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Ago 10
Por Nuno Gouveia, às 22:55 | comentar

Os democratas iniciaram o Verão ansiando por uma recuperação económica que os levasse a conter danos para as eleições de Novembro. Barack Obama em Junho lançou o mote que este iria ser um "Recovery Summer" para a economia americana. Mas a poucas semanas do fim do Verão, as notícias continuam a ser negativas para os Estados Unidos. O que tem levado vários republicanos a "cair" em cima da Admnistração. Ainda esta semana o líder da minoria, John Boehner, pediu a demissão de toda a equipa económica da Casa Branca, dado o "falhanço das políticas económicas do governo". Os democratas continuam a defender que se não tivessem actuado a situação seria bem pior, mas estão longe de convencer os americanos. E o que poderá aconter a 3 de Novembro?


Em primeiro lugar são cada vez mais os analistas independentes a defender que os republicanos podem mesmo assumir a maioria nas duas câmaras do Congresso. Os sinais que recebemos das várias primárias indicam isso mesmo: ainda esta semana na Florida votaram mais republicanos que democratas em eleições disputadas, o que não é nada normal. O número de eleitores democratas nas primárias costuma ser mais elevado, mas este ano, pela primeira vez em muitos ciclos eleitorais, têm sido mais os republicanos a participarem nas primárias. O que é indicador seguro, maior até que as sondagens, que o eleitorado republicano está mais motivado para ir às urnas este ano. Além disso, várias sondagens mostram que os republicanos têm vindo a ganhar terreno em estados cruciais no senado nas últimas semanas. A Florida, o Colorado e o Ohio, por exemplo, mostram que os candidatos republicanos estão a subir. Para conquistar a maioria no Senado, os republicanos teriam de vencer 7 da 8 eleições que neste momento são considerados Toss Ups pelo Real Clear Politics. Mas ainda há bem pouco tempo eram 11 as corridas nesse estado, e três delas passaram para o lado republicano nas últimas semanas. Na Câmara dos Representantes a situação é bem mais complicada para os democratas. Os republicanos têm mesmo sérias hipoteses de conquistar a maioria. Há duas semanas o Real Clear Politics atribuia mais lugares prováveis aos democratas que republicanos, mas conforme vão sendo publicadas sondagens, as corridas têm-se deslocado favoravelmente para a coluna vermelha. Ninguém do lado democrata  quererá admitir a possibilidade de perderem o controlo do Congresso, mas têm surgido várias notícias que apontam neste sentido. Ainda hoje o Politico publicou uma peça com vários democratas, a coberto do anonimato, a explicar o seu pessismo.


Olhando para o cenário parece-me evidente que os democratas estão mesmo em risco de sofrerem uma hecatombe histórica. Mas há alguns aspectos que os podem ajudar, e não consider que já estejam derrotados. Em primeiro lugar, a escolha de alguns candidatos republicanos, considerados demasiados afastados do mainstream político. Harry Reid, que com um adversário normal estaria já derrotado, ainda luta pela sobrevivência no Nevada, devido à nomeação de Sharron Angle. Além que não podemos nos esquecer da máquina democrata. Em 2006 os republicanos evitaram uma derrota ainda maior devido aos esforços do GOP liderados por W. Bush e Karl Rove. Há que contar com a equipa de Obama no terreno para ajudar a vencer algumas eleições. Barack Obama pode não ser muito popular, mas a sua capacidade de angariação de dinheiro está intacta. E ele já anda na estrada em angariações milionárias.E depois há também os casos de candidatos democratas que têm vindo a fazer campanha afastando-se da liderança do partido. Principalmente na Câmara dos Representantes, isso pode funcionar em alguns distritos mais conservadores.


De facto, e se nada mudar até 2 de Novembro, os republicanos vão conseguir uma estrondosa vitória eleitoral. Devem recuperar a House, quase de certeza que vão passar a ter uma maioria de governadores estaduais, incluindo em alguns estados fulcrais para as presidenciais de 2012 e a luta pelo Senado está totalmente em aberto, quando há pouco tempo parecia impossível um takeover do GOP.
Ainda assim, os democratas têm algumas vantagens: o realinhamento à direita por parte do Partido Republicano, com repercussões nos candidatos escolhidos para as eleições gerais (como o Nuno Gouveia aponta) e a grande vantagem financeira dos democratas, o que é fundamental nas campanhas políticas americanas. Além disso, os eleitores americanos podem estar descontentes com os democratas, mas a verdade é que também não gostam dos republicanos, como demonstram as sondagens.
João Luís a 27 de Agosto de 2010 às 11:54

De facto o GOP não é um partido popular, ao contrário do que sucedeu em 1994. E isso pode prejudicar algumas corridas. Em relação aos candidatos mais à direita, acho que nem todos podem prejudicar o GOP. No Utah ou agora no Alaska, qualquer um republicano vencerá, facilmente, a eleição geral. O mais grave para eles é mesmo a possibilidade real de perderem o Nevada, que facilmente ganhariam este ano, e estarem a lutar pela sobrevivência no Kentucky (que acho que vão acabar por ganhar) por causa da escolha de Rand Paul. Em relação a outros estados, persistem as dúvidas do Colorado e Pennsylvania, onde os candidatos nomeados também são considerados demasiado à direita para os estados em questão. Mas de resto, não esqueçamos que nomearam moderados no Illinois, Delaware, Indiana e Washington, o que indica que o pragmatismo ainda não morreu no GOP. Veremos o que isto dá..
Nuno Gouveia a 27 de Agosto de 2010 às 15:22

Apesar dos ventos que sopram eu continuo a ter muitas dúvidas de que os republicanos consigam ganhar o Senado, e nem é por causa dos candidatos mais dificlmente elegíveis (há disso em todas as eleições, mas desta vez a "mainstream media" tem-se concentrado mais no assunto). É que, de facto, é preciso que praticamente tudo lhes corra muito bem, e isso, mesmo num partido com vento pela popa, como o GOP este ano, é muito difícil de ocorrer. Prevejo, isso sim, que o Senado "caia" em 2012. Mas a simples redução substancial da maioria democrática terá um efeito prático semelhante ao da conquista do Senado, embora o efeito psicológico seja diferente.

Na Câmara acho que pouca gente alberga ainda dúvidas quanto ao resultado. Aí a surpresa seria os republicanos não a reconquistarem.

Entretanto o Comité Nacional Republicano tem um "cofre de guerra" substancialmente menos fornecido que o do seu homónimo democrático, o que pode ter reflexos especialmente no esforço de levar as pessoas às urnas ("get-out-the-vote"). Mas, a avaliar pela afluência nas primárias, aqui referida pelo Nuno Gouveia, os democratas vão mesmo precisar de gastar bem mais que os republicanos apenas para terem uma afluência semelhante, o que mesmo assim é duvidoso que consigam.
Alexandre Burmester a 27 de Agosto de 2010 às 16:15

A propósito do dinheiro, veja-se o que disse hoje Halperin sobre o assunto:

http://thepage.time.com/2010/08/27/halperin%e2%80%99s-take-money-can%e2%80%99t-buy-you-votes/

Obrigado, Nuno. Acabei de ouvir. De facto não basta dinheiro, é preciso ter um produto para vender. Notei que o Halperin prevê ganhos republicanos na Câmara de 60 lugares, quando só precisam de ganhar cerca de 40.

E ainda na questão do dinheiro, ela não se resume aos comités nacionais dos partidos, obviamente. O Republican Senate Campaign Committee e o seu homólogo da Câmara dos Representantes estão bem fornecidos, já para não falar dos "cofres de guerra" de vários candidatos individualmente considerados. E depois os democratas vão ter de decidir onde concentrar o grosso do seu "investimento", pois se decidirem fazê-lo nos círculos eleitorais ou estados em que os seus candidatos estejam mais vulneráveis, assim desprotegendo candidatos que não estão no topo dos alvos republicanos, poderão colocar em prerigo alguns destes últimos sem "salvarem a pele" de muitos dos primeiros. Enfim, um interessante jogo de xadrês.
Alexandre Burmester a 27 de Agosto de 2010 às 17:06

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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