09
Nov 12
publicado por Alexandre Burmester, às 15:51link do post | comentar

 

 

 

Há uma certa tendência a escrever-se obituários políticos de indivíduos e/ou partidos na sequência de resultados eleitorais.

 

Nos Estados Unidos essa tendência é proverbial, e darei vários exemplos.

 

O caso mais famoso de um político cujo obituário foi escrito quase sem qualquer reserva foi o de Richard Nixon. Derrotado nas eleições presidenciais de 1960 e na eleição do governador da Califórnia em 1962 - no final da qual, ainda por cima, protagonizou um forte e algo desconchavado ataque à imprensa - Nixon foi rapidamente considerado um caso arrumado. Pois bem, seis anos depois, em 1968, seria eleito presidente, e dez anos depois seria reeleito numa das maiores avalanches eleitorais de sempre (já sabemos o que se passou depois, mas isso é irrelevante para esta narrativa).

 

Em termos de partidos, temos a famosa derrota republicana com Barry Goldwater nas presidenciais de 1964. O Partido Republicano estaria - segundo a sabedoria convencional - moribundo. Pois bem, dois anos depois o "moribundo" teve importantes ganhos nas eleições intercalares e em 1968 voltaria à Casa Branca, como atrás referi.

 

Em 1972, como já disse, o Partido Democrático, com George McGovern a candidato, foi trucidado nas eleições presidenciais (Nixon só não venceu no Massachusetts e no Distrito de Columbia). Como poderia o partido ressurgir das cinzas de semelhante descalabro era coisa que a muitos se afigurava tarefa de longa duração. Pois, bem, quatro anos depois (embora com o benefício do Watergate), os democratas, pela mão de Jimmy Carter, estavam de regresso ao número 1600 da Pennsylvania Avenue, em Washington. Até se falava no "regresso da velha coligação democrática". Tardou apenas quatro anos, e o esfrangalhado Partido Republicano, com Ronald Reagan como candidato, recuperava a Casa Branca. Aqui sim, os obituários andaram mais perto da realidade, já que levou 12 anos para os democratas, com o hábil Bill Clinton, reconquistarem a presidência.

 

Há quatro anos, após a primeira vitória de Barack Obama, novos obituários foram escritos, sobre o G.O.P. desta vez. Passados dois anos, em 2010, o referido cadáver protagonizou um dos maiores vendavais eleitorais das últimas largas décadas em termos da Câmara dos Representantes, conquistando mais de 60 lugares.

 

Agora, na sequência da reeleição de Obama, também já foram escritos alguns obituários acerca dos republicanos. É evidente que o partido do elefante tem problemas a resolver com certos sectores do eleitorado, mas também é evidente que a margem de derrota foi curta (2,5% na altura em que escrevo), que é sempre difícil desalojar um presidente, que a Campanha Obama dispôs de uma eficientíssima máquina de mobilização, que os republicanos mantiveram uma sólida maioria na Câmara, e que continuam a ter um grande domínio a nível de governadores de estados (30 lugares, tendo ganho um).

 

Pelo que, daqui a quatro anos há mais, embora eu preveja uma luta mais fratricida nas primárias republicanas de 2016 que nas democráticas.

 

 

 

 

Foto: Cartaz da campanha de 1968 de Richard Nixon, declarado "cadáver político" seis anos antes.


Excelente apontamento. Ia escrever algo sobre o assunto, mas assim já não é preciso :)
Nuno Gouveia a 9 de Novembro de 2012 às 18:59

Obrigado, Nuno. Já não é a primeira vez que parecemos ter telepatia. Desta vez, fui eu que me antecipei!;-)

Claro que o Partido Republicano não está morto e enterrado como é evidente.Se há aspecto que caracteriza o sistema político americano é a capacidade de os partidos e agente políticos se reinventarem e acompanharem as mudanças do eleitorado.

Agora, para mim o grande facto que fica desta eleicão é que os americanos acabaram de reeleger o presidente mais liberal desde Lyndon Johnson.Bill Clinton nunca o foi.Namoriscou republicanos e democratas e foi sobrevivendo politicamente.E já que fala em Richard Nixon em muitos aspectos pelo menos para mim foi o último presidente liberal dos Estados Unidos.Após o advento de Reagan foram escorraçados do Partido Republicano.

Se isto significa que o Partido Republicano tem de se transformar numa versão apenas um bocadinho mais à direita que o Partido Democrata?Claro que não.Mas tal como em 1980, eu acho que esta eleição marca o fim definitivo de um ciclo político.Nesta caso da política neoconservadora que imperou até 2008.

Carlos Pereira a 10 de Novembro de 2012 às 21:36

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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