02
Fev 16
publicado por Nuno Gouveia, às 10:18link do post | comentar

1 - O Partido Republicano suspirou de alívio ontem depois da derrota de Donald Trump. Apesar do vencedor, Ted Cruz, ser também um político odiado, a derrota de Trump e o forte terceiro lugar de Marco Rubio alivou muita gente. A votação recorde no Iowa demonstrou também que houve uma grande mobilização para derrotar Trump, o que pode ser replicado noutros estados. Essa foi a grande notícia para a máquina republicana. 

 

2- Ted Cruz e Marco Rubio emergiram como grandes vencedores nos caucuses do Iowa. Este estado, que nos dois anteriores ciclos eleitorais deu vitórias a evangélicos, manteve a recente tradição e deu uma vitória inesperada a Cruz. Rubio ao conseguir um terceiro lugar, muito perto de Trump, solidifica a sua posição como candidato do establishment e pode, já na próxima semana, “arrumar” com Jeb Bush, Chris Christie e John Kasich, os adversários neste campo. Se é verdade que desde 1964 os republicanos optam sempre pelo candidato melhor posicionado para as eleições gerais, este ano poderá não ser diferente.

 

3 - Donald Trump afinal é um "perdedor", palavra que ele detesta. Se até há uns meses atrás, a esmagadora maioria dos analistas (e eu também) não acreditava nas suas hipóteses de obter a nomeação, nos últimos tempos essa percepção foi alterada. A sua derrota no Iowa coloca novamente em causa essa possibilidade, e atira uma enorme pressão para cima dele no New Hampshire. À entrada para esta semana, ele liderava confortavelmente as sondagens aí, mas até como vimos no Iowa, elas podem falhar e os movimentos de última hora, podem-lhe retirar a vitória. Se não vencer no New Hampshire, a sua candidatura estará praticamente terminada. 

 

4 - Marco Rubio irá agora competir no New Hampshire, não propriamente para ganhar, mas para eliminar a concorrência próxima. Ficaria surpreendido se a vitória no New Hampshire não fosse discutida entre Rubio e Trump. Ontem foi anunciado que o popular senador negro da Carolina do Sul, Tim Scott, irá declarar-lhe o seu apoio e nos próximos dias devemos ver um movimento de figuras do Partido Republicano a colocarem-se ao seu lado. Depois desta vitória, e acreditando que alguém tão conservador como Ted Cruz dificilmente terá uma hipótese no moderado New Hampshire, este irá deslocar-se rapidamente para a Carolina do Sul. Aí, podemos ter uma luta a três (se Trump vencer no New Hampshire) ou a dois, caso Rubio consiga ganhar. Tudo em aberto, mas para o resultado final, apostava em Marco Rubio para nomeado republicano. 

 

5 - No lado democrata, a confusão está instalada. Hillary Clinton já se declarou vencedora com 49,9% contra os 49,5% de Bernie Sanders, mas este ainda não aceitou a derrota. Uma vitória é uma vitória e Hillary Clinton ter-se-á salvado de nova derrota no Iowa, depois de há quatro anos ter sido esmagada por Barack Obama e John Edwards. Um resultado que não pode deixar descansado o campo de Hillary, pois há um ano tinha uma vantagem de mais de 50% sobre Sanders neste estado.

 

6 - Para a próxima semana, Bernie Sanders poderá obter uma vitória confortável no New Hampshire. Os resultados do Iowa não darão "momentum" a Hillary Clinton. Mas parece-me que Bernie precisava de vencer aqui para transformar-se num candidato nacional, o que não sucedeu. Muita gente a comparar com o que aconteceu com Obama, que quando chegou ao Iowa também estava atrás de Hillary em quase todos os estados e nas sondagens nacionais. Mas foi essa vitória que o fez crescer. Parece-me muito complicado para Sanders replicar. A seguir ao New Hampshire, segue-se a Carolina do Sul, onde Hillary Clinton é super favorita. 

 

7 - Caso não exista nenhum movimento extraordinário pró-Sanders nas sondagens nacionais e noutros estados, Hillary Clinton poderá fechar a nomeação na super terça-feira em Março. Mas entrará relativamente frágil nas eleições gerais. Ontem os jovens votaram de uma forma avassaladora em Sanders, e com os problemas todos que Hillary tem tido, não terá vida fácil em Novembro. A sua campanha tem dado sinais que o candidato que mais a preocupa é Marco Rubio. Precisamente aquele que parece emergir do outro lado. 


Bom resumo. O problema desses analistas políticos é a pressa em determinar os rumos eleitorais. Este é o motivo de tantos erros. Trump sofreu uma dura derrota, mas não dá pra descarta-lo ainda como alguns ja estão fazendo. Rubio ganhou o momentum, mas agora certamente será o alvo principal dos ataques de Bush, Christie e Kasich. Quanto a Ted Cruz, é preciso ver quando Bem Carson lhe deixará de tomar votos. Se permanecer tempo demais na disputa, poderá sepultar suas chances.
Emerson a 2 de Fevereiro de 2016 às 11:44

Sobre os dems, o grande problema é que eles não tem um candidato forte pra novembro. Eu não diria que Hillary é uma candidata fraca, mas tem muitas fraquezas. Os lideres democratas caíram em um buraco que eles próprios cavaram ao se juntarem cedo de mais (e quase unanimamente) a candidatura de Hillary. Era preciso pelo menos um adversario credivel para enfrenta-la, mas todos foram desencorajados quando viram que quase todo o partido ja lhe tinha dado suporte em um momento tão cdo. Quanto a possibilidade de enfrentar Rubio, nem acho que ele seja o mais perigoso. Rubio só passa a imagem de moderado quando comparado com Trump e Cruz, mas seu histórico no Senado é um dos mais conservadores e da muitas margens para ataques na eleição geral. O grande perigo para os democratas é o até agora apagado John Kasich
Emerson a 2 de Fevereiro de 2016 às 11:56

De facto, Marco Rubio, a exemplo de anteriores nomeados, fez uma viragem à direita nestas primárias e se for o nomeado, isso será recordado pelos opositores. Mas o seu histórico no senado até o favorece, por exemplo na questão da imigração. Claro que também já inverteu essa posição e isso também será um problema. Mas acho que se ele for o nomeado, as eleições serão mesmo completamente abertas.

Sem dúvida. Sobre Rubio, me referia a isso:http://fivethirtyeight.com/features/why-arent-republican-leaders-rallying-behind-marco-rubio/
Émerson a 2 de Fevereiro de 2016 às 22:41

Tenho um grande interesse na política Norte-Americana. Por isso, sou um seguidor assíduo do vosso blog. A enorme qualidade da vossa análise é sem dúvida a melhor fonte, disponível em Portugal, para compreender a política Norte-Americana. Considero mesmo que o blog "Era uma vez na América" presta um verdadeiro serviço público relativamente a esta temática.

André Melo
André Melo a 2 de Fevereiro de 2016 às 12:13

Faço minhas as palavras do André Melo. Parabéns e continuem o excelente trabalho!
Pedro Oliveira a 2 de Fevereiro de 2016 às 14:04

Obrigado ao André Melo e ao Pedro Oliveira pelas simpáticas palavras.
Nuno Gouveia a 2 de Fevereiro de 2016 às 20:23

Também agradeço, na parte que me toca, os vossos comentários.

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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