21
Jul 16
publicado por Nuno Gouveia, às 21:13link do post | comentar | ver comentários (9)

 

Ted Cruz está nos antípodas do que defendo. Aliás, a sua carreira política desde 2012 está intimamente ligada ao descalabro em que caiu o Partido Republicano. Assumiu posições polémicas e muito longe do centro-direita que defendo. Mas ontem conquistou algum do meu respeito, ao deslocar-se à Convenção do Partido Republicano e ter proferido um discurso anti-Trump (sim, defendeu algumas coisas que discordo) em que muitas passagens estão de acordo com o conservadorismo tradicional americano, como o respeito pela liberdade religiosa e pelos diferentes credos (ou ateísmo, como ele referiu) ou na defesa da liberdade individual e das minorias contra o poder dos aprendizes de tiranos. Até teve algumas passagens contra o divisionismo da sociedade americana para que ele tanto tem contribuído. Não sei se terá sido um mea culpa. Mas o grande momento (diría único) da sua carreira foi ontem, quando perante assobios de uma assistência de "Trumpians" recusou-se a apoiar Trump e defendeu que as pessoas deviam votar segundo a sua consciência. Saiu sob um ruidoso coro de criticas, mas um dia poderá dizer que não pactuou com Trump. Muitos outros republicanos não poderão dizer o mesmo. E apesar de esperar que Cruz nunca venha a ser o líder do Partido Republicano, ontem esteve bem e merece o meu aplauso. Dizer não a um proto-tirano na sua cara nunca é fácil, mas Cruz fê-lo. Não deixa de ser sintomático que até a sua esposa teve de ser escoltada para sair da Convenção, pois estava a ser alvo da fúria dos "Trumpidians". Eu, que estive nas duas últimas convenções republicanas, lamento profundamente o circo de horrores que está a ser esta convenção. Que em Novembro Trump tenha uma derrota avassaladora é o meu único desejo.

 

 
 

22
Abr 16
publicado por Alexandre Burmester, às 16:00link do post | comentar

 

 

 

romney-cartoon-luckovich.jpg

 

Por entre a refrega de primárias, "caucuses" e debates (estes já uma coisa distante, embora o Republican National Committee esteja a considerar a organização de mais algum ou alguns) uma outra campanha, a que poderia chamar-se "a campanha silenciosa", vem tendo lugar, discretamente e voando sob os radares. Trata-se da luta pela angariação de delegados, essencialmente perante a ainda forte possibilidade de nenhum candidato (ou seja, Donald Trump) chegar a Cleveland com a maioria deles (o já famoso número de 1.237).

 

No primeiro escrutínio na convenção quase todos os 2.472 delegados têm de votar no candidato a que estão vinculados pelo resultado da primária ou "caucus" do seu estado. Mas, a partir do segundo escrutínio, quase todos eles ficam livres de votarem em quem quiserem (as regras não são uniformes de estado para estado). E é esta a "campanha silenciosa": tentar conquistar delegados para o segundo escrutínio e escrutínios seguintes, se vierem a ter lugar. 

 

Nesta batalha surda pela conquista de delegados, a campanha de Ted Cruz tem sido considerada a mais eficaz, organizada e profissional. Inclusivamente, em estados que não organizam primárias nem "caucuses", mas escolhem os seus delegados através de convenções, Cruz tem tido assinalável sucesso, como no Colorado e no Wyoming (e estes são delegados já garantidos por Cruz para o primeiro escrutínio). Do mesmo modo, em estados ganhos por Trump, como Louisiana e Carolina do Norte, o senador pelo Texas terá já garantido um bom número de delegados para o segundo escrutínio. A verdade é que o delegado típico é um militante de base e activo no partido, o que está longe de corresponder ao perfil do apoiante médio de Trump, ou seja, muitos delegados vinculados a Trump poderão abandoná-lo alegremente a partir do segundo escrutínio.

 

O que atrás ficou dito reforça a necessidade de Trump vencer no primeiro escrutínio para conseguir ser o nomeado. Essa tarefa não é impossível, mesmo se partirmos do princípio de que o magnata novaiorquino não alcançará os 1.237 delegados. É que haverá entre 100 a 200 delegados não-vinculados, mesmo no primeiro escrutínio, e se Trump não ficar muito aquém dos 1.237 antes da convenção, decerto não lhe será impossível convencer um número suficiente desses delegados não-vinculados a votarem nele. É aqui que entra a questão da organização e profissionalismo da campanha, e nesse sentido, Trump contratou recentemente para seu director na convenção e responsável pela angariação de delegados o veterano consultor republicano Paul Manafort, que conta no seu currículo actividades semelhantes ao serviço de Gerald Ford, Ronald Reagan, George H. W. Bush, Bob Dole, George W. Bush e John McCain (já para não falar no ex-presidente da Ucrânia Viktor Yanukovych - Manafort é um sujeito eclético). O palmarés de Manafort é excelente, mas resta saber se não terá chegado tarde de mais à campanha de Trump (no seu peculiar estilo, já declarou que Trump conseguirá 1.400 delegados antes da convenção).

 

Mas nada do que atrás ficou dito garante que Ted Cruz, uma vez conseguido o objectivo de impedir Donald Trump de vencer ao primeiro escrutínio, vença ele ao segundo. É que, muitos dos delegados que com ele têm vindo a comprometer-se, considerarão tal compromisso apenas numa óptica de um frentismo anti-Trump, e se virem que Trump está definitivamente derrotado, poderão também largar Cruz e votar noutro candidato. É nisto que residirá a estratégia de John Kasich, o qual, mais de um mês depois da desistência de Marco Rubio, ainda tem menos delegados que este (ficou, contudo, em segundo lugar - embora distante - em Nova Iorque e poderá conseguir outros segundos lugares nas primárias do Nordeste da próxima semana, embora isso não seja certo). Isto, claro, se a regra que vigorou na convenção de 2012, segundo a qual só poderia ser nomeado um candidato que tivesse vencido oito primárias ou "caucuses", não for incluída nas regras da convenção deste ano. E quem fala em John Kasich, poderá também falar num outro hipotético candidato à nomeação, que surja na convenção perante um impasse na mesma.

 

As primárias republicanas de 2016 podem já estar a saturar uma boa parte do eleitorado, mas os "political junkies" estão a ter um ano em cheio.

 

 


06
Abr 16
publicado por Alexandre Burmester, às 17:30link do post | comentar

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As primárias de ontem no Wisconsin terão, pelo menos num aspecto, sido decisivas: é cada vez mais difícil Donald Trump obter a maioria dos delegados até ao final das primárias republicanas, a 7 de Junho, na Califórnia.

 

Até há cerca de um mês, Trump era o favorito para vencer este estado mas, entretanto, uma série de episódios degradantes para a sua imagem e, a meu ver principalmente, a saída de Marco Rubio da corrida, alteraram as coisas. No final, Ted Cruz obteve uma vitória sólida (48% contra 35% de Trump e 14% de John Kasich) e conquistou 36 dos 42 delegados do estado. 

 

Dado que a obtenção de uma maioria de delegados por Trump será sempre uma tarefa árdua, o facto de aqui ter ficado aquém do até há pouco previsível (o site de análise e estatística fivethirtyeight , por exemplo, chegou a atribuir-lhe 25 delegados) só poderá ter complicado essa tarefa. Acresce a isso a excelente e minuciosa operação no terreno da campanha de Ted Cruz, que vem "trabalhando" os delegados de Trump, com vista a obter o seu apoio a partir do segundo escrutínio da Convenção de Cleveland (e, muitos deles, diga-se, não se farão rogados em desertarem o campo do magnata de Nova Iorque, ao qual só estão ligados no primeiro escrutínio por obrigação regulamentar).

 

A vitória de Ted Cruz não foi apenas significativa pelo momento e pela margem, mas também pelo domínio do senador pelo Texas em várias faixas demográficas onde normalmente não tem ganho. Isto poderá significar uma de duas coisas: ou que o eleitorado republicano anti-Trump está a convergir em Cruz, ou que está a votar tacticamente, podendo noutras corridas tidas como mais propícias a John Kasich mudar o seu voto para o Governador do Ohio. Inclino-me mais para a primeira hipótese.

 

Segue-se, no dia 19, o estado de Nova Iorque, terreno favorável a Donald Trump, mas onde os delegados são atribuídos, grosso modo, proporcionalmente, o que poderá permitir a Cruz e Kasich limitarem os desgastes de uma previsível vitória do novaiorquino.

 

No campo democrático, mais uma vitória - a sétima nas últimas oito eleições - para Bernie Sanders. O seu contínuo bom desempenho já fez também alterar a perspectiva dos seus apoiantes. O director de campanha, Jeff Weaver, declarou hoje que, "super-delegados" à parte, nem Sanders nem Hillary Clinton chegarão a Filadélfia, local da respectiva convenção, com a maioria dos delegados e que "os super-delegados não contam até votarem e só votam quando chegarem à convenção. Portanto, será uma convenção aberta".  

 

Um ano muito especial, portanto, este ano presidencial de 2016.


28
Ago 12
publicado por Alexandre Burmester, às 16:14link do post | comentar | ver comentários (3)

 

 

 

 

As convenções partidárias são um momento único para os candidatos se darem a conhecer ao eleitorado. Isto não se aplica, claro aos candidatos-presidentes, já sobejamente conhecidos. Como resultado dessa oportunidade, normalmente os candidatos retiram das convenções um claro benefício nas sondagens.

 

Há 4 anos nenhum dos candidatos era presidente, e John McCain saíu da Convenção Republicana de Minneapolis em vantagem sobre Barack Obama (estando o Partido Republicano na Casa Branca, a sua convenção foi a última das duas). O problema - do ponto de vista de McCain - foi a falência da Lehman Brothers a meados de Setembro, a partir da qual a sua campanha ganhou uma inevitável aura de derrota (possivelmente, Obama teria ganho na mesma, mas a eleição teria sido mais renhida).

 

Este ano é apenas Mitt Romney que pode contemplar a possibilidade de ganhar um bom impulso eleitoral com a sua convenção partidária, e é bem possível que saia de Tampa em vantagem nas sondagens. Na próxima semana os democratas reunir-se-ão em Charlotte, Carolina do Norte, para tentar um contra-ataque, mas o efeito não será o mesmo. Por vezes os presidentes até saem das convenções pior do que entraram - vide George H.W. Bush que, em 1992, terminou a Convenção Republicana mais distante de Bill Clinton do que antes dessa assembleia magna.

 

Seja como for, é a partir daqui que a campanha entra na sua fase mais séria. Muita gente só começa a sintonizar-se com o fenómeno a partir das convenções e do feriado do Dia do Trabalho, no início de Setembro. E ainda vamos ter três debates presidenciais e um debate vice-presidencial.


27
Ago 12
publicado por José Gomes André, às 17:14link do post | comentar

Forças

- o "timing" não podia ser melhor: os dados da economia e desemprego são desanimadores para os Democratas; as sondagens mostram uma subida de Romney; e a nomeação de Paul Ryan animou a base conservadora. A Convenção pode ser a cereja no topo do bolo numa campanha em crescendo.

 

- uma Convenção focada nos temas económicos e fiscais, a principal preocupação dos americanos e o campo onde os Republicanos mais podem capitalizar com as fragilidades da Administração Obama.

 

- apesar das renitências iniciais do "establishment" em relação a Romney, a "máquina Republicana" conseguiu reunir as maiores figuras do Partido na Convenção, que terá como oradores Condoleezza Rice, John McCain, Marco Rubio, Rand Paul, Mike Huckabee, Jeb Bush, Christ Christie e Tim Pawlenty, entre outros. 

 

Fraquezas

- um azar chamado "Isaac": não é propriamente uma novidade, mas a coincidência entre a chegada do furacão ao Sudeste dos EUA e a realização da Convenção Republicana traz problemas organizacionais e também riscos mediáticos, uma vez que a "mensagem política" poderá ser parcialmente abafada pelas notícias sobre o furacão.

 

- a Convenção serve também para definir a "plataforma ideológica" do Partido, e neste caso os Republicanos vivem uma autêntica crise de identidade, presos entre facções que pouco têm em comum: libertários, "conservadores sociais", apoiantes do "Tea Party", neoconservadores, "conservadores fiscais" e elites financeiras. Não vai ser fácil transformar esta manta de retalhos num partido coeso.

 

- apesar do esforço para combater a imagem de partido "WASP" (white anglo-saxon protestant), os Republicanos continuam a prestar pouca atenção aos grupos minoritários; se exceptuarmos Condoleezza Rice e os casos peculiares de Rubio (um latino da linha dura) e Fortuño (Governador...de Porto Rico), não há praticamente na Convenção representantes significativos de grupos sócio-políticos cruciais, como negros, hispânicos e mulheres.


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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