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Set 12
publicado por José Gomes André, às 18:30link do post | comentar

Num excelente post, o Nuno Gouveia considera negativo o facto de os Democratas estarem a dar demasiada importância às questões sociais, nomeadamente o aborto, numa altura em que os americanos estão sobretudo preocupados com a economia. Dou-lhe toda a razão neste último ponto, mas não estou certo quanto à premissa geral de que o tema do aborto seja pouco relevante nesta eleição. Por três razões fundamentais.

 

1) Não é absolutamente rigoroso dizer que "a maioria dos americanos considera-se pro-life". Os estudos da Gallup, realizados desde 1995, mostram que houve na verdade uma maioria de eleitores "pro-choice" durante os anos 1998-2008, tendo-se a situação invertido ligeiramente apenas em anos recentes (2012: pro-life 50%, pro-choice 41). Todavia, ainda em 2011 a sondagem Gallup dava vantagem aos "pro-choice" (49-45%)...


2) Por outro lado, a questão do "aborto" não se joga apenas na dicotomia "pro-life" vs. "pro-choice". Embora ausente do "programa oficial" do Partido, a ideia de que o aborto deve ser proibido em qualquer caso (incluindo violação e incesto) vem sendo defendida publicamente por várias figuras relevantes (Michelle Bachmann, Sarah Palin, Todd Akin, etc.). Ora, esta é uma posição fortemente rejeitada pelo povo americano, sendo apenas defendida por 20% dos eleitores. É pois natural que os Democratas explorem o tema, procurando associar o Partido Republicano a tal visão radical e impopular do aborto.


3) Por fim, uma vez que os resultados no "tópico forte" das eleições (economia e emprego) não são propriamente favoráveis aos Democratas, é lógico que estes irão procurar levantar outros temas como o aborto ou a política externa, descentrando assim o debate. Curiosamente, durante muitos anos foram os Republicanos a usar esta técnica e a apelar justamente a estas questões (vide Bush vs. Gore/Kerry). Ironias da política...


Na verdade, referia-me aos últimos dados conhecidos, que são esses da Gallup que referes. Por outro lado, ficou claro que a posição de Mitt Romney é precisamente essa e que é mais mainstream na América: contra o aborto, com a excepção de violação, incesto ou perigo da vida da mulher. Em várias noticias durante a convenção isso ficou explicito. Se alguém está longe da visão da maioria dos americanos, não será Romney. Como facilmente vimos na RNC, os assuntos sociais e os "cultural warriors" não tiveram grande espaço. Por isso acho que esta war on women é um bocado despropositada. Aliás, ontem saiu uma sondagem da ABC que dizia claramente que Obama tem vindo a perder popularidade entre as mulheres. A confirmar-se, não sei se será devido a esta insistência com este não assunto. Obama terá mais a ganhar se mantiver-se na critica a Romney e Ryan do que propriamente nestes assuntos sociais. Porque se no casamento gay até tem os ventos a seu favor, neste do aborto o sentimento é inverso.

Abraço.
Nuno Gouveia a 5 de Setembro de 2012 às 18:50

Claro que Romney não alinha nessa visão radical. Mas os Dems estão no fundo a explorar uma tese que, até há pouco tempo, era completamente oculta e que, aos poucos, encontrou espaço perto do mainstream. E isso pode ter peso nos eleitores para quem as questões sociais são relevantes (que não são tão poucos assim)... Abraço!

José Gomes,

Nesta eleição os Democratas parecem menos inibidos em abordar questões sociais antes proibidas como o Casamento Gay e o Aborto. Como indicam as pesquisas citadas, o eleitorado tem mudado seu posicionamento nesses temas, e se é incerto que a maioria aceite, na pior das hipóteses não rejeita com tanta veemência.

Além disso, os Republicanos parecem ter exagerado na dose nessas questões sociais. Mesmo que a maioria do eleitorado ainda se oponha a questões como casamento gay e aborto, há vários níveis de oposição, e os politicos republicanos parecem sempre mais radicais que o eleitor médio.

Mas existem também riscos para os Democratas. Por alguma estranha razão, que até agora não entendi qual foi, não há mais nenhuma menção a Deus na plataforma do Partido. Os Republicanos estão jubilantes... "Democrats proudly declare We all belong to the Government. Ditch God from their Platform" (Red State) Eu acho que o sujeito que redigiu esse documento vai se juntar, brevemente, as estatísticas de Desemprego.

Nehemias
Nehemias a 5 de Setembro de 2012 às 19:13

Afinal alteraram o texto, como previa :) Obrigado pelo comentário!

Só mesmo o mais egrégio dos democratas irá votar em Novembro a pensar no aborto. É que os rpublicanos - os tais "extremistas" do mito urbano - não escolheram para seu candidato - imagine-se! - Rick Santorum, mas sim o cara-de-pau Mitt Romney.

Parafraseando o famigerado James Carville, "it's the economy, stupid!";-)
Alexandre Burmester a 5 de Setembro de 2012 às 20:17

Não só, caro Alexandre. Sim, a economia é o tema vital. Mas cerca de 40% dos eleitores refere tipicamente outras prioridades ou, pelo menos, factores que podem ser relevantes. As sondagens mostram uma grande dificuldade com o eleitorado feminino, apesar do estado da economia... E não creio que a posição radical de parte do GOP na matéria do aborto seja indiferente a este facto.

Apesar de tudo, caro José, a margem de Obama entre as mulheres é menor que em 2008. Romney não precisa de conquistar o voto feminino, diga-se, apenas de encurtar a distância.

E depois, as mulheres também têm preocupações com a economia, obviamente e, ao contrário da narrativa oficial, não são todas pro-choice.

O fato é que a convenção republicana pretendia colocar na sua plataforma (não sei se colocou) a oposição ao aborto sem expecificar exceções. A economia não é o principal tema, mas está longe de ser o único. vide 1968.
Joao Felipe a 5 de Setembro de 2012 às 21:56

Que tem 1968? Que eu saiba - e lembro-me disso - o tema esmagador desse ano foi a Guerra do Vietname.

Exatamente, caro Alexandre. Dei um exemplo de como outros temas são decisivos. É óbvio que a economia é o grande tema dessa eleição, mas não me parece que será um simples referendo sobre o estado economico da nação.
Abraços.
Joao Felipe a 6 de Setembro de 2012 às 00:27

Exatamente, caro Alexandre. Dei um exemplo de como outros temas são decisivos. É óbvio que a economia é o grande tema dessa eleição, mas não me parece que será um simples referendo sobre o estado economico da nação.
Abraços.
Joao Felipe a 6 de Setembro de 2012 às 00:27

Os norte-americanos não se terão esquecidos (e se for o caso alguém lhes lembrará...) do estado da Economia quando Obama chegou: a coisa estava em cacos, com um galope desenfreado do desemprego.

A situação não é brilhante, mas é melhor do que a encontrada por Obama.
Southern Confederated Gentleman a 6 de Setembro de 2012 às 10:00

«Embora ausente do "programa oficial" do Partido, a ideia de que o aborto deve ser proibido em qualquer caso (incluindo violação e incesto) vem sendo defendida publicamente por várias figuras relevantes (Michelle Bachmann, Sarah Palin, Todd Akin, etc.).»

Eu ouvi muitas vezes dizer que a plataforma iria incluir a defesa da proibição total do aborto. Mas como o meu computador se recusa(!) a abrir o site www.gop.com, talvez alguém possa ir conferir por mim se isso foi incluido ou não:

www.gop.com/2012-republican-platform_home/

A respeito do Atkin, não sei se ele defendeu essa posição - pelo que percebi, aquela resposta atabalhoada resultou, exactamente, de uma tentativa de não ter posição sobre o assunto (mais em menos em termos "isso é tão raro que é um pormenor sem grande importância").

Já agora, uma divagação mais "filosófica" - eu consigo perceber o raciocinio "o aborto deve ser proibido excepto em casos de violação e perigo para a vida da mãe"; já tenho mais dificuldade em perceber a lógica ""o aborto deve ser proibido excepto em casos de violação, incesto e perigo para a vida da mãe".
Miguel Madeira a 6 de Setembro de 2012 às 10:52

Obrigado pelo comentário, caro Miguel.

Sobre o incesto: creio que a questão tem sobretudo a ver com padrões culturais e motivos médicos (perigosidade de malformações, etc.). Mas é um tema complexo, sem dúvida...

Sobre a plataforma: não é totalmente clara a posição do GOP, mas creio que segue a linha tradicional conservadora. Tenta aqui: http://whitehouse12.com/republican-party-platform/#Item14

Texto completo: "The Sanctity and Dignity of Human Life (Top)
Faithful to the “self-evident” truths enshrined in the Declaration of Independence, we assert the sanctity of human life and affirm that the unborn child has a fundamental individual right to life which cannot be infringed. We support a human life amendment to the Constitution and endorse legislation to make clear that the Fourteenth Amendment’s protections apply to unborn children. We oppose using public revenues to promote or perform abortion or fund organizations which perform or advocate it and will not fund or subsidize health care which includes abortion coverage. We support the appointment of judges who respect traditional family values and the sanctity of innocent human life. We oppose the non-consensual withholding or withdrawal of care or treatment, including food and water, from people with disabilities, including newborns, as well as the elderly and infirm, just as we oppose active and passive euthanasia and assisted suicide.
Republican leadership has led the effort to prohibit the barbaric practice of partial-birth abortion and permitted States to extend health care coverage to children before birth. We urge Congress to strengthen the Born Alive Infant Protection Act by enacting appropriate civil and criminal penalties on healthcare providers who fail to provide treatment and care to an infant who survives an abortion, including early induction delivery where the death of the infant is intended. We call for legislation to ban sex-selective abortions – gender discrimination in its most lethal form – and to protect from abortion unborn children who are capable of feeling pain; and we applaud U.S. House Republicans for leading the effort to protect the lives of pain-capable unborn children in the District of Columbia. We call for a ban on the use of body parts from aborted fetuses for research. We support and applaud adult stem cell research to develop lifesaving therapies, and we oppose the killing of embryos for their stem cells. We oppose federal funding of embryonic stem cell research.
We also salute the many States that have passed laws for informed consent, mandatory waiting periods prior to an abortion, and health-protective clinic regulation. We seek to protect young girls from exploitation through a parental consent requirement; and we affirm our moral obligation to assist, rather than penalize, women challenged by an unplanned pregnancy. We salute those who provide them with counseling and adoption alternatives and empower them to choose life, and we take comfort in the tremendous increase in adoptions that has followed Republican legislative initiatives."

Concordo com a relevância do tema, embora a principal razão da sua constância na agenda democrata se prenda com a necessidade de expor a ortodoxia de Ryan e de tudo o que o putativo VP (P?) de Mitt representa.

Axelrod não dorme em serviço e sabe que, para a generalidade do eleitorado moderado, pior do que a perspectiva de caos económico em caso de reeleição de Obama, propalada pelo GOP, é a simples possibilidade de verem os prosélitos de Koch - e respectiva mentalidade à la Pat Robertson - mexerem os cordelinhos nas margens do Potomac.

Daniel Martins a 11 de Setembro de 2012 às 14:37

Vamos ver se foi favorável esse desvio radical para a esquerda de colocar tipas como a Sandra Fluke em cima do palco. Eu continuo a achar que não.

De resto, acho que você, tal como a maioria das pessoas que vejo a falar dos Koch, desconhece quem eles são. Percebo que há um grande desconhecimento, e como a propaganda democrata os diaboliza, haja muita gente que vai atrás. Já George Soros é o máximo. Os milionários dos outros são sempre piores dos que os nossos, dizem alguns.

Essa sua comparação deles com Pat Robertson é completamente descabida, como pode ver por este artigo recente:

http://www.politico.com/news/stories/0812/80483.html
Nuno Gouveia a 11 de Setembro de 2012 às 16:27

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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