04
Dez 12
publicado por Nuno Gouveia, às 23:08link do post | comentar

Disputa-se neste momento o último combate político do ano em Washington. Se democratas e republicanos não chegaram a acordo, no dia 1 de Janeiro de 2013 os impostos irão aumentar para todos os americanos, entre os quais o imposto sobre rendimentos, o imposto sobre o trabalho e ainda o fim dos benefícios fiscais para as pequenas e médias empresas. Por outro lado, haverá cortes automáticos em diversos programas federais, incluindo no sector social e na defesa. Os analistas independentes indicam que estas medidas contribuirão para o aumento do desemprego e uma previsível recessão, apesar de reduzirem o decide em 500 mil milhões de dólares anuais. Portanto, temos os ingredientes para mais uma grande trapalhada em Washington. Por um lado, os democratas e Barack Obama pretendem que os cortes na despesa não sejam tão severos e que haja um aumento de impostos para os mais ricos. Os republicanos estão contra qualquer aumento de impostos, e pretendem mudar a essência dos cortes na despesa. Estas são as premissas iniciais do debate. Em baixo deixo uma breve análise sobre este período negocial, o até onde poderão ceder os lados e qual o papel que Paul Ryan poderá ter, agora que o GOP está sem líder aparente. 

 

No verão de 2011 passamos por uma situação semelhante, aquando do aumento do limite do endividamento federal, mas agora estamos num período da vida política americana muito diferente. Já não há possibilidade de derrotar Barack Obama e os republicanos estão em crise existencial. É verdade que Obama é o primeiro presidente da era moderna a ser reeleito com menos votos do que no primeiro mandato, mas a sua vitória foi bem mais confortável do que se chegou a pensar, e, acrescentando a isso, o Partido Democrata viu a sua maioria no Senado aumentar nas últimas eleições, além de terem conquistado alguns lugares na Câmara dos Representantes. Os Democratas viram assim “reforçada” nas urnas a sua legitimidade para governar os Estados Unidos. Além disso, o Partido Republicano está neste momento numa posição muito débil, sendo vistos pela maioria do eleitorado como mais inflexíveis do que os democratas. Obama conquistou no dia 6 de novembro um mandato para liderar, e os republicanos, se não querem ser mais penalizados pela opinião pública, terão de ceder mais do que no passado recente. Estou certo que Obama terá agora mais hipóteses para negociar o “grande acordo” que enfrente os problemas estruturais dos Estados Unidos: a dívida pública, os défices elevados e o fraco crescimento económico. Se ele vai existir, não sabemos. 

 

A  primeira reacção de John Boehner após as eleições foi estender a mão a Obama, afirmando que o seu partido está pronto a negociar com o Presidente. A manutenção da maioria na Câmara dos Representantes foi a pequena vitória que os republicanos obtiveram, e isso mantém o partido como peça fundamental na governação. Até aqui os republicanos têm negado a possibilidade de um acordo com o Presidente que inclua o aumento de impostos. Mas essa plataforma saiu enfraquecida nas eleições, e já assistimos a influentes republicanos, como Bill Kristol da Weekly Standard, a dizer que aumentar impostos para os mais ricos não seria nada de extraordinário. O mesmo, por outras palavras, disse Bobby Jindal, governador da Louisiana e potencial candidato em 2016, que defendeu que os republicanos tinham de deixar de ser vistos pelos americanos como o partido das grandes empresas e dos ricos. Sente-se entre a maioria dos conservadores mais influentes que é necessário mudar de discurso para voltar a vencer eleições. Um dos grandes derrotados destas eleições foi precisamente Grover Norquist, que tinha conseguido que quase todos candidatos republicanos acedessem à sua plataforma de “não aumento de impostos “ sob todas as condições. Nesta matéria dos impostos, mas também noutras questões, como na reforma da imigração ou até na saúde, os republicanos deverão mudar de discurso no próximo ciclo da vida política americana. Mas isto não quer dizer que Boehner tenha carta branca para aceder à vontade do Presidente de aumentar os impostos para os mais ricos no imediato, até porque continuará a haver pressões dos sectores mais conservadores para não negociar nessa questão. A minha perspectiva é que algo será feito e a tal "fiscal cliff", não se concretizará. Isso pode passar por uma solução de curto termo, ou seja, negociar uma extensão, nem que seja de apenas seis meses, como sugeriu o senador republicano do Ohio, Rob Portman, de todos os cortes de impostos (Bush Tax Cuts, Payrool Tax Cuts e impostos sobre os pequenos empresários) e impedir ao mesmo tempo que os cortes na despesa programados para 2013 entrem já em vigor, ou uma solução mais duradoira, e aí sim, aumentar já os impostos para os que ganham mais de 250 mil dólares por ano, como tem defendido Obama, e negociar cortes na despesa que incluam despesas sociais e até militares. Os republicanos têm tentado que o aumento da receita do Estado Federal passe por cortes nas deduções fiscais (as tais loopholes de que se falava). O problema para eles é que mesmo isso é muito vago e de difícil execução, pois nunca foram específicos em apontar quais deduções queriam cortar. Além disso, vários democratas mais “liberais” estão contra essa solução. Se os republicanos cederem já no aumento de impostos, prevejo que irão querer que alguns dos seus planos para o corte da despesa federal entre em vigor já. Obama também poderá enfrentar alguma oposição na base mais à esquerda do seu partido se decidir cortar algumas das despesas sociais que os republicanos pretendem, mas acredito que acabará por impor o que quiser. Neste momento é o líder incontestado da vontade democrata no Congresso.

 

O Partido Republicano está neste momento sem líder. Paul Ryan, que viu crescer a sua aura de líder nesta última campanha eleitoral, poderá ter a tentação de envolver-se directamente nas negociações, até porque é presidente da Comissão do Orçamento da Câmara dos Representantes. Mas a partir de agora, tudo o que Ryan fará estará condicionado pelo facto que provavelmente será candidato a Presidente em 2016. Ele precisa de assumir-se como parte da solução e não do problema. A grande dúvida é se irá desejar ficar ligado a um possível aumento de impostos, que pode enfraquecer a sua posição nas primárias de 2016. Por outro lado, se mantiver a uma postura de inflexível nestas negociações ou se não se envolver profundamente, poderá cimentar a imagem de não conseguir trabalhar com o Partido Democrata numa questão central como esta. A minha percepção é que Ryan irá tentar liderar este processo pelo lado dos republicanos, tentando obter o máximo de concessões do Presidente no que diz respeito aos cortes da despesa, e ceder o menos possível na questão do aumento de impostos, que poucos acreditam em Washington que não irá acontecer: já ou no próximo ano. Nesta questão, Obama mais tarde ou mais cedo irá alcançar uma vitória.


12
Out 12
publicado por Nuno Gouveia, às 19:38link do post | comentar | ver comentários (1)

 

Joe Biden esteve melhor do que Paul Ryan, se considerarmos apenas o que foi dito por ambos os candidatos. Se eu tivesse lido apenas a transcrição do debate ou até ouvido na rádio, provavelmente diria que o actual Vice Presidente tinha ganho o debate. Mas o pior para a equipa democrata é que foi televisionado. As constantes interrupções, as gargalhadas fora de tempo (rir-se do assassinato do embaixador da Líbia?) e o tratamento condescendente em relação a Paul Ryan terão estragado a noite à equipa de Obama. Além disso, e apesar dos bons momentos de Biden, foi Paul Ryan quem teve atitude mais correspondente ao cargo de Vice Presidente. Notou-se a inexperiência neste tipo de confronto, e por vezes parecia demasiado complexo nas suas explicações. Mas a teatralidade exagerada do seu adversário tê-lo-á ajudado a ultrapassar este teste. Por isso concordo com a avaliação que o Alexandre fez deste debate: um empate. Mas este debate pouco ou nada contará nesta campanha. Ao contrario de há quatro anos, quando mais de 70 milhões de pessoas viram o embate entre Joe Biden e Sarah Palin, ontem apenas 46 milhões* de americanos o seguiram em directo. Portanto, nada de novo nesta corrida. 

 

PS: hoje as sondagens continuam a mostrar Mitt Romney na liderança a nível nacional, e com bons resultados em swing-states (New Hampshire, Virgínia, Florida e Colorado). Até ao debate da próxima semana, o republicano deverá continuar na frente da corrida, e até obter melhores números nos swing-states. 


*inicialmente escrevi 28 milhões, mas ao final do dia os números foram actualizados. 


30
Ago 12
publicado por Nuno Gouveia, às 15:36link do post | comentar | ver comentários (13)

 

O ambiente na convenção esteve verdadeiramente electrizante ontem à noite, especialmente na última hora, quando discursaram Condoleeza Rice, Susana Martinez e Paul Ryan. Se era de energia e entusiasmo que este partido necessitava, alcançou-o. Diferente é saber se esse sentimento irá passar para os eleitores indecisos que vão decidir esta eleição. Os ataques a Barack Obama têm estado afastados dos discursos do prime time, mas ontem Paul Ryan, cumprindo uma tradição dos candidatos a Vice Presidente, lançou um feroz ataque às políticas do Presidente. E fê-lo transparecendo optimismo e confiança no futuro, realçando uma mensagem positiva conforme mandam as regras. A equipa de Romney tem tentado sobretudo ultrapassar a imagem radical e divisionista dos últimos anos do Partido, e pelo que tenho visto e lido por aqui, tem-no conseguido. 

 

Condoleezza Rice arrebatou a sala e mostrou que, se um dia quiser, pode ser candidata a Presidente. Ao ouvir o seu discurso, ninguém acreditará muito quando ela diz que não tem ambições políticas e que se irá manter em Stanford. O Tampa Bay Times veio abaixo quando ela referiu que nunca imaginou que uma menina negra nascida e criada num estado com as leis de Jim Crow poderia um dia ser candidata a Presidente, tendo chegado a Secretária de Estado. Com um discurso que não se limitou a ser a voz do excepcionalismo americano na convenção, Condi abordou também outros temas, como a imigração e a educação e deixou críticas à falta de liderança demonstrada por Barack Obama. Se ela já era bastante considerada pelo establishment republicano, penso que ontem à noite conquistou a alma do partido. 

 

Paul Ryan não desiludiu e proferiu o maior ataque ao Presidente Obama nesta convenção, com um discurso bastante crítico sobre as políticas da actual administração, e vincando as suas credenciais ideológicas que o transformaram no novo herói do Partido Republicano. Pelo que deu para perceber no seu discurso, este fã AC/DC e Led Zepellin é já um dos favoritos para as próximas primárias republicanas, sejam elas disputadas em 2016 ou 2020. Ontem reforçou o seu apelo às gerações mais jovens e demonstrou que é um bom complemento ao cinzentismo que Romney tem apresentado. Resta saber se hoje o próprio candidato terá a capacidade de entusiasmar a sala como Ryan o fez. Não será tarefa fácil.  

 

Ler mais )

 


13
Ago 12
publicado por Nuno Gouveia, às 23:24link do post | comentar | ver comentários (3)

 

Passados dois dias do anúncio já se pode fazer uma análise ao modo como Paul Ryan foi recebido na corrida. A primeira conclusão (aparente) é que todos ficaram satisfeitos. Poucos nomes teriam o condão de unir o Partido Republicano como o congressista do Wisconsin. Desde os moderados, como David Brooks, que anteriormente já tinha apoiado o seu famoso Path to Prosperity, os media conservadores da Weekly Standard ou Wall Street Journal que tinham pedido o seu nome, até aos sectores mais conservadores afiliados com o Tea Party, todos apoiarão a escolha de Mitt Romney. Ao contrário de 2008, quando John McCain escolheu Sarah Palin, houve uma reacção inicial de surpresa, de agrado da base conservadora, mas também uma quase revolta nos sectores moderados e intelectuais contra a opção, que cresceu durante a campanha eleitoral. Desta vez ninguém espere que vozes próximas do Partido Republicano se insurja contra Paul Ryan, como aconteceu há quatro anos. Ryan é, talvez juntamente com Chris Christie, o único republicano que consegue recolher simpatias em todo o espectro conservador. Ao contrário do que vou lendo em alguns espaços, o problema não é o conservadorismo de alguns candidatos. Em 2010 alguns candidatos afiliados do Tea Party perderam eleições, mas não por serem muito conservadores. Foi precisamente porque eram incompetentes e sem qualificações. Pelo contrário, Marco Rubio na Florida  e recentemente Scott Walker no Wisconsin venceram em swing-states porque, apesar de pertencerem à ala conservadora do GOP, demonstraram qualidades  e souberem apresentar a sua agenda aos eleitores. Mitt Romney poderá perder as eleições, mas não acredito que seja por causa do conservadorismo de Paul Ryan. Diria que muitas vezes na América as qualidades dos candidatos são bem mais importantes do que a sua ideologia mais ou menos conservadora ou liberal. Como é que é possível que Barack Obama tenha ganho um estado tão conservador como o Indiana em 2008?

 

Conforme apontam os estudos académicos efectuados sobre os candidatos a Vice Presidente, raramente estes tiveram influência directa no resultado final. Os eleitores acabam por decidir sobretudo sobre o candidato presidencial. No entanto, esta opção de Romney terá sempre algum impacto na sua campanha: grande entusiasmo, mais dinheiro a entrar e um candidato que sabe, acima de tudo, apresentar a agenda republicana de forma articulada e sem a "raiva" ou o "radicalismo" de outros republicanos. Ninguém espere que Paul Ryan cometa erros infantis como Sarah Palin ou até Joe Biden. O debate entre Vice Presidentes será extremamente interessante, e apesar de ser o menos decisivo dos quatro, será uma oportunidade para Ryan se superiorizar perante Biden e conquistar pontos para o seu lado. Apesar desta expectativa, convém não menosprezar Biden, que já provou que consegue ser um político eficaz. Será um grande momento desta campanha.

 

O Partido Democrata também ganhou aqui um balão de oxigénio, como os diversos ataques lançados ao Plano Ryan o demonstram. Como sempre tentaram fazer desta eleição uma opção entre duas visões diferentes para a América, em vez de ser um referendo aos quatro anos de Obama, ter Ryan no ticket adversário irá ajudar nesse plano. Os cortes defendidos por Paul Ryan nas despesas sociais são também eles galvanizadores para a base democrata, até agora pouco entusiasmada com esta eleição. Os media afiliados com os democratas não se têm cansado de lançar para a opinião pública dados e informações sobre o pretenso radicalismo de Paul Ryan, numa tentativa de assustar os eleitores. Pode ser uma estratégia que tenha sucesso em alguns importantes swing-states, como na Florida, Ohio e Pensilvânia, mas recordo que em 2010 também utilizaram a mesma táctica e acabaram por ser derrotados em larga escala.

 

Com o quase empate técnico em que esta campanha se encontra (hoje saíram três sondagens: Gallup empate, Rasmussen, +2 para Romney e Politico + 1 para Obama), todos os pormenores vão contar e é difícil prever o que vai decidir esta eleição. Mas ainda é cedo para dizer se Paul Ryan irá ajudar ou prejudicar Mitt Romney, e sequer, se terá uma real influência nesta eleição. Como dizia alguém na imprensa americana, o mais certo é que daqui a dois meses Ryan tenha o mesmo destaque do que Biden tem tido nesta campanha. Ou seja, nenhum. Os números que li das sondagens assinalam que Paul Ryan ganhou popularidade depois da sua selecção, mas também indicam que é o candidato a VP que menos aprovação recebeu desde 2000. O que obteve melhores respostas foi John Edwards em 2004. Diria que é de esperar que Mitt Romney suba ligeiramente nas sondagens nos próximos dias, sendo até expectável que venha a assumir a liderança até ao final do mês (tempo da Convenção de Tampa). Mas depois virá a Convenção Democrata e a partir de Setembro é que teremos de olhar com atenção para as sondagens. 


11
Ago 12
publicado por José Gomes André, às 16:18link do post | comentar | ver comentários (8)

Prós

 - jovem, bem-parecido, carismático

- reforça a base conservadora (nomeadamente do Tea Party)

- forte nos temas fiscais e económicos (questões essenciais desta eleição)

- inteligente e articulado, eleva a qualidade do debate político

- recoloca o Wisconsin em jogo e pode ter influência eleitoral no Midwest

 

Contra

 - impopularidade junto dos independentes

- posições polémicas em temas sensíveis (corte a apoios federais na saúde e privatização da segurança social)

- inexperiência na ocupação de cargos executivos

- inexperiência em segurança nacional e política externa (uma das fraquezas de Romney)

- ticket com um mórmon e um católico: como reagirão os evangélicos?

 

Dez vídeos para conhecer melhor as posições de Paul Ryan e o link do seu site oficial.


publicado por Nuno Gouveia, às 10:23link do post | comentar | ver comentários (8)


Paul Ryan, congressista do Wisconsin, foi a escolha de Mitt Romney para candidato a Vice presidente. Ryan, de quem ouviremos falar muito nos próximos dias, é considerado um dos líderes desta nova geração de republicanos, tendo apresentado ano passado um plano de combate ao défice que enfrentava de frente os problemas estruturais da despesa federal americana. Se em 2008 os republicanos apostaram no desconhecido (e tiveram azar com Sarah Palin), este ano Mitt Romney apostou no seguro. Ryan tem apenas 42 anos e já está no Congresso desde os 29. Não será uma escolha consensual e certamente receberá muito fogo dos democratas, mas deverá ser uma das grandes surpresas (pela positiva) desta campanha presidencial. 

 

Como ontem escrevi aqui, esta escolha irá injectar uma dose de entusiasmo inacreditável nesta campanha e introduzir na discussão temas como o combate ao défice, a reforma estrutural dos programas sociais e a economia. Apesar de ser uma escolha que agrada à base, há outro tipo de republicanos que vão ficar extremamente satisfeitos. Nos últimos dias, vários conservadores do establishment escreveram artigos a pedir a Mitt Romney para seleccionar Ryan. Na Weekly Standard, Bill Kirstol e Stephen Hayes, aconselharam a escolha de Ryan ou de Marco Rubio, e o Wall Street Journal, esta quinta-feira num editorial, lançou um apelo à selecção de Ryan. Nos meios conservadores, Paul Ryan era, juntamente com Marco Rubio, o nome mais requisitado. Pois bem, Mitt Romney deixou de lado as opções mais convencionais, Portman e Pawlenty, e ambicionou algo mais: mudar radicalmente a campanha desta eleição. Além disso, Romney terá agora mais hipóteses de vencer o Wisconsin, estado onde neste momento Obama tem apresentado ligeira vantagem.

 

Paul Ryan não é um político qualquer. Tendo começado a sua carreira política a trabalhar em Washington para políticos como Jack Kemp, Bob Kasten ou Sam Brownback, aos 28 anos decidiu deixar os gabinetes do congresso e candidatou-se a um lugar na Câmara dos Representantes. É considerado um dos líderes intelectuais do Partido Republicano e as suas intervenções públicas são habitualmente carregadas de elevação e qualidade. Ninguém espere dele declarações bombásticas. Ficou célebre a sua interlocução com o Presidente Obama durante um encontro na Casa Branca para discutir a reforma de saúde. Actualmente é o líder da Comissão do Orçamento da Câmara dos Representantes. O seu orçamento "Path to Prosperity", considerado um plano corajoso mas arriscado, será o principal ângulo de ataque dos Democratas. Mas Mitt Romney, ao escolher Paul Ryan, saberia disso melhor do que ninguém. 

 

Uma nota: Mitt Romney é considerado um político calculista e pouco dado a opções arriscadas. Diria que, entre as opções "entusiasmo", Ryan era a mais segura. Rubio e Christie estão há muito pouco tempo na arena política nacional e Bobby Jindal tem evidenciado falta de "brilho" nas intervenções públicas. Ao escolher Ryan, um político com quem tem uma química muito forte, Romney está a revolucionar esta campanha eleitoral, está a agradar a base republicana, o establishment de Washington e ainda  a aumentar o apelo da sua candidatura no Midwest. Será interessante verificar nos próximos dias a barragem de críticas que vão surgir do lado democrata, mas esta opção não deixa de ser muito estimulante para a campanha. 

 

Em jeito de provocação, o Wall Street Journal dizia esta semana que  Mitt Romney não se atreveria a escolher Paul Ryan. "Too risky, goes the Beltway chorus. His selection would make Medicare and the House budget the issue, not the economy. The 42-year-old is too young, too wonky, too, you know, serious. Beneath it all you can hear the murmurs of the ultimate Washington insult—that Mr. Ryan is too dangerous because he thinks politics is about things that matter. That dude really believes in something, and we certainly can't have that. All of which highly recommend him for the job." Bem, certamente já abriram uma garrafa de champanhe na redacção do WSJ. 

 

A apresentação será às 9h00(hora local) deste sábado em Norfolk, onde a dupla irá iniciar um périplo de quatro dias pelos estados da Virginia, Ohio, Carolina do Norte e Florida. 


10
Ago 12
publicado por Nuno Gouveia, às 15:10link do post | comentar | ver comentários (2)

Com o fim da silly season da campanha presidencial americana, vamos entrar na sua recta final, com os principais pontos de interesse: a escolha do VP de Romney, as convenções e os debates. Até ao momento, os sinais parecem favoráveis a Obama. Lidera ligeiramente nas sondagens nacionais e nos swing-states, e a sua estratégia de Verão tem corrido bem. Mas agora entramos na fase decisiva. Deixo de parte as convenções e os debates, e centro-me sobretudo na escolha de Mitt Romney para seu parceiro no ticket republicano. 

 

A opção de Mitt Romney, mesmo que não tenha grande impacto na decisão final de Novembro (e acredito que terá alguma), será sempre decisiva para a narrativa histórica que se fizer da sua campanha presidencial. E, apesar dessa narrativa revelar-se apenas depois do desempenho da sua escolha durante a campanha, a opção em si acarretará um significado simbólico. Considero que Mitt Romney tem três opções em cima da mesa, com vantagens e desvantagens, e que terão influência no resto da sua campanha. 

 

Convencional

Os nomes mais apontados para esta opção são Rob Portman, senador do Ohio, e Tim Pawlenty, antigo governador do Minnesota. Ambos enquadram-se naquilo que os analistas americanos consideram o "homem branco aborrecido e competente". Com muita experiência política, ninguém colocaria em causa as suas habilitações para ocuparem o cargo de Presidente, reforçariam o epíteto de uma candidatura pronta para governar e poderiam aumentar o apelo do ticket no Midwest. Portman seria uma ajuda para vencer o Ohio (nenhum republicano foi eleito Presidente sem vencer o estado) e Pawlenty poderia colocar o Minnesota em disputa, apesar dos republicanos não vencerem aqui desde 1972. Diria que analisando o percurso político e de vida de Romney, estas são as opções mais fortes.

 

Entusiasmo

Marco Rubio, Bobby Jindal, Chris Christie e Paul Ryan. Qualquer um destes nomes iria transformar esta eleição e iria introduzir uma dose enorme de energia na campanha de Mitt Romney. O senador da Florida, descendente de pais cubanos e favorito do Tea Party, tem uma história de vida formidável e, quase de certeza, ajudaria Romney a conquistar o seu estado natal. É carismático, tem o dom da oratória e tem apenas 41 anos. Seria muito atacado pela sua inexperiência, mas penso que seria extremamente positivo para os republicanos nos hispânicos em alguns swing-states (além do seu estado, Colorado, Nevada e Novo México). Com a mesma idade, Paul Ryan, congressista do Wisconsin, poderia ajudar a transformar o seu estado mais competitivo, e introduziria no debate temas como a reforma estrutural dos programas sociais e o combate ao défice. Os democratas gostariam desta opção, pois consideram que as suas propostas são impopulares no eleitorado independente. Mas Paul Ryan, um dos líderes intelectuais do GOP, teria um impacto extraordinário nesta campanha. Chris Christie, o bombástico governador de New Jersey, é um dos líderes desta nova geração de republicanos. Seria um acréscimo de qualidade no debate político, e o confronto político ganharia com a sua escolha. Além disso, poderia ajudar Romney no seu estado, apesar das possibilidades de vencer são diminutas. Os democratas pensam que poderiam ganhar pontos devido ao estilo conflituoso de Christie, mas basta observar os índices de popularidade dele no seu estado, tradicionalmente democrata, para pensar-se que talvez não seja bem assim. Por fim, Bobby Jindal, que não acrescenta grande coisa em termos regionais, pois a Louisiana, onde é governador, ou o Sul, é território seguro para os republicanos. Mas com a sua experiência aos 41 (já foi congressista, membro da administração e está no segundo mandato) fortaleceria Romney e iria receber amplo apoio da base conservadora. 

 

Surpresa

Sarah Palin em 2008 foi uma enorme surpresa e essa experiência é hoje considerada um fracasso. Não é de prever que Mitt Romney volte a optar num total desconhecido para o cargo, sendo que há duas opções, que têm sido muito pouco faladas e se enquadram nesta categoria: o governador de Porto Rico, Luis Fortuño e Kelly Ayote, senadora do New Hampshire. As hipóteses destes dois nomes são ínfimas, mas nunca se sabe se a campanha de Romney arrisca. Se a opção for de risco total, apostaria nestes dois nomes.  Outras surpresas seriam os nomes de Condoleezza Rice, do general David Petraeus ou do governador da Virgínia, Bob McDonnel. 


17
Ago 11
publicado por Nuno Gouveia, às 23:33link do post | comentar

Depois da entrada de Rick Perry e da saída de Tim Pawlenty, pensou-se que o campo republicano para 2012 estaria completo. Mas os rumores sobre mais candidatos continuam, sinal que ainda persiste descontentamento pelos nomes na corrida.

 

Ontem a Weekly Standard deu nota que Paul Ryan, o congressista do Wisconsin que tem liderado a batalha pelo controlo do défice estrutural dos EUA, estará a pensar em avançar. Apesar de ter apenas 41 anos, já está na Câmara dos Representantes há 12 anos, sendo uma das jovens estrelas em ascensão no Partido Republicano. O seu plano para o orçamento federal na próxima década granjeou-lhe popularidade nos sectores mais conservadores do partido, e é muito respeitado pelo establishment. Seria uma lufada de ar fresco nesta campanha. Hoje, uma notícia sobre o governador de New Jersey, Chris Christie. Apesar de ter negado sempre que poderia ser candidato, a verdade é que o nome de Christie continua a ser referenciado como potencial candidato. Apesar de não acreditar que avance, uma candidatura sua teria o enorme potencial de obter apoio em todos os sectores do Partido. Por fim, e acreditando que também não serão candidatos, os nomes de Sarah Palin e Rudy Giuliani continuam no leque de possíveis candidatos. Palin tem abordado isso várias vezes, apesar de não ser crível que avance, pois a nomeação seria quase impossível. 

 

Estas notícias indicam duas coisas: o establishment republicano continua não satisfeito com o leque de candidatos. Esperava-se que a entrada de Rick Perry pudesse captar a atenção da máquina. Mas o governador do Texas continua a gerar grande desconfiança, sobretudo no grupo de apoiantes de George W. Bush, que continuam à procura de um candidato às suas medidas. E como Mitt Romney ainda não obteve a sua atenção, as pressões para que surja uma outra alternativa continuam. É nesse parâmetro que enquadro as pressões que Paul Ryan e Chris Christie continuam a sofrer. Por outro lado, há muitos quem pensam que é possível derrotar Barack Obama, mas não acreditam que Rick Perry ou Mitt Romney sejam as melhores opções. E neste leque enquadro figuras tão relevantes do movimento conservador americano como Rush Limbaugh, Roger Ailes (o todo poderoso líder da Fox News) ou figuras da máquina, como Karl Rove, que persistem na demanda por um candidato. Até ao final de Setembro deveremos ter mais novidades. Uma coisa é certa: com este campo, será uma luta dura entre Romney e Perry, com Bachmann a poder fazer pender a balança para Romney, ao dividir o eleitorado conservador, ajudando a concentrar o voto moderado em Romney. 


05
Abr 11
publicado por Nuno Gouveia, às 22:53link do post | comentar

Enquanto na Europa os países debatem-se com sérios problemas financeiros, nos Estados Unidos a situação ainda não é tão urgente. Mas o cenário a ameaça tornar-se explosivo nos próximos anos, e todos os economistas têm avisado que é necessário "atacar" de frente o problema das contas públicas. Hoje, Paul Ryan, congressista do Wisconsin, anunciou publicamente o plano do Partido Republicano para reduzir o défice na próxima década. A proposta é ambiciosa, e promete a redução o défice em mais de seis biliões de dólares da próxima década. The GOP Road to Prosperity, o nome do plano, promete atacar de frente a redução da despesa, revolucionando os programas federais de apoio à Saúde, Medicare e Medicaid, o que certamente irá dar muito que falar na próxima campanha eleitoral. A preceder a apresentação que foi feita hoje, Paul Ryan assinou este artigo no Wall Street Journal. 

 

Há alguns anos que ouvimos falar na redução do défice. Barack Obama prometeu durante a campanha eleitoral que até ao final do seu primeiro mandato o défice seria reduzido para metade. Na verdade o défice não parou de aumentar, e existe um consenso bipartidário que é necessário atacar de frente o problema. Prosseguir no mesmo caminho não é solução, como se pode observa pelo gráfico. As opções são claras: reduzir a despesa federal na defesa e na saúde, remodelar a segurança social e aumentar os impostos. Mas ninguém, até ao momento, tinha apresentado um plano claro de redução do défice. Os custos políticos podem ser muitos, e por isso, Obama tem-se mantido à margem desta discussão. Preferirá adiar esta discussão para depois da sua reeleição. Os republicanos, também se arriscam a perder apoio com este plano, pois os cortes que prometem, nomeadamente na saúde, não serão propriamente populares. Este plano marcará um combate que se arrastará pela campanha eleitoral. 


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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