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Mar 16
publicado por Nuno Gouveia, às 21:35link do post | comentar

As primárias republicanas de 2016 podem terminar com uma "convenção contestada", algo que não sucede desde 1976, quando Gerald Ford chegou à convenção de Kansas City sem os delegados necessários para obter a nomeação na primeira votação. No Partido Democrata, a última vez que tal aconteceu foi em 1980, numa disputa ganha pelo Presidente Jimmy Carter contra o senador Ted Kennedy. Se na era moderna da política americana este fenómeno é muito invulgar, até à introdução generalizada das primárias da década de 70, depois da reforma McGovern-Fraser, era mais comum. As lendárias convenções decididas pelos "party bosses" em "smoke-filled room" eram habituais, com as decisões a serem tomadas à porta fechada*. Para tal acontecer este ano, nenhum candidato pode atingir os 1237 delegados, o que é possível, pois ao contrário de outros anos, Donald Trump vai ter oposição até ao final das primárias. Apesar de me parecer que Trump deverá mesmo chegar muito perto desse número, se não o ultrapassar mesmo, este é um cenário em que vários republicanos do movimento #NeverTrump estão a trabalhar para impedir o milionário nova iorquino de se transformar no líder republicano. Se Trump não conseguir obter os 1237 delegados na primeira votação na Convenção de Cleveland, então os seus delegados vão se libertando da obrigação de votarem nele e tudo pode acontecer. Mesmo nomear um candidato que não tenha tido a votos nestas primárias. Improvável mas não impossível. E é nisso que apostam os seus opositores no Partido Republicano. 

Em 1976, o presidente Gerald Ford chegou à convenção à frente mas sem os 1130 delegados necessários para vencer a nomeação à primeira votação. Ronald Reagan, antigo governador da Califórnia, chega a Kansas City com a aspiração de derrotar o Presidente e anuncia que o seu candidato a vice presidente seria o senador da Pensilvânia, Richard Schweiker, para convencer a ala moderada do partido a apoiá-lo. O problema para Reagan foi que os conservadores não gostaram da sua escolha e muitos deles decidiram apoiar Ford, que ganhou a nomeação com 1187 delegados contra os 1070 de Reagan. Depois de perder a votação, Reagan declarou o apoio a Ford, terminando com a frase "There is no substitute for victory, Mr President". Gerald Ford perdeu para Jimmy Carter e passado quatro anos, na convenção de Detroit, tentou negociar a sua entrada no ticket republicano como Vice Presidente de Reagan. O acordo chegou mesmo a estar quase concluído, mas Reagan à última hora optou por George H. Bush. 

1952 foi um ano em grande para as convenções contestadas. No lado do Partido Republicano, Robert Taft e Dwight Eisenhower defrontaram-se na Convenção de Chicago, não para escolher o nomeado republicano, mas sim para escolher o Presidente. Depois de 20 anos de domínio democrata e com a popularidade do Presidente Harry Truman pelas ruas da amargura, era quase certo que o Partido Republicano iria recuperar a Casa Branca. Foi também um confronto entre os centristas e os conservadores, uma réplica da história da década anterior e posterior no GOP. Thomas Dewey, nomeado republicano em 1944 e 1948, optou por não se candidatar, mas conseguiu convencer o herói da II Guerra Mundial, o general Dwight Eisenhower, a candidatar-se pela ala moderada (curiosamente, também tinha sido "namorado" pelo Partido Democrata). Robert Taft, representante da ala conservadora do partido, tentou pela última vez ser o nomeado contra os moderados. Esta foi uma convenção cheia de truques de ambos os lados, com Einsenhower a ganhar na primeira votação com 845 votos contra 280 de Taft. No entanto, no inicio da Convenção o número de delegados era muito equilibrado, mas as manobras na convenção fizeram pender a vitória para o general. Para equilibrar o ticket, o Einsenhower nomeou um jovem senador da Califórnia, Richard Nixon. Também em Chicago, o Partido Democrata reuniu-se para escolher o sucessor de Harry Truman. E foi a última vez que nenhum partido escolheu o seu candidato à primeira. Nas duas primeiras votações, o senador do Tennessee, Estes Kefauver liderou, sem no entanto chegar à maioria dos delegados. Mas o governador do Illinois, Adlai Stevenson, que nem sequer era candidato no inicio da convenção, cedeu aos esforços de alguns party bosses e avançou para a luta pela nomeação. Apesar de destroçado popularmente, o apoio de Harry Truman viria a ser decisivo para a vitória de Adlai Stevenson na terceira votação. Passado quatro anos, voltaria a ser candidato e derrotado nas presidenciais de 1956. 

Muitas mais histórias de ambos os partidos haveria para contar. A mais conhecida do grande público, até pelo excelente livro de Doris Kearns Goodwin, Team Rivals, foi em 1860 na segunda convenção da história do Partido Republicano, quando o desconhecido Abraham Lincoln derrotou os favoritos William H. Seward, Salmon P. Chase e Edward Bates. A mais longa de todas foi no Partido Democrata em 1924, quando foram necessárias 103 votações para escolher John W. Davis, que derrotou o candidato apoiado pelo Ku Klux Klan William G. McAdoo, que chegou a ter 47% dos delegados na 77ª votação. Com uma furiosa oposição do governador de Nova Iorque, o católico Al Smith, Davis acabou por ser o candidato da reconciliação,

 

* Sobre este tópico aconselho o filme "The Best Man", escrito por Gore Vidal e realizado por Franklin Schaffner com Henry Fonda. 


"Se Trump não conseguir obter os 1237 delegados na primeira votação na Convenção de Cleveland".

Duas dúvidas (interligadas):

1 - na primeira votação é necessário mesmo os 1237 delegados, ou basta a maioria dos votos expressos?

2 - na primeira votação, os delegados dos candidatos que desistiram ou que não atingiram o mínimo para se apresentarem a votação (creio que é terem ganhado 8 primárias) podem votar em quem quiserem ou são obrigados a absterem-se?
Miguel Madeira a 22 de Março de 2016 às 01:42

Para a primeira pergunta, a resposta é sim. É mesmo preciso ter a maioria dos delegados.

Para a segunda, a resposta é mais complicada, pois depende de estado para estado. Mas pelo que já li, caso Trump fique a poucos votos da maioria, os "unbound delegates" podem-lhe dar a vitória, daí que me parece pouco possível que se Trump ficar perto ou até a uns 100 delegados do número mágico, não ganhe na primeira votação.

Nuno Gouveia
Nuno Gouveia a 22 de Março de 2016 às 12:10

A regra das oito vitórias em primárias/caucuses aplicou-se apenas na convenção de 2012, caro Miguel Madeira. Nada impede que a comissão que se reune na semana anterior à convenção para definir as respectivas regras a imponha de novo, claro, mas isso parece altamente improvável.

http://www.washingtonexaminer.com/gop-insiders-nominee-wont-be-limited-to-winner-of-8-states/article/2586357

Alguém anda a ver muito House of Cards. ;)
Luís de Aguiar Fernandes a 22 de Março de 2016 às 10:23

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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