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Nov 12
publicado por José Gomes André, às 00:23link do post

1. Obama venceu com margem confortável no Colégio Eleitoral (332-206) e com ligeira vantagem no voto popular (cerca de 3%). Dois factores contribuíram decisivamente para a vitória. Primeiro, uma extraordinária mobilização do eleitorado Democrata que, mesmo desiludido, acorreu às urnas em proporção praticamente idêntica a 2008: jovens, mulheres e minorias étnicas foram autenticamente "empurrados" pela máquina Democrata. Uma boa organização no terreno é hoje cada vez mais indispensável e os estrategas Democratas só podem estar de parabéns. Em segundo lugar, a campanha acertou em cheio na mensagem: ao mesmo tempo que justificava as insuficiências do primeiro mandato (ligando-o à excepcionalidade da crise económica e financeira mundial), Obama conseguiu projectar uma imagem de futuro, centrando-se mais nos "próximos 4 anos" do que numa defesa do seu mandato. Excelente decisão.

 

2. A América está a mudar. Se 2008 tinha sido uma eleição histórica, pela eleição de um negro para a Presidência, 2012 não lhe fica atrás, trazendo a primeira lésbica assumida para o Senado (Tammy Baldwin), votações favoráveis ao casamento homossexual em quatro Estados e a legalização da marijuana para efeitos recreativos (!) no Colorado e em Washington. O eleitorado urbano e liberal está em crescimento, a diversidade étnica é cada vez maior e os "valores tradicionais" parecem estar a diminuir em importância e em influência geográfica. Que não se assustem os mais conservadores: os EUA sempre tiveram uma enorme capacidade para se reinventarem, preservando ao mesmo tempo os seus princípios fundamentais.

 

3. Por falar em reinvenção, o Partido Republicano necessita de se reorganizar, tornando-se apelativo para novos segmentos essenciais do eleitorado (o caso mais óbvio são os hispânicos). A ala radical do Partido, mesmo sendo minoritária, tem contaminado o núcleo do GOP com uma ideologia sectária e ultra-conservadora, que entusiasma a base, mas não ganha eleições. O discurso anti-ciência, a confusão sistemática de religião e política, o radicalismo no tema do aborto e a xenofobia latente têm ganho protagonismo entre os Republicanos, mas são amplamente rejeitados pelo eleitorado. O "establishment" necessita de se distanciar destes sectores radicais, sob pena da "marca Republicana" se tornar tóxica num futuro próximo.

 

4. São variados os desafios que esperam Obama. Crise económica, reforma da saúde, ambiente, nova política energética - a nível interno. Instabilidade no Médio Oriente, relações difíceis com a Rússia e a China, a contenção do Irão - a nível internacional. São temas complexos, que, na maioria dos casos, o Presidente terá de negociar com uma Câmara dos Representantes dominada pelos Republicanos. A tarefa mais dura? Lidar com o maior desafio que assola o Ocidente: preservar a estrutura fundamental do "Estado Social", num quadro económico e demográfico mundial que não permite aos países desenvolvidos manter os mesmos níveis de despesa pública até aqui praticados.

 

5. Um dos maiores vencedores deste processo eleitoral foi a abordagem científica ao fenómeno político. Os estudos econométricos e as sondagens (e os agregadores de sondagens) retrataram com grande fidelidade a evolução e o desfecho da corrida, pese embora terem sido continuamente desvalorizados pelos "opinion-makers". Estes (como Dick Morris ou George Will) preferiram basear-se em "feelings" e bitaites infundados (o termo português é "lançar postas de pescada"), mas saíram completamente derrotados face ao rigor e à objectividade do esforço de Nate Silver e Sam Wang, entre outros. Tenho a secreta esperança de que, mais tarde ou mais cedo, os "tudólogos" serão dispensados pela opinião pública e pela própria comunicação social, e substituídos por gente menos mediática, mas seguramente muito mais séria e informada.


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Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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