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Out 12
publicado por Nuno Gouveia, às 12:59link do post | comentar

 

George McGovern morreu hoje aos 90 anos num hospital do Dakota do Sul, depois de ter sido internado na semana passada. Candidato presidencial pelo Partido Democrata em 1972, teve uma importância histórica na política norte-americana nem sempre reconhecida e valorizada. Apesar de ter sido verdadeiramente humilhado por Richard Nixon, que venceu em 49 dos estados da união, o seu legado é muito mais do que essa histórica derrota. McGovern ocupou um papel decisivo na viragem à esquerda do Partido Democrata nos últimos 40 anos e já é uma figura fundamental na história da política americana.

 

Piloto de bombardeiros durante a segunda guerra mundial, começou a destacar-se na política em 1948 quando decidiu apoiar o candidato progressista Henry Wallace contra o Presidente Truman. Na eleição seguinte voltou ao Partido Democrata para apoiar Adlai Stevenson e em 1956 foi eleito para a Câmara dos Representantes. Chega ao senado em 1962 e torna-se numa das vozes proeminentes contra a guerra do Vietname. Depois do assassinato de Robert Kennedy candidata-se à nomeação pela facção anti-guerra do Partido Democrata, mas não teve hipótese contra Hubert Humphrey, que dominava a máquina partidária. Essa derrota levou-o a liderar os esforços para alterar as regras de nomeação presidencial, levando a que as primárias e eleições directas conquistassem primazia no processo, retirando poder aos "party bosses". O Partido Republicano viria mais tarde a fazer o mesmo, iniciando-se a era das primárias competitivas, como as conhecemos hoje.

 

McGovern foi o primeiro beneficiado das novas regras, tendo conquistado a nomeação do Partido Democrata em 1972, o que na altura muito agradou Richard Nixon. Aliás, consta-se que o republicano tudo fez para ajudar McGovern a ganhar a nomeação, pois Nixon pensava que o seu radicalismo ideológico iria ajudá-lo a vencer. Como aconteceu. Essa campanha foi um verdadeiro desastre, pois McGovern não conseguiu unir o partido, cometeu muitos erros estratégicos, a começa pelo processo de Vice Presidente. Depois de ter recebido recusas de vários democratas, como Ted Kenney, Walter Mondale, Edmund Muskie ou Hubert Humphrey, optou pelo senador do Missouri, Thomas Eagleton. Mas a meio da campanha foi descoberto que tinha problemas psiquiátricos e McGovern, pouco depois de ter dito que tinha 100% de certeza que Eagleton ficaria no ticket, substituiu-o pelo cunhado de John Kennedy, Sargent Shriver, que não tinha experiência política nenhuma. Esta foi a campanha que ficou conhecida por "Amnistia, aborto e ácido", pois Mcgovern defendia a amnistia para quem tinha fugido à guerra do Vietname, a legalização do aborto e das drogas. Essa frase foi proferida por um senador "anónimo" ao colunista conservador Robert Novak durante as primárias, que lhe disse que McGovern estaria condenado quando a América descobrisse que a sua campanha era a favor de "Amnesty, Abortion and Acid". Em 2007 Novak anunciou que o senador que lhe tinha dito isso foi Thomas Eagleton, precisamente a opção de McGovern para VP. Mcgovern apenas venceu no estado do Massachussetts e em DC, e teve apenas 37 por cento dos votos, um dos piores resultados de sempre de um candidato dos dois partidos.

 

McGovern foi o primeiro democrata verdadeiramente "liberal" a ser nomeado candidato presidencial pelo Partido Democrata, abrindo caminho para outros como Walter Mondale, Michael Dukakis ou Barack Obama, que vieram precisamente da ala mais à esquerda do Partido Democrata. O seu principal legado é precisamente ter influenciado toda uma geração de políticos que cresceu com ele, tendo conquistado o poder e primazia no Partido Democrata. Se Goldwater é considerado o pai do conservadorismo moderno, McGovern cumpriu a mesma função para o "liberalismo" americano. 


Um artigo de há 6 anos sobre McGovern (onde o autor, entre outras coisas, se concentra no que considera serem as diferenças entre McGovern e os "liberais" americanos mais convencionais)

http://www.theamericanconservative.com/articles/come-home-america-2/
Miguel Madeira a 22 de Outubro de 2012 às 00:07

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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