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Set 12
publicado por José Gomes André, às 17:27link do post | comentar

Após o descalabro eleitoral de 2010 muitos "espertos" disseram que Obama faria como Clinton em 1994, isto é, viraria ao centro e assim seria re-eleito sem dificuldade.

Obama não virou ao centro - e nesta altura isso até pode ser interpretado como tentativa de dinamizar as bases, pois o "intervalo de entusiasmo" perante as presidenciais de Novembro é claramente favorável aos republicanos, que neste momento têm uma vantagem de 12% - e até pode vir a ganhar. Mas o passeio "à la Clinton" não acontecerá.

Mas Clinton era por instinto um centrista e um negociador, o que lhe permitiu importantes medidas e reformas negociadas com um Congresso republicano. Já Obama é mais claramente um liberal (em sentido americano), mais dogmático e menos dado a compromissos
Alexandre Burmester a 7 de Setembro de 2012 às 17:44

Por acaso discordo, meu caro. Há muito tempo que venho discordando, aliás, dessa leitura muito FOX News ;P

Acho Obama bem mais ao centro do que o pintam (é ver a política externa, Guantanamo, posição sobre pena de morte, até mesmo questões ambientais, por exemplo).

E olhe que o "menos dado a compromissos" tem muito que se lhe diga. Basta ver o que aconteceu nas recentes tensões com o Congresso!

Quanto à reeleição por relação com Clinton, as circunstâncias são incomparáveis, sobretudo em termos económicos. Por que não comparar com Bush 2004? É mais perto no tempo e mais próxima em termos eleitorais, demográficos e políticos do que o embate Clinton/Dole...

Abraço!

Penso que do ponto visto europeu, Obama poderá ser considerado mais centrista: política externa em certa medida próxima do neoconservadorismo, Guantanamo, assassinatos selectivos, pena de morte, etc. E de facto, Obama não mudou assim muito em relação à anterior administração. Mas na perspectiva americana, especialmente nas questões sociais (aborto, casamento gay) e económicas (stimulus plan, défice, impostos) está mais à esquerda do americano médio.

Por outro lado, sobre a falta de entendimento, irá sair em breve um livro sobre o mandato de Obama de Woodward, que refere o desentendimento do "grande acordo" entre Obama e Boehner. Segundo o que já possível ler, parece que eles tinham acordado um plano que incluía cortes na despesa e aumentos de impostos, mas que à ultima hora Obama propôs mais aumento de receita, o que acabou por inviabilizar o acordo. Parece que Boehner deixou de atender o telefone a Obama e o acordo morreu.

um abraço aos dois.

Bem, Nuno, como já referi, a política externa é até a área mais consensual da política americana (e não só da americana).

A "má" reputação dos democratas em política externa teve origem, essencialmente, em quatro causas: a "cedência" por Franklin Roosevelt de "meia-Europa" a Staline; a tomada de poder pelos comunistas na China em 1949 (durante muito tempo, uma pergunta esteve no centro dos debates de política externa nos EUA: "who lost China?"); a inacção de John Kennedy perante a construção do Muro de Berlim em 1961; e o fiasco da Baía dos Porcos, em Cuba, também sob Kennedy.

Mas ninguém chamaria centrista ou conservador a Harry Truman por ter aniquilado duas cidades japonesesas com a bomba atómica, ou a Lyndon Johnson por ter enfiado os EUA no Vietname até ao pescoço, do mesmo modo que ninguém chamaria liberal a Eisenhower por ter acabado com a Guerra da Coreia com um simples armistício inconclusivo, ou a Richard Nixon devido à sua abertura à China.

Portanto, o meu ponto é que, quando se fala de liberais, centristas ou conservadores, está-se, fundamentalmente, a falar de política interna.

Bem, meu caro, nem eu costumo ver a Fox News, nem creio que ela me leia a mim!;-) E, quanto a rótulos, só os valorizo nas garrafas de um bom vinho!;-)

Quando eu falava de Obama estar à esquerda de Clinton referia-me essencialmente à economia e à sua postura "anti-business", tornada célebre na famosa tirada "you didn't build that!" (mas não apenas por isso).

Em relação à política externa, essa fama de Obama vive muito da morte de Bin Laden e dos ataques dos "drones", mas será que Clinton se teria encolhido perante os russos e desistido do escudo antí-míssel na Europa de Leste? Será que Clinton teria dado aquela "graxa" toda ao mundo islâmico, começando no discurso do Cairo e na vénia perante o Rei da Arábia Saudita?

Sobre Guantánamo, isso é o caso típico de quando a realidade embate frontalmente na teoria. Eu acho que Obama é um homem sincero - talvez tu não o aches - e não duvido que queria mesmo fechar Guantánamo. Mas isso revelou-se impraticável. Portanto, o facto de não ter fechado aquela prisão só pode ser interpretado como tibieza e não como credencial "centrista". Guantánamo mostra-nos, diga-se que Mitt Romney está longe de ser monopolista dos "flip-flops.

Em relação à pena de morte: o homem pode ser liberal, mas não é completamente desprovido.!;-)

Errata: "Míssil" e não "míssel", e falta uma vírgula a seguir a "diga-se" na 3ª linha a contar de baixo.

Desculpa, esqueci-me da questão "reeleição de Clinton/reeleição de Bush". Independentemente da pertinência das tuas considerações - e não deixa de ser curioso ver-se um número cada vez maior de apoiantes de Obama citarem o exemplo da reeleição do tenebroso Bush como tábua de salvação para os apuros em que o seu ídolo se encontra - faz-se esta comparação por se tratar de dois presidentes democratas (uma mera coincidência, concordo) mas, essencialmente, porque os problemas que confrontavam Clinton, tal como os que confrontam Obama, eram essencialmente de política interna, onde a negociação e o compromisso são sempre mais necessários que em política externa, baseando-se esta, grosso modo, num mais alargado consenso bi-partidário.

Em relação a Obama e as questões ambientais, José - e desculpa isto ir a conta-gotas - não sei se estás a pensar na proibição da perfuração "off-shore", na não aprovação do oleoduto Canadá-Golfo do México, ou na Solyndra, tudo veros exemplos do "centrismo" de Obama em matéria ambientalista!;-)

Obama tem sempre governado com um olho - ou os dois - na sua base de apoio, sejam os "ambientalistas", sejam os sindicalistas - em relação a estes últimos basta ver a posição favorável que Obama lhes atribuíu na reestruturada General Motors...

Essa base de apoio está longe de ser "centrista".

Basicamente, estamos perante uma questão de dois pesos e duas medidas. Certas posições da ala direita republicana são logo apodadas de "extremistas", mas os democratas disfrutam de uma "free ride". Podem assumir as mais desconchavadas posições que nunca ninguém lhes chamará "extremistas". E contudo os americanos que se descrevem como conservadores são o dobro dos que se descrevem como liberais...

Abraço

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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