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Jan 15
publicado por Alexandre Burmester, às 15:42link do post | comentar

 

 

 

A União está boa e recomenda-se. Esta poderia ser a conclusão a tirar do tradicional discurso anual sobre o "Estado da União", que tem sempre lugar por esta altura em Janeiro, excepção feita aos anos de tomada de posse de um presidente, ontem proferido pelo Presidente Obama.

 

Obama surgiu confiante e determinado, mas também com tom conciliador para com os republicanos, os quais agora dominam ambas as câmaras do Congresso. Aliás, como notou Byron York no Washington Examiner, o principal contraste entre o primeiro destes discursos proferido por Obama e o de ontem é que, no conjunto das duas câmaras, há agora menos 83 democratas - 69 na Câmara dos Representantes e 14 no Senado, números sintomáticos do desgaste que a Administração Obama causou ao seu partido. Mas diga-se que, ao contrário, por exemplo, de George W. Bush em 2007, Obama não fez qualquer referência ou cumprimento à vitória dos seus adversários em Novembro. E, a propósito de eleições, houve até um momento crispado, quando o presidente disse que não tinha mais eleições a disputar e alguns republicanos reagiram com aplausos sarcásticos, ao que Obama respondeu "Eu sei isso porque ganhei duas!".

 

Os números significativamente melhores da economia nos últimos meses - taxas de crescimento e de desemprego - pareceram dar novo ânimo ao presidente, apesar de, mesmo assim. apenas 32% dos americanos acharem que o país está no bom caminho. Com essa melhora em mente, Obama disse ir propor aumentos de impostos sobre os lucros com operações bolsistas e sobre as empresas financeiras. O seu propósito é, disse há dias, "distribuir as novas receitas pela classe média". Isto esbarra logo na oposição republicana àquilo que o partido do elefante tradicionalmente classifica como políticas de "tax-and-spend", embora os republicanos, na sua reacção ao discurso, se tenham mostrado disponíveis para rever o código fiscal, "não para alimentar mais programas federais, mas para criar empregos."

 

Obama entrou nos seus últimos dois anos de mandato, uma fase que os presidentes normalmente tentam aproveitar para cimentar um legado. Com a oposição em maioria no Congresso, tal só será possível através da colaboração entre os dois lados. Mas também aos republicanos interessa apresentarem uma imagem construtiva, a fim de não serem acusados de meros obstrucionistas nas presidenciais de 2016. Eu diria que vamos assistir a confrontos, sim, e a vetos presidenciais (Obama deu a entender isso claramente), também, mas que haverá acordos em várias áreas, como no que respeita a tratados de comércio internacional, onde Obama estará à revelia de uma das suas maiores bases de apoio, os sindicatos, mas da qual ele já não precisa, pois, como atrás referi, não tem mais eleições a disputar. 

 

No campo externo Obama revelou um optimismo um pouco irreal, especialmente quando disse que o ISIL está em retrocesso devido aos bombardeamentos americanos, o que não parece ser de todo o caso. E os acontecimentos mais recentes no Iemen são bastante preocupantes no que se refere à luta contra o terrorismo, ou seja qual for a designação oficial que a Casa Branca hoje dá a esse combate. Mas o tema do terrorismo acaba sempre por unir a América, como é natural, e as palavras do presidente sobre esse tema foram as únicas que fizeram toda a assistência levantar-se e aplaudir em unísssono. Já o tema do "degelo" com Cuba está longe de colher a unanimidade e não será fácil a Obama conseguir nomear um embaixador em Havana.

 

Resumindo, Obama fez das fraquezas forças, procurou não dar demasiado relevo ao ascendente republicano no Congresso, e deu um agradável tom de optimismo e conciliação ao discurso, e isso é sempre um tónico, especialmente depois de uma das mais graves recessões de que há memória. Decerto que não quer passar à História como um homem quezilento e pouco conciliador, em contraste com o anterior membro do seu partido a ocupar a Casa Branca, Bill Clinton, que depois de severamente humilhado em eleições intercalares, deu a mão à oposição e conseguiu algumas reformas de relevo, saindo da Casa Branca com altas taxas de popularidade, mesmo depois de ter sido impugnado pela Câmara dos Representantes no célebre "Monicagate".

 

Uma nota final para a resposta republicana: A neófita Senadora Joni Ernst foi a escolhida para a réplica da oposição. E, ao contrário de alguns seus recentes antecessores nesta missão, "desenrascou-se bem".

 


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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