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Jan 13
publicado por Alexandre Burmester, às 17:25link do post | comentar

À última hora - de facto, já depois da meia-noite de 31/12 - um compromisso impediu a queda dos EUA no "Abismo Fiscal".

 

Por meio deste compromisso, apenas aumentaram os impostos para os indivíduos que auferem mais de $400.000/ano e casais com mais de $450.000/ano - o Presidente Obama pretendia subir os impostos naquelas categorias para quem ganhasse mais de $200.000 e $250.000, respectivamente, enquanto que os republicanos se opunham a qualquer aumento de impostos. Mas a questão da despesa não foi abordada, mantendo-se inalterada, o que representa um adiamento da questão.

 

O acordo foi conseguido com uma maciça votação favorável no Senado - apenas 8 senadores votaram contra - mas, sintomaticamente, na Câmara dos Representantes a maior parte dos republicanos opôs-se ao acordo (o voto final foi 257/167).

 

Dentro de dois meses há outra batalha, a que respeita à subida do tecto de endividamento do governo federal, sem a qual este último não poderá fazer face às suas obrigações. Decerto que os republicanos irão exigir os cortes na despesa de que agora, relutantemente, abdicaram, para darem o seu apoio ao aumento do referido tecto.

 

O acordo esteve na iminência de não ser atingido, e o Presidente Obama, ao desafiar publicamente os republicanos antes de ele ser concluído, contribuíu para esse risco. Mais uma vez pairou por cima de Washington como se não fizesse parte do sistema político, tendo delegado no Vice-Presidente Joe Biden as negociações com os republicanos. Este último negociou directamente com o líder dos republicanos no Senado, Mitch McConnell, tendo o líder da maioria democrática, Harry Reid, sido praticamente posto de lado.

 

Isto foi apenas um adiar do problema, como referi. A questão fundamental é que o orçamento federal mantém um monstruoso deficit, o qual se não resolverá sem grandes cortes na despesa, nomeadamente na Defesa, no Medicare (sistema de apoio na saúde aos idosos), no Medicaid (sistema de apoio na saúde aos mais pobres) e na Segurança Social. Não é aumentando os impostos aos "2%" (na linguagem de Obama, mas o aumento agora aprovado apenas atingirá os 1% com mais rendimentos) que o deficit federal desaparecerá ou diminuirá. A realidade acabará por ter de sobrepor-se à demagogia e à ideologia.

 


Engraçado como os republicanos se mostram horrorisados com o déficit como se também não fossem os pais dele. Acho que Obama nunca disse que o déficit seria resolvido só com aumento de impostos, mas que isso também teria que acontecer. A maioria da população concorda. Sobre ideologia, concordo, os republicanos exageram muito :-)
Joao Felipe a 2 de Janeiro de 2013 às 17:55

É bom nomear cinco importantes nomes que votaram contra o acordo e mostraram que pelo menos por enquanto não estão a altura de serem líderes de seus partidos:
Marco Rubio e Rand Paul, que tem ambições pressidenciais;
Eric Cantor, líder do GOP na Câmara;
Michael Bennett, chefe do comitê de campanha democrata ao Senado em 2014
;
Kevin McCarthy, outro líder republicano na Câmara.
Registri-se um elogio a Paul Ryan que votou a favor.
Joao Felipe a 2 de Janeiro de 2013 às 18:05

Portanto, meu caro, segundo o seu critério, quem votou a favor merece ser louvado, e quem votou contra merece ser criticado!;-)

Eu entendo ambas as posições, e, de longe, o grande problema do deficit é a despesa.

Claro. O acordo não é o fim de tudo. Daqui a dois meses tem mais. Aprova-lo significaria apenas evitar uma recessão. Ao preferir o xiismo ideológico, Rubio mostra que ainda não está preparado pra governar.
Joao Felipe a 3 de Janeiro de 2013 às 01:06

Ouvi na bloomberg um analista referir a possibilidade do presidente prescindir da autorização do congresso para emitir mais dívida, e assim evitar a negociação com os republicanos sobre a alteração do debt ceiling.
Dizia esse analista que a constituição (Validity of public debt, section 4, 14th Amendment) serviria esse propósito, já enunciado por alguns democratas.

Por outro lado, ou sob outro prisma de análise, li algures que diversos analistas referem que na disputa de duas leis ( julgo que statues se pode traduzir em leis) prevalece o mais recente. Sendo a disputa entre o debt ceiling statue e o orçamento, dado o último ser o mais recente, seria esse que prevaleceria. Ao prevalecer, o tresury poderia emitir divida para obter o dinheiro que está autorizado a gastar.

Serve o presente comentário para pedir ao autor do post (ou restantes autores do blog) se me podia esclarecer sobre a validade/exequibilidade destas alternativas.
Agradeço desde já a disponibilidade demonstrada, e aproveito o meu primeiro comentário neste blog para elogiar os respectivos autores pela qualidade do mesmo.
Obrigado
Pedro Macedo
Pedro a 3 de Janeiro de 2013 às 17:08

Obrigado pela sua simpatia, caro Pedro Macedo.

Quanto à sua questão, mesmo os políticos e comentadores americanos têm dúvidas sobre essas questões constitucionalmente "bizantinas", quanto mais nós, pobres mortais!;-)

Mas não creio que a Administração Obama tente ir contra o precedente e o costume histórico.

Os meus cumprimentos


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Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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