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Jun 12
publicado por Alexandre Burmester, às 17:21link do post | comentar

O Nuno referiu aqui  que Barack Obama subira a parada com a sua recente decisão executiva acerca do repatriamento de imigrantes ilegais.

 

Claro que uma decisão dessas a quatro meses e meio de eleições tem de ser lida como essencialmente motivada por cálculos políticos. Mas eu pergunto se o número de votantes latinos que Obama espera ganhar com esta decisão não será suplantado pelo número de votantes da classe trabalhadora branca - o sector do eleitorado que mais se opõe a amnistias a imigrantes ilegais - que perderá em consequência da mesma decisão.

 

E a classe trabalhadora branca acaba por ser um sector do eleitorado verdadeiramente crucial em "swing-states" como Pensilvânia, Ohio, Wisconsin e Iowa, muito mais crucial e numeroso que o voto hispânico, essencialmente concentrado num pequeno número de estados. De facto, só em três "swing-states", Colorado, Nevada e Florida, o voto hispânico representa mais de 10% do eleitorado, e desses três há que, provavelmente, descontar a Florida, cuja comunidade hispânica é essencialmente a cubana - tradicionalmente mais próxima dos republicanos.

 

Portanto, esta decisão de Obama poderá vir a revelar-se mais prejudicial que favorável.

 

É evidente que a campanha de Mitt Romney  não criticará a decisão frontalmente, mas sim de modo oblíquo, como já começou a fazê-lo. E é também evidente que a palavra "amnistia" (verdadeiro anátema para boa parte do eleitorado branco) voltará a surgir como arma ofensiva dos republicanos em campanha.


A Classe trabalhadora branca de votar na sua maioria em Romney. Dos que pretendem votar em Obama, a maioria é formada por liberais que não deixarão de faze-lo por este fato. Os trabalhadores brancos que pensam votar em Obama, mas podem mudar de idéia por este fato, acredito, são em menor número que os latinos que podem se animar a sair de casa por Obama, devido a sua atitude.
Joao Felipe a 19 de Junho de 2012 às 23:08

É curioso notar que o mesmo argumento foi usado quando Obama apoiou o casamento gay. disseram: \"Ah, os que se opoem a isso podem deixar de votar nele.\" Mas os que assim pensam, na sua maioria, jâ estão inclinados para Romney. Obama tem pouco a ganhar com esse eleitorado mais conservador. Sua decisão visa mobilizar a base democrata, que é até um pouco superior numéricamente. Mas que comparece um pouco menos que seus adversários.
Joao Felipe a 20 de Junho de 2012 às 12:16

Isso da base ser superior não é verdade. Basta ver as sondagens que a Gallup tem publicado, que indicam que cerca 40% dos americanos se consideram conservadores, cerca de 35% moderados e apenas 21% liberais. Não sei onde foi buscar esses números.

http://www.gallup.com/poll/152021/conservatives-remain-largest-ideological-group.aspx

Antes da eclosão da crise financeira em meados de Setembro de 2008 John McCain liderava as intenções de voto dos brancos com o ensino secundário por mais de 20%.

Outro indicador actual da posição global dos partidos - e já não das ideologias - é a constante vantagem dos republicanos na sondagem genérica para a Câmara dos Representantes.

Faço notar que o famigerado voto "latino" não é tão homogéneo como se pensa, e é, além disso, socialmente conservador. Portanto, questões como a que refere, do casamento gay, podem ter uma influência negativa nas perspectivas eleitorais de Obama nesse sector do eleitorado.

Me referia à democratas e republicanos. Nas pesquisas que vejo, os que se dizem democratas são sempre um pouco mais numerosos.
Acho difícil Obama conseguir diminuir muito a vantagem de romney entre os brancos. Talvez diminua um pouco se a economia melhorar. Se ele manter a média que os democratas vem conseguindo, já estará de bom tamanho para ele.
Abs.
Joao Felipe a 20 de Junho de 2012 às 14:17

Entendo que o João Filipe se refere aqui as pesquisas de identificação partidária conduzidas pelo Gallup, como esta de junho de 2010, em que a maioria dos eleitores, (e dos estados), se identificava como democrata:

"More States "Competitive" in Terms of Party Identification"
http://www.gallup.com/poll/141548/States-Competitive-Terms-Party-Identification.aspx#2

Os democratas, contudo, não podem contar com esses resultados. Se observamos os números por estado, veremos que na Louisiana, Kentucky e Mississipi o número de eleitores que se identifcam como democratas supera o de republicanos. Como também pode ser visto na tabela, mesmo no Arkansas, Texas, Georgia, Alabama e Oklahoma o número de eleitores republicanos é apenas levemente superior ao de democratas, "dentro das margens de erro". Ou seja, se os eleitores seguissem fielmente suas preferências partidárias declaradas, os estados do sul seriam swing states.

Obviamente isso não acontece. O sul vota em bloco nos republicanos, tanto local quanto nacionalmente. Minha percepção é que esses números refletem ainda o tempo dos democratas conservadores, "southern democrats", quando o sul era dominado pelo partido de Obama. Nos anos 70, os estados do sul votaram maciçamente em Carter, e até 1996, Clinton ainda pode contar com a Lousiana e Arkansas. Esse tempo porém se foi, "o vento levou". O eleitor pode ainda se identificar, ou mesmo estar registrado, como democrata, mas votará nos republicanos porque se identiifca com suas idéias.

Por isso, o que conta mesmo é a pesquisa de afinidade ideológica, que o Nuno citou.

Quanto a Obama, me parece que sua estratégia é aglutinar minorias, que mesmo com objetivos e interesses heterôgeneos, desconfiam do partido republicano. Negros, gays, liberais, mulheres e hispânicos podem pensar diferente em quase tudo, mas podem ser reunidos pelo medo das politicas republicanas. Nada esta definido, e o resultado da eleição parece imprevisível, mas Romney terá de encontrar uma maneira de reduzir a vantagem de Obama de 10-15 pontos entre as mulheres, e atrair pelo menos alguns segmentos dos eleitores hispânicos (ex: cubanos na Flórida). Não pode contar apenas com os homens brancos conservadores.

Nehemias
Nehemias a 27 de Junho de 2012 às 18:18

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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