09
Jan 13
publicado por Nuno Gouveia, às 21:52link do post | comentar

 

O Alexandre já destacou aqui Richard Nixon, dividindo o seu legado em duas facetas: o político, que ficou com má fama, e o estadista, onde alcançou grandes feitos. Gostaria de me debruçar especificamente sobre a longa carreira política de Nixon, que começou em 1946 e terminou apenas em 1974, após a sua demissão com Watergate. Um percurso repleto de vitórias e derrotas, que o colocam como o verdadeiro "político" americano do pós guerra, tendo apenas paralelo num outro político de excepção da sua época, Lyndon Johnson, também ele extremamente hábil na arte, se assim lhe podemos chamar, da política. 

 

Depois de ter estado na Marinha durante a II Guerra Mundial, Nixon foi eleito congressista pela Califórnia em 1946, tendo chegado a Washington como um feroz anti-comunista, imagem essa que lhe foi imensamente útil durante toda a sua carreira política. A fama chegou passado dois anos, quando se destacou na comissão de actividades anti-americanas, contribuindo decisivamente para denunciar o célebre caso de Alger Hiss, um alto funcionário do Departamento de Estado da Era Roosevelt, que na época foi acusado de ser um espião soviético. Apesar de Hiss ter sido condenado por perjúrio, já neste século diversos investigadores concluíram que de facto tinha sido um espião ao serviço da URSS. Nixon, após ter ganho notoriedade nacional, rapidamente começa a pensar em destronar o senador democrata da Califórnia Sheridan Downey, sendo que este nem chegou a ir a votos em 1950. Já no Senado, Nixon continua a fortalecer a sua imagem anti-comunista, criticando a condução da guerra da Coreia pelo Presidente Truman e mantendo também relações cordiais com o famoso senador do Wisconsin Joseph McCarthy, sem no entanto envolver-se muito com as suas actividades. Ao mesmo tempo, Nixon votou a favor de leis que apoiavam os direitos civis das minorias. Quando o Partido Republicano nomeou o general e herói de guerra, Dwight Eisenhower, os party bosses do GOP (na época fundamentais nas nomeações dos partidos) optaram por indicar Richard Nixon, um jovem senador de 39 anos do grande estado da Califórnia, e com impecáveis credenciais anti-comunistas. Foi uma forma de satisfazer a base conservadora do Partido, depois da nomeação de Eisenhower. Nessa campanha presidencial, Nixon teve a seu cargo a os ataques e críticas aos democratas, lançando as bases para o papel actualmente destinado aos candidatos a VP: o de attack dog. Nixon aproveitou os seus oito anos de Vice Presidente para reforçar a sua experiência internacional, viajando por todo o mundo e conhecendo líderes diversos países, e envolvendo-se em episódios como aquele fantástico debate da cozinha que o Alexandre referiu

 

 

Em 1960, nada mais óbvio que uma candidatura presidencial. Com pouca oposição interna, foi facilmente nomeado, tendo escolhido como seu parceiro o "liberal" senador republicano do Massachusetts, Henry Cabot Lodge. Mas pela frente enfrentou John F. Kennedy, com quem travou uma das mais memoráveis campanhas presidenciais de sempre. Nixon percorreu o país de lés a lés, tendo sido muito bem recebido por todo o lado. O seu problema é que também John F. Kennedy protagonizou uma campanha brilhante. Dois episódios ficaram na história: o primeiro debate presidencial televisionado em directo (onde Nixon terá ganho para quem ouviu na rádio, mas perdido decisivamente para quem viu na televisão) e as acusações de fraude em dois cruciais estados: Texas, dominado pelo então senador Lyndon Jonhson, e Illinois, dominado pela máfia de Chicago que alegadamente teria ligações a Joseph Kennedy. No entanto, Nixon nunca contestou o resultado (49,7 para JFK e 49,6 para RN), pois pensava que isso iria diminuir o papel dos Estados Unidos no mundo. Contrariamente ao que hoje assistimos, Nixon não desistiu da política após uma derrota presidencial e passado dois anos voltava ao activo, desta vez candidatando-se ao cargo de Governador da Califórnia. Aqui sofreu a derrota mais humilhante da sua carreira política, prometendo aos jornalistas na sua famosa "última conferência de imprensa": "You won't have Nixon to kick around anymore because, gentlemen, this is my last press conference". Claro que Nixon não iria cumprir essa promessa. 

 

Em 1964, quando o GOP nomeou Barry Goldwater, uma boa parte do establishment do partido afastou-se do candidato. Muitos recusaram apoiar Goldwater, outros ficaram em silêncio e vários apoiaram mesmo Lyndon Jonhson. Não Nixon, que percebeu que só ganhava em apoiar Goldwater, apesar de também considerar que o senador do Arizona não tinha hipóteses de derrotar Johnson. Com isso ganhou a confiança das bases do Partido, que não perdoaram a traição de outros dirigentes republicanos, tendo reforçado essa sua imagem na campanha das eleições intercalares em 1966, quando percorreu o país a apoiar diversos candidatos republicanos nas eleições intercalares. Após uma brilhante estratégia de recuperação das derrotas de 1960 e 1962, Nixon estava pronto para atacar de novo a Casa Branca em 1968. O seu mais sério adversário à nomeação foi George Romney, na época governador do Michigan. Teve como opositores também o governador de Nova Iorque, Nelson Rockefeller e um tal de Ronald Reagan, na época governador da Califórnia. A guerra do Vietname explodia nas mãos dos democratas, e a divisão que reinava no partido abria uma janela de oportunidade para Nixon, que sabia que ia ser novamente uma eleição muito disputada, tal como em 1960. A desistência de Johnson, o assassinato de Robert Kennedy e a nomeação de Hubert Humphrey partiram a meio o Partido Democrata, que viu o candidato racista George Wallace, antigo governador democrata do Alabama, candidatar-se como independente nessas eleições. Numa corrida a três, Nixon viria a ser eleito com 43,4% contra 42,7% de Humphrey e 13,5 de Wallace. A guerra do Vietname foi o principal tema desta campanha, tendo Nixon prometido uma paz com honra. Alcançada a presidência, e tendo cumprido o primeiro mandato com grande sucesso à vista do eleitorado americano, foi facilmente reeleito em 1972 com 60% dos votos contra George McGovern, tendo apenas perdido DC e Massachusetts. Passado dois anos viria a demitir-se após o escândalo de Watergate. 

 


caro Nuno,

Desculpe-me mas não concordo com o título do seu post na medida em que Nixon ficou manchado e muito com o escândalo watergate, logo não pode ter tido um percurso notável. Costuma-se dizer que no melhor pano cai a nódoa, e neste caso foi o que aconteceu.
andré a 10 de Janeiro de 2013 às 13:21

A questão que eu coloco é esta: o último episódio da sua carreira apaga aquilo que foi uma carreira notável? Certamente o legado que deixou está intimamente ligado à sua demissão e ao escândalo do Watergate. Mas não é do legado que falo, mas sim do percurso. E esse parece-me notável, pelos factos que descrevi. Olhe outro exemplo: Lyndon Johnson acabou por desistir da recandidatura depois da "ameaça" de Robert Kennedy e do partido que lhe fugia entre as mãos. O seu legado é intimamente relacionado com guerra do Vietname e isso tem ofuscado o seu percurso político. Mas teve ou não um grande percurso na vida política americana? A esta distância penso que sim, tal como Nixon. Aliás, acho que esta dupla de políticos foram os que melhor representaram a vida política americana entre os anos 50 e a década de 70. Pelas virtudes e também pelos seus defeitos.

caro Nuno,

Entendo o seu ponto de vista, mas permita-me um exemplo, Lula da Silva com uma história de vida impressionante, candidata-se 4 vezes à presidência e só na 4ª é que o povo brasileiro o permite sentar no palácio do planalto. Como presidente foi o melhor que o brasil teve, continuou o bom trabalho de FHC e pôs o brasil noutro nível. A meio do 2 mandato rebenta o mensalão altos quadros do PT metidos ao barulho e recentemente condenados na justiça desde que Lula deixou o cargo já se viu metido em 2 processos judiciais. Tanto nixon como lula fora grandes presidentes mas, infelizmente, para eles a última imagem é que fica registada e essa imagem, sejamos sinceros, não abona muito a favor deles.
André a 10 de Janeiro de 2013 às 16:46

Eu não disse que a imagem de Nixon não ficou manchada pelo Watergate. É óbvio que ficou. Aliás, a maior parte dos comentários que se fazem sobre Nixon refere apenas Watergate, e alguns o seu papel na aproximação à China e pouco mais. Mas eu continuo a achar que o seu percurso foi notável. Mesmo com o Watergate. Os homens não são santos e os políticos muito menos :)
Nuno Gouveia a 10 de Janeiro de 2013 às 17:47

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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