04
Jan 14
publicado por Nuno Gouveia, às 17:44link do post | comentar | ver comentários (5)

 

 

Fallujah foi um dos mais importantes campos de batalha da guerra do Iraque, e um dos locais mais emblemáticos dos combates contra a Al-Qaeda. Foi palco de várias ofensivas e só no inicio de 2007 as tropas americanas e iraquianas recuperaram o controlo da cidade. Esta semana foi anunciado que a cidade voltou a estar sob controlo da Al-Qaeda. 

 

Quando Obama assumiu a presidência dos Estados Unidos, o Iraque já tinha desaparecido das primeiras páginas dos jornais. A "surge" do general David Petraeus tinha sido um sucesso e a guerra parecia ganha. George W. Bush já tinha negociado com o Primeiro-ministro Maliki um calendário para a retirada militar do Iraque, e apenas tinha sido deixado por negociar o número das forças residuais americanas que iriam ficar no país. Independentemente da má condução da guerra e do caos pós-invasão, que apenas foi quebrado após a "surge", a situação no Iraque parecia bem encaminhada. Mas Obama, que começou a sua carreira política na arena nacional por ser contra a guerra do Iraque (e que fez valer isso na sua corrida contra Hillary, que tinha apoiado a intervenção), acabou por cometer um erro de cálculo ao sair do Iraque da forma como o fez. 

 

Em 2011 Obama não conseguiu concluir um acordo com a liderança iraquiana para manter uma força residual no Iraque. O que estava previsto, e que era desejado pela liderança iraquiana, era manter um pequeno contingente militar que os auxiliasse na luta contra o terrorismo e que funcionasse como força dissuasora perante a violência sectária entre sunitas e xiitas. Além disso, manteriam o apoio ao treino das forças iraquianas. Esse era também o desejo de importantes sectores da administração Obama, que pretendiam manter o país calmo e longe do terrorismo, e afastar ao mesmo tempo a crescente influência iraniana no país. Mas algo correu mal, e Obama acabou por se precipitar e retirar totalmente. Nessa altura a Al-Qaeda estava completamente destruída no país e a violência sectária era reduzida. Independentemente do juízo que se possa fazer da intervenção no Iraque, essa era a postura correta a tomar, até para proteger os interesses americanos e dos aliados na região. 

 

Hoje a Al-Qaeda está a operar novamente em força no país, como se prova pelo controlo de Fallujah, e serve como base também à sua intervenção na vizinha Síria. O erro de Obama foi pensar que os interesses americanos estariam protegidos se deixasse os Iraquianos entregues a si mesmo. No Afeganistão Obama está empenhado em não cometer o mesmo erro, não retirando totalmente do país. Aí está a agir correctamente. 

 

PS: este post marca o meu regresso aqui ao Era Uma Vez na América, onde tentarei postar de forma regular. 


15
Dez 11
publicado por Nuno Gouveia, às 22:54link do post | comentar | ver comentários (16)

 

A poucos meses de completar nove anos do inicio do guerra do Iraque, os Estados Unidos dão finalmente por terminada a intervenção militar mais polémica desde o Vietnam. Foi um conflito com altos e baixos para os interesses americanos, e nesta hora de retirada é ainda difícil afirmar a forma como esta será avaliada pela história. Esta foi uma guerra extremamente difícil e com um elevado custo para os americanos. Mais quatro mil e quinhentos mortos, cerca de 30 mil feridos e 800 mil milhões de dólares depois, as tropas regressam finalmente a casa. Não entrando na discussão sobre os méritos ou deméritos desta operação, é hoje possível identificar vários erros cometidos nos primeiros anos da guerra, nomeadamente durante o consulado de Paul Bremer (nestes livros encontramos uma descrição fidedigna desses anos conturbados), e verificar que tudo poderia ter sido diferente. Os americanos abandonam Bagdad ainda sem uma democracia consolidada, a paz interna continua presa por arames e nem tudo está bem no país. No entanto, Barack Obama honrou o plano de retirada delineado ainda pela Administração Bush e conta aqui com uma promessa cumprida para apresentar ao povo americano. Ele, que se opôs à surge liderada por David Petraeus, acaba por ser o maior beneficiado, politicamente falando, desse volte face que permitiu aos americanos sair com dignidade do Iraque. Resta saber se Obama terá cometido um erro ao não forçar perante o governo iraquiano a presença militar durante mais algum tempo. Mas isso só o tempo o dirá. 


22
Out 11
publicado por Nuno Gouveia, às 12:17link do post | comentar | ver comentários (2)

 

Uma das guerras mais difíceis da história norte-americana está a ter o seu último capítulo. Barack Obama anunciou ontem que até ao final do ano todas as tropas de combate irão retirar do Iraque, ficando para trás apenas uma guarnição de 200 Marines na Embaixada. Além disso, manterão no Iraque um número não divulgado de consultores militares. No entanto, isto não significa um abandono do país, pois permanecerão no local mais de 16 mil americanos, entre diplomatas e civis. George W. Bush tinha assinado um acordo que previa esta retirada total até ao fim de 2011, mas era esperado que um número significativo de soldados ficasse no país a pedido dos iraquianos. Obama que, ao contrário de Bush, nunca se deu bem com o Primeiro-ministro Maliki, negociou durante meses o número de soldados que ficariam no Iraque, mas no fim nao chegou a acordo. 

 

Apesar das evoluções positivas dos últimos anos, o Iraque ainda não é uma democracia estável nem consolidada. A violência sectária ainda afecta algumas regiões do país e o terrorismo continua a ser um problema. Todos os dirigentes iraquianos, à excepção dos Curdos, defenderam abertamente esta retirada total das forças americanas, mas sabemos, pela história destes últimos oito anos, que nem sempre o que se defende em público representa os verdadeiros desejos deles. O antigo Primeiro-ministro Ayad Allawi, líder do maior bloco da oposição e pró-americano, considerou que era tempo dos americanos retirar, pois terão de ser as forças de segurança iraquianas a garantir a paz. Perante a oposição dos partidos iraquianos, e sabia-se que dificilmente passaria no Parlamento um extensão da presença militar americana no Iraque, Obama tomou a decisão de retirar, cumprindo os desejos dos iraquianos. 

 

Obama apresentou esta retirada como uma vitória dos Estados Unidos e e também o resultado de uma promessa efectuada durante a campanha de 2008. Mas nem tudo corre bem para Obama. Os comandantes militares no Iraque aconselhavam uma presença de 10/15 mil soldados americanos para ajudar os iraquianos nos próximos meses. Republicanos como Mitt Romney e John McCain já acusaram Obama de colocar em risco os avanços alcançados nos últimos anos. Se nos próximos 12 meses o Iraque permanecer relativamente estável e no caminho da recuperação política e económica, Obama poderá contar isto como mais um trunfo na frente externa. Se o Iraque regressar a um clima de 2004/2006 e as forças iraquianas forem incapaz de controlar a violência, será um problema para a Administração Obama. 


06
Set 11
publicado por Nuno Gouveia, às 22:54link do post | comentar

George Friedman, CEO da Stratfor, analiza os últimos 10 anos e o esforço de guerra americano

 

9/11 and the Successful War

Yet there have been no further attacks. This is not, I think, because they did not intend to carry out such attacks. It is because the United States forced the al Qaeda leadership to flee Afghanistan during the early days of the U.S. war, disrupting command and control. It is also because U.S. covert operations on a global scale attacked and disrupted al Qaeda's strength on the ground and penetrated its communications. A significant number of attacks on the United States were planned and prosecuted. They were all disrupted before they could be launched, save for the attempted and failed bombing in Times Square, the famed shoe bomber and, my favorite, the crotch bomber. Al Qaeda has not been capable of mounting effective attacks against the United States (though it has conducted successful attacks in Spain and Britain) because the United States surged its substantial covert capabilities against it.

O historiador Niall Fergusson oferece uma visão da história alternativa, se o 11 de Setembro não tivesse sucedido. 

 

What If 9/11 Had Never Happened?

Let’s start in January 2001 and thwart the 9/11 attacks by having Condi Rice and Paul Wolfowitz heed Richard Clarke’s warnings about Al Qaeda. The game starts off well. Al -Qaeda is preemptively decapitated, its leaders rounded up in a series of covert operations and left to the tender mercies of their home governments. President Bush gets to focus on tax cuts, his first love.

But then, three years later, the murky details of this operation surface on the front page of The New York Times. John Kerry, the Democratic candidate for the presidency, denounces the “criminal conduct” of the Bush administration. Liberal pundits foam at the mouth. Ordinary Americans, unseared by 9/11, are shocked. Osama bin Laden issues a fierce denunciation of the U.S. from his Saudi prison cell. It triggers a wave of popular anger in the Middle East that topples any regime seen as too close to Washington.


22
Jun 11
publicado por Nuno Gouveia, às 10:23link do post | comentar

O Senado confirmou ontem Leon Panetta como Secretário da Defesa, assumindo o cargo a partir de 30 de Junho. A votação unânime não deixa margem para dúvidas do apoio que recebeu dos dois partidos. O ainda director da CIA não vai ter vida fácil. Com as intervenções na Líbia, Iraque e Afeganistão, e a situação militar complicada no Paquistão e Yemen, este é provavelmente o cargo mais complicado da Administração Obama. Daí a importância deste apoio que recebeu no Senado. 

 

Panetta vai substituir Robert Gates, no cargo nos últimos quatro anos e meio. Apesar de tudo, penso que a história será favorável ao antigo colaborador das Administrações Reagan, H. Bush, W. Bush e Obama. Quando assumiu o cargo em 2006, a guerra no Iraque estava perdida e o Pentágono sofria uma grave crise de credibilidade. Durante os anos seguintes contribuiu para recuperar a credibilidade perdida, ajudou a implementar uma "surge" com sucesso no Iraque, salvando a face da Administração Bush, e ainda terminou o mandato com o sucesso da morte de Osama Bin Laden. No Afeganistão, a situação é mais complexa, mas conseguiu gerir bem a relação entre os militares e o poder civil, juntamente com a liderança de David Petraeus no terreno. O inicio da retirada anunciado ontem por Obama pode ser bom sinal para os próximos anos. Nos últimos meses foi lançando sérios avisos sobre a capacidade limitada dos Estados Unidos em se envolverem em novos conflitos, como aconteceu recentemente na Líbia. Particularmente, gostei do aviso que deixou aos parceiros da NATO este mês, quando alertou que esta organização poderá tornar-se relevante se não for levada mais a sério pelos países europeus. 


01
Set 10
publicado por Nuno Gouveia, às 13:12link do post | comentar

Barack Obama fez um discurso competente. Faltou-lhe a chama e o brilho dos tempos da campanha, mas este não era um tema fácil para ele. O Presidente foi um opositor da guerra do Iraque, e apesar de ter prosseguido a politica de George W. Bush, prometeu acabar com a guerra nos primeiros dois anos do seu mandato. E Obama cumpriu, também porque seguiu o plano Bush. Num discurso onde elogiou as forças militares americanas que “cumpriram a missão que lhes foi destinada”, não deixou de recordar as diferentes opiniões sobre a decisão de invadir o Iraque em 2003. Ao referir que tinha telefonado a George W. Bush, e logo depois, ter dito que patriotas tinham concordado e discordado sobre a sua decisão, Obama quis dar um passo em frente e terminar com as divisões do passado. Nesse momento fez-me recordar o Obama da campanha, que falava para o povo americano acima dos interesses partidários. Foi, talvez, o melhor momento da noite.


Mas houve alguns sinais para o futuro: em primeiro lugar, que as missões de combate no Iraque podem estar terminadas, mas o compromisso com o povo iraquiano não acabou. Isso quer dizer que os EUA poderão continuar no Iraque depois de 2011, caso o governo iraquiano o peça, conforme o acordo assinado entre os EUA e Iraque. A parte surpreendente do discurso, para mim, foi o elogio do excepcionalismo americano, consubstanciado  na defesa dos Estados Unidos como líderes do mundo livre e na defesa da “spreading democracy”, conceitos até ao momento sempre estiveram ausentes em Obama. O Afeganistão não foi esquecido, e a comparação com o que foi feito no Iraque. Obama chegou mesmo a falar numa retirada baseada nas condições do terreno, apesar de reafirmar a sua intenção acabar com com essa guerra, pois a "paciência dos Estados Unidos não é ilimitada".


Na parte final do discurso, abordou a economia americana, o assunto que mais preocupa os cidadãos. Obama foi inteligente, pois tentou transmitir a seguinte mensagem: a guerra do Iraque faz parte do passado, é tempo de olharmos para o futuro e centrarmos os nossos esforços na economia. E também não deixou, implicitamente, de relacionar a crise com as guerras de Bush.


Obama discursou ao centro: por um lado terá desagradado à esquerda anti-guerra por não ter elaborado uma crítica à intervenção americana. Mas também recebeu criticas à direita, por não ter atribuído crédito a George W. Bush pela “surge” de 2007. Como já referi, este não era um discurso fácil. Mas parece-me, até pelas reacções que já li, que cumpriu o seu objectivo: a guerra acabou, vamos em frente.


31
Ago 10
publicado por Nuno Gouveia, às 22:27link do post | comentar

Barack Obama discursa hoje em directo da Sala Oval às 20h00 (locais) sobre a retirada das forças militares do Iraque. Um momento marcante da sua presidência.


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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