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Set 10
publicado por Nuno Gouveia, às 14:59link do post | comentar

Não se pode considerar uma grande surpresa, mas a candidata do Tea Party, Cristine O´Donnell derrotou o favorito Mike Castle nas primárias republicanas do Delaware. Esta vitória significa que um lugar que quase de certeza iria cair na coluna republicana vai manter-se na posse dos democratas. Por exemplo, no The Cook Political Report esta corrida passou de Lean Republican para Likely Democrat depois desta noite eleitoral*. Ao contrário de outras vitórias de candidatos apoiados pelo Tea Party, esta ameaça quebrar a unidade dentro do Partido Republicano. Ontem à noite, o programa de Sean Hannity na Fox News ofereceu um sinal do que poderá acontecer. Dana Perino (antiga porta-voz de George W. Bush) e Karl Rove atacaram fortemente a decisão de Sarah Palin e Jim DeMint (e o Tea Party) de se terem envolvido nesta eleição, por terem provavelmente acabado com as hipóteses do Partido Republicano de conquistar a maioria no Senado. A descrição de Rove sobre O´Donnel não deixa margem para dúvidas sobre o sentimento que grassa em muitos republicanos: "she does not evince the characteristics of rectitude and sincerity and character that the voters are looking for"; ""there's just a lot of nutty things she's been saying". Numa eleição em que votaram cerca de 50 mil eleitores, a mobilização eleitoral do tea party foi fundamental para derrotar Mike Castle, um republicano que vence eleições há mais de 30 anos num estado que é considerado um dos mais à esquerda dos Estados Unidos. Não por acaso, ontem os mais satisfeitos da noite foram os democratas. Sobre esta verdadeira guerra civil que afecta o GOP e que ameaça contaminar as primárias de 2012, voltarei mais tarde.

 

No New Hampshire, outra eleição que suscitava dúvidas, a candidata do establishment, Kelly Ayotte, lidera neste momento a contagem dos votos sobre Ovide Lamontagne, o favorito do Tea Party. Mas ao contrário do Delaware, esta eleição é provável que se mantenha na coluna republicana independentemente do seu vencedor.

 

*Adenda: a PPP publicou uma sondagem que dá uma vantagem ao democrata Chris Coons de 15 pontos (50-35) sobre O´Donnell. Mike Castle teria uma vantagem de 10 pontos (45-35).


O principal problema desta O'Donnell já nem é o seu posicionamento político perfeitamente heterodoxo para um estado como o Delaware, mas os esqueletos que tem no armário. Karl Rove e Dana Perino não são propriamente dois perigosos esquerdistas nem membros da ala "moderada" do GOP, pelo que o que dizem do carácter da senhora reflectirá provavelmente a realidade.

Isto deixa o GOP com a obrigação de ganhar, além dos dois lugares aparentemente seguros - Pennsylvania e Indiana - Califórnia, Colorado, Illinois, Nevada, Washington e Wisconsin - partindo do princípio que Oregon, Delaware, New York (2 lugares), Connecticut e West Virginia são inalcançáveis, com a possível excepção do último - e não perder nenhum dos seus lugares.

A conquista do Senado pelo GOP nunca foi uma hipótese muito forte mas ontem sofreu um considerável revés. Não deixa de ser bizarro que um dos principais fautores deste súbito desconchavo seja a última candidata do partido a Vice-Presidente.

John McCain vai ficar na história como o homem que inventou o fenómeno Palin - as chamadas consequências perversas de certas decisões.

Alexandre Burmester a 15 de Setembro de 2010 às 16:18

O legado de Mccain não merecia tal.

Decerto que não, Nuno, decerto que não...
Alexandre Burmester a 15 de Setembro de 2010 às 23:18

Ainda era jovem, mas do que me lembro também ninguém dava o W. como vencedor em 2000. Também se falava em desastre e como uma escolha perdedora com o delfim do Clinton.

Mas também pode ser o meu relativo parti pris pela Palin a falar...

Em relação ao jovem W, acho que estás enganado. Na altura não seguia tão atentamente a política americana, mas recordo-me de ouvir falar pela primeira vez nele em 1998, por altura das Midterms. E já nessa altura ele era considerado o frontrunner da corrida republicana, tendo que tinha o apoio da maioria do establishment, contra o na altura maverick John McCain.

Sobre o Bill Clinton, sim, parece-me que tens toda a razão. Sobre a O´Donnel, parece-me que será muito difícil recuperar. 16% num blue state como este é muito complicado.

:-) O conceito esquerda - direita nos EUA é complexo. Sabes por exemplo que o Delaware é um paraíso fiscal nos EUA? Ou que por exemplo a Republicana Califórnia é muito mais à esquerda que o Democrata Vermont - no que respeita à propriedade, leis fracturantes, gun control, etc?
Os EUA são um país complicado politicamente, impossível de analisar à luza da grelha europeia.

Sim, não devemos avaliar no nosso parâmetro, mas podemos dividir em red e blue states. A Califórnia republicana apenas o será ao nível de governo estadual, porque desde 1988 que não vota num republicano em eleições presidenciais, e não tem um senador desde a década de 90. So mesmo o Arnie para ganhar uma eleição estadual desde o governador Pete Wilson na década de 90. Blue State mais acentuado que a CA é difícil encontrar. E o Vermont, que até teve o herói Howard Dean como governador, actualmente até é governado por um republicano, que se está a retirar. Mas também só elege democratas para Washington há alguns anos.

Não é essa a questão apenas, tanto quanto conheço um eleitor democrata no Vermont é menos de esquerda em média que um eleitor republicano na Califórnia ou New York, no sentido das políticas tradicionais ou mais publicitadas de ambos os Partidos. O mesmo para o Delaware ou New Hampshire.
Helder Ferreira a 16 de Setembro de 2010 às 02:06

O Delaware é um estado de um só partido e ideologia: o dupontismo. Sempre me fez lembrar um daqueles estados fantoches pos-coloniais, tipo o Katanga. Os políticos são todos iguais com umas diferenças de detalhe, os incumbentes nunca perdem - acho que o único a perder umas eleições state-wide no DE nos últimos 40 anos foi o Bill Roth (e porque votou o impeachment do Clinton, não pelo conservadorismo fiscal ortodoxo) e o bi-partidarismo está tão bem instalado que os chefes partidários até combinam a distribuição de lugares entre eles (como quando o Carper e o Castle fizeram a troca).

Basicamente o que é bom para a Dupont (e para os du Ponts) e para os bancos é bom para o Delaware. Impostos baixos, pro-business mais que pro-free trade. Noutros assuntos são progressistas mas low-key. Aquilo é tão pequeno - em 10 minutos entra-se sai-se - que o eleitorado é incrivelmente homogéneo, social e politicamente. No Sussex - Georgetown, Milford - é que há uma bolsas mais conservadoras.
H. a 16 de Setembro de 2010 às 16:59

Talvez. Mas lembro-me de ninguém apostar na vitória dele em 2000. E salvo erro tb as sondagens davam Al Gore vencedor. Ou seja, penso que até ao dia d o W. era visto como um 'perdedor'.

Pelo que lembro, sem ir pesquisar: W. liderou nas sondagens durante as primárias dos dois partido, depois das convenções Al Gore tomou vantagem e o W. recuperou até perto das eleições, especialmente depois dos debates. Na altura das eleições, o resultado estaria em empate técnico... W. fez uma excelente campanha (Mr. Rove no seu melhor) e na altura conseguiu grande vantagem financeira em relação a Al Gore. Além que este, nos debates, foi esteve muito mal.. parecia um robot.
Nuno Gouveia a 16 de Setembro de 2010 às 01:18

Ainda era jovem, mas do que me lembro também ninguém dava o W. como vencedor em 2000. Também se falava em desastre e como uma escolha perdedora com o delfim do Clinton.

Não. Governador de sucesso, carismático, com uma capacidade até então desconhecida de angariar dinheiro, algumas buzzwords engraçadas, reputação de construtor de consensos e bipartidarismo, alguns pontos fortes que contrastavam muito favoravelmente com os aspectos menos populares da administração Clinton.

Muito antes de ser nomeado já era apresentado como o candidato inevitável e a questão da "electability" nunca foi determinante nas primárias com o McCain.
H. a 16 de Setembro de 2010 às 17:09

Nos lugares actualmente detidos pelos democratas e cuja conquista pelos republicanos parece segura esqueci-me de North Dakota e Arkansas.
Alexandre Burmester a 15 de Setembro de 2010 às 16:50

Como comentei num outro site, 'the chickens are coming home to roost!".
Sérgio a 15 de Setembro de 2010 às 21:53

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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