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Out 12
publicado por Nuno Gouveia, às 16:16link do post | comentar

 

O último debate sobre política externa demonstrou o papel quase liliputiano que a Europa representa hoje para os Estados Unidos. Sim, a Europa continua a ser um parceiro comercial e um aliado, mas nunca como nesta campanha os assuntos europeus estiveram tão ausentes. Outrora considerada a região do globo prioritária para os interesses americanos, neste debate nem uma discussão sobre o velho continente, onde até está o seu grande parceiro e aliado no Afeganistão, a Inglaterra. Apesar da crise que afecta grande parte dos países da União Europeia, a única referência veio de Mitt Romney, utilizando a Grécia como um exemplo a não seguir. Isto seria impensável ainda há poucos anos atrás, pois o reforço dos laços com a Europa sempre esteve entre as prioridades americanas. Mas o mundo mudou, e com isso, a Europa perdeu.

 

Não sou especialista em relações internacionais, mas parece-me que a total sua ausência nesta campanha é preocupante. Vários investigadores europeus, incluindo o Henrique Raposo que explicou muito bem o fenómeno no seu livro “Um mundo sem europeus”, têm vindo a destacar o continuado declínio do poder europeu, em contraste com a ascensão da Ásia e de outras potências emergentes. O actual caos que se vive em alguns países do sul, acrescido da falta de liderança nas instituições europeias, tem vindo a acelerar rapidamente este declínio, que nos coloca à margem dos grandes palcos internacionais. Seria bom que a discussão sobre o enfraquecimento europeu começasse a sair da academia e do mundo dos jornais, e entrasse dentro dos gabinetes dos políticos. Para o melhor ou pior, Tony Blair foi o último dirigente europeu que teve verdadeira influência em Washington. De resto, todos os outros são ou foram totalmente irrelevantes para quem está na Casa Branca. E isto passou-se com Obama, mas não tenhamos dúvidas que acontecerá o mesmo com outro qualquer ocupante da Casa Branca, seja ele republicano ou democrata. Estaremos, nós Europa, condenados à insignificância?


E quanto mais a "Europa" entra na vertente descendente, mais anti-anericana se torna. Mas, como já anteriormente disse, eu não me chamo Segismundo.
Alexandre Burmester a 25 de Outubro de 2012 às 21:04

Também são muitas as vozes americanas preocupada com a perca da hegemonia dos EUA, não?
renato Gonçalves a 26 de Outubro de 2012 às 16:54

E também do lado americano, especialmente nos republicanos, o anti-europeismo é reciproco
renato Gonçalves a 26 de Outubro de 2012 às 17:06

Exactamente, ainda me lembro em 2004 as críticas feitas pelos Republicanos ao John Kerry por parecer demasiado Francês, enquanto que o candidato deles parecia demasiado estúpido.
HCarvalho a 26 de Outubro de 2012 às 17:36

Eu vejo antes os Estados Unidos a afastarem-se da Europa, mas não por a Europa estar mais fraca, pelo contrário. Os Estados Unidos é que estão mais fracos. E vão-se afastar cada vez mais porque vão inevitavelmente entrar em conflito. Todas as movimentações dos chamados países emergentes são precisamente consequência do Império Europeu que se está a formar. Qualquer ideia ou país que esteja em formação, fá-lo sempre com uma oposição forte e esta é necessária.
É evidente que há uma degradação moral e intelectual europeia, devido principalmente à estatização do ensino. Mas a reacção a esta degradação já está em acto e a Alemanha já tem escolas de ensino livre à algumas dezenas de anos. Como o ensino livre é o que está certo, facilmente e rapidamente se infiltrou na sociedade. A consequência mais visivel desta liberdade de ensino é o partido Verde Alemão, terceira força política, e que segundo dizem se vai tornar na segunda muito em breve. Tem pouco que ver com o nosso Os Verdes mas é o guia intelectual de todos os partidos verdes por essa Europa fora.
O vazio da Segunda Guerra Mundial foi ocupado pelos Estados Unidos. Mas esse lugar pertencia naturalmente à Alemanha, que fez a Guerra para derrotar o Império Inglês. Por motivos que não vêm agora ao caso, a Alemanha não está a caminhar para ter um império, mas sim para liderar um. E toda esta tensão que se vive na Europa, é a tensão do parto, de algo que se está a formar. Vamo-nos bater com os americanos por vários motivos, mas o mais superficial é o de que quem ocupa o poleiro não o abandona sem mais nem menos. Precisamente o que a Inglaterra fez: lutou para manter o império. A consequência foi que perdeu o Império, e o socialismo - contra o qual combatera - tomou o poder, através do partido trabalhista logo a seguir à guerra.
Luís Barata a 26 de Outubro de 2012 às 22:22

Curiosa interpretação: a Alemanha fez a Guerra para derrotar o "Império Inglês"!:-) Deve ter sido por isso que invadiu a muito conhecida colónia britânica chamada Polónia, já para não falar da URSS.

A Europa e os EUA fazem parte da mesma cultura e civilização, e o europeísmo de raíz anti-americana é altamente nefasto para ambos.

Enquanto a URSS e sua ameaça duraram, a Europa apreciou estar sob a protecção americana. Como tem sido costume, essa mesma Europa não consegue ver - para além da sua gorda barriga - os perigos que por esse mundo fora surgem e que requerem uma abordagem atlântica.

"O anti-americanismo, doença infantil do europeísmo", seria um interessante título de um ensaio.

Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Alemanha, todos estiveram em guerra entre si devido a um estar em queda e o outro em ascensão.
Hitler foi apenas um dos muitos apanhados pelo destino. Muito antes de ascender ao poder já a guerra estava anunciada na música de Wagner ou nos livros de Nietszche, por exemplo.
A realidade tem vários planos, do mais superficial ao mais profundo. Num plano mais superficial há, por exemplo, livros ingénuos que relatam, na época, as tensões e os problemas que as novas invenções alemãs estavam a provocar à supremacia das empresas inglesas que eram quem à data dominava. O mesmo tinha acontecido entre a Inglaterra e a França anos atrás.
Do meu ponto de vista Os EUA são umas das consequências da civilização Europeia, principalmente da Francesa, Inglesa e Alemã. Eu distingo entre cultura e civilização: os EUA são uma cultura que pode ou não ascender a civilização. A Europa tem vários países civilizados que podem, ou não, criar o império Europeu assim como se criou o Romano.
O anti-americanismo de que fala pode ter argumentos. Um deles, é o caso dos Ingleses que ficaram irritadissímos com o comportamentos dos americanos no Iraque: icompetentes, brutos, pouco corajosos e pouco diplomatas. A consequência foi a zona americana ser muito mais conflituosa e problemática do que a zona Inglesa.
Pessoalmente, há muitas coisas de que gosto nos EUA, como o patriotismo, o optimismo, a gratidão e a facilidade com que os bons são reconhecidos e ascendem na sociedade. Tudo isto e ainda outras mais coisas admiráveis que possuem, não são suficientes para que não considere os EUA um país em decadência e cheio de vícios morais e intelectuais. O império tecnológico americano, última fase da ciência moderna, é uma bomba relógio, principalmente num país que não teve, nem tem, como a Europa teve e tem, fortes movimentos que põem em causa a cientificidade da ciência moderna e as suas consequências desastrosas...
Luís Barata a 27 de Outubro de 2012 às 21:46

Se Romney ganhar, a política externa americana vai centrar-se em relações extra-planetárias... USA para o planeta Kolob
João Davim a 28 de Outubro de 2012 às 13:23

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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