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Out 12
publicado por José Gomes André, às 15:35link do post | comentar

1. Um debate presidencial é sobretudo uma encenação mediática, onde o que importa é parecer melhor: mais confiante e assertivo, mais simpático e descontraído, mais bem preparado, mais "presidenciável". A forma ganha os debates, não o conteúdo.

 

2. Face a estes parâmetros, Mitt Romney foi um evidente vencedor. Face a um Obama surpreendemente cinzento, cansado, tropeçando nas próprias palavras, olhando para baixo enquanto ouvia o adversário, Romney surgiu como um orador talentoso, afirmativo, confiante. A sua linguagem corporal (olhando Obama como um predador olha a presa) mostrou um macho-alfa dominador. E as suas permanentes referências a histórias concretas e ao sofrimento do americano comum quebraram a sua imagem robótica, humanizando-o perante o eleitorado. 

 

3. Mas Romney ganhou noutros campos. Contrariando um dos (até aqui) maiores erros da sua campanha, Romney não se limitou a um discurso crítico do Presidente, como se "ser o outro" candidato bastasse para chegar à Casa Branca. Enviou portanto uma mensagem positiva ao eleitorado, insistindo nos méritos do seu próprio programa, focado na criação de emprego e na eliminação das "gorduras do Estado". Enquanto Obama se perdia em detalhes técnicos aborrecidos, Romney defendia o seu projecto político de forma articulada e sintética, sem soar demasiado abstracto.

 

4. Chegará, por si só, para ganhar a eleição? Provavelmente não. Os debates presidenciais são amplamente escrutinados e têm excelentes audiências, mas os dados mostram que a maioria dos eleitores atentos procuram apenas "confirmar" posições previamente definidas, sendo que muitos dos chamados "indecisos" confessam posteriormente à eleição ter prestado pouca ou nenhuma atenção aos debates. Em todo o caso, numa eleição renhida como esta, alterações em pequenas franjas do eleitorado podem ser decisivas. Além do mais, este debate tem desde já o condão de enfraquecer o optimismo reinante entre os Democratas e renovar o entusiasmo Republicano (tanto da base eleitoral como dos financiadores da campanha)...

 

5. Faltam dois debates presidenciais, um debate entre candidatos a vice-presidentes e um mês de campanha. Continuo convencido que Obama é favorito e que Romney, apesar desta boa prestação, tem alguns problemas por resolver - nomeadamente a explicação cabal da revolução fiscal prometida, as alterações na Segurança Social e os cortes nos programas de saúde, temas de grande sensibilidade onde a dupla Romney/Ryan gera grande desconfiança. Todavia, se até aqui os eleitores viam Obama como um "mal menor", a excelente prestação de Romney terá pelo menos generalizado a ideia de que ele pode constituir uma alternativa credível. Conseguir isto em hora e meia é notável.


Como já atrás comentei, os debates não costumam ser decisivos, mas também não costumam ser tão claramente ganhos por um dos candidatos como este foi. Até o Chris Matthews ficou desesperado!;-) (fico a aguardar o que vai dizer o "imparcialíssimo" José Alberto Lemos no seu cometário semanal na Antena1, domingo entre as 12h e as 13h - não me lembro do nome do programa - "Visão Global"?)

Francamente, apenas me surpreendeu a margem da vitória: vi vários debates de Romney nas primárias e sempre o achei muito bom no género. E vi Obama debater com Hillary e McCain e nunca me impressionou muito.

Há outro problema com Obama: não está habituado a ver os seus pontos de vista contrariados - reverso da medalaha de uns media que o adoram e tendem a protegê-lo.

Decerto Obama vai reagir no próximo debate - mas o mal - se o houver - está provavelmente feito.
Alexandre Burmester a 4 de Outubro de 2012 às 17:03

É impressionante a sorte do Obama. Justamente no seu pior momento, sai a noticia que o desemprego caiu para 7,8%. Isso deve reanimar os democratas e pode \"matar\" o assunto debate.
Joao Felipe a 5 de Outubro de 2012 às 15:22

Seja bem-vindo, caro João Felipe! Vejo com alegria que o relatório do desemprego o tirou do estado de choque no qual, aparentemente, o debate o tinha deixado!;-)

Já agora, recomendo-lhe esta leitura:

http://hotair.com/archives/2012/10/05/scarborough-somethings-awfully-odd-about-this-job-report/

E eu recomendo-lhe este artigo http://www.huffingtonpost.com/2012/10/05/jobs-report-conspiracy-theory-baseless_n_1942685.html
Starbuck a 5 de Outubro de 2012 às 22:25

Muito obrigado! Que seria de nós sem o Huffington Post, o Pravda da América "liberal"?

Olha que o Joe Scarbourough é o exemplo da imparcialidade, ele, o Matt Drugde e a FOX News fazem uma boa pandilha, verdadeiros discípulos de Goebbels.
Starbuck a 5 de Outubro de 2012 às 23:18

Parece-me que o Romney anda a ler Maquiavel...
Rita Dias Filipe a 9 de Outubro de 2012 às 21:54

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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