21
Mar 16
publicado por Nuno Gouveia, às 21:35link do post | comentar | ver comentários (4)

As primárias republicanas de 2016 podem terminar com uma "convenção contestada", algo que não sucede desde 1976, quando Gerald Ford chegou à convenção de Kansas City sem os delegados necessários para obter a nomeação na primeira votação. No Partido Democrata, a última vez que tal aconteceu foi em 1980, numa disputa ganha pelo Presidente Jimmy Carter contra o senador Ted Kennedy. Se na era moderna da política americana este fenómeno é muito invulgar, até à introdução generalizada das primárias da década de 70, depois da reforma McGovern-Fraser, era mais comum. As lendárias convenções decididas pelos "party bosses" em "smoke-filled room" eram habituais, com as decisões a serem tomadas à porta fechada*. Para tal acontecer este ano, nenhum candidato pode atingir os 1237 delegados, o que é possível, pois ao contrário de outros anos, Donald Trump vai ter oposição até ao final das primárias. Apesar de me parecer que Trump deverá mesmo chegar muito perto desse número, se não o ultrapassar mesmo, este é um cenário em que vários republicanos do movimento #NeverTrump estão a trabalhar para impedir o milionário nova iorquino de se transformar no líder republicano. Se Trump não conseguir obter os 1237 delegados na primeira votação na Convenção de Cleveland, então os seus delegados vão se libertando da obrigação de votarem nele e tudo pode acontecer. Mesmo nomear um candidato que não tenha tido a votos nestas primárias. Improvável mas não impossível. E é nisso que apostam os seus opositores no Partido Republicano. 

Em 1976, o presidente Gerald Ford chegou à convenção à frente mas sem os 1130 delegados necessários para vencer a nomeação à primeira votação. Ronald Reagan, antigo governador da Califórnia, chega a Kansas City com a aspiração de derrotar o Presidente e anuncia que o seu candidato a vice presidente seria o senador da Pensilvânia, Richard Schweiker, para convencer a ala moderada do partido a apoiá-lo. O problema para Reagan foi que os conservadores não gostaram da sua escolha e muitos deles decidiram apoiar Ford, que ganhou a nomeação com 1187 delegados contra os 1070 de Reagan. Depois de perder a votação, Reagan declarou o apoio a Ford, terminando com a frase "There is no substitute for victory, Mr President". Gerald Ford perdeu para Jimmy Carter e passado quatro anos, na convenção de Detroit, tentou negociar a sua entrada no ticket republicano como Vice Presidente de Reagan. O acordo chegou mesmo a estar quase concluído, mas Reagan à última hora optou por George H. Bush. 

1952 foi um ano em grande para as convenções contestadas. No lado do Partido Republicano, Robert Taft e Dwight Eisenhower defrontaram-se na Convenção de Chicago, não para escolher o nomeado republicano, mas sim para escolher o Presidente. Depois de 20 anos de domínio democrata e com a popularidade do Presidente Harry Truman pelas ruas da amargura, era quase certo que o Partido Republicano iria recuperar a Casa Branca. Foi também um confronto entre os centristas e os conservadores, uma réplica da história da década anterior e posterior no GOP. Thomas Dewey, nomeado republicano em 1944 e 1948, optou por não se candidatar, mas conseguiu convencer o herói da II Guerra Mundial, o general Dwight Eisenhower, a candidatar-se pela ala moderada (curiosamente, também tinha sido "namorado" pelo Partido Democrata). Robert Taft, representante da ala conservadora do partido, tentou pela última vez ser o nomeado contra os moderados. Esta foi uma convenção cheia de truques de ambos os lados, com Einsenhower a ganhar na primeira votação com 845 votos contra 280 de Taft. No entanto, no inicio da Convenção o número de delegados era muito equilibrado, mas as manobras na convenção fizeram pender a vitória para o general. Para equilibrar o ticket, o Einsenhower nomeou um jovem senador da Califórnia, Richard Nixon. Também em Chicago, o Partido Democrata reuniu-se para escolher o sucessor de Harry Truman. E foi a última vez que nenhum partido escolheu o seu candidato à primeira. Nas duas primeiras votações, o senador do Tennessee, Estes Kefauver liderou, sem no entanto chegar à maioria dos delegados. Mas o governador do Illinois, Adlai Stevenson, que nem sequer era candidato no inicio da convenção, cedeu aos esforços de alguns party bosses e avançou para a luta pela nomeação. Apesar de destroçado popularmente, o apoio de Harry Truman viria a ser decisivo para a vitória de Adlai Stevenson na terceira votação. Passado quatro anos, voltaria a ser candidato e derrotado nas presidenciais de 1956. 

Muitas mais histórias de ambos os partidos haveria para contar. A mais conhecida do grande público, até pelo excelente livro de Doris Kearns Goodwin, Team Rivals, foi em 1860 na segunda convenção da história do Partido Republicano, quando o desconhecido Abraham Lincoln derrotou os favoritos William H. Seward, Salmon P. Chase e Edward Bates. A mais longa de todas foi no Partido Democrata em 1924, quando foram necessárias 103 votações para escolher John W. Davis, que derrotou o candidato apoiado pelo Ku Klux Klan William G. McAdoo, que chegou a ter 47% dos delegados na 77ª votação. Com uma furiosa oposição do governador de Nova Iorque, o católico Al Smith, Davis acabou por ser o candidato da reconciliação,

 

* Sobre este tópico aconselho o filme "The Best Man", escrito por Gore Vidal e realizado por Franklin Schaffner com Henry Fonda. 


13
Mar 16
publicado por Alexandre Burmester, às 16:49link do post | comentar | ver comentários (1)

51Kbvv0LuQL._SY344_BO1,204,203,200_.jpg

 

Numa altura em que a actualidade anda a ser dominada pelos confrontos em comícios de Donald Trump, ocorreu-me a maior manifestação de violência política na América do pós-guerra, a Convenção Democrática de 1968, em Chicago.

 

Norman Mailer imortalizaria o episódio no seu livro "Miami and the Siege of Chicago" (em Miami tinha tido lugar a Convenção Republicana, que nomeara Richard Nixon como candidato do GOP).

 

https://www.youtube.com/watch?v=1Iye1NQy1NY

 

 


03
Abr 13
publicado por Nuno Gouveia, às 18:22link do post | comentar

George H. Bush fez parte do ticket que tirou Jimmy Carter da Casa Branca. Bill Clinton impediu Bush de fazer dois mandatos. Obama foi eleito numa campanha em que basicamente transformou George. W. Bush no seu opositor. No entanto, os vários conflitos que estes senhores mantiveram entre si não os impede de terem uma relação cordial entre si. No próximo dia 25 de Abril este clube vai estar novamente reunido, na inauguração do George W. Bush Presidential Center, na Southern Methodist University em Dallas. 


09
Jan 13
publicado por Nuno Gouveia, às 21:52link do post | comentar | ver comentários (4)

 

O Alexandre já destacou aqui Richard Nixon, dividindo o seu legado em duas facetas: o político, que ficou com má fama, e o estadista, onde alcançou grandes feitos. Gostaria de me debruçar especificamente sobre a longa carreira política de Nixon, que começou em 1946 e terminou apenas em 1974, após a sua demissão com Watergate. Um percurso repleto de vitórias e derrotas, que o colocam como o verdadeiro "político" americano do pós guerra, tendo apenas paralelo num outro político de excepção da sua época, Lyndon Johnson, também ele extremamente hábil na arte, se assim lhe podemos chamar, da política. 

 

Depois de ter estado na Marinha durante a II Guerra Mundial, Nixon foi eleito congressista pela Califórnia em 1946, tendo chegado a Washington como um feroz anti-comunista, imagem essa que lhe foi imensamente útil durante toda a sua carreira política. A fama chegou passado dois anos, quando se destacou na comissão de actividades anti-americanas, contribuindo decisivamente para denunciar o célebre caso de Alger Hiss, um alto funcionário do Departamento de Estado da Era Roosevelt, que na época foi acusado de ser um espião soviético. Apesar de Hiss ter sido condenado por perjúrio, já neste século diversos investigadores concluíram que de facto tinha sido um espião ao serviço da URSS. Nixon, após ter ganho notoriedade nacional, rapidamente começa a pensar em destronar o senador democrata da Califórnia Sheridan Downey, sendo que este nem chegou a ir a votos em 1950. Já no Senado, Nixon continua a fortalecer a sua imagem anti-comunista, criticando a condução da guerra da Coreia pelo Presidente Truman e mantendo também relações cordiais com o famoso senador do Wisconsin Joseph McCarthy, sem no entanto envolver-se muito com as suas actividades. Ao mesmo tempo, Nixon votou a favor de leis que apoiavam os direitos civis das minorias. Quando o Partido Republicano nomeou o general e herói de guerra, Dwight Eisenhower, os party bosses do GOP (na época fundamentais nas nomeações dos partidos) optaram por indicar Richard Nixon, um jovem senador de 39 anos do grande estado da Califórnia, e com impecáveis credenciais anti-comunistas. Foi uma forma de satisfazer a base conservadora do Partido, depois da nomeação de Eisenhower. Nessa campanha presidencial, Nixon teve a seu cargo a os ataques e críticas aos democratas, lançando as bases para o papel actualmente destinado aos candidatos a VP: o de attack dog. Nixon aproveitou os seus oito anos de Vice Presidente para reforçar a sua experiência internacional, viajando por todo o mundo e conhecendo líderes diversos países, e envolvendo-se em episódios como aquele fantástico debate da cozinha que o Alexandre referiu

 

 

 


05
Jan 13
publicado por Nuno Gouveia, às 00:56link do post | comentar | ver comentários (2)

Nancy Pelosi decidiu inovar e mandou acrescentar nesta fotografia, através do Photoshop, as congressistas democratas que não conseguiram estar presentes na foto. Uma maneira diferente de apresentar as boas vindas ao 113º Congresso dos Estados Unidos da América.

 

Uma palavra também para John Boehner, que foi ontem eleito novamente Speaker da Câmara dos Representantes, apesar das ameaças de alguns republicanos. O congressista do Ohio é o 53º na longa lista de Speakers, que começou em 1789 com Frederick Muhlenberg. Apesar de ser o terceiro na hierarquia dos Estados Unidos, apenas um Speaker chegou a Presidente: James Polk, que esteve na Casa Branca entre 1845 e 1859 pelo Partido Democrata. No entanto influentes personalidades da história americana ocuparam este cargo: Henry Clay, o poderoso político do Kentucky da primeira metade do Séc. XIX; os republicanos James Blaine, que foi Secretário de Estado de Benjamin Harrison e James Garfield, e Thomas Brackett Reed, que ocupou o cargo no final do Séc. XIX e talvez o mais influente Speaker até à data; os democratas John Carlisle, que além de ter sido Speaker durante a década de 1880, foi também Secretário do Tesouro de Groover Cleveland e Senador do Kentucky, e já no século XX, o famoso Sam Rayburn, Speaker durante 17 anos (o que esteve mais tempo no cargo) e que passou por três presidentes: Frank D. Roosevelt, Harry Truman e Dwight Eisenhower. Mais recentemente, dois destacaram-se pelo papel que tiveram na luta político-partidária e pelos entendimentos que chegaram com Presidentes de partidos adversários. O democrata Tip O'Neill, que apesar de um relacionamento tenso com o Presidente Reagan, nunca deixou de negociar e alcançar sucesso em importantes peças legislativas, e o republicano Newt Gingrich, que depois de um inicio tumultuoso com Bill Clinton, que levou mesmo ao "encerramento" do governo, conseguiu negociar e aprovar legislação importante. 


21
Out 12
publicado por Nuno Gouveia, às 12:59link do post | comentar | ver comentários (1)

 

George McGovern morreu hoje aos 90 anos num hospital do Dakota do Sul, depois de ter sido internado na semana passada. Candidato presidencial pelo Partido Democrata em 1972, teve uma importância histórica na política norte-americana nem sempre reconhecida e valorizada. Apesar de ter sido verdadeiramente humilhado por Richard Nixon, que venceu em 49 dos estados da união, o seu legado é muito mais do que essa histórica derrota. McGovern ocupou um papel decisivo na viragem à esquerda do Partido Democrata nos últimos 40 anos e já é uma figura fundamental na história da política americana.

 

Piloto de bombardeiros durante a segunda guerra mundial, começou a destacar-se na política em 1948 quando decidiu apoiar o candidato progressista Henry Wallace contra o Presidente Truman. Na eleição seguinte voltou ao Partido Democrata para apoiar Adlai Stevenson e em 1956 foi eleito para a Câmara dos Representantes. Chega ao senado em 1962 e torna-se numa das vozes proeminentes contra a guerra do Vietname. Depois do assassinato de Robert Kennedy candidata-se à nomeação pela facção anti-guerra do Partido Democrata, mas não teve hipótese contra Hubert Humphrey, que dominava a máquina partidária. Essa derrota levou-o a liderar os esforços para alterar as regras de nomeação presidencial, levando a que as primárias e eleições directas conquistassem primazia no processo, retirando poder aos "party bosses". O Partido Republicano viria mais tarde a fazer o mesmo, iniciando-se a era das primárias competitivas, como as conhecemos hoje.

 

McGovern foi o primeiro beneficiado das novas regras, tendo conquistado a nomeação do Partido Democrata em 1972, o que na altura muito agradou Richard Nixon. Aliás, consta-se que o republicano tudo fez para ajudar McGovern a ganhar a nomeação, pois Nixon pensava que o seu radicalismo ideológico iria ajudá-lo a vencer. Como aconteceu. Essa campanha foi um verdadeiro desastre, pois McGovern não conseguiu unir o partido, cometeu muitos erros estratégicos, a começa pelo processo de Vice Presidente. Depois de ter recebido recusas de vários democratas, como Ted Kenney, Walter Mondale, Edmund Muskie ou Hubert Humphrey, optou pelo senador do Missouri, Thomas Eagleton. Mas a meio da campanha foi descoberto que tinha problemas psiquiátricos e McGovern, pouco depois de ter dito que tinha 100% de certeza que Eagleton ficaria no ticket, substituiu-o pelo cunhado de John Kennedy, Sargent Shriver, que não tinha experiência política nenhuma. Esta foi a campanha que ficou conhecida por "Amnistia, aborto e ácido", pois Mcgovern defendia a amnistia para quem tinha fugido à guerra do Vietname, a legalização do aborto e das drogas. Essa frase foi proferida por um senador "anónimo" ao colunista conservador Robert Novak durante as primárias, que lhe disse que McGovern estaria condenado quando a América descobrisse que a sua campanha era a favor de "Amnesty, Abortion and Acid". Em 2007 Novak anunciou que o senador que lhe tinha dito isso foi Thomas Eagleton, precisamente a opção de McGovern para VP. Mcgovern apenas venceu no estado do Massachussetts e em DC, e teve apenas 37 por cento dos votos, um dos piores resultados de sempre de um candidato dos dois partidos.

 

McGovern foi o primeiro democrata verdadeiramente "liberal" a ser nomeado candidato presidencial pelo Partido Democrata, abrindo caminho para outros como Walter Mondale, Michael Dukakis ou Barack Obama, que vieram precisamente da ala mais à esquerda do Partido Democrata. O seu principal legado é precisamente ter influenciado toda uma geração de políticos que cresceu com ele, tendo conquistado o poder e primazia no Partido Democrata. Se Goldwater é considerado o pai do conservadorismo moderno, McGovern cumpriu a mesma função para o "liberalismo" americano. 


02
Out 12
publicado por Nuno Gouveia, às 19:08link do post | comentar

Ross Perot em 1992, contra Bill Clinton e George H. Bush. A única vez em que participaram três candidatos. 


01
Out 12
publicado por Nuno Gouveia, às 19:00link do post | comentar

Mais um grande momento de Ronald Reagan, desta vez no debate contra Walter Mondale em 1984. 


30
Set 12
publicado por Nuno Gouveia, às 18:56link do post | comentar | ver comentários (2)

Michael Dukakis foi o único candidato presidencial nas últimas décadas contra a pena de morte. A forma fria e calculista como respondeu a esta pergunta no debate contra George. H. Bush em 1988 terá contribuido para a sua derrota.  


29
Set 12
publicado por Nuno Gouveia, às 18:53link do post | comentar

 

Debate entre Gerald Ford e Jimmy Carter em 1976. Uma gaffe monumental de Gerald Ford sobre o posicionamento geopolítico dos países de leste. 


28
Set 12
publicado por Nuno Gouveia, às 18:50link do post | comentar | ver comentários (5)

Grande momento no debate de candidatos a Vice Presidente em 1988, entre Lloyd Bentsen e Dan Quayle. Não terá sido muito relevante na campanha, mas hoje todos o recordam. 


27
Set 12
publicado por Nuno Gouveia, às 21:22link do post | comentar | ver comentários (3)

Este foi provavelmente o debate mais importante da história das eleições presidenciais americanas. Foi o único da campanha de 1980, sendo que antes dele, apenas uma semana antes das eleições, Reagan estava atrás de Carter e acabaria por vencer as eleições por 9%. "There you go again" ficou na história da política norte-americana. 


13
Set 12
publicado por Nuno Gouveia, às 23:27link do post | comentar

Retirado daqui


04
Jul 12
publicado por Nuno Gouveia, às 15:45link do post | comentar

 

Uma data especial para os Estados Unidos, o dia da Declaração da Independência. Há 236 anos um grupo de homens marcados por uma rara genialidade assinalavam o nascimento de um país. Também nessa data, em 1826 e quando se celebrava o 50º aniversário, morreram os Pais Fundadores que também foram Presidentes dos Estados Unidos: o segundo, John Adams e o terceiro, Thomas Jefferson. Cinco anos depois, também no mesmo dia, morria James Monroe, o quinto Presidente. Por fim, a 4 de Julho de 1872 nascia Calvin Coolidge, o 30º Presidente, que liderou o país numa das suas épocas douradas, entre 1923 e 1929. 


31
Mai 12
publicado por Nuno Gouveia, às 16:21link do post | comentar | ver comentários (7)

A maioria dos analistas políticos estão convencidos que estas eleições vão ser renhidas. Os números da Gallup de ontem davam um empate e é bem provável que essa previsão se mantenha durante muito tempo. Larry Sabato, professor da Universidade da Virgínia, deixa-nos hoje um exercício interessante sobre o significado das sondagens neste momento da corrida. A conclusão é simples: muito pouco. Sabato analisou as sondagens da Gallup no mês de Junho em todos os anos de eleições presidenciais desde 1980 e apenas por duas vezes o resultado das eleições se aproximou das sondagens de Junho.

 

Em Junho de 1980 Jimmy Carter liderava Ronald Reagan por 39%-32%, com John Anderson, um republicano de Illinois que se candidatou como independente, com 21%. Como Sabato recorda e bem, a campanha foi bastante renhida quase até ao fim, e uma semana antes das eleições, as sondagens apontavam para um empate técnico. Foi apenas nos últimos dias da campanha que Reagan disparou, acabando por vencer com 51%, seguido de Carter com 41% e Anderson com 7%. Na campanha da reeleição, as sondagens deste mês já deixavam antever uma vitória confortável de Reagan, que se confirmou com 59% contra os 41% de Walter Mondale. 

 

Em 1988 por esta altura Michael Dukakis liderava confortavelmente George H. Bush, com 52%-38%. O Vice Presidente de Reagan acabaria por vencer com 53% dos votos. Passado quatro anos, com Bush a afundar-se nas sondagens, era o independente Ross Perot quem liderava as preferências dos americanos, seguido de Bush com 31% e Clinton com 25%. O resultado de Novembro foi bem diferente: Clinton com 43%, Bush com 37% e Perot com 19%. Na campanha de reeleição, pela a última vez as sondagens voltaram a acertar em Junho, pois já nessa altura colocavam Clinton à frente com 49% contra 33% de Bob Dole e 17%  de Perot. O resultado final seria ligeiramente diferente, mas com larga vantagem para Clinton. 

 

Em 2000 George W. Bush liderava Al Gore com 5 pontos de vantagem por esta altura, mas sabemos como as eleições acabaram: Bush venceu os votos no Colégio Eleitoral mas perdeu no Voto Popular. Em 2004, por esta altura adivinhava-se uma Presidência Kerry, como Senador do Masshusetts a ter 49% das intenções de voto contra os 43% de Bush. Por fim em 2008, em Junho McCain liderava Obama por 46%-45%, num dos raros momentos em que esteve na dianteira (a outra foi depois da convenção republicana, antes da crise do Lehman Brothers rebentar). Por esta altura as sondagens pareciam indicar uma eleição bem disputada, mas Obama acabou por ser eleito com relativa facilidade. 

 

Dito isto, é provável que este ano seja um dos que a Gallup acerta em Junho. A menos que aconteça algo excepcional nesta campanha, diria que Obama e Romney vão ter entre 48% e 52%. E não ficaria nada surpreendido que voltassem a acontecer situações idênticas às de 2000.


16
Mar 12
publicado por Nuno Gouveia, às 18:28link do post | comentar

 

Barack Obama cometeu uma gaffe de proporções históricas. Já é normal que o Presidente tenha palavras duras em relação a alguns dos seus antecessores republicanos. Richard Nixon e George W. Bush são os mais visados (na verdade também já teceu palavras elogiosas sobre Ronald Reagan, isto para não falar de Abraham Lincoln). Num discurso sobre energia, Obama disse ontem que Rutherford B. Hayes (presidente republicano entre 1877-1881) era um Luddite* e que quando confrontado com a invenção do telefone tinha dito que ninguém iria querer utilizá-lo. E que era por isso que ele não estava no Mount Rushmore. Ora, o Rutherford B. Hayes Presidential Center respondeu a este "ataque" e repôs a verdade: o Presidente Hayes nunca disse tal coisa, e até há discursos onde ele afirma que é telefone era uma "maravilha". Mais, segundo os historiadores, Hayes não só foi o primeiro a instalar um telefone na Casa Branca, como foi o primeiro a usar uma máquina de escrever e chegou a pedir a Thomas Edison para fazer uma demonstração do Fonógrafo na Casa Branca. 

 

* Luddite: movimento social do século XIX que recusava a evolução tecnológica promovida pela revolução industrial


05
Mar 12
publicado por Nuno Gouveia, às 21:00link do post | comentar

Neste segmento do The Daily Rundown da MSNBC. A partir do 1,40m. 


27
Fev 12
publicado por Nuno Gouveia, às 21:34link do post | comentar | ver comentários (2)

Estas primárias republicanas estão a ser dominadas pelos anúncios negativos. Mas não se pense que isto é um fenómeno novo ou estranho à política americana. Desde os primórdios da república que os candidatos sempre se dedicaram a atacar os seus adversários, muitas vezes de uma forma totalmente inaceitável. A primeira campanha verdadeiramente agressiva foi logo em 1800, onde os apoiantes de John Adams e Thomas Jefferson (até à segunda metade do século XIX os candidatos não faziam campanha directamente) trocaram insultos que colocaram em causa a amizade conquistada no período da revolução. Adams foi acusado de querer ser Rei e Jefferson de ter uma amante negra (o que era verdade), entre outras acusações. Ao longo do século XIX ficaram célebres os insultos dirigidos pelos apoiantes de Jonh Quincy Adams a Andrew Jackson - chamando prostituta à mãe e adúltera à esposa - ou os que Abraham Lincoln recebeu (ape-like). Em 1884 Grover Cleveland conquistou a Casa Branca, mas não sem antes passar por um ataque cerrado devido a uma filha fora do casamento. Histórias destas haverá em toda a história americana.

 

A seguir deixo aqui dois vídeos, talvez os mais agressivos da era moderna da política americana. "Daisy", de Lyndon Johnson, onde acusava Barry Goldwater de desejar uma guerra nuclear e "Willie Horton", feito pelo genial Lee Atwater sobre um preso que tinha sido libertado por Michael Dukakis e que depois assassinou um jovem. 

 

      


22
Nov 11
publicado por Nuno Gouveia, às 23:25link do post | comentar

 

A eleição presidencial de 1884 foi marcada pelo regresso à Casa Branca de um Democrata vinte cinco anos depois do último presidente do mesmo partido. O anterior Democrata eleito tinha sido James Buchanan em 1856, que ainda hoje é considerado pelos historiadores como o pior presidente da história americana. Mas não se pense que esta eleição foi fácil, pois o vencedor, Grover Cleveland, foi afectado por diversos escândalos durante a campanha.

 

Os republicanos reuniram-se em Chicago durante o Verão desse ano para escolher o seu candidato. O Presidente da época, Chester A. Arthur, que tinha assumido a Presidência depois do assassinato de James Garfield em 1881, apresentou-se como candidato à nomeação, mas os republicanos optaram pelo senador James Blaine do Maine, na época o republicano mais poderoso. Foi ainda nesta convenção que foi proferida uma frase mítica que ainda hoje faz eco na política norte-americana. O herói da guerra civil, o general William Sherman foi pressionado para se candidatar, mas ele afirmou: "If drafted, I will not run; if nominated, I will not accept; if elected, I will not serve". Ficou conhecida como a Sherman Pledge.  A nomeação Democrata não teve grande história. Animados com a perspectiva de regressarem à Casa Branca, o partido uniu-se em torno do governador de Nova Iorque, Grover Cleveland, que tinha feito nome ao enfrentar a máquina corrupta do Partido Democrata do estado, conhecida pela Tammany Hall. 

 

Esta campanha ficou marcada pelos ataques de carácter feitos a Grover Cleveland e pela divisão que afectava o Partido Republicano, depois de 25 anos de poder. O anterior Presidente Chester A. Arthur nem sequer fez campanha por Blaine, bem como uma boa parte do GOP, que considerava Blaine corrupto e que trabalhou para ajudar a eleger Cleveland. Estava tudo inclinado para uma vitória fácil de Cleveland quando em Julho de 1884 rebentou um grande escândalo para a época. Foi revelado pelo Buffalo Evening Telegraph que Cleveland, enquanto jovem, teve um caso fora do casamento com uma viúva de Buffalo, Nova Iorque, e que em resultado desse affair teve um filho ilegítimo com ela. Os republicanos aproveitaram o caso e rapidamente começaram a atacar Cleveland , inventando até uma rima para o adversário que ficou famosa: "Ma, Ma, where's my Pa?".  O caso assumiu maiores proporções porque o filho teria crescido num orfanato e a mãe internada num hospício. A campanha de Cleveland, respondendo de uma forma não natural para a época, assumiu que de facto era possível que o filho fosse dele (não tinha a certeza), mas que assumira o filho e ajudara-o a encontrar um lar para viver. 

 

A vitória de Cleveland estava em causa, mas o candidato republicano cometeu uma gaffe de proporções históricas que lhe terá custado a eleição. A uma semana das eleições, Blaine participou num encontro com pregadores evangélicos, onde um deles criticou duramente aqueles que tinham abandonado o GOP para apoiar um partido cujo passado era marcado pelo "Rum, Romanism and rebellion", ou seja, álcool, catolicismo e rebelião. Blaine esteve toda a reunião em silêncio, o que o prejudicou imenso perante o eleitorado católico e irlandês, pois a imprensa publicitou de forma agressiva esta reunião. Numa eleição em que Cleveland venceu com mais 0,53% dos votos em termos nacionais, acabou por ser decisivo o resultado do estado de Nova Iorque, onde Blaine perdeu por 1049 votos. Na época atribuiu-se a derrota de James Blaine precisamente aos votos católicos. A celebração de vitória dos democratas foi entoada aos cânticos "Ma, Ma, where's my Pa? Gone to White House, ha, ha, ha!". 

 

Grover Cleveland viria a ser derrotado em 1888 pelo republicano Benjamin Harrison, mas regressaria novamente à Casa Branca nas eleições de 1892, um facto inédito até aos dias de hoje, exercendo dois mandatos não consecutivos. 


24
Out 11
publicado por Nuno Gouveia, às 22:18link do post | comentar

 

As eleições presidenciais de 1876 foram das mais polémicas de toda a história americana. Envolveu votos no Congresso, comissões independentes e até negociações com congressistas de outro partido. O vencedor foi o republicano Rutherford B. Hayes. Esta eleição terá marcado o fim da Reconstrução, período pelo qual são conhecidos os anos seguintes à Guerra Civil. Mas regressemos ao inicio. 

 

Os republicanos reuniram-se, na sua sexta convenção, em Junho de 1876 em Cincinatti, Ohio, para escolherem o candidato a suceder ao Presidente Ulysses Grant. O Speaker James Blaine, do Maine, era o favorito para obter a nomeação, mas depois de não conseguir vencer nas primeiras votações, o Governador do Ohio, Rutherford B. Hayes, obteve a nomeação à sétima votação. Ciente das divisões no GOP, Hayes prometeu cumprir apenas um mandato. Os Democratas reuniram-se nove dias depois em St. Louis, Missouri para escolherem o seu candidato. Afastados da Casa Branca desde 1960, sentia-se o cheiro a vitória no ar, e mais de cinco mil pessoas reuniram-se para eleger o candidato que os levaria de novo ao poder. A escolha não foi polémica e nomearam Samuel Tilden, o então governador de Nova Iorque. 

 

A economia do país atravessava dificuldades, a Administração Grant tinha enfrentado diversos escândalos de corrupção e os soldados federais ainda estavam estacionados nos estados do Sul. A campanha foi bastante agressiva e cheia de ataques pessoas. O candidato democrata foi acusado de não ter participado na Guerra Civil, enquanto Hayes tinha sido um herói de guerra e ferido várias vezes. Mas 20 anos de poder tinham enfraquecido o Partido Republicano, e Samuel Tilden venceu no voto popular, com 4.288.546 contra os 4.034.311 de Hayes. Depois de contados os votos, chega-se à conclusão que Tilden apenas tinha 184 votos eleitorais, faltando-lhe um voto para ser eleito presidente, enquanto Hayes tinha 165. Nesse momento, quatro estados, que valiam vinte votos eleitorais, estavam com as contagens paradas (Oregon, Carolina do Sul, Louisiana e Florida). Enquanto o Oregon foi resolvido rapidamente a favor de Hayes, nos três estados do Sul o impasse manteve-se. Acusações de fraude de ambos os partidos nestes estados empurraram a decisão para o Congresso.

 

O Senado, controlado pelos republicanos, e Câmara dos Representantes, dominada pelos Democratas, criaram uma comissão bipartidária para resolver o assunto. Composta por sete republicanos e sete democratas e o juiz do Supremo Tribunal de Justiça David Davis, independente. Mas ainda houve um golpe de teatro. Os democratas do Illinois entretanto nomeiam David Davis para o Senado, na esperança de o convencer a votar de acordo com eles na comissão. Mas Davis após essa nomeação retira-se da comissão e é substituído por um juiz do Supremo republicano. A decisão acaba por ser favorável a Rutherford Hayes, que recebe todos os votos eleitorais em disputa. Mas as polémicas eleições ainda não estavam resolvidas. Essa decisão ainda precisava de passar no Congresso. Quase a chegar à data da inauguração, ainda não há desfecho final. É então que os republicanos celebram um compromisso com os Democratas do Sul para verem aprovada a eleição de Hayes. Em troca da retirada das tropas federais dos antigos Estados Confederados, os democratas do Sul votam a favor da decisão da comissão. 

 

Duas notas: Rutherford Hayes só serviu durante um mandato, e foi várias vezes acusado de ter roubado a eleição. "Rutherfraud" B. Hayes e "His Fraudulency" eram alguns dos epítetos que normalmente lhe eram dirigidos. No entanto, o seu mandato foi marcado pela luta anti-corrupção e considerado como um bom presidente. Depois da presidência dedicou-se sobretudo à educação de crianças afro-americanas no Sul. O seu opositor, Samuel Tilden, aceitou o resultado das eleições e também se dedicou a causas humanitárias. Deixou parte da sua fortuna para financiar a Biblioteca Pública de Nova Iorque. 


Em destaque
José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
ver perfil
ver posts
Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
ver perfil
ver posts
Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
ver perfil
ver posts
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


pesquisar neste blog