29
Ago 10
publicado por Nuno Gouveia, às 23:13link do post | comentar

 

O dia de ontem foi marcado pelo "Restoring Honor" de Glenn Beck no Lincoln Memorial em Washington. Entre 500 mil e um milhão de pessoas, os números variaram conforme o meio de comunicação, mas pelas imagens que vi não há dúvida que foi um grande momento do Tea Party e do apresentador da Fox News. Isto voltou a colocar o movimento conservador nos escaparates dos jornais americanos e mundiais. E também Glenn Beck, o mórmon e popular apresentador da Fox News. Sendo uma máquina de fazer dinheiro, Beck tem caminhado nos últimos tempos numa outra direcção, colocando-se na linha da frente do movimento conservador. Várias vezes ele tem dito que não tem interesse na política partidária e que descarta qualquer candidatura, até porque, como ele diz, há gente bem melhor e mais capaz para ocupar os cargos públicos. Eu acho que tem toda a razão. Mas, e como provou o encontro de ontem em Washington, a sua capacidade de mobilização é fantástica, e será uma voz importante no futuro, se o desejar.  Até ao momento não se meteu em nenhuma corrida eleitoral deste ano, mas, vejo-o, por exemplo, a imiscuir-se na corrida presidencial de 2012, com consequências imprevistas. E não me parece que essa influência possa ser muito positiva para o GOP, ao ter em Beck um possível king maker. Mas é uma personalidade cujo percurso se deve acompanhar de muito perto.

 

E em ano eleitoral, o Tea Party vai ser fundamental para muitos desfechos, como já tem sucedido em várias primárias do Partido Republicano. Uma força que vai levar muitos congressistas e senadores até Washington. Mas, e como já fui dizendo por aqui, também tem/terá efeitos perversos para o GOP. A primeira consequência deste entusiasmo é encostar, em certos estados, o partido à direita. E se em alguns estados isso não acarretará grandes consequências, como no Utah ou Alaska, noutros poderá significar derrotas. A poucos meses de entrar nas primárias presidenciais, isso poderá transformar o processo de escolha republicano num concurso de quem é o mais conservador. Tudo poderá depender dos resultados de estados como no Kentucky, Nevada ou Colorado. Numa eleição em que o Presidente recandidato poderá estar vulnerável, isso pode prejudicar as suas hipóteses de vitória. A menos que surja um novo Ronald Reagan, que em 1980 derrotou Jimmy Carter pela direita, se o candidato republicano tomar posições demasiado à direita durante as primárias, dificilmente Obama será derrotado. Ou tornará tudo mais complicado. Há alguns potenciais candidatos que praticamente são inelegíveis, mas o que acontecerá se um destes for o nomeado?

 

Mas há uma coisa que muita gente não percebe sobre o Tea Party: algumas das posições que movimento defende são perfeitamente mainstream nos Estados Unidos. Há hoje um grande consenso na sociedade americana que o big government não serve os interesses do país e que é preciso regressar ao small government e ao fiscal conservatism. Muitos candidatos democratas de distritos conservadores estão a concorrer numa plataforma política assente nessa ideia, e alguns deles, estão mesmo a fazer campanha contra Obama/Pelosi/Reid. A América é maioritariamente um país de centro-direita, e Obama parece não perceber isso. Não é um socialista (um dos radicalismos do Tea Party é precisamente demonizar o adversário, e isso em política nunca é sensato nem sequer positivo) e talvez nem sequer um social-democrata à europeia. Mas tem governado demasiado à esquerda para a realidade social americana. Se Obama não tivesse avançado com a sua agenda reformista "liberal" e tivesse procurado governar ao centro, como prometeu durante a campanha, talvez este tea party nunca tivesse existido. O plano de estímulos, o défice federal e a reforma da saúde tornaram inevitável um movimento deste género. Glenn Beck não nasceu com Obama. Mas sem ele nunca se teria transformado nesta figura simbólica da América actual. Para o bem ou para o mal, Beck é uma criação de Barack Obama. Tal como o Tea Party.


Em destaque
José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
ver perfil
ver posts
Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
ver perfil
ver posts
Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
ver perfil
ver posts
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


pesquisar neste blog