05
Set 12
publicado por Nuno Gouveia, às 10:02link do post | comentar

Ontem não tive a oportunidade de assistir ao discurso de Michele Obama. Pelo que li foi muito bem recebido, e será certamente uma ajuda valiosa à candidatura de Barack Obama. Antes dela falou Julian Castro, o Mayor de San António no Texas, outro discurso que não ouvi e que terá causado boa impressão. Principalmente pelo discurso da Primeira Dama, e o mais importante da noite, este primeiro dia da convenção terá sido muito positivo para as aspirações democratas. Mas deixo aqui um comentário ao que pude assistir:

 

Pontos positivos:

- discurso de Tammy Duckworth, candidata ao congresso no Illinois, e veterana do Iraque que ficou sem duas pernas. Uma imagem poderosa acompanhada por um bom discurso, que foi elogiado tanto à esquerda como à direita.

- aproveitamento de um vídeo de homenagem a Ted Kennedy para atacar Mitt Romney. Um momento que servirá para dar alento aos críticos do candidato republicano.

- aproveitamento da política externa, onde os democratas têm, algo raro, apresentado vantagem sobre os republicanos. A utilização de veteranos de guerra serve perfeitamente para relembrar isso. 

- Os "attack dogs" prestaram um bom serviço a Obama, especialmente Ted Strickland do Ohio e Martin O’Malley do Maryland.

 

Pontos negativos:

- demasiado enfoque dado às questões sociais, especialmente ao aborto. Neste momento os americanos estão preocupados sobretudo com a falta de emprego e a desaceleração da economia. Ao contrário dos republicanos, que deixaram os seus "guerreiros sociais" de fora da convenção, os democratas apostaram nestes temas. E nem sei até que ponto é eficaz: a maioria dos americanos considera-se pro-life e é bem mais próxima da posição de Romney.

- o mesmo para os ditos "assuntos de mulheres". Os democratas estão a tentar arranjar um meio de retirar votos aos republicanos entre as mulheres, e por isso, arranjaram esta "war on women". Tem tido vantagem nesse assunto, mas não faz sentido ocupar tanto espaço com isso e nem os eleitores estão para aí virados.

- falta de resposta para a pergunta "Are You Better off?". Os democratas caíram na ratoeira dos republicanos e ainda não conseguiram arranjar uma resposta convincente. Ontem as sondagens que foram publicadas apresentaram todas números negativos para esta questão, e os democratas necessitam de dar a volta a estes números. Talvez não chegue atacar Mitt Romney.


Tirado do blog de Paul Krugman, que retirou de Dean Baker:

"Suppose your house is on fire and the firefighters race to the scene. They set up their hoses and start spraying water on the blaze as quickly as possible. After the fire is put out, the courageous news reporter on the scene asks the chief firefighter, “is the house in better shape than when you got here?”
Yes, that would be a really ridiculous question.

A serious reporter asks the fire chief if he had brought a large enough crew, if they enough hoses, if the water pressure was sufficient. That might require some minimal knowledge of how to put out fires.

Quando se pega num país que está em queda livre, a passar a pior crise desde os anos 30, se estabiliza a economia e regressa ao crescimento, a questão não é se o país está melhor, é a forma como se abordou a resposta à crise. A pergunta "are you better off?" é incorrecta, se tivermos em conta as circunstâncias em questão.
Se nos limitarmos a comparar "punch lines" de esquerda e de direita, o discurso não consegue ser objectivo. Seria fácil perguntar, e os outros, teriam feito melhor depois de mergulhar o país, e depois o mundo, no abismo?
Ao fim de quase 5 anos, as consequências da crise continuam a fazer vítimas nos dois lados do atlântico; parece-me injusta a questão e a falta de alternativas. Como é facilmente reconhecível, tudo o que Romney/Ryan propuseram até agora é impossível de executar, não tem credibilidade orçamental e demonstra o quão impreparados estão para liderar os EUA.
João a 5 de Setembro de 2012 às 13:01

Os malditos republicanos e os bonzinhos democratas. Não se cansam desse argumentário infantil?

Os malditos democratas e os bonzinhos republicanos. Não se cansam desse argumentário infantil?

It works both ways...

João Davim a 5 de Setembro de 2012 às 14:59

Não não funciona. Bastará ler os meus posts para verificar que não diabolizo nenhum dos lados. Só com muita má fé poderá dizer isso.
Nuno Gouveia a 5 de Setembro de 2012 às 15:50

Não é um argumento infantil, é apenas o reconhecer que o partido republicano perdeu o equilíbrio que o caracterizou durante décadas. A partir dos anos 90, os republicanos têm apresentado propostas que são, para mim, extremamente exclusivas (baixa de impostos para as classes mais ricas, tentativa de privatizar a segurança social, tentativa de privatizar os programas de saúde pública). O partido está a caminhar um percurso que começa a colidir com a realidade da grande maioria dos americanos.
E para piorar, existe uma radicalização demasiado moralista nos assuntos sociais. As discussões sobre o planeamento familiar, por exemplo, demonstraram o quanto o partido se afastou da realidade. Já não faz sentido discutir se um casal deve ou não fazer planeamento familiar, são questões que ferem os cidadãos, neste caso maioritariamente as mulheres. Não fosse uma política orçamental tão limitada pela "chantagem" feita na casa dos representantes, que limita a capacidade do presidente conseguir lidar com a crise de forma cabal, e estas eleições seriam um passeio para Obama.
A prova de que algo vai muito mal no GOP está na mais que provável vitória de um presidente desgastado por 4 anos de estagnação económica.
João a 5 de Setembro de 2012 às 20:09

Além de infantil, é errado e parece que não sabe do que está a falar em alguns aspectos, como no caso do planeamento familiar, por exemplo. O que estava em causa (antes de entrarem na área da propaganda) é se o estado federal deve pagar as políticas de planeamento familiar ou não. Ninguém questionou as políticas em si. Deve o estado federal pagar abortos ou subsidiar a compra de pílulas, por exemplo? Deve o estado federal obrigar organizações católicas a incluir nos seus seguros de saúde estas áreas? Era isso que estava em discussão. Se não sabia, informe-se antes de falar.

Além do mais, o simplismo dessas observações entra em confronto com os factos. Por exemplo, diz que está a ir tanto contra a realidade da maioria dos americanos, quando ainda há 2 anos o Partido Republicano, baseando a sua mensagem precisamente na área económica, teve a maior vitória de um partido nas intercalares dos últimos 50 anos.

Às vezes fico surpreendido pela fraca qualidade dos argumentos. Não devia, mas ainda fico. Parece que lêem a cartilha de um partido, neste caso democrata, e depois descarregam-na sem pensar no que estão a dizer. Já agora, sobre o que está a dizer do Partido Republicano, aconselho a ir ler o que diziam dele nos anos 80, quando Reagan foi eleito, ou, indo mais atrás, aos anos em que Nixon foi eleito. A história é a sempre a mesma. Daqui a vinte anos vão dizer que em 2012 é que era..

Nuno,

acho que interpretou mal o meu post, não pretendi ser ofensivo; critico o GOP fortemente, pois sinto que os objectivos políticos (ou algum tipo de condicionamento) do partido estão a obrigar os seus líderes a tomar posições que não são positivas para o seu país (isto é uma opinião).
Eu gosto muito deste blog porque aqui se discutem pontos de vista diferentes do meu; o Nuno coloca-se politicamente, de forma diferente e é precisamente isso que eu procuro, pois a política só faz sentido com contraditório e é da discussão (e não da unanimidade) que saem ideias mais forte.
Quanto aos meus argumentos fracos, vou tentar trazer para o debate os dados que me fizeram chegar a esta conclusão:
Em relação ao planeamento familiar:
A proposta do GOP continha a possibilidade de um empregador, por objecção de consciência, poder excluir do seguro de saúde que fornece aos seus funcionários métodos contraceptivos. Parte da discussão centrou-se numa universidade católica no Ohio que pretendia excluir estes serviços médicos do seguro da universidade.
O que o presidente pretendeu foi tornar universal a oferta de planeamento familiar, alargando-a a todos os seguros de saúde; esta medida faz parte do Obamacare, suponho.
O GOP, ao alegar conflito moral ou religioso como algo válido para justificar a não aplicação universal da medida, está implicitamente a limitar o acesso destes serviços a parte da população.
Que eu saiba, nenhuma mulher é obrigada usar métodos contraceptivos, mas algumas funcionárias ficariam excluídas de ter acesso gratuito a esses mesmos métodos.
Isto é algo que, para mim, entra em conflito com um dos maiores avanços civilizacionais a que assistimos no século XX. Foi com a pílula que a mulher conseguiu quebrar a posição secundária que lhe estava destinada na sociedade. Para não falar na óbvia questão de saúde pública.
Pelo que li no NYTimes em Março de 2012, 63% dos inquiridos apoiava a ideia do empregador suportar os custos do planeamento familiar (http://www.nytimes.com/2012/03/02/us/politics/americans-divided-on-birth-control-coverage-poll-finds.html?_r=1)
Vitória nas intercalares
Quanto a tirar conclusões de apoio maciço ao GOP pelo resultado estrondoso de 2010, aí não concordo de todo consigo e acho que há aí muito wishful thinking.
Obama cometeu um erro de morte ao não encerrar o debate e as votações da lei da saúde rapidamente. Teve alguns azares, como a morte de um senador, mas para mim, acima de tudo, cometeu erros de rookie. Quando a economia estava ainda perto do fundo do poço e a sociedade americana queria ouvir falar de soluções para resolver a crise, os democratas estavam totalmente concentrados na saúde e pagaram caro por isso.
Eu interpreto a derrota copiosa de 2010 como um gigantesco aviso à navegação, como um voto de protesto e não um de apoio ao partido da oposição.
Se existe um alargar da base de apoio ao GOP, seria expectável que Romney tivesse uma tarefa bem mais fácil nestas presidenciais. Eu não tenho a ambição de comparar o meu conhecimento sobre política americana com os bloggers daqui, mas acho que é comum dizer-se que um presidente não consegue ser reeleito com a economia em baixo; se Obama o fizer, vai provar que o GOP se está a afastar da mainstream america, pela radicalização das suas posições (opinião minha, apenas).
E quanto a ter parado na crítica ao GOP nos anos 90, eu não mencionei Reagan de propósito, pois apesar de ter, para mim, muitos defeitos, e ao contrário do que muitos pensam, Reagan aumentou a despesa durante a crise (ironicamente, nos primeiros 4 anos de mandato, o keynesiano entre Obama e Reagan seria o segundo). E digo isto com muita pena, pois é nesta cedência que Obama comprometeu a recuperação económica.

João
João a 6 de Setembro de 2012 às 11:00

João,

Eleições não são ganhas por justiça, ou porque os eleitores façam uma analise judiciosa dos fatos. A pergunta dos Republicanos é incisiva, a resposta Democrata também terá de ser.

Obama pode alegar que herdou a crise. Ele não estará mentindo. Pode dizer que foi a maior crise desde a grande Depressão, e que foi culpa dos Republicanos. É uma linha de argumentação razoável para os eleitores. Ninguém tem saudade de Bush. Mas, se não conseguir convencer os eleitores (em poucas linhas e preferencialmente em um slogan ou imagem) que ele consertou a máquina americana, e que embora ainda não esteja funcionando plenamente as coisas logo vão melhorar muito, Obama será um ex-presidente.

O eleitor é impaciente , principalmente nos momentos de crise. Muitos dos governantes europeus devem ter argumentado, com certa razão, que a crise foi importada e não era culpa deles. Mesmo assim, quase todos foram substituidos ...

Nehemias
Nehemias a 5 de Setembro de 2012 às 18:29

Olá Nuno!
Será que me poderia tirar a seguinte dúvida uma vez que nao consigo encontrar resposta na net.
Quem decide a data em que as convençoes são realizadas, nomeadamente quem realiza a convençao em primeiro lugar?
A meu ver realizar a convençao em 2º lugar representa uma vantagem, dai a pergunta.
tks
Guilherme a 5 de Setembro de 2012 às 21:34

Boa pergunta. Tenho ideia que são realizadas de forma alternada, mas não tenho a certeza.
Nuno Gouveia a 5 de Setembro de 2012 às 23:27

As convenções tem uma ordem estabelecida, o partido no poder é o último a realizar a sua convenção.
HCarvalho a 5 de Setembro de 2012 às 23:38

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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