14
Jan 16
publicado por Nuno Gouveia, às 01:25link do post | comentar | ver comentários (1)

Barack Obama proferiu esta terça-feira o seu último discurso do Estado da União. Foi uma intervenção a olhar para o futuro, com várias referências ao passado, defendendo o seu legado e tudo aquilo que alcançou. Obama desde o início da sua carreira política nacional se apresentou como uma figura transfiguradora e ambiciosa, com o óbvio intuito de colocar-se na galeria histórica dos grandes presidentes dos Estados Unidos. Foi muitas vezes acusado de governar para a história e não para os americanos. O discurso de ontem foi precisamente para se colocar ao lado de outros grandes presidentes e, não por acaso, teve direito a referências a Lincoln e Roosevelt. Obama quis demonstrar assim que os seus mandatos mudaram a América. Mas pouca gente acredita que os historiadores terão essa visão tão benigna. Obama teve sucessos e fracassos, mas não mudou decisivamente a América e o mundo. Os oceanos não recuaram, como tinha prometido em 2008.  Mas Obama pode ser uma importante figura no Partido Democrata nas próximas décadas e figurar no imaginário democrata como um presidente que defendeu as suas causas e que obteve importantes sucessos progressistas. Um pouco à semelhança do que Ronald Reagan representa hoje em dia para os republicanos.

 

Este discurso não trouxe grandes novidades e ninguém terá ficado particularmente impressionado com ele. Obama preocupou-se em mostrar que no seu mandato alcançou imensos sucessos, como a recuperação económica, a legislação da saúde, a aposta nas energias renováveis, o alargamento do casamento gay aos 50 estados ou os acordos com o Irão e Cuba. Foi um Presidente optimista que se apresentou perante os americanos, disposto a mostrar que os seus dois mandatos valeram a pena e que é importante não destruir aquilo que alcançou. Por um lado, Obama deixou um aviso aos republicanos que ainda pretende actuar em diversas áreas, como na imigração, na restrição ao uso de armas, no acordo de comércio livre com os países do pacífico, no encerramento de Guantánamo e no levantamento do embargo a Cuba. Dificilmente o Congresso lhe dará alguma vitória nestes pontos, com excepção da autorização formal da guerra contra o ISIS e o acordo de comércio livre. Obama poderá ainda tentar fechar Guantánamo por ordem executiva, mas não terá vida fácil no Congresso dominado pelos republicanos. Por outro lado, a sua principal preocupação foi enfatizar o que considera que foram os sucessos da sua administração e que os americanos não devem colocar em causa esses sucessos, elegendo um republicano em Novembro. Obama sabe bem que é importante que seja um democrata a suceder-lhe na Casa Branca, pois caso seja um republicano, muito do que fez poderá cair, como é o caso da lei da saúde, os acordos internacionais com o Irão e em relação às alterações climáticas ou a sua legislação sobre regulações económicas e comerciais. 

 

Houve, no entanto, uma novidade no seu discurso: Obama assumiu que fracassou na promessa de unir os americanos. Se os Estados Unidos eram um país dividido após os oito anos de George W. Bush, mais ficaram após a era Obama. Um sintoma disso é a popularidade de Donald Trump, que pode ser considerado como uma reposta furiosa da direita mais radical ao divisionismo dos anos Obama. Além disso, também no lado democrata se nota isto, com a ascensão de Bernie Sanders apoiado pelos sectores mais radicais à esquerda. Hoje a América é um país mais dividido e radicalizado, e Obama, apesar de não ser o único, tem também muitas responsabilidades nisso. A tarefa do próximo presidente, seja ele republicano ou democrata, não será fácil de lidar com esta América cada vez mais vermelha e azul.


21
Jan 15
publicado por Alexandre Burmester, às 15:42link do post | comentar

 

 

 

A União está boa e recomenda-se. Esta poderia ser a conclusão a tirar do tradicional discurso anual sobre o "Estado da União", que tem sempre lugar por esta altura em Janeiro, excepção feita aos anos de tomada de posse de um presidente, ontem proferido pelo Presidente Obama.

 

Obama surgiu confiante e determinado, mas também com tom conciliador para com os republicanos, os quais agora dominam ambas as câmaras do Congresso. Aliás, como notou Byron York no Washington Examiner, o principal contraste entre o primeiro destes discursos proferido por Obama e o de ontem é que, no conjunto das duas câmaras, há agora menos 83 democratas - 69 na Câmara dos Representantes e 14 no Senado, números sintomáticos do desgaste que a Administração Obama causou ao seu partido. Mas diga-se que, ao contrário, por exemplo, de George W. Bush em 2007, Obama não fez qualquer referência ou cumprimento à vitória dos seus adversários em Novembro. E, a propósito de eleições, houve até um momento crispado, quando o presidente disse que não tinha mais eleições a disputar e alguns republicanos reagiram com aplausos sarcásticos, ao que Obama respondeu "Eu sei isso porque ganhei duas!".

 

Os números significativamente melhores da economia nos últimos meses - taxas de crescimento e de desemprego - pareceram dar novo ânimo ao presidente, apesar de, mesmo assim. apenas 32% dos americanos acharem que o país está no bom caminho. Com essa melhora em mente, Obama disse ir propor aumentos de impostos sobre os lucros com operações bolsistas e sobre as empresas financeiras. O seu propósito é, disse há dias, "distribuir as novas receitas pela classe média". Isto esbarra logo na oposição republicana àquilo que o partido do elefante tradicionalmente classifica como políticas de "tax-and-spend", embora os republicanos, na sua reacção ao discurso, se tenham mostrado disponíveis para rever o código fiscal, "não para alimentar mais programas federais, mas para criar empregos."

 

Obama entrou nos seus últimos dois anos de mandato, uma fase que os presidentes normalmente tentam aproveitar para cimentar um legado. Com a oposição em maioria no Congresso, tal só será possível através da colaboração entre os dois lados. Mas também aos republicanos interessa apresentarem uma imagem construtiva, a fim de não serem acusados de meros obstrucionistas nas presidenciais de 2016. Eu diria que vamos assistir a confrontos, sim, e a vetos presidenciais (Obama deu a entender isso claramente), também, mas que haverá acordos em várias áreas, como no que respeita a tratados de comércio internacional, onde Obama estará à revelia de uma das suas maiores bases de apoio, os sindicatos, mas da qual ele já não precisa, pois, como atrás referi, não tem mais eleições a disputar. 

 

No campo externo Obama revelou um optimismo um pouco irreal, especialmente quando disse que o ISIL está em retrocesso devido aos bombardeamentos americanos, o que não parece ser de todo o caso. E os acontecimentos mais recentes no Iemen são bastante preocupantes no que se refere à luta contra o terrorismo, ou seja qual for a designação oficial que a Casa Branca hoje dá a esse combate. Mas o tema do terrorismo acaba sempre por unir a América, como é natural, e as palavras do presidente sobre esse tema foram as únicas que fizeram toda a assistência levantar-se e aplaudir em unísssono. Já o tema do "degelo" com Cuba está longe de colher a unanimidade e não será fácil a Obama conseguir nomear um embaixador em Havana.

 

Resumindo, Obama fez das fraquezas forças, procurou não dar demasiado relevo ao ascendente republicano no Congresso, e deu um agradável tom de optimismo e conciliação ao discurso, e isso é sempre um tónico, especialmente depois de uma das mais graves recessões de que há memória. Decerto que não quer passar à História como um homem quezilento e pouco conciliador, em contraste com o anterior membro do seu partido a ocupar a Casa Branca, Bill Clinton, que depois de severamente humilhado em eleições intercalares, deu a mão à oposição e conseguiu algumas reformas de relevo, saindo da Casa Branca com altas taxas de popularidade, mesmo depois de ter sido impugnado pela Câmara dos Representantes no célebre "Monicagate".

 

Uma nota final para a resposta republicana: A neófita Senadora Joni Ernst foi a escolhida para a réplica da oposição. E, ao contrário de alguns seus recentes antecessores nesta missão, "desenrascou-se bem".

 


18
Jan 14
publicado por Nuno Gouveia, às 20:01link do post | comentar | ver comentários (2)

 

Robert Gates, Secretário da Defesa de George W. Bush e Barack Obama, publicou um livro de memórias onde critica severamente a última administração a que pertenceu, onde Joe Biden, Hillary Clinton e o próprio Presidente ficam muito mal na fotografia. Através de excertos e de entrevistas de Gates, ficamos a saber que os anos em que passou no Pentágono a servir Obama terão sido repletos de discussões constantes com a Casa Branca. Obama é considerado um líder fraco, que não acreditava nas decisões militares que tomou em relação ao Afeganistão, e que desconfiava abertamente das intenções dos líderes militares. Revela ainda que os spin doctors da Casa Branca tentaram, muitas vezes com sucesso, orientar decisões sobre segurança nacional baseados em intenções políticas, e que a própria Hillary Clinton e Obama terão assumido que a oposição à "surge" no Iraque em 2007 do Presidente W. Bush deveu-se sobretudo a tácticas eleitorais. Joe Biden é descrito como um político ineficaz que esteve errado em todas as grandes opções americana de política externa dos últimos 40 anos. A crítica mais dura que faz ao Presidente é que ele não sentia grande empatia pelos soldados americanos envolvidos em combate, e que nunca respeitou as lideranças militares, apesar de, como é óbvio, apoiar os soldados. 

 

Estas revelações causaram um profundo impacto no debate público americano, pois não é normal que um presidente em exercício seja confrontado com críticas de antigos membros da sua administração. São acusações graves, pois Barack Obama aumentou o contingente militar americano no Afeganistão em cerca de 30 mil soldados, quando aparentemente não acreditava nessa solução. Se não acreditava, para quê mandar soldados morrer em combate? No entanto, e como bem recordou John McCain, crítico do Presidente Obama, esta não é a melhor altura para Gates lançar um livro de memórias. Estando ainda os Estados Unidos envolvidos no Afeganistão, e numa luta sem quartel contra a Al-Qaeda, estas críticas de Gates diminuem o status do Presidente e colocam em causa o prestigio de Obama perante os militares. Robert Gates, que serviu presidentes como Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush, W. Bush e Obama, sempre foi cauteloso e discreto, muito respeitado em Washington. Não se percebe porque decidiu agora sair desse formato e apresentar-se desta maneira. Penso que teria sido mais correcto ter esperado pelo fim do mandato do Presidente Obama. A lealdade com que sempre serviu os presidentes americanos assim o exigiria. 


04
Jan 14
publicado por Nuno Gouveia, às 17:44link do post | comentar | ver comentários (5)

 

 

Fallujah foi um dos mais importantes campos de batalha da guerra do Iraque, e um dos locais mais emblemáticos dos combates contra a Al-Qaeda. Foi palco de várias ofensivas e só no inicio de 2007 as tropas americanas e iraquianas recuperaram o controlo da cidade. Esta semana foi anunciado que a cidade voltou a estar sob controlo da Al-Qaeda. 

 

Quando Obama assumiu a presidência dos Estados Unidos, o Iraque já tinha desaparecido das primeiras páginas dos jornais. A "surge" do general David Petraeus tinha sido um sucesso e a guerra parecia ganha. George W. Bush já tinha negociado com o Primeiro-ministro Maliki um calendário para a retirada militar do Iraque, e apenas tinha sido deixado por negociar o número das forças residuais americanas que iriam ficar no país. Independentemente da má condução da guerra e do caos pós-invasão, que apenas foi quebrado após a "surge", a situação no Iraque parecia bem encaminhada. Mas Obama, que começou a sua carreira política na arena nacional por ser contra a guerra do Iraque (e que fez valer isso na sua corrida contra Hillary, que tinha apoiado a intervenção), acabou por cometer um erro de cálculo ao sair do Iraque da forma como o fez. 

 

Em 2011 Obama não conseguiu concluir um acordo com a liderança iraquiana para manter uma força residual no Iraque. O que estava previsto, e que era desejado pela liderança iraquiana, era manter um pequeno contingente militar que os auxiliasse na luta contra o terrorismo e que funcionasse como força dissuasora perante a violência sectária entre sunitas e xiitas. Além disso, manteriam o apoio ao treino das forças iraquianas. Esse era também o desejo de importantes sectores da administração Obama, que pretendiam manter o país calmo e longe do terrorismo, e afastar ao mesmo tempo a crescente influência iraniana no país. Mas algo correu mal, e Obama acabou por se precipitar e retirar totalmente. Nessa altura a Al-Qaeda estava completamente destruída no país e a violência sectária era reduzida. Independentemente do juízo que se possa fazer da intervenção no Iraque, essa era a postura correta a tomar, até para proteger os interesses americanos e dos aliados na região. 

 

Hoje a Al-Qaeda está a operar novamente em força no país, como se prova pelo controlo de Fallujah, e serve como base também à sua intervenção na vizinha Síria. O erro de Obama foi pensar que os interesses americanos estariam protegidos se deixasse os Iraquianos entregues a si mesmo. No Afeganistão Obama está empenhado em não cometer o mesmo erro, não retirando totalmente do país. Aí está a agir correctamente. 

 

PS: este post marca o meu regresso aqui ao Era Uma Vez na América, onde tentarei postar de forma regular. 


18
Abr 13
publicado por Nuno Gouveia, às 21:41link do post | comentar | ver comentários (5)

 

Barack Obama no discurso inaugural anunciou uma nova era nas leis que regulam o acesso às armas, onde prometeu ir mais longe do que nunca. Sem nunca colocar em causa a 2ª Emenda, garantiu que iria colocar todo o peso da presidência nesta questão. Nestes primeiros meses do seu mandato, fez discursos, mandou recados ao congresso e encenou uma verdadeira batalha política contra o lobby das armas, os republicanos e todos aqueles que se recusaram a apoiar as suas propostas. E não se inibiu de utilizar as famílias da vítimas do massacre de Newtown para tentar angariar apoio do povo americano. Mas Washington é uma cidade de leis, de vícios e de guerrilhas e nada é fácil. E Obama devia saber os limites da Presidência para impor legislação que não é popular entre os senadores e congressistas (que nem sempre corresponde à população geral). Tendo o Partido Republicano maioria na Câmara dos Representantes e uma minoria antifillibuster no Senado, qualquer legislação a ser votada teria que ter o apoio de alguns republicanos e manter totalmente em controlo os democratas. Pois bem, ontem foi a votos uma legislação (mesmo assim minimalista tendo em conta as propostas iniciais de Obama) e não passou. 

 

Se do lado republicano, até conseguiu alguns senadores, apesar de escassos, como John McCain, Susan Collins, Mark Kirk e Pat Toomey, que promoveu a lei juntamente com o democrata Joe Manchin, do lado democrata verificaram-se algumas deserções, como os senadores democratas Mark Pryor do Arkansas, Heid Heitkamp do Dakota do norte, Mark Begich do Alaska. A lei, entretanto reprovada, iria aumentar o controlo sobre o acesso às armas através de um processo universal de verificação do cadastro. Na semana passada, depois do conservador republicano Pat Toomey, eleito com o apoio do Tea Party na Pensilvânia em 2010 ter-se juntado ao democrata conservador da West Virgínia, Joe Manchin, para patrocinar a lei, chegou a pensar-se que teria hipótese de sucesso. Mas ontem a realidade foi bem diferente: 40 republicanos e 4 democratas inviabilizaram a lei, que necessitava de 60 votos para ser aprovada. As restantes propostas do Presidente Obama, como por exemplo a proibição de vendas semi-automáticas, também não passaram no Senado.

 

Barack Obama reagiu com violência verbal a esta derrota legislativa, mas a verdade é que o voto de ontem coloca em cenário improvável qualquer aprovação significativa nesta área até às eleições intercalares de 2014. Este será um tema de campanha, e, por diferentes motivos, poderá condicionar várias eleições para o Senado. Sempre pensei que Obama estaria a ser demasiado ambicioso com a sua agenda na legislação das armas, porque a oposição em Red States e até mesmo em swing-states seria sempre grande. Resta saber como Obama tentará reverter a seu favor a derrota política que ontem teve no Senado. Segue-se a reforma da Imigração, onde sempre pensei que Obama tem grandes hipóteses de sucesso. E aqui o seu maior aliado é um republicano, Marco Rubio, que já trabalha a pensar em 2016. 


20
Mar 13
publicado por Nuno Gouveia, às 16:23link do post | comentar | ver comentários (5)

 

À chegada a Israel, Obama não poderia ser mais claro no seu apoio a Israel, tendo afirmado que aliança entre os dois países é eterna. O consenso sobre Israel nos Estados Unidos chega a ser caricato: na última campanha presidencial americana ambos os candidatos se digladiavam para mostrar quem era mais amigo de Israel. Esta semana foi divulgada uma sondagem nos Estados Unidos sobre quem teria "razão" no conflito Israelo-Palestiniano. Os resultados foram claros: 55% Israel, 5% os palestinianos e o resto ambos. Enquanto esta super maioria em favor de Israel se mantiver, nenhum político americano arriscará mudar o que quer que seja na relação entre os dois países.

 

Esta é a primeira visita oficial de Obama a Israel, o que lhe valeu críticas por não ter visitado durante o seu primeiro mandato, mesmo que George W. Bush também não o tenha feito no primeiro mandato. Aliás, tanto Ronald Reagan como George H. Bush nunca o fizeram enquanto estiveram na Casa Branca. Mas, de facto, durante o primeiro mandato, Obama teve alguns atritos com Benjamin Netanyahu e esta viagem destina-se sobretudo a reforçar os laços entre os dois dirigentes, agora que foram reforçados nas urnas. Não é esperado que Obama proponha algo de inovador nem que apresente qualquer proposta significativa para avançar o processo de paz com os palestinianos. Desde o fracasso de Bill Clinton, os presidentes americanos têm mantido uma distância assinalável deste processo, e não é de esperar que Obama inverta a situação nesta visita. A Síria, a Primavera Árabe e sobretudo o Irão deverão estar na agenda desta visita. Por outro lado, Obama vai também encontrar-se com os líderes palestinianos, sobretudo para reforçar a posição americana que o único representante legítimo é a liderança de Mahmoud Abbas. Portanto, o que vai fazer Obama nesta primeira viagem internacional do seu segundo mandato? Ouvir, marcar uma posição e pouco mais. Tudo mais do que isto será uma surpresa para os analistas internacionais. 


03
Mar 13
publicado por Nuno Gouveia, às 18:32link do post | comentar

 

No inicio de Março entraram em vigor cortes efectivos na despesa federal, incluindo na defesa, que irão contabilizar 1,2, mil bilhões de dólares na próxima década. Em 2011, no acordo bipartidário que permitiu aumentar o limite do endividamento federal, estava incluída uma cláusula que dizia que se o Congresso não aprovasse um orçamento até ao final de Fevereiro, estes cortes entrariam em vigor em Março. Como aconteceu. Obama e os republicanos não se entenderam onde cortar esta soma, pelo que os cortes são automáticos. Obama voltou a pedir aos republicanos para aumentar impostos, para fazer com que que os cortes fossem menores, mas não conseguiu formalizar nenhum acordo.

 

Desde que foi reeleito, Barack Obama tem agido como se o sistema político americano de repente tivesse sido reinventado. Já não seria preciso negociar com os adversários, e bastariam apenas golpes de mágica para obter tudo o que desejaria. Com um Partido Republicano em grave crise após a derrota de Novembro, e com as sondagens favoráveis, Obama tem actuado de forma arrogante e pouco capaz de gerar consensos. Obviamente do outro lado encontram-se republicanos também eles pouco dispostos a cederem. Mas na verdade, nos últimos tempos permitiram o aumento de impostos para os mais ricos e o aumento do limite do endividamento sem cortes nenhuns, situações que sempre tinham negado no passado. Como um dos sectores mais afectados pelos cortes é precisamente o Departamento de Defesa, Obama contou que isso faria com que os republicanos cedessem. Obama apostou que os republicanos iriam novamente ceder, mas parece que a fragilidade dos republicanos tem limites. As negociações entre os dois lados continuam, e há quem pense que neste caso será Obama a ceder, ou seja, a negociar um pacote de cortes na despesa sem novos aumentos de impostos. O que este caso demonstra é que a política e os jogos de bastidores irão continuar a dominar Washington, e que Obama não terá sempre tudo o que desejar do Congresso. Se é que alguém ainda tivesse dúvidas disso. Fica a lição para futuras batalhas legislativas. 


28
Fev 13
publicado por Nuno Gouveia, às 17:05link do post | comentar | ver comentários (5)
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Polémica à vista? Bob Woodward não é um jornalista qualquer. Juntamente com Carl Bernstein, foi um dos principais responsáveis pela queda de Richard Nixon em 1974. Esta acusação pública teria efeitos devastadores se o Presidente fosse outro. Sendo assim, não sei se dará grande escândalo. Mas é um sinal claro que "politics as usual" continua a dominar a Casa Branca. Como sempre, com este ou outro Presidente. 

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17
Fev 13
publicado por Nuno Gouveia, às 11:17link do post | comentar | ver comentários (4)

 

Não foi durante a Administração Obama que eles começaram a ser utilizados, mas esse será um dos seus legados quando daqui a décadas se falar no nome do actual Presidente. Utilizados inicialmente apenas para eliminar alvos terroristas no estrangeiro, o seu uso tem-se intensificado a outros sectores (na perseguição de criminosos ou na vigilância, por exemplo). No ano passado foi tornado público que o Presidente Obama mandou matar mais de 100 terroristas da Al Qaeda através do recurso aos Drones, incluindo dois cidadãos americanos que viviam no Iémen. E apesar de nas últimas semanas ter havido um debate sobre o tema, porque será que esta questão nunca suscitou grande polémica nos Estados Unidos, sobretudo nas facções mais liberais e de defesa dos direitos humanos? Está certo, a ACLU tem criticado a utilização de Drones na vigilância de cidadãos americanos, mas a esmagadora maioria das organizações ligadas ao Partido Democrata têm estado em silêncio, quando sabe-se que se estivesse no poder uma Administração Republicana este assunto seria alvo de critica violenta por parte deles. Ao mesmo tempo, os republicanos são genericamente apoiantes. Dick Cheney disse esta semana que a eliminação de terroristas por Drones é um bom programa e, em regra, os republicanos têm estado de acordo com as políticas do Presidente nesta matéria. Resultado deste consenso? No futuro os Drones serão uma realidade massificada, e o seu uso vai alargar-se a outras áreas. Obama, com o beneplácito dos republicanos e apoio dos democratas, institucionalizou a utilização de Drones para qualquer utilidade que lhe possam dar. Se isso será positivo ou negativo, o futuro o dirá. 


22
Jan 13
publicado por José Gomes André, às 15:44link do post | comentar | ver comentários (2)

São hercúleos os desafios que esperam Obama: crise económica, reforma da saúde, problemas ambientais, controlo de armas, imigração, nova política energética – a nível interno. Instabilidade no Médio Oriente, relações difíceis com a Rússia e a China, a contenção do Irão – a nível internacional. Nada de muito diferente em relação a 2009, quando tomou posse pela primeira vez.

Hoje Obama tem todavia uma grande vantagem: por esta altura, ninguém espera, como no passado, que ele possa resolver todos aqueles problemas de uma só assentada. Obama tem diante de si uma agenda monumental, mas livre do messianismo que o perseguiu há quatro anos, pode agir recorrendo à “arte da política”, sem que a avaliação do seu desempenho esteja sistematicamente sujeita a uma comparação com o Rei Midas.

 

A nível interno, o maior desafio de Obama será lidar com a enorme bipolarização da política americana. O sistema político dos EUA assenta num sistema de “freios e contrapesos”, concebido para exigir permanentes lógicas de diálogo e construções de consensos entre os diversos agentes políticos. Todavia, os Pais Fundadores não contaram com as particularidades da modernidade, nomeadamente a radicalização ideológica e partidária, que têm minado o sistema e servido como autênticos mecanismos de bloqueio, impedindo os referidos consensos e a tomada de decisões políticas céleres e resolutas. Desde 2004 que Obama defende uma agenda bipartidária e a “reconciliação da América”, mas raramente tem promovido ambas. Com os Republicanos a controlarem a Câmara dos Representantes, as suas capacidades de negociação serão severamente postas à prova neste segundo mandato.

 

O maior desafio de Obama é contudo um outro, que assola aliás em geral o Ocidente: preservar a estrutura fundamental do “Estado Social”, num quadro económico e demográfico mundial que não permite aos países desenvolvidos manter os mesmos níveis de despesa pública até aqui praticados. Se a nível interno a resposta para esta autêntica quadratura do círculo não foi ainda encontrada, no que toca à política externa e à Defesa, as orientações estão definidas: reduzir os gastos nuns impressionantes 400 mil milhões de dólares, cortando na ajuda a países em desenvolvimento, reduzindo os efectivos militares em vários continentes, diminuindo as operações de vigilância, etc.

Estas orientações têm implicações severas em toda a organização externa norte-americana e por consequência nos alinhamentos estratégicos do poder mundial. Se em alguns casos elas são sobretudo simbólicas (redução de bases militares na Europa, por exemplo), noutros significam uma efectiva retracção da influência norte-americana, que pode comprometer interesses futuros em áreas estratégicas vitais (designadamente o Médio Oriente e a Ásia).

 

Obama tem insistido que o recurso ao “soft power” (diplomacia, fortalecimento das relações comerciais, cooperação com as instâncias internacionais), aliado a um posicionamento militar mais diminuto, mas cirúrgico, será suficiente para manter a influência americana intacta, mas só o tempo dirá se os EUA continuarão a ser “a nação indispensável”. Mais um desafio para o mais desafiado Presidente americano.

 

[inicialmente publicado no site da TVI24; obrigado ao Filipe Caetano pelo convite]

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publicado por Nuno Gouveia, às 15:16link do post | comentar

 

 

Nos últimos dois meses Obama já tinha vindo a dar sinais desta viragem à esquerda, tendo ficado agora consumada com o discurso de tomada de posse. Num tom pouco habitual para estes momentos, Obama focou-se sobretudo em cinco áreas: armas, alterações climáticas, direitos dos gays, lei da imigração e defesa dos programas sociais. A América "liberal" rejubilou e os conservadores responderam com desdém. Agora falta o embate com a realidade, que não será assim tão dócil como o Presidente Obama desejaria, pois é difícil adivinhar como poderá ter sucesso em algumas destas suas invocações. Pelo menos nos próximos dois anos. Apesar da sua vitória clara de Novembro, a América continua a ser um país profundamente dividido, e as diferenças de opinião que existiam antes não terminaram. Além disso, nem Reagan nem Nixon, que tiveram vitórias com cerca de 60% dos votos, distantes do que Obama conseguiu, aprovaram tudo o que queriam. Precisamente porque não tinham a maioria no Congresso. Adivinho até que esta viragem à esquerda no discurso do Presidente poderá reanimar de novo as hostes conservadoras. Vamos por pontos. 

 

 

 


20
Jan 13
publicado por Nuno Gouveia, às 20:54link do post | comentar | ver comentários (2)

 

O estado de graça não dura para sempre. No site da TVI24. 

 

PS: amanhã estarei a partir das 16 horas na TVI24, nos estúdios do Porto, a acompanhar a tomada de posse de Barack Obama. O José Gomes André estará a partir de Lisboa. 

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12
Jan 13
publicado por Nuno Gouveia, às 19:12link do post | comentar | ver comentários (1)

No primeiro mandato, Obama escolheu Robert Gates para a Defesa, Hillary Clinton para o Departamento de Estado e Leon Panetta para a CIA, que depois foi para a Defesa e substituído por David Petraeus. Talvez com excepção de Panetta (que, apesar de tudo, era um dos homens de Bill Clinton), tudo nomes que não faziam propriamente parte do inner circle de Obama. Gates e Petraeus foram escolhas de George W. Bush do seu último mandato. Hillary Clinton foi sua rival nas primárias democratas. Para este segundo mandato, e depois da decepção do caso de Susan Rice (outra protegida), Obama optou por homens da sua total confiança. Chuck Hagel, apesar de republicano desavindo, era considerado bastante próximo de Obama ainda antes deste ser presidente. John Kerry já em 2008 tinha optado por Obama contra Hillary e era falado há imenso tempo para o cargo. Por outro lado, John Brennan, a sua opção para a CIA, já em 2008 tinha sido a primeira escolha, mas o seu nome acabaria por cair depois de ter sido conhecido o seu apoio e envolvimento nos métodos de interrogatório que a CIA utilizou durante os anos W. Bush. Fora segurança nacional, Obama também optou por nomear para o Tesouro Jack Lew, seu actual Chefe de Gabinete. O que isto nos diz sobre este segundo mandato?

 

Depois de no primeiro mandato ter optado por nomes que em diversos momentos estiveram em campos opostos, como Hillary Clinton e o próprio Joe Biden, agora Obama está claramente a optar por pessoas da sua estrita confiança pessoal e política. Se em 2008 tivemos um Obama a ser comparado com Lincoln, que também ele preencheu os lugares na sua Administração por antigos rivais, como os seus antigos adversários da nomeação republicana, William Seward, Salmon Chase e Edward Bates ou ainda Edwin Stanton, que tinha humilhado Lincoln anos antes deste assumir a presidência, desta vez preferiu optar por escolhas mais convencionais, dentro do que é normal. O que se pode esperar desta nova equipa de Obama, isto se forem todos confirmados no Senado? Um grupo mais coeso, e possivelmente, mais obediente, não havendo grande margem de manobra para divergências dentro da Administração. Pelo que se já se sabe do primeiro mandato, também não se pode dizer que tenha havido grandes guerras internas, com a excepção da equipa económica. Obama quer um grupo que pensa como ele e que não suscite grandes ondas às suas opções. Este governo irá garantir-lhe isso, sendo de esperar que os lugares de relevo ainda por confirmar, como no Conselho de Segurança Nacional e na chefia do seu gabinete, sejam também ocupados por homens do Presidente. Este será, sem dúvida, um governo mais à sua imagem. Veremos se funcionará para melhor ou pior. 

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06
Jan 13
publicado por Nuno Gouveia, às 14:14link do post | comentar

Chuck Hagel, antigo senador republicano do Nebraska. Depois de ter recuado na intenção de nomear Susan Rice para o Departamento de Estado, Obama não quis voltar a fazer o mesmo com Hagel para o Pentágono. Mas a verdade é que esta escolha tem tudo para provocar uma batalha acesa no Senado pela sua confirmação. Tendo sido um forte opositor à Guerra do Iraque, conquistou vários inimigos dentro do seu partido, e em 2012 ofereceu mesmo o seu apoio a Barack Obama, depois de em 2008 ter-se recusado a apoiar John McCain. Dificilmente terá o apoio de muitos republicanos nas sessões de confirmação. Mas também do lado democrata pode surgir oposição feroz: por um lado, no passado teceu declarações contra o gays, que o colocam em maus lençóis entre a ala mais liberal do partido. Mas também devido às suas posições menos favoráveis a Israel, o que poderá colocar vários democratas contra Hagel. Será a primeira batalha de Obama em 2012 no Congresso. Para Obama conseguir a confirmação de Hagel precisará de duas coisas: angariar republicanos para a sua causa e limitar os danos ao mínimo no seu partido. Não será fácil.


14
Dez 12
publicado por Nuno Gouveia, às 11:19link do post | comentar

A composição da Administração de Barack Obama permanece no segredo dos deuses. Muita especulação, mas zero confirmações. A única certeza é que teremos um novo governo com muitas caras novas. E nos principais cargos, serão só novidades. Para Secretário de Estado o nome de Susan Rice andou nas bocas do mundo, mas o ataque preventivo dos republicanos à embaixadora dos EUA na ONU deu resultados: ontem anunciou que retirou o seu nome da lista de potenciais sucessores de Hillary Clinton. Deste modo, o senador John Kerry, que até ao momento tinha vindo a ser apontado para o Pentágono, é agora o nome mais forte para a diplomacia norte-americana. Não terá grandes dificuldades em ser aprovado no Senado. Chuck Hagel, senador republicano até 2008, e que se afastou do partido após a guerra do Iraque, é o nome de que foi apontado ontem como futuro Secretário da Defesa. A Casa Branca já desmentiu que esta informação. No entanto, este seria um nome, apesar de republicano, com sérias dificuldades para ser aprovado no Senado. As grandes inimizades que conquistou entre as fileiras republicanas dificultariam o seu processo de aprovação. Rice poderá ainda ter lugar no governo de Obama, mas como Conselheira Nacional de Segurança, onde não precisará de ser confirmada no Senado. O cargo de Secretário de Tesouro deverá também ter novo inquilino, depois da mais que provável saída de Timothy Geithner. Um dos nomes referenciados é o actual Chefe de Gabinete de Obama, Jack Lew, um veterano da Administração Clinton. Desta forma, Obama poderá ter de escolher o seu quarto chefe de Gabinete, depois de Rahm Emanuel, Bill Daley e do próprio Lew. Outras potenciais alterações poderão ter lugar nos cargos de Procurador Geral e no Departamento de Segurança Nacional.


04
Dez 12
publicado por Nuno Gouveia, às 23:08link do post | comentar

Disputa-se neste momento o último combate político do ano em Washington. Se democratas e republicanos não chegaram a acordo, no dia 1 de Janeiro de 2013 os impostos irão aumentar para todos os americanos, entre os quais o imposto sobre rendimentos, o imposto sobre o trabalho e ainda o fim dos benefícios fiscais para as pequenas e médias empresas. Por outro lado, haverá cortes automáticos em diversos programas federais, incluindo no sector social e na defesa. Os analistas independentes indicam que estas medidas contribuirão para o aumento do desemprego e uma previsível recessão, apesar de reduzirem o decide em 500 mil milhões de dólares anuais. Portanto, temos os ingredientes para mais uma grande trapalhada em Washington. Por um lado, os democratas e Barack Obama pretendem que os cortes na despesa não sejam tão severos e que haja um aumento de impostos para os mais ricos. Os republicanos estão contra qualquer aumento de impostos, e pretendem mudar a essência dos cortes na despesa. Estas são as premissas iniciais do debate. Em baixo deixo uma breve análise sobre este período negocial, o até onde poderão ceder os lados e qual o papel que Paul Ryan poderá ter, agora que o GOP está sem líder aparente. 

 

No verão de 2011 passamos por uma situação semelhante, aquando do aumento do limite do endividamento federal, mas agora estamos num período da vida política americana muito diferente. Já não há possibilidade de derrotar Barack Obama e os republicanos estão em crise existencial. É verdade que Obama é o primeiro presidente da era moderna a ser reeleito com menos votos do que no primeiro mandato, mas a sua vitória foi bem mais confortável do que se chegou a pensar, e, acrescentando a isso, o Partido Democrata viu a sua maioria no Senado aumentar nas últimas eleições, além de terem conquistado alguns lugares na Câmara dos Representantes. Os Democratas viram assim “reforçada” nas urnas a sua legitimidade para governar os Estados Unidos. Além disso, o Partido Republicano está neste momento numa posição muito débil, sendo vistos pela maioria do eleitorado como mais inflexíveis do que os democratas. Obama conquistou no dia 6 de novembro um mandato para liderar, e os republicanos, se não querem ser mais penalizados pela opinião pública, terão de ceder mais do que no passado recente. Estou certo que Obama terá agora mais hipóteses para negociar o “grande acordo” que enfrente os problemas estruturais dos Estados Unidos: a dívida pública, os défices elevados e o fraco crescimento económico. Se ele vai existir, não sabemos. 

 

A  primeira reacção de John Boehner após as eleições foi estender a mão a Obama, afirmando que o seu partido está pronto a negociar com o Presidente. A manutenção da maioria na Câmara dos Representantes foi a pequena vitória que os republicanos obtiveram, e isso mantém o partido como peça fundamental na governação. Até aqui os republicanos têm negado a possibilidade de um acordo com o Presidente que inclua o aumento de impostos. Mas essa plataforma saiu enfraquecida nas eleições, e já assistimos a influentes republicanos, como Bill Kristol da Weekly Standard, a dizer que aumentar impostos para os mais ricos não seria nada de extraordinário. O mesmo, por outras palavras, disse Bobby Jindal, governador da Louisiana e potencial candidato em 2016, que defendeu que os republicanos tinham de deixar de ser vistos pelos americanos como o partido das grandes empresas e dos ricos. Sente-se entre a maioria dos conservadores mais influentes que é necessário mudar de discurso para voltar a vencer eleições. Um dos grandes derrotados destas eleições foi precisamente Grover Norquist, que tinha conseguido que quase todos candidatos republicanos acedessem à sua plataforma de “não aumento de impostos “ sob todas as condições. Nesta matéria dos impostos, mas também noutras questões, como na reforma da imigração ou até na saúde, os republicanos deverão mudar de discurso no próximo ciclo da vida política americana. Mas isto não quer dizer que Boehner tenha carta branca para aceder à vontade do Presidente de aumentar os impostos para os mais ricos no imediato, até porque continuará a haver pressões dos sectores mais conservadores para não negociar nessa questão. A minha perspectiva é que algo será feito e a tal "fiscal cliff", não se concretizará. Isso pode passar por uma solução de curto termo, ou seja, negociar uma extensão, nem que seja de apenas seis meses, como sugeriu o senador republicano do Ohio, Rob Portman, de todos os cortes de impostos (Bush Tax Cuts, Payrool Tax Cuts e impostos sobre os pequenos empresários) e impedir ao mesmo tempo que os cortes na despesa programados para 2013 entrem já em vigor, ou uma solução mais duradoira, e aí sim, aumentar já os impostos para os que ganham mais de 250 mil dólares por ano, como tem defendido Obama, e negociar cortes na despesa que incluam despesas sociais e até militares. Os republicanos têm tentado que o aumento da receita do Estado Federal passe por cortes nas deduções fiscais (as tais loopholes de que se falava). O problema para eles é que mesmo isso é muito vago e de difícil execução, pois nunca foram específicos em apontar quais deduções queriam cortar. Além disso, vários democratas mais “liberais” estão contra essa solução. Se os republicanos cederem já no aumento de impostos, prevejo que irão querer que alguns dos seus planos para o corte da despesa federal entre em vigor já. Obama também poderá enfrentar alguma oposição na base mais à esquerda do seu partido se decidir cortar algumas das despesas sociais que os republicanos pretendem, mas acredito que acabará por impor o que quiser. Neste momento é o líder incontestado da vontade democrata no Congresso.

 

O Partido Republicano está neste momento sem líder. Paul Ryan, que viu crescer a sua aura de líder nesta última campanha eleitoral, poderá ter a tentação de envolver-se directamente nas negociações, até porque é presidente da Comissão do Orçamento da Câmara dos Representantes. Mas a partir de agora, tudo o que Ryan fará estará condicionado pelo facto que provavelmente será candidato a Presidente em 2016. Ele precisa de assumir-se como parte da solução e não do problema. A grande dúvida é se irá desejar ficar ligado a um possível aumento de impostos, que pode enfraquecer a sua posição nas primárias de 2016. Por outro lado, se mantiver a uma postura de inflexível nestas negociações ou se não se envolver profundamente, poderá cimentar a imagem de não conseguir trabalhar com o Partido Democrata numa questão central como esta. A minha percepção é que Ryan irá tentar liderar este processo pelo lado dos republicanos, tentando obter o máximo de concessões do Presidente no que diz respeito aos cortes da despesa, e ceder o menos possível na questão do aumento de impostos, que poucos acreditam em Washington que não irá acontecer: já ou no próximo ano. Nesta questão, Obama mais tarde ou mais cedo irá alcançar uma vitória.


29
Nov 12
publicado por Nuno Gouveia, às 22:54link do post | comentar | ver comentários (1)

 

Nos Estados Unidos há tradições que são para cumprir. Não há inimigos figadais, apenas adversários políticos. Pouco mais de um mês de Barack Obama derrotar Mitt Romney, um encontro na Casa Branca entre os dois, a convite do primeiro. Após a mítica campanha de 1960, John Kennedy convidou Richard Nixon para um encontro, tendo iniciado esta tradição do vencedor receber o vencido na Casa Branca. Hoje Obama e Romney deram seguimento a esse costume de Washington, reconfirmando a vitalidade da democracia americana. 


13
Nov 12
publicado por Nuno Gouveia, às 15:12link do post | comentar | ver comentários (11)

Historicamente os segundos mandatos costumam ser mais complicados do que os primeiros. Nixon teve o Watergate e demitiu-se, Reagan teve o escândalo dos Irão-Contra, Bill Clinton teve o affair Mónica Lewinski e George W. Bush teve o Katrina e o descalabro financeiro. Isto para recordar alguns episódios que atingiram os últimos presidentes reeleitos. Não quer dizer obviamente que Barack Obama vai enfrentar algum escândalo, mas os desafios para o seu segundo mandato são enormes. A crise fiscal está à espreita, o Irão ameaça tornar-se ainda mais explosivo nestes próximos anos e a situação no Afeganistão está longe de estar resolvida. Mas Obama terá tempo para impor a sua agenda, agora livre de uma campanha de reeleição que marcou a sua actuação nos últimos dois anos. Ao mesmo tempo, enfrenta um Partido Republicano, ainda com maioria na Câmara dos Representantes, enfraquecido após a severa derrota nas eleições da semana passada. 

 

A agenda deste segundo mandato tenderá a focar-se sobretudo nos temas internos, e Obama tem aqui uma oportunidade para reforçar o seu legado enquanto Presidente dos Estados Unidos. A sua maior vitória legislativa, a reforma da saúde, entrará agora em vigor no próximo ano, e Obama poderá vingar o seu papel na história se esta for bem sucedida. Na energia, Obama tenderá a apostar nas energias renováveis, algo que timidamente fez no primeiro mandato, sem grandes resultados, mas será principalmente na imigração que tentará promover um novo pacote legislativo de grande impacto no futuro. Nestes primeiros dias após a sua reeleição, tem havido do lado dos republicanos vontade para trabalhar com o Presidente nesta matéria, até porque a sua derrota eleitoral terá muito a ver com o modo como estes têm lidado com esta questão. Na educação, Obama poderá também criar pontes com os republicanos para actuar no sector, pois existe matéria para possíveis consensos. A dívida explosiva, que ameaça transformar os Estados Unidos numa nova Europa do Sul, deverá também ser atacada de frente pela Administração Obama. Um corte nas despesas sociais, conjuntamente com o aumento de impostos para os mais ricos estará em cima da mesa, e é bem provável que existam cortes nas despesas militares. 

 

Na frente externa Obama sentirá a necessidade de resolver até 2014 o problema do Afeganistão, o Irão nuclear, que Obama já garantiu não ser uma possibilidade, deverá ocupar bastante tempo para o novo Secretário de Estado, e a situação na Síria será também alvo de preocupação nos próximos meses. Ao mesmo tempo, a política externa tenderá a focar-se ainda mais na Ásia, com a China no topo da agenda. A situação da Europa e do Euro, que esteve totalmente ausente nesta campanha, será também uma das suas preocupações, aqui sem grande poder de influência. Nas relações com a Rússia, veremos finalmente com o que Obama quis dizer com ter maior margem de manobra após as eleições. Além disto, nunca se sabe onde poderá rebentar a próxima crise no panorama internacional. 

 

Desafios são muitos, e certamente irão aparecer outros pelo caminho. Não se pense que Obama tem o caminho aberto para um mandato de sucesso. Até pelo que disse inicialmente. Mas com a vitória na semana passada, Obama ganhou tempo, conquistou legitimidade e reforçou o seu poder em Washington. Até ao final do ano ficaremos a saber com quem contará na sua equipa. John Kerry na Defesa e Susan Rice no Departamento de Estado têm sido alguns dos nomes ventilados. Certa parece a saída de Hillary Clinton e Timothy Geithner do Tesouro. 


07
Nov 12
publicado por Nuno Gouveia, às 12:05link do post | comentar | ver comentários (4)

 

Haverá tempo para analisar com mais calma a forma como Obama foi reeleito, mas desde já ficam aqui algumas notas. Uma vitória presidencial entra no imediato para os livros da história americana. Mas esta reeleição irá certamente conquistar um lugar especial: pela capacidade organizativa da máquina de campanha, pela dimensão da vantagem que obteve, mas também por alguns recordes que bateu de algumas décadas, como ter sido reeleito com menor vantagem do que na primeira eleição ou o facto de ter ultrapassado a taxa de desemprego mais elevada desde os anos 30. A vitória de Obama acabou por ser mais simples do que era expectável. Se no voto popular, vence por 2%, no colégio eleitoral acaba com uma confortável vantagem de 332-206. A mobilização em redor do Presidente foi impressionante, e a sua coligação eleitoral de minorias, jovens e mulheres aguentou-se de uma forma fantástica. David Axelrod e David Plouffe já lá tinham garantido um lugar, mas depois desta vitória entram directamente para o topo dos grandes consultores políticos da história política americana. Barack Obama é reeleito depois de um mandato muito complicado, onde a sua popularidade nem sempre esteve acima da linha de água. Apesar de ter enfrentado uma dura batalha com os republicanos durante quatro anos, que incluiu uma severa derrota nas intercalares, acabou por ser reeleito com relativa facilidade, conseguindo com isso alargar também a maioria no Senado (uma das surpresas da noite). Obama acaba o ciclo eleitoral com a legitimidade reforçada pelo povo americano, e adquire margem de manobra para implementar as reformas prometidas. E, talvez mais importante, valida o que fez no primeiro mandato, como a reforma da saúde, que agora será implementada a partir do próximo ano. Veremos se neste mandato irá conseguir trabalhar com os republicanos, que saem desta eleição muito enfraquecidos, apesar de manterem a maioria confortável na Câmara dos Representantes. 


06
Nov 12
publicado por Nuno Gouveia, às 08:45link do post | comentar | ver comentários (9)

 

O futuro político destes dois homens decide-se esta terça-feira. Ambos já fazem parte da história americana. Barack Obama, que teve uma das mais meteóricas ascensões na política americana, depois de ter passado apenas sete anos no senado estadual do Illinois e quatro anos no Senado em Washington, foi eleito o primeiro negro Presidente dos Estados Unidos. Só isso já lhe assegurou um lugar na história. Mas o seu legado como Presidente irá ser necessariamente marcado pelo resultado que tiver nestas eleições. Se perder, será um novo Jimmy Carter, um Presidente que não conseguiu ser reeleito e recordado como um fracasso. Se vencer, terá tempo para cumprir algumas das promessas e deixar uma imagem positiva da sua governação. Muito do que se disser do seu legado será ditado pela reeleição ou não. Fez uma campanha eficaz, apostou em motivar a sua base eleitoral e, ao mesmo tempo, tentou desqualificar Mitt Romney. Se na primeira parte parece ter sido relativamente bem sucedido, na segunda, teve menos sucesso. Logo veremos se a afluência às urnas dos eleitores democratas será suficiente para estancar a previsível subida entre o eleitorado republicanos e os ganhos de Romney entre os independentes. Uma coisa é certa: ganhe ou perca, não parou de lutar. 

 

Mitt Romney com um longo percurso empresarial de sucesso, herói dos Jogos Olímpicos de Inverno de Salt Lake City, governador do Massachusetts e pela segunda vez candidato presidencial, pode estar no último dia da sua carreira política ou a iniciar o último percurso, o mais importante da sua vida. Como quase sempre sucede nos Estados Unidos, os candidatos presidenciais derrotados asseguram um lugar nos livros de história, mas presumo que Romney não fique satisfeito se juntar-se a nomes como John McCain, Bob Dole, Al Gore ou Michael Dukakis, só para recordar os últimos derrotados. Se vencer, poderá colocar em prática a sua experiência para recuperar a economia americana, como tem prometido, e assumir-se como o 45º Presidente, o primeiro mórmon. Mas Romney já conseguiu uma coisa: depois das tímidas imagens deixadas por Jonh Kerry em 2004 e Michael Dukakis em 1988, um político do Massachusetts voltou a realizar uma boa campanha presidencial. Se isso chegará para imitar outro conterrâneo do estado, o 35º Presidente, é algo que saberemos em breve. Esta terça-feira estará em Cleveland no Ohio e em Pittsburgh na Pensilvânia. A imitar Obama em 2008, quando no dia das eleições fez campanha no Indiana. E ganhou lá, constituindo a maior surpresa desse ano. Romney, tal como Obama, também não desistiu de lutar pela vitória.  Penso que ambos fizeram o que tinham que fazer para ganhar. Veremos agora o veredicto do povo americano. Porque só esse conta.


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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