados deste último estado já disse que votará no vencedor, mas daqui até Cleveland muita água passará debaixo das pontes.

 

Depois da próxima semana, as hostilidades serão retomadas numa primária que promete ser decisiva para as aspirações de Trump: Indiana e seus 57 delegados, a 3 de Maio. Uma vitória de Ted Cruz aqui (os delegados vão inteiramente para o vencedor em cada círculo eleitoral) será um sério e quase definitivo revés para o magnata novaiorquino na sua luta pelo mágico numero de 1.237 delegados. E o Indiana tem algumas semelhanças com o Wisconsin (e o mesmo método de atribuição de delegados), onde Cruz conquistou 36 dos 42 delegados em disputa. Não tem havido sondagens públicas no "Hoosier State", mas aparentemente há sondagens privadas que colocam Trump pouco acima dos 30%. A luta pela nomeação republicana ainda vai dar muito que falar.

 

Hillary Clinton, por seu lado, teve, além de uma vitória folgada (58%-42%) uma firme confirmação da inevitabilidade da sua nomeação. Mais uma vez, Bernie Sanders continuará na corrida, naquilo que é há muito uma luta inglória, mas valorosa.

 

 

Foto: Donald Trump após a sua vitória em Nova Iorque (Reuters/Shannon Stapleton)

 

 


19
Abr 16
publicado por Alexandre Burmester, às 17:49link do post | comentar

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Realiza-se hoje a primária do estado de Nova Iorque, tanto do lado Republicano, como do lado Democrático. Esta primária, juntamente com as que se realizam na próxima semana (Connecticut, Delaware, Maryland, Pensilvânia e Rhode Island) disputa-se em terreno favorável a Donald Trump, que deverá emergir com um bom pecúlio de delegados, embora isso, muito provavelmente, não lhe venha a resolver o problema de chegar à convenção de Cleveland sem a maioria.

 

Em anos normais, por esta altura já está decidido o vencedor de cada partido, mas este ano, dado o facto de nenhum republicano ter conseguido impôr-se e de Bernie Sanders ter tido uma galharda e imprevista campanha, as coisas, do lado republicano, estão longe de estar decididas e, do lado democrático, embora na prática estejam, a campanha continuará até ao fim.

 

Isto faz com que primárias a que normalmente pouca gente prestava atenção, por já nada decidirem, estejam este ano a ser foco de atenções concentradas. Nunca tanta gente esteve a par das peculiaridades e características próprias das primárias de cada estado.

 

Nova Iorque atribui os seus delegados do seguinte modo: três por cada círculo eleitoral da Câmara dos Representantes. O estado tem 27 círculos eleitorais. O vencedor em cada círculo ganha dois delegados, e o segundo classificado ganha um. Contudo, se o vencedor tiver pelo menos 50% dos votos, açambarcará os três delegados. Do mesmo modo, os candidatos que não atinjam 20% dos votos, não terão direito a qualquer delegado. Além disso, são atribuidos proporcionalmente  14 delegados a nível do estado, aplicando-se também aqui a regra dos 50% e dos 20%.

 

O eleitorado republicano está concentrado nas áreas do chamado "Upstate New York", a norte de Nova Iorque, mas cada círculo atribui três delegados indepndentemente do número de republicanos nele registados. Isso significa que, por exemplo, em áreas maciçamente democráticas da cidade de Nova Iorque, como o Bronx, umas centenas de republicanos podem ser fulcrais na decisão local.

 

Donald Trump é o claro favorito republicano. A questão está em saber se atingirá os 50% (a maior parte das sondagens dizem que sim) e quantos cícrculos eleitorais vencerá.

 

 

Do lado democrático, pese embora ser de esperar um razoável desempenho de Bernie Sanders, Hillary Clinton é a clara favorita. Em todas as primárias democráticas vigora o sistema de atribuição proporcional de delegados.


06
Mar 16
publicado por Alexandre Burmester, às 22:50link do post | comentar

Sábado 5 de Março pode vir a ficar na História como o dia em que a candidatura de Donald Trump começou a soçobrar. Ou não. 

 

É indesmentível, como ponto de partida desta análise, que a aura de quase invencibilidade do bilionário de Nova Iorque sofreu um golpe neste "Semi-Super Sábado". Com efeito, e com excepção dos "caucuses" de Iowa, foi esta a primeira jornada eleitoral em que Donald Trump não só não venceu mais eleições que os rivais, como até conquistou menos delegados que um deles, e isto em contraste com o que as sondagens faziam prever.

 

Não sou de opinião que as sondagens estivessem todas erradas. Para além das dificuldades técnicas que a realização de sondagens sobre "caucuses" encerram (Maine, Kentucky e Kansas tiveram "caucuses"), parece muito provável que tenha havido flutuações de última hora no eleitorado, já não captadas pelas sondagens. É o caso, principalmente, da Louisiana, onde as últimas sondagens davam uma vantagem de entre 12 e 17 pontos a Trump, mas em que este acabou por vencer por apenas 3,6%. Com efeito, na contagem dos votos antecipados (os daqueles que votaram antes do dia das eleições), Trump tinha uma folgada margem mas, à medida que foi sendo feita a contagem dos votos do próprio dia, Ted Cruz foi-se aproximando, chegando a pôr em risco a vitória de Trump. No Kansas, a última sondagem dava uma margem da ordem dos 6% a Trump, e contudo Cruz venceu por uns avassaladores 25 pontos. No Kentucky houve mais uma disputa renhida, com Trump  a vencer Cruz por pouco mais de 4 pontos, e no Maine, território que parecia favorável a Trump, anterior vencedor das primárias em estados da Nova Inglaterra, e onde, ainda por cima, recebeu o apoio do respectivo governador, Cruz teve uma vitória surpreendente, com 13 pontos de vantagem.

 

A que se ficou a dever esta aparente viragem? O debate de 5ª feira passada deve ter influído, não só no desgaste da imagem de Trump, como na do seu principal atacante dessa noite, Marco Rubio, o qual pode assim ter muito bem cometido um suicídio involuntário, ao mesmo tempo que favoreceu a estratégia anti-Trump do "establishment" do partido (à falta de melhor expressão). Há também a forte possibilidade de muitos eleitores republicanos (e estas quatro eleições foram todas "fechadas", isto é, só de acesso a republicanos, situação em que Trump tem obtido resultados menos bons) estarem a decidir concentrar os votos no candidato que aparece com mais possibilidades de parar Trump, o Senador Cruz.

 

 

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A noite foi, sem dúvida, muito boa para o senador pelo Texas. Mas, exceptuando o Maine, estava em terrenos que, em princípio, lhe eram favoráveis. No dia 8 votam Havai, Idaho, Michigan e Mississippi, um espectro geográfico e demográfico mais diverso. No Michigan haverá também que prestar atenção ao desempenho de John Kasich, pois trata-se de um estado vizinho do Ohio, onde é o governador. Nesse dia poderemos talvez confirmar se as notícias acerca do declínio de Donald Trump eram ou não largamente exageradas, como diria Mark Twain.

 

Uma nota final para as primárias democráticas do mesmo dia 5: duas vitórias folgadas de Bernie Sanders, mais que compensadas por uma, também ela folgada, de Hillary Clinton no mais importante estado da noite, a Louisiana. Nada de novo, portanto, nesse campo. Sanders continuará na corrida, à espera de melhores dias, mas o seu destino está traçado. A sua permanência, contudo, não deixa de ser incómoda para Clinton, obrigando-a a tomar posições à Esquerda que poderão ser-lhe prejudiciais na eleição geral.

 

 


27
Fev 16
publicado por Nuno Gouveia, às 09:00link do post | comentar | ver comentários (2)

As campanhas presidenciais americanas têm muitas regras não escritas que normalmente funcionam. Mas Trump está a revolucionar a política presidencial e todas têm vindo a ser derrubadas. Bem, todas menos uma regra fundamental: quem vence as primeiras eleições, normalmente conquista uma dinâmica de vitória capturando um apoio exponencial nas eleições seguintes. A única vez que tal não sucedeu foi em 1992 no Partido Democrata, quando o nomeado, Bill Clinton, apenas ganhou a sua primeira eleição (e mesmo assim, única nesse dia) na super terça-feira. De resto, sempre que alguém ganha o estatuto de frontrunner após as primeiras eleições, acaba por ser o nomeado. Trump tem cometido gaffes atrás de gaffes, proferido declarações bombásticas, demonstrado uma total ignorância sobre os princiais dossiês, feito propostas simplesmente inexequíveis, tem sido largamente ultrapassado nos gastos financeiros pelos seus adversários, declarou guerra à Fox News e é o candidato que tem menos apoios no Partido. Nesta fase, tudo isto significaria que não teria a mínima hipótese. E, no entanto, é o óbvio frontrunner e favorito para obter a nomeação. Será muito difícil travá-lo.

No debate desta quinta-feira Marco Rubio e Ted Cruz finalmente partiram ao ataque contra Trump, expondo as suas óbvias fragilidades como candidato. A crítica americana foi quase unânime em declarar que, pela primeira vez nesta campanha presidencial, Trump foi ridicularizado num debate e que a dupla Rubio/Cruz foi eficaz ao irem atrás do nova iorquino. Mas a mesma crítica também manifestou sérias dúvidas se este ataque frontal a Trump não terá sido demasiado tarde, pois o "momentum" de Trump parece ser quase imparável. E ontem, depois de uma manhã desastrosa nos media, Trump apresentou ao inicio da tarde o apoio de Chris Christie, que quebrou com a cobertura do debate. É verdade que finalmente as Super Pacs estão a atacar Trump (a de Rubio angariou 20 milhões de dólares esta semana para esse objetivo), mas também pode ser tarde demais. Um dos grandes mistérios destas eleições é que dos mais de 200 milhões de dólares já gastos nestas primárias em anúncios televisivos, apenas uma ínfima parte desse dinheiro foi gasto contra Trump. O maior alvo foi mesmo Marco Rubio, que foi massacrado por Jeb Bush, Chris Christie e Ted Cruz. Hoje no Twitter famosos activistas conservadores atacaram Trump e há uma revolta contra a possibilidade da sua nomeação. Mas se há umas semanas tivesse que apostar, colocaria o meu dinheiro num candidato que não Trump, neste momento, e pelo que tenho visto nas sondagens dos próximos estados, já não o faria.

A menos que o debate tenha mudado alguma coisa, Trump deverá vencer a maioria dos estados na próxima terça-feira (acredito que se tiver uma "má" noite, terá mesmo assim mais de 50% dos delegados em disputa) e se conseguir fazê-lo no Texas, Ted Cruz poderá mesmo ver-se obrigado a desistir (neste momento, Cruz vai à frente). Rubio poderá ficar em segundo na maior parte dos estados, mas caso não vença nenhum, que hipóteses terá? Vencer a maior parte dos estados que atribuem os delegados todos ao vencedor? Talvez, mas conseguirá vencê-los, contrariando a única regra que ainda não foi quebrada nestas primárias? Não me parece... Mas estas não são umas primárias iguais às que já vimos no passado, por isso, nunca se sabe. 

 

PS: hoje realizam-se as primárias da Carolina do Sul no Partido Democrata e Hillary Clinton é a clara favorita. Depois de algum momentum de Bernie Sanders, diria que a menos mude alguma coisa, Clinton deverá fechar a sua nomeação na super terça-feira. O #FeelTheBern caiu muito esta semana. 


21
Fev 16
publicado por Alexandre Burmester, às 14:56link do post | comentar | ver comentários (5)

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Uma vez que se perde na noite dos tempos a última vez que o nomeado republicano não venceu Iowa nem New Hampshire (e, muito menos, esses dois estados mais a Carolina do Sul); uma vez que o Iowa está pejado de cadáveres de candidatos que lá ganharam, mas que acabaram por soçobrar; uma vez que Donald Trump venceu já New Hampshire e Carolina do Sul, e Ted Cruz venceu no Iowa; uma vez que o "terceiro homem", o melhor que até agora conseguiu foi um segundo lugar (por uma unha negra) na Carolina do Sul - é legítimo dizer-se, sob o ponto de vista convencional, que Trump é agora o claro favorito.

 

Mas se este ano de 2016 desafia as convenções no tipo de candidatos que surgiram de ambos os lados, nada impede que as não venha a desafiar na escolha do candidato vencedor da nomeação republicana (pelo menos nesta).

 

O número substancial de candidatos republicanos, mesmo reduzidos a seis antes da Carolina do Sul, dá mais relevo aos resultados até agora obtidos por Donald Trump do que teria provavelmente sucedido se eles fossem apenas uns três. Na realidade, Trump parece já ter demonstrado que o seu limite de votação está na casa dos 30%, o que significa que cerca de dois terços dos votantes o não têm apoiado (e a pouca simpatia que uns 40% dos republicanos dizem às sondagens por ele nutrirem não augura nada de bom para uma sua eventual candidatura).

 

A maioria das primárias até 15 de Março atribui delegados proporcionalmente à votação, embora com limites mínimos de 15% ou 20% para que essa atribuição proporcional tenha lugar (a Carolina do Sul, que ontem votou, atribui-os todos ao vencedor). Isto significa que as vitórias obtidas até essa data têm mais efeito na dinâmica da corrida que na angariação de delegados propriamente dita. Jeb Bush acaba de desistir, o que poderá favorecer Marco Rubio em termos de apoios financeiros e de transferência de votos. O Governador do Ohio, John Kasich, que obteve um pírrico segundo lugar em New Hampshire e ontem terminou praticamente empatado com Bush, parece decidido a continuar, esperando melhores dias em terrenos mais favoráveis para ele, como Michigan e, claro, Ohio. O seus apoiantes seriam também potenciais votantes em Marco Rubio. Ben Carson também não dá sinais de desistir, mas o seu apoio parece estar a diluir-se. O perfil dos seus votantes é mais parecido com os de Cruz que com os de Rubio.

 

Na prática, estaremos agora a entrar numa corrida a três, uma vez que é expectável a perda de força por parte das campanhas de Kasich e de Carson. Num cenário desses, e uma vez que Trump pouco mais tem conseguido que 1/3 dos votos, poderemos vir a assistir a disputas mais renhidas. Mas Cruz e Rubio parecem mais entretidos em degladiarem-se do que em enfrentarem Trump directamente, o que poderá causar danos àquele dos dois que, eventualmente, possa sobrepôr-se a Trump.

 

Finalmente: não chega ter boas e promissoras prestações. Um destes dias, Marco Rubio terá de ganhar uma primária.

 

 


20
Fev 16
publicado por Nuno Gouveia, às 00:34link do post | comentar

Amanhã realizam-se importantes eleições: na Carolina do Sul no Partido Republicano e no Nevada no Partido Democrata. Não são decisivas, mas podem ditar o afastamento da corrida de alguns candidatos no lado do Partido Republicano, e contribuir para que Bernie Sanders possa afirmar-se como sério candidato à nomeação. 

 

Primárias da Carolina do Sul - 50 delegados no Partido Republicano (urnas encerram às 01h00 Domingo) 

Os vencedores dos sete distritos ficam com três delegados em cada e 29 serão atribuídos ao vencedor do estado. Na prática, se um candidato vencer nos sete distritos fica com os 50 delegados. É esperada nova vitória de Donald Trump, pois lidera as últimas dez sondagens no Estado, mas nos últimos dias os seus números têm descido. Ontem foi publicada uma que colocava Ted Cruz a apenas cinco pontos e hoje outra que colocava Marco Rubio apenas a três pontos. Mas a maioria coloca Trump acima dos 30%, com Rubio e Cruz a disputarem o segundo lugar. Jeb Bush e John Kasich disputam o quarto lugar e Ben Carson aparece em todas em último lugar. As indicações que têm surgido nos últimos dias apontam para uma desistência de Jeb Bush, caso fique atrás de Rubio e Ben Carson poderá não continuar se o seu resultado ficar abaixo dos 5%. Kasich parece determinado continuar até às primárias do Midwest, que acontecerão lá para o inicio da Primavera. Se Trump tiver mais uma vitória confortável, ficará em excelente posição para vencer no Nevada no dia 23 deste mês e com caminho aberto para a Super Terça-feira. Depois do péssimo quinto lugar no New Hampshire, Marco Rubio parece ter recuperado na Carolina do Sul e com os importantes apoios da popular Governadora Nikki Haley e o Senador Tim Scott tem subido nas sondagens. A sua campanha está em crescendo, mas precisa de ter excelente resultado aqui, e desta vez, um terceiro lugar poderá não ser suficiente. Continua a ter hipóteses de ganhar a nomeação mas precisa urgentemente que Kasich e Bush se retirem para ficar como o candidato único do establishment. Ted Cruz espera repetir a surpresa do Iowa, e caso não o consiga, precisa de ficar em segundo. Um terceiro lugar atrás de Rubio coloca-o em maus lençóis.

 

Caucus do Nevada - 43 delegados no Partido Democrata (começam às 18h00 de Lisboa) 

Os delegados são atribuídos proporcionalmente aos resultados. As sondagens no Nevada não são muito fiáveis e há a longa tradição de falharem. Por exemplo, em 2008 Mitt Romney tinha uma vantagem de 5 pontos sobre John McCain e acabou por vencer por 30 pontos. Talvez por isso não há muitas sondagens no Nevada, mas as três que foram conhecidas depois das primárias do New Hampshire colocam Hillary Clinton e Bernie Sanders num empate técnico, com ligeira vantagem para a antiga Secretária de Estado. Isto é particularmente relevante pois em Dezembro, Hillary tinha uma vantagem que oscilava entre os 20 e os 30 pontos. Esta eleição é importante para Bernie, pois tem suscitado um enorme entusiasmo entre os mais jovens, mas não demonstrou ainda que consegue conquistar importantes grupos demográficos nas primárias democráticas: os negros e os hispânicos. Ora, é expectável que cerca de 30% dos eleitores sejam hispânicos e negros, o que pode ajudar Bernie a mostrar que também pode vencer entre as minorias. Até ao momento, Hillary Clinton acredita que tem a eleição controlada na Carolina do Sul (que se realiza na próxima terça-feira), pois o enorme apoio que têm entre os negros não dá mostras de quebrar aí. Olhando para os números conhecidos, creio que mesmo que Hillary Clinton perca no Nevada, vencerá facilmente na Carolina do Sul, onde a percentagem de negros ultrapassa os 50%. Além disso, esta semana saiu uma sondagem da PPP nos estados da Super Terça-feira, que colocava Hillary a vencer em 10 dos 12 estados. Se isso se mantiver assim, pode arrumar com a questão nesse dia. Mas tudo está em aberto e se Bernie vencer no Nevada e ficar próximo na Carolina do Sul, o resultado é imprevisível. Diria que Clinton continua a ser muito favorita, mas as coisas podem mudar um pouco depois dos resultados de amanhã.

 


16
Fev 16
publicado por Nuno Gouveia, às 22:21link do post | comentar | ver comentários (8)

Nunca na história moderna do sistema político americano - desde 1976, quando o sistema de primárias como hoje vigora foi instituído - nenhum republicano foi nomeado sem vencer uma das três primeiras eleições. Depois da vitória de Ted Cruz no Iowa e Donald Trump no New Hampshire, a menos de uma semana das eleições na Carolina do Sul, todas as sondagens dão uma confortável vantagem a Trump. Se isto fosse um ano normal, não tenho dúvidas que o candidato Trump estaria com a nomeação praticamente ganha se vencesse, como é esperado, na Carolina do Sul. Mas isto não é um ano normal nem Trump é um candidato convencional. As elites republicanas estão em choque com a possibilidade de entregar a liderança do seu partido ao multimilionário e, igualmente assustados, que Ted Cruz esteja em segundo lugar nestas primárias. Considerados inelegíveis por muitos, a nomeação de Trump (e em menor grau, de Cruz), significaria um duro revés para a credibilidade de um partido que nos últimos anos tem-se afastado para a direita (tal como o Partido Democrata para a esquerda, como se vê pela popularidade de Bernie Sanders). Nomear Trump seria entregar o partido a um oportunista xenófobo e populista, que em muitos discursos faz lembrar a extrema-direita clássica europeia. Nomear Cruz, que é detestado pelos seus colegas no Senado, poderia significar ter o candidato mais à direita desde 1964, quando Barry Goldwater foi arrasado nas urnas por Lyndon Johnson. 

 

Se olharmos para os resultados do New Hampshire, as votações conjuntas de Bush, Rubio, Kasich e Christie, a soma ultrapassaria Trump. Nas sondagens da Carolina do Sul, estariam mais ou menos empatados e nas nacionais o mesmo. O que isto quer dizer? Se quiserem derrotar Donald Trump, os republicanos vão ter de se unirem rapidamente em redor de um destes candidatos. Não quer isso dizer que haverá uma transferência imediata das intenções de voto para este candidato, mas essa é a melhor hipótese de travar Trump. O problema para o GOP é que até ao momento, nenhum destes três tem razões para abandonar a corrida, pois têm a legítima esperança de ser o último dos três. Rubio tem a melhor campanha, mais apoios e a legítima expectativa de ser o opositor de Trump. Kasich, depois do segundo lugar no New Hampshire, não pode desistir. E Bush, bem, depois de já ter gasto mais de 100 milhões de dólares nesta campanha, vai continuar enquanto houver uma esperança de derrotar os seus adversários directos. Se os resultados do próximo sábado forem próximos entre estes três, e nenhum desistir, então a super terça-feira arrisca-se a ser um passeio para Trump, e aí sim, poderá tornar-se imparável. A dinâmica das campanhas presidenciais americanas diz-nos que depois de obter tantas vitórias seguidas, é quase impossível parar esse candidato. E não sei se Trump emergir na super terça-feira como grande vencedor, o conseguirão parar, mesmo que a campanha a partir daí fique reduzida a três ou até a dois candidatos, caso Ted Cruz também abandone a corrida.

 

Trump não é imparável, e não será uma vitória no próximo sábado que irá mudar esse cenário. Mas só uma corrida a dois ou a três, poderá neste momento parar o nova-iorquino. E quanto mais rápido isso suceder, maiores as possibilidades de derrotar Trump.


11
Fev 16
publicado por Alexandre Burmester, às 16:33link do post | comentar | ver comentários (2)

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"Deixa-me escrever acerca deste homem, antes que ele desapareça de cena", assim iniciou, um dia, o jornalista Murray Kempton - homem provido de um refinadíssimo sentido de humor - um artigo acerca de um candidato que acabara de ganhar surpreendentemente uma eleição primária.

 

Cito isto porque nesta fase da campanha é prematuro dizer-se se John Kasich, segundo na primária republicana de New Hampshire, veio para ficar, ou se brevemente "desaparecerá de cena". Uma coisa é certa: com o resultado obtido, Kasich tornou-se um novo possível foco do "establishment" republicano na sua, cada vez mais difícil, tarefa de apoiar um candidato que possa derrotar não só Donald Trump, mas também Ted Cruz.

 

Debruço-me aqui um pouco, portanto, sobre a carreira de Kasich, a qual contém ingredientes que o tornam um interessante candidato, com experiência executiva e legislativa, e com credibilidade.

 

Já como estudante na Ohio State University, Kasich demonstrava um agudo interesse pela política, e em 1970, com 18 anos,  teve até a ousadia de, através do presidente da universidade, fazer chegar uma carta ao Presidente Nixon, pedindo-lhe para o receber em audiência. Surpreendentemente, o presidente, provavelmente impressionado com a desenvoltura do jovem, acedeu e recebeu-o para uma audiência de vinte minutos (na foto que encima o artigo). 

 

A carreira política de Kasich teve início com a tenra idade de 26 anos quando, em 1978, se candidatou ao Senado do Estado do Ohio, derrotando o senador estadual democrático contra quem se bateu, e tornando-se o mais jovem senador da história desse estado. Em 1982 deu mais um passo em frente, candidatando-se à Câmara dos Representantes e derrotando, de novo, o respectivo membro em funções. Assim teve início uma carreira de dezoito anos na câmara baixa do Congresso, pois Kasich seria reeleito oito vezes (e sempre com votações de, pelo menos, 64%).

 

Na Câmara dos Representantes, Kasich teria um papel proeminente, tendo sido membro, durante os seus dezoito anos no lugar, da Comissão das Forças Armadas, na qual adquiriu uma imagem de falcão, mas também de combatente dos gastos supérfluos nas forças armadas. Nessa capacidade, foi um dos participantes mais activos na lei que reorganizaria o Departamento da Defesa, o Goldwater-Nichols Act de 1986. Em 1993 passou também a ocupar o lugar de representante da minoria na Comissão do Orçamento. Aí, chegou a apresentar um plano de reforma da saúde em oposição ao plano elaborado, e eventualmente frustrado, pela então Primeira Dama, Hillary Clinton. Em 1994, foi um de 42 republicanos que apoiaram uma lei anti-armas da Administração Clinton, o Federal Assault Weapons Ban.

 

Com a conquista das duas câmaras do Congresso pelos republicanos em 1994, Kasich passou a presidente da Comissão do Orçamento, lugar em que atingiu notoriedade nacional, ao tornar-se o principal autor de um acordo com a Administração Clinton, em 1997, que equilibraria o orçamento federal pela primeira vez desde 1969, marco de que Kasich justamente se orgulha, gostando até de dizer que foi "a última pessoa a equilibrar o orçamento".

 

Entre 2001 e 2009, Kasich voltou à vida privada, escreveu livros e desempenhou vários cargos executivos, incluindo sete anos como director no Lehman Brothers, onde permaneceu até à falência daquela instituição bancária. Deste aparente calcanhar de Aquiles, Kasich defendeu-se dizendo que não ocupava um lugar de destaque e que culpá-lo de alguma coisa seria como culpar um distribuidor da General Motors numa terreola qualquer pelo colapso daquele. gigante da indústria automóvel.

 

Em 2010, Kasich regressou à vida política ao concorrer - e ganhar - ao lugar de Governador do Ohio, detido pelo democrata Ted Strickland. Mais uma vez, derrotaria um adversário em funções. Foi reeleito em 2014, com 64% contra 33% do seu rival democrático.

 

Kasich é geralmente considerado um conservador do ponto de vista fiscal e também em questões sociais (tomou várias medidas restritivas do aborto enquanto governador), mas pôs em prática no Ohio medidas que proibem a discriminação com base na orientação sexual. Embora originalmente apoiado pelo Tea Party, a sua implementação de partes do Obamacare criou-lhe adversidades nesse campo. O seu currículo e experiência são talvez os mais completos de todos os candidatos republicanos (ou até, de todos os candidatos, tout court). Mas o seu pragmatismo e os seus instintos independentes criam-lhe barreiras em alguns sectores republicanos. 

 

Perante as dificuldades de Marco Rubio após New Hampshire, a falta de afirmação eleitoral de Jeb Bush, e a desistência de Chris Christie, John Kasich será talvez, neste momento, o candidato que o "establishment" republicano mais se inclinará a apoiar. Mas, para isso, o seu desempenho nas próximas primárias, em terrenos que lhe não são muito propícios, será colocado sob especial escrutínio.

 

 

 


06
Fev 16
publicado por Nuno Gouveia, às 22:22link do post | comentar | ver comentários (1)

Estamos a três dias das primárias do New Hampshire e já se podem retirar ilações dos resultados do Iowa. Esta noite ainda teremos, a partir das 01h00 (de Lisboa), um debate republicano transmitido pela ABC, mas mesmo acreditando que poderá haver alterações nos próximos três dias, será difícil que Bernie Sanders e Donald Trump não saiam vencedores na terça-feira. 

Bernie Sanders continua a surpreender, e depois do empate técnico que alcançou no Iowa, a sua situação melhorou. No New Hampshire, e apesar de uma ligeira recuperação de Hillary Clinton, deverá alcançar uma vitória confortável, que o poderá catapultar para outros voos. A sua vitória não parece estar  em causa, mas a diferença vai ser relevante para o seu futuro. Fala-se muito na firewall de Hillary Clinton na Carolina do Sul, mas há três semanas que não se fazem lá sondagens e em 2008 também havia esta segurança e depois foi o que se viu. Clinton continua a enfrentar muitos problemas devido ao caso dos emails e esta semana voltaram a ser referidos os chorudos pagamentos que recebeu de discursos que efectuou depois de sair do Departamento de Estado. Num estudo da Quinnipiac, foi colocada atrás sete pontos de Marco Rubio e a desconfiança dos americanos tem crescido. O entusiasmo neste momento está do lado de Sanders e Clinton precisa urgentemente de "perder por poucos" no New Hampshire e vencer na Carolina do Sul, para repor alguma normalidade nestas primárias. Caso contrário, deve mesmo preparar-se para uma longa campanha. 

No Partido Republicano, Marco Rubio cresceu, quer no New Hampshire quer a nível nacional, mas será muito difícil que possa vencer já na terça-feira. Donald Trump permanece como o grande favorito para vencer no New Hampshire, e outro resultado será um desastre para ele. Ted Cruz joga "fora de casa" e tentará obter um bom resultado para a seguir tentar vencer na Carolina do Sul, onde a demografia lhe é mais favorável. Mas as primárias republicanas, que chegaram a ter 15 candidatos, dificilmente não serão uma longa caminhada que se pode arrastar até Junho. Numas primárias republicanas existem sempre dois lados: os conservadores contra o establishment. Este ano surgiu uma linha diferente, com o populismo de Donald Trump. Do lado conservador, Ted Cruz já emergiu como vencedor (eliminando Huckabee, Santorum, Perry, Jindal, Paul e está prestes a acabar com Ben Carson). Marco Rubio precisa agora de fazer o mesmo com John Kasich, Chris Christie e Jeb Bush, e será esse o grande ponto de interesse destas primárias. Se, como esperado, Marco Rubio conseguir um bom segundo lugar, a corrida irá continuar a três: Donald Trump, Ted Cruz e Marco Rubio. E é aí que Rubio poderá emergir como potencial vencedor, apesar de previsivelmente não vencer nenhuma das duas primeiras eleições. Esta semana já recebeu o apoio de dois antigos concorrentes, Bobby Jindal e Rick Santorum, que por pertencerem à ala mais conservadora, poderão ajudá-lo na união das várias facções do partido. Isto, claro, se não houver surpresas na terça-feira

 


04
Fev 16
publicado por Nuno Gouveia, às 00:43link do post | comentar

Num ano normal, os endorsements de senadores, congressistas e governadores costumam ser um bom indicador para sabermos quem irá obter a nomeação. Estes são importantes para obter apoio nos diferentes estados, pois apesar dos políticos terem relativamente má imagem na generalidade da sociedade, os americanos gostam dos seus eleitos (as taxas elevadas de reeleição assim o provam). Esta campanha republicana tem sido atípica e não é por acaso que  tem havido poucos endorsements, comparativamente com outros anos eleitorais. Do lado democrata, Hillary tem uma vantagem avassaldora sobre Bernie Sanders.

 

Nate Silver tem um endorsement tracker e anunciou hoje que Marco Rubio passou para a liderança do lado republicano, depois de ter recebido o apoio do senador da Pensilvânia, Pat Toomey e de mais dois congressistas. O segundo classificado é Jeb Bush, apesar dos seus apoios terem sido quase todos recebidos na fase inicial desta campanha. Desde Dezembro apenas recebeu o apoio do senador Lindsay Graham, depois deste ter desistido da eleição. De resto, destaque para Donald Trump, que não tem um único apoio de eleitos republicanos, enquanto Ted Cruz apenas tem o apoio de congressistas. Marco Rubio recebeu hoje também o apoio de Rick Santorum, que anunciou a sua desistência da corrida presidencial. Do lado democrata, não há duvidas de que lado está o Partido: no ranking de Silver, Hillary Clinton tem 465 pontos contra dois de Bernie Sanders, que correspondem ao apoio de dois congressistas. Depois do New Hampshire, a sucessão de endorsements deverá aumentar, sobretudo do lado republicano. 


31
Jan 16
publicado por Nuno Gouveia, às 12:57link do post | comentar | ver comentários (3)

Depois de meses de campanha, de sondagens e de casos, os americanos começam amanhã a escolher os nomeados dos dois partidos para disputarem a sucessão de Barack Obama. E as coisas não podiam começar de forma mais surpreendente, com Hillary Clinton numa eleição competitiva e Donald Trump a liderar as sondagens republicanas. A verdade é que nem Hillary tem a nomeação garantida e Trump, ao contrário do que muitos vaticinaram (como eu), tem mesmo uma real hipótese de obter a nomeação, isto se não for já o favorito.  A última sondagem publicada no Iowa, do credível Des Moines Register, coloca Hillary três pontos à frente de Bernie Sanders e Trump cinco pontos à frente de Ted Cruz. Mas antes de perspectivar cenários em ambos os partidos, uma nota histórica:

Há quatro anos, a mesma sondagem dois dias antes dava os seguintes resultados: Mitt Romney 24%, Ron Paul 22% e Rick Santorum 15%. O vencedor acabou por ser Rick Santorum, com 25%, que nunca tinha liderado nenhuma sondagem e acabou por fazer uma grande recuperação nos últimos dias da campanha. Em 2008, a última sondagem dava a Barack Obama 32%, a Hillary Clinton 25% e a John Edwards 24%. Aqui a sondagem ficou muito próxima, com Obama a ter 37% e Clinton com 32%. Do lado republicano, a sondagem do DMR colocava Micke Huckabee com 32%, Mitt Romney com 26%, John McCain com 13% e Fred Thompson com 9%. No final, Huckabee venceu com 34%, Romney com 25%, Thompson com 13% e Mccain em 4º com 13%. 

Esta última sondagem, até pela proximidade dos candidatos, deixa ainda espaço para surpresas de última hora, mas a acreditar nestes números, Clinton poderá confirmar o favoritismo que tem tido ao longo desta campanha, e Trump poderá mesmo vencer no Iowa e tornar-se um pesadelo do establishment e das elites do partido. Acredito que se Trump vencer no Iowa e na semana seguinte, no New Hampshire (onde também tem liderado as sondagens), a sua candidatura poderá mesmo tornar-se muito forte de parar. 

Hillary Clinton tem tudo para ganhar, pois apesar do entusiasmo que tem gerado Bernie Sanders, tem no terreno uma máquina muito eficaz e, segundo a sondagem do DMR, os seus apoiantes são os que estão mais motivados a participarem nos caucuses. Como tem sido dito na imprensa americana, no final isto tudo vai ser definido pela afluência, e aí, Clinton poderá ter vantagem. Até porque estão previstas fortes tempestades de neve amanhâ à noite no estado do Iowa, o que poderá fazer com que os eleitores menos comprometidos poderão ficar em casa. 

Essa pode também ser uma ameaça para Donald Trump, que segundo a mesma sondagem, tem os apoiantes menos "comprometidos", apesar da liderança na sondagem, e quer Ted Cruz, quer Marco Rubio têm uma hipótese. Juntando as primeiras e segundas opções, Cruz tem 40% e Rubio 35%, o mesmo valor do que Trump. Nas últimas semanas falou-se muito de um crescimento de Rubio no Iowa, e apesar de na média de sondagens haver uma subida do senador da Florida, parece-me curto para sequer chegar ao segundo lugar.

 

Nota sobre os caucuses:

* É um sistema bastante complexo, que elegerá 50 delegados no Partido Democrata e 30 delegados do lado republicano. As votações começam às 19h00 (2h00 de Lisboa). Os caucuses são reuniões dos comités eleitorais locais dos partidos em que um candidato é escolhido sem uma votação propriamente dita. Neste sistema, os eleitores de cada partido encontram-se em várias reuniões, para debaterem a nomeação dos delegados e escolherem os seus representantes. Estas reuniões ocorrem em igrejas, escolas ou casas particulares. Qualquer pessoa pode participar, desde que esteja inscrito nos cadernos eleitorais como republicano ou democrata, conforme for o caso. Nos Estados Unidos, em alguns estados, o recenseamento eleitoral implica ficar registado como Republicano, Democrata ou Independente. Durante estas reuniões, os participantes debatem política e as suas opções, escolhendo os seus representantes, que depois, a nível distrital irão escolher os delegados para a convenção estadual, que finalmente irão nomear os delegados para a convenção nacional do partido. 


21
Jan 16
publicado por Nuno Gouveia, às 21:34link do post | comentar | ver comentários (1)

 

Estamos a dez dias das primeiras eleições destas primárias, os caucuses do Iowa, onde no próximo dia 1 de Fevereiro os eleitores de ambos os partidos vão a votos. E as coisas não estão fáceis para os líderes partidários, com candidaturas insurgentes a terem fortes intenções de voto. Se o vencedor no Iowa nem sempre tem sido o nomeado, o resultado destes caucuses têm sido quase sempre fundamentais para o rumo das primárias. Se é verdade que há eleições iguais, é sempre útil conhecer a história. 

No Partido Democrata, a última vez que o vencedor do Iowa não foi o nomeado foi em 1988, quando Dick Gephardt ganhou, mas foi Michael Dukakis o eleito das primárias. Em 1992, o vencedor foi Tom Harkin, mas dado que era nativo do Iowa, Bill Clinton  e os restantes candidatos abdicaram de competir lá. Desde então, Al Gore em 2000 derrotou Bill Bradley e desfrutou um verdadeiro passeio nas primárias; em 2004, John Kerry derrotou o então favorito Howard Dean e acabou nomeado. Em 2008, a histórica vitória de Barack Obama catapultou-o para a nomeação, apesar de vir a perder na semana seguinte no New Hampshire para Hillary Clinton. 

No Partido Republicano, as coisas nem sempre têm sido tão simples. A última vez que o vencedor do Iowa foi o nomeado foi em 2000, quando George W. Bush derrotou John McCain. Na verdade, desde 1976, o ano em que o Iowa tornou-se competitivo, apenas mais duas vezes o nomeado ganhou no Iowa: Gerald Ford em 1976 e Bob Dole em 1996. Nas duas últimas eleições: em 2008 Mike Huckabee venceu no Iowa, com o nomeado John McCain a ficar apenas em quarto, e em 2012, o vencedor foi Rick Santorum, com o Mitt Romney a ficar ligeiramente atrás. 

 

Olhando para as sondagens no Hawkeye State, ambos os partidos devem estar à beira de um ataque de nervos, especialmente no Partido Republicano.

Bernie Sanders, que tem poucas semelhanças com Barack Obama, está a "imitar" a campanha insurgente de 2008 e colou-se a Hillary Clinton nas intenções de voto. Hoje mesmo saiu uma sondagem que dá oito pontos de vantagem a Sanders no Iowa. Disse anteriormente que a única hipótese do senador do Vermont seria vencer nos dois primeiros estados e acabar com a inevitabilidade de Hillary. Se no New Hampshire é claramente o favorito, esta aproximação no Iowa está a colocar em estado de nervos a campanha Clinton e nos próximos dias podemos esperar num ataque fortíssimo contra Sanders. A dinâmica das primárias muitas vezes altera-se radicalmente depois destes primeiros dois estados a votar, e será mais complicado para Clinton derrotar Sanders se não vencer nenhum destes dois estados. Os líderes democratas não podem estar satisfeitos, pois estas primárias foram preparadas para ser um processo de coroação a Hillary Clinton, mas Sanders arrisca-se mesmo a estragar a festa. E se é verdade que neste momento Sanders apresenta excelentes números contra todos os candidatos republicanos, caso fosse o nomeado as suas posições mais esquerdistas, ainda desconhecidas do grande público, seriam facilmente exploradas pelos republicanos.

Em muito pior estado está o Partido Republicano no Iowa, “entalado” entre o populista e radical Donald Trump e Ted Cruz, um político brilhante mas detestado nas elites do partido pelas suas posições demasiado à direita e intolerantes. Nas sondagens no Iowa, o magnata nova iorquino recuperou a liderança nas últimas semanas, depois de Ted Cruz ter estado na frente nas últimas semanas. Quer um quer outro representam um perigo para as aspirações republicanas em recuperar a Casa Branca e nenhum candidato do pack "center-right" se tem destacado, de onde têm saído todos os nomeados nas últimas décadas. Donald Trump permanece também como favorito nas sondagens do New Hampshire, o que complica imenso as contas que a maioria dos analistas fazia até semanas atrás. Se as sondagens estiverem certas (e elas nas primárias em edições passadas têm falhado imenso), um dos dois vai ganhar no Iowa, e as elites republicanas podem mesmo confrontar-se com estes dois candidatos como os "finalistas" das primárias. Se o mainstream Partido Republicano quer derrotar o populismo e o extremismo, precisará de fazer muito mais. A primeira é unir-se em redor de um candidato logo após o New Hampshire. Que poderá ser Marco Rubio - que tem perdido algum elã nas últimas semanas; Chris Christie -que apenas tem feito campanha no New Hampshire; John Kasich - que está a crescer no New Hampshire; ou até Jeb Bush - que pode renascer, caso existam milagres na política (e às veze existem mesmo). O que não podem é ficar a assistir ao partido de Reagan ser entregue a um destes dois candidatos. Note-se que nem Cruz nem Trump tem nenhum senador ou governador a apoiá-los. O nova iorquino não tem mesmo nenhum político eleito a nível estadual o federal a seu lado.

 

PS: Nada mais elucidativo do que o endorsement de Sarah Palin esta semana a Donald Trump, mostrando, de facto, que a lunatic wing do partido está unida em redor de Trump. 


16
Dez 15
publicado por Nuno Gouveia, às 00:18link do post | comentar

 

William F. Buckley estaria horrorizado a assistir a esta campanha republicana. O intelectual que ajudou a "limpar" o movimento conservador americano da extrema-direita, colocando movimentos como a John Birch Society fora do âmbito de influência do Partido Republicano, ficaria, certamente, decepcionado. Não digo que Donald Trump vá ganhar. Continuo a acreditar que até nem deve ganhar uma só eleição. Mas temos assistido a coisas impensáveis ainda há poucos anos.

 

Quem acompanha a política norte-americana, e principalmente as primárias, saberá que normalmente aparecem candidatos "extremistas" que por vezes até surgem à frente nas sondagens. Mas, mal começam a ser conhecidos, ou a dizer barbaridades, desaparecem. Em 2012 tivemos o caso de Michelle Bachmann, por exemplo. Mas não este ano. Trump tem proferido mil e uma declarações que o desqualificam como candidato a Presidente dos Estados Unidos. Ideias racistas, misóginas ou simplesmente patetas, que derrubariam qualquer outro candidato. Se é verdade que há um grande descontentamento entre a base republicana com os líderes do partido, não é menos verdade que Trump é um demagogo que nem sequer representa o conservadorismo que essa base desafecta apregoa.

 

Por outro lado, o verdadeiro perigo de Trump é que as suas ideias têm trazido para o mainstream político aquelas correntes que Buckley afastou do GOP. Movimentos ligados aos White Supremacists têm elogiado abertamente Trump e o próprio foi entrevistado por Alex Jones, um conspiracionista muito popular entre os meios extremistas. Ontem, num comício, um apoiante gritou "sieg heil" e vários manifestantes têm sido agredidos por apoiantes de Trump, a lembrar tempos de má memória. Trump usa a retórica do ódio e do medo, assemelhando-se a um qualquer político da extrema-direita clássica. Um candidato que quer expulsar 12 milhões de ilegais, que diz que vai construir um muro em toda a fronteira com o México (e que vai colocar este a pagar) e que quer barrar a entrada nos Estados Unidos de todos os muçulmanos, incluindo cidadãos americanos que se tenham ausentado do país, não deveria ser levado a sério. Mas os seus 30% nas sondagens nacionais (que não são muito relevantes nesta fase), a sua liderança confortável no New Hamsphire e o empate com Ted Cruz no Iowa, indiciam o contrário. Neste momento, uma fatia considerável do eleitorado republicano a pensar em votar nele. E isso é uma desgraça.

 

A campanha mais parecida que há memória foi a do candidato segregacionista, o democrata George Wallace, que em 1968 se candidatou como independente, vencendo em cinco estados do Sul. Mesmo que campanha termine como é mais expectável (ou seja, com uma corrida entre Ted Cruz e Marco Rubio ou até Chris Christie, que parece renascer no New Hampshire), o Partido Republicano vai precisar de atacar as razões que permitiram a Trump granjear de algum apoio depois das barbaridades que tem dito. Caso contrário, um dia cairão mesmo nas mãos de um demagogo de extrema-direita.

 

(Post escrito antes do debate desta noite)


23
Nov 15
publicado por Nuno Gouveia, às 23:07link do post | comentar

O establishment republicano está preocupado com a ascensão de Donald Trump. E tem boas razões para isso. A super PAC de apoio John Kasich anunciou hoje que vai investir 2,5 milhões de dólares a divulgar este anúncio. Mais anúncios de outras candidaturas devem-se seguir a este.  


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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