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Jan 16
publicado por Alexandre Burmester, às 15:48link do post | comentar

 

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A campanha republicana tem, por motivos óbvios, quase monopolizado as atenções, pelo menos até há pouco, já que, do lado democrático, até à subida do auto-proclamado socialista Bernie Sanders nas sondagens de Iowa e New Hampshire (poderá até vencer os dois estados, especialmente o segundo), a corrida parecia ir ser bastante monótona.

 

Mas Hillary Clinton tem um problema mais sério que Sanders nesta campanha, embora muita gente pareça não lhe dar o devido relevo. Trata-se da investigação de larga escala (cerca de 100 agentes estão nela envolvidos) que o FBI está a fazer ao caso da conta de email e servidor privados usados pela candidata enquanto Secretária de Estado. Recentemente, fugas de informação revelaram que o inspector-geral dos serviços de informações terá dito que há vários emails com a classificação mais secreta no alfobre das comunicações da candidata. Clinton tem vindo de explicação em explicação, alterando a sua versão à medida que novas revelações têm surgido. E há dias, perante a informação constante das referidas fugas, carregou claramente no botão de "pânico": culpou os republicanos. Esta é uma velha táctica "clintonesca", que remonta ao famoso caso-Monica Lewinsky, que ela inicialmente atribuíu a uma "vasta conspiração de Direita", expressão que entrou no léxico político.

 

Sucede, contudo, que o inspector-geral dos serviços de informações é um democrata nomeado pelo Presidente Obama e aprovado por um Congresso na altura dominado pelos democratas, e que James Comey, sendo embora republicano, foi nomeado por Obama para Director do FBI, e tem uma sólida reputação de integridade. Sucede, igualmente, que a investigação parece ter passado também a incluir as relações entre donativos feitos à Fundação Chelsea, Bill e Hillary Clinton e determinadas decisões do Departamento de Estado, quando Hillary era a Secretária. Claramente, a defesa da candidata cheira a desespero.

 

A investigação poderá perfeitamente terminar com uma recomendação do FBI no sentido de ser formulada uma acusação contra Hillary Clinton (há antecedentes nesse campo). Nesse caso, será o Departamento de Justiça (equivalente, grosso modo, à portuguesa Procuradoria-Geral da República) a decidir se avança ou não com uma acusação. Em última análise, seria uma decisão que caberia a Obama, pois ninguém está a ver a Secretária da Justiça Loretta Lynch a assumi-la sozinha. Isso seria, obviamente, um enorme dilema para o Presidente, que caso pressionasse, ou simplesmente aconselhasse, a sua Secretária da Justiça a não proferir uma acusação formal contra Clinton, seria decerto alvo de acusações de obstrução de justiça e favorecimento político. A defesa do Departamento de Justiça - Obama manter-se-ia decerto na sombra - seria, provavelmente, a de que não quereria interferir no processo político, neste caso, nada mais, nada menos, que uma eleição presidencial.

 

Seja como for, se o FBI recomendar que Clinton seja processada, independentemente da posterior decisão do Departamento de Justiça, isso será provavelmente um golpe fatal na candidatura. E mesmo que o FBI não faça tal recomendação, haverá sempre no ar a suspeita de pressões políticas, embora o perfil do Director-Geral seja uma boa garantia contra isso.

 

A tudo isto não serão estranhos os rumores de uma possível entrada na campanha do antigo Mayor de Nova Iorque Michael Bloomberg, antigo democrata, antigo republicano e actualmente independente. Esse assunto abordarei num futuro artigo.

 

 

Foto: James Comey, Director do FBI

Numa época tão polarizada, a entrada de um candidato independente sempre tende a afetar mais um lado que o outro. E nesse caso penso que Bloomberg prejudicará mais os democratas
Emerson a 28 de Janeiro de 2016 às 12:06

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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