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Jun 12
publicado por Alexandre Burmester, às 16:43link do post | comentar

 

 

 

Saíu recentemente o quarto volume da biografia de Lyndon Johnson da autoria de Robert Caro, este intitulado "The Passage of Power". Já vamos em quatro volumes e cerca de três mil páginas e ainda só estamos em 2 de Julho de 1964, dia em que Johnson promulgou a Lei dos Direitos Civis, o ponto máximo da sua carreira.

 

A carreira política de Johnson não se distinguiu, diga-se, pela honorabilidade, dado que, segundo Caro, desde o liceu que Johnson se habituara a ganhar eleições fraudulentamente. No segundo volume desta biografia, "Means of Ascent", Caro denuncia, inclusivamente, a vitória fraudulenta de Johnson na sua primeira eleição para o Senado em 1948, além de sugerir - o que não constitui propriamente uma grande surpresa - que LBJ também teve uma "mãozinha" no resultado do Texas  nas presidenciais de 1960. Isto é uma alegação historicamente significativa, pois, juntamente com as "manobras", digamos assim, da máquina democrática de Chicago, terá permitido a vitória de John Kennedy sobre Richard Nixon.

 

Mas a eleição de 1960 deixa hoje poucas dúvidas acerca da sua limpeza (ou falta dela).  O que importa aqui salientar é o magistral retrato de um homem complexo e algo neurótico, mas ao qual a História não tem feito a devida justiça. O nome de Johnson ficou essencialmente associado ao fiasco da Guerra do Vietname, mas a Lei dos Direitos Civis é um marco de monta na história americana e na civilização ocidental. Convém referir que John Kennedy não conseguira fazer aprovar essa lei, a qual concedia direitos iguais aos negros, à época ainda vítimas de grande discriminação nos estados do Sul. E isso, mesmo contando com maiorias em ambas as câmaras do Congresso, só que o Sul, embora quase completamente democrático desde o fim da Guerra Civil, se opunha a essa legislação. O Partido Democrático era, até essa altura, uma desconfortável coligação de liberais do Nordeste e de conservadores do Sul, zona do país onde o Partido Republicano - o partido de Abraham Lincoln - não existia na prática.

 

Usando a sua experiência adquirida como líder da maioria no Senado entre 1954 e 1960, Johnson conseguiu fazer aprovar a lei, embora, num à-parte, tenha dito, profeticamente: "Aquele sacana do Richard Nixon vai-nos limpar o Sul e torná-lo um bastião republicano". De facto, foi a partir daqui que os republicanos, dos quais a maior figura na altura era, de facto, o então antigo Vice-Presidente Richard Nixon, ressurgiram no Sul, o que não deixa de ser irónico, pois tanto Nixon como quase todas as principais figuras republicanas eram a favor da legislação.

 

Para se ter uma ideia do modo como as opiniões se dividiam acerca da matéria,  refiro que a lei passou no Senado com 46 votos democráticos  a favor e 21 contra, e 27 votos republicanos a favor e 6 contra. Não há dúvida que o principal obstáculo à sua passagem residia nos democratas do Sul.

 

Há muito que Lyndon Johnson almejava a presidência, e candidatou-se nas primárias democráticas de 1960. Nunca acreditou muito nas hipóteses de sucesso da candidatura de John Kennedy, que considerava um "um playboy rico e preguiçoso". Esse seu excesso de confiança acabaria por ser-lhe fatal, acabando, contudo, por aceitar o lugar de candidato a Vice-Presidente. Mas entre Johnson e os Kennedy nunca houve grande amor, especialmente entre ele e Robert Kennedy, que acabaria por ferir fatalmente a sua recandidatura em 1968.

 

Aguardo com expectativa a sequência desta monumental biografia.

 

 

 

 

Robert Caro: "The Years of Lyndon Johnson: Volume 4, The Passage of Power, Bodley Head (edição inglesa). 


considero Johnson um dos grandes presidentes da história americana. O que é o fracasso do Vietnã, perto da lei dos direitos civis ou da grande sociedade?
Além de tudo ele foi um personagem fascinante. Capaz tanto de fraudar eleições, quanto se prejudicar politicamente para apoiar uma causa nobre.
Joao Felipe a 20 de Junho de 2012 às 21:40

Robert Kennedy ganhou a fama de ter acabado com a candidatura de Johnson em 1968, mas o principal responsável a meu ver foi Eugene McCarthy, que o desafiou nas primárias de New Hampshire e mostrou a fraqueza do presidente.
Joao Felipe a 21 de Junho de 2012 às 00:22

De facto foi o Sen. Eugene McCarthy que abalou seriamente a candidatura de Johnso, ao conseguir 43% dos votos na primária de de New Hampshire em 1958. Mas Robert Kennedy, até aí "encolhido", aproveitou o resultado para declarar a sua candidatura. O comentador Murray Kempton disse, a propósito. que "Bobby Kennedy came riding down the hill, shooting the wounded".

Pouco depois Johnson anunciava que não se recandidatava.

Já aqui escrevi um artigo sobre essas famosas primárias de New Hampshire em 1968:

http://eraumaveznaamerica.blogs.sapo.pt/210154.html

Obviamente que, no incío do meu anterior comentário, queria dizer 1968 e não 1958.

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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