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Ago 12
publicado por Nuno Gouveia, às 16:41link do post | comentar

Ron Kaufman, John Dickerson e Ron Fournier

 

O pequeno almoço desta manhã foi passado numa sessão que contou com o conselheiro de Mittt Romney, Ron Kaufman, entrevistado por John Dickerson da Slate e Ron Fournier do National Journal. O mais interessante deste tipo de sessões é que os assessores, apesar de tentarem "vender" o seu candidato aos convidados presentes, a maior parte jornalistas, é que por vezes levam com perguntas bastante complicadas e comprometedoras. O melhor deste painel foi uma acusação de Fournier, ao dizer claramente que a campanha de Romney tinha mentido num anúncio. Durante uns minutos o assessor de Romney tentou desviar o assunto, mas Dickerson rematou a discussão, afirmando que as campanhas mentem e cada vez mais, dando exemplos de mentiras de ambas as candidaturas. Foi o momento mais tenso da conversa, que andou por muitos outros assuntos. Kaufman mostrou-se confiante que Romney irá conseguir ultrapassar as divisões de Washington, fazendo o mesmo que Bill Clinton e Ronald Reagan, que conseguiram governar em ambientes hostis e fazendo acordos com os adversários. Afinal de contas, foi isso que Mitt Romney fez quando era governador do Massachusetts, com o poder legislativo 85 por cento democrata. De resto, os três membros deste painel testemunharam há três momentos decisivos numa campanha presidencial: a escolha do Vice Presidente, as convenções e os debates. E, segundo Kaufman, no primeiro momento Romney passou com distinção e está tudo a decorrer como planeado (na verdade, ninguém esperava que dissesse outra coisa).

 

Devo confessar que a segunda parte, com dois especialistas republicanos em sondagens, foi mais interessante porque ofereceu a possibilidade de mergulhar no que vai na cabeça dos americanos e no sentimento do eleitor médio. As grandes ameaças para Mitt Romney são duas: a dificuldade demográfica em captar votos entre as minorias, nomeadamente entre hispânicos, e grande desvantagem que apresenta nas mulheres solteiras. Em jeito de piada, Kellyanne Conway disse que os republicanos precisam urgentemente que estas mulheres se casem, e de preferência, com homens. Whit Ayers explicou que se os republicanos não conseguirem mudar os números entre os hispânicos, dificilmente conseguirão manter-se competitivos a nível nacional, pois todos os anos cerca de 50 mil jovens tornam-se eleitores e este ritmo vai manter-se nos próximos 20 anos. No entanto, mostrou-se confiante que os republicanos vão conseguir mudar a história e regressar aos números que George W. Bush teve em 2004 (cerca de 44% do eleitorado). Se não nesta eleição, nas seguintes. Neste momento há quatro hispânicos eleitos a nível estadual e três são republicanos (Marco Rubio, Susana Martinez, Brian Sandoval). Já Obama enfrenta preocupações com o voto dos independentes, que em 2008 o elegeram e que agora estão preparados para o abandonar. Estas pessoas, que genericamente se afastaram dos partidos, são moderados que desconfiam do poder do governo e estão descontentes com a governação de Obama. Os chamados "trabalhadores de colarinho branco", que Obama conseguiu conquistar em 2008, estão a desertar para os republicanos porque consideram que Obama os desiludiu. O principal motivo para Obama estar em risco de perder as eleições é que existe um sentimento que o país está pior com a sua governação. Para estes especialistas, se ele conseguir vencer irá derrubar todas barreiras históricas, o que se poderá explicar  vantagem demográfica nas minorias e a campanha negativa que Obama tem vindo a desenvolver contra Romney, que poderá convencer o eleitorado que mais vale manter Presidente. E, apesar de nos últimos tempos a falta de empatia de Romney (ao contrário de Obama) com o eleitorado ter sido assunto mediático, Whit Ayers considera que isso não deverá ser um factor decisivo, pois "mesmo Pat Nixon não gostava de Richard Nixon e ele venceu duas eleições". 

 

Por fim, uma questão que foi levantada e que não existe percepção disso em Portugal. Mitt Romney é mais parecido com o americano médio, ou seja, um moderado conservador, do que Obama, considerado genericamente como "muito liberal", bem afastado do centro político americano. Cerca de 40 por cento dos americanos consideram-se conservadores enquanto apenas 21 por cento liberal. 

 

Na entrada para as convenções, a situação é esta: Obama venceu há quatro anos com uma vantagem de 7,5 por cento, que neste momento desapareceu. Nesta situação de empate técnico, há muito poucos indecisos e estes apenas vão começar a olhar com atenção para a campanha a partir deste momento. Como disse o Alexandre Burmester neste post, tudo irá começar a ficar decidido a partir desta semana. 

 


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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