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Jul 12
publicado por Alexandre Burmester, às 16:17link do post | comentar

 

 

 

 

Mitt Romney encetou um périplo internacional que o levará à Grã-Bretanha, Polónia e Israel. Este é o tipo de digressão que os candidatos presidenciais com menores credenciais em política externa vêm sentindo necessidade de efectuar. Já em 2008 Barack Obama fez o mesmo, visitando a inevitável Grã-Bretanha e efectuando até uma espécie de comício em Berlim, perante uma adoradora multidão. Alguns - uns com admiração, outros com cinismo - disseram estar-se perante "o candidato europeu" às eleições presidenciais americanas.

 

Mas além de procurar ganhar credenciais em política externa, Romney procurará decerto nesta digressão estabelecer um contraste com a política externa de Obama. Esta última, mercê essencialmente da retirada americana do Iraque (aliás já programada por George W. Bush, e porventura apenas possível devido ao famoso "surge" militar americano naquele país no tempo dele) e ao audacioso e bem sucedido ataque à residência de Osama bin Laden, e consequente morte do líder da Al Qaeda, tem até sido considerada, ao contrário do que muitas vezes tem sucedido com presidentes democratas, uma das vertentes bem sucedidas do mandato de Obama.

 

Mas mesmo assim, há aspectos da política externa de Obama que têm sido alvo de crítica dos republicanos. Logo à partida, aquilo que eles consideram como negligência, e até indiferença, de Obama para com o mais tradicional aliado dos E.U.A., a Grã-Bretanha, cujas tropas, convém não esquecer, formam o segundo maior contingente no Afeganistão, tal como já o haviam feito no Iraque. De facto, a "Relação Especial" entre as duas potências anglo-saxónicas, que vem essencialmente do tempo da Segunda Guerra Mundial e da dupla Churchill-Roosevelt (na foto) já terá conhecido melhores dias, e, por exemplo, não caiu bem em certos meios britânicos, nem entre os republicanos, a decisão de Obama de devolver à Embaixada Britânica em Washington o busto de Churchill que esta emprestara no tempo de George W. Bush. Num gesto simbólico, Romney já anunciou que pedirá de novo emprestado o referido busto.

 

Apesar das suas efusões anglófilas, Romney não começou bem esta sua incursão na política externa e nas relações com o velho aliado, como o Nuno Gouveia já aqui  referiu. Mas tratar-se-á de pormenores pouco importantes, e o Reino Unido não seria atá o principal objectivo desta viagem - Romney, aliás, como CEO dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2002 em Salt Lake City, fora convidado a deslocar-se a Londres, a propósito da abertura da Olimpíada de 2012. A aliança anglo-americana é tão importante que nunca seria a devolução de um busto ou uns comentários infelizes acerca do grau de preparação dos britânicos para o arranque dos Jogos Olímpicos que a poriam em causa.

 

Os principais objectivos desta viagem de Romney serão então as outras duas etapas da mesma, Polónia e Israel. No caso polaco, ainda não cessaram as reverberações da decisão unilateral de Obama de cancelar a instalação do escudo anti-míssil previsto para território polaco, cujo principal objectivo era, aliás, o de defender o Ocidente de um Irão com possível capacidade nuclear e munido de mísseis inter-continentais. Dada a oposição russa à instalação desse escudo, Obama acabou por decidir pelo seu cancelamento, mas o facto de não ter consultado os aliados polacos antes de tomar tal decisão caiu mal em Varsóvia e entre os "falcões" da política externa americana. Na Polónia Romney, que decerto se absterá de criticar abertamente o presidente do seu país enquanto numa digressão pelo estrangeiro - estabelecendo novo contraste com Obama, que em 2008 foi acusado de não se ter coibido de criticar Bush na sua viagem pela Europa - tentará passar a mensagem de que os E.U.A., sob uma sua eventual administração, tratarão sempre bem os aliados, preferindo abraçá-los a eles que aos inimigos e rivais. Este é um tema antigo da política externa republicana, e só mesmo um homem com as credenciais anti-comunistas e de política externa de Richard Nixon  podia dar-se ao luxo de abraçar inimigos e rivais, como nas suas famosas viagens a Pequim e Moscovo em 1972, e ao Cairo em 1974. Mas fazia-o a partir de uma posição de força.

 

A mais simbólica etapa do périplo de Romney será contudo, certamente, Israel. Tanto no estado judaico como em determinados círculos americanos existe a percepção - e a crítica - de que Obama é o presidente dos E.U.A. menos amistoso para com Israel desde a criação daquele país. Neste seu primeiro mandato não visitou o estado judaico, e ainda esta semana tivemos  o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, a recusar-se a responder a uma pergunta - algo provocatória, é certo - de uma jornalista sobre qual cidade a Administração Obama considerava ser a capital de Israel. Portanto, em Israel, Romney decerto fará juras de amor eterno para com a pátria dos judeus. Não será tanto entre a comunidade judaica americana - que tradicionalmente vota democrata numa média de 70% - que o candidato republicano almejará ganhar grandes simpatias com esta sua visita, mas convém não esquecer que o eleitorado americano em geral é significativamente pró-israelita.

 

Seja como for, a política externa não é o tema principal desta campanha. Mas é sempre conveniente e  de bom tom um candidato mostrar-se sintonizado com a arena internacional.

 

 


Gostava de ver o comentário à visita de Romney... Depois das gaffes e depois daquela passagem que ele escreveu sobre Inglaterra ser uma ilha andar a circular em tudo o que é site da net
DMMM a 29 de Julho de 2012 às 03:10

http://www.guardian.co.uk/world/2012/jul/26/mitt-romney-gaffes-uk-visit deixo este link só para confirmar algumas das minhas afirmações. Não vá falar-se em plágio :D (se bem que é o guardian portanto...)
DMMM a 29 de Julho de 2012 às 03:11

Esse é o género de gaffe de político a que já ninguém liga muito. Ainda recentemente Obama deu a entender que pensava que os campos de extermínio do Holocausto na Polónia tinham sido criação dos próprios polacos, além de em tempos ter dito que já visitara quase todos os "54 estados ds União"!

Ele falou em «57 Estados», Alexandre.

Não sei se Romney poupará Obama de críticas. Quando Obama deu aquela gafe com Dimitri Medvedev, Romney o críticou ferozmente. Inclusive John Boehner o criticou, dizendo que não se contesta o presidente quando ele está fora do país.
Joao Felipe a 29 de Julho de 2012 às 12:20

Sarah Pailn não diria que não se dá importancia a gafes como essa. E convenhamos que ser criticado pelo primeiro-ministro britânico e o prefeito de Londres, ambos conservadores, (além de varias outras gafes) é uma humilhação.
Joao Felipe a 29 de Julho de 2012 às 12:47

É claro que Jay Carney agiu bem em não responder a pergunta. Jerusalém é um dos temas mais polêmicos e difíceis do conflito Israel-Palestina.
Será que Bush já ouviu uma pergunta dessas?
Joao Felipe a 29 de Julho de 2012 às 12:50

Em minha opinião esse tipo de viagem é extremamente arriscado para um candidato. As chances de erro são altíssimas, e mesmo quando bem sucedido, a maioria dos eleitores americanos, e certamente os de Ohio, Pennsylvania, ou Virginia, que efetivamente decidirão a eleição, pouco se interessam.

Obama, como lembrado, fez uma viagem semelhante. Mas um de seus pontos fortes é que é um "popstar", então ele consiguiu algumas manchetes com as multidões em seu comício em Berlim. Mesmo assim, não acredito que os eleitores americanos tenham ficado particularmente impressionados.

Acho que Romney teria feito melhor se tivesse visitado Nevada, Colorado e Iowa, por exemplo. E como não foi extremente bem sucedido, as únicas manchetes criadas foram negativas. Nessa etapa, se algo não o ajuda claramente, certamente o atrapalha.

Roger Simon esvreveu um artigo muito interessante sobre isso:
http://www.politico.com/news/stories/0712/79169.html
Nehemias a 31 de Julho de 2012 às 19:30

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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